A Origem do Trono - A Seleção
1 Prólogo
Notas iniciais
– Desculpe, Majestade, mas... Você não tem chances de engravidar. Você é totalmente estéril – o médico disse.
A rainha Lorena olhou para baixo, para suas mãos entrelaçadas por cima de seu vestido amarelo, e deixou que as lágrimas caíssem. As lágrimas que há dias vinha segurando, na esperança de que, quando chegasse ao consultório do melhor geneticista de Illéa, pudesse trocá-las por um sorriso. No entanto, seus medos haviam acabado de ser confirmados. Ela era estéril. Lorena não podia ter filhos. Nem mesmo um, só um. Nada.
Seu marido, o rei Kaius, segurou em seus ombros e afagou seus cabelos, cacheados e negros. Na época da Seleção, Kaius se apaixonara por sua beleza. Lorena era simplesmente tão linda que nenhuma outra selecionada se sobressaía. Seus olhos castanhos e sorriso de menina, o rosto levemente salpicado de sardas. Seu cabelo era da altura do ombro, cacheado e bem negro. A pele, extremamente branca, sobrancelhas grossas e escuras e lábios rosados. Lorena era tão linda, tão sorridente... Sua beleza maior estava em sua alegria. Aonde ela ia, levava suas cores junto. Cores vivas, em amarelo e verde, pincelando cada parte daquele castelo de risadas e bom humor.
No entanto, ela nunca mais havia sido a mesma. Desde que descobriu que era estéril, Lorena se fechou para o mundo. Já não sorria mais como antes. Vivia com a cara em livros e com às mãos em papéis, assinando leis, contratos, tratados. Trabalhava até mais que Kaius. Sua dedicação seria louvável se não fosse tão triste. Tudo o que ela queria era se distrair de sua própria situação. Sou uma árvore seca, pensava.
***
– Querida, não fique triste assim! – Kaius implorava. Lorena havia acordado no meio da noite aos gritos. Tivera outro pesadelo, e agora chorava sem parar. Ele já não sabia mais o que fazer. – Olhe, podemos ter filhos, sim.
A rainha olhou para ele com olhos incrédulos, mas brilhantes. Uma esperança pareceu ter surgido dentro dela em meio a tanta angústia.
– Como? – ela perguntou.
Kaius envolveu-a em seus braços e ficou um tempo sem responder, pensando se falava ou não sua ideia. Mas aquela era a única alternativa. O que mais poderiam fazer? De qualquer forma, precisavam de herdeiros, e Kaius não deixaria, jamais, que o trono fosse passado para qualquer outro parente. O rei conhecia o que sua família queria do trono: dinheiro e poder. Apenas isso. Não seria capaz de entregar seu povo a mãos corruptas e tão egoístas.
– Podemos adotar uma criança – ele sugeriu.
– Isso é possível? Digo... Permitido? — Lorena sussurrou.
Kaius abriu um sorriso de canto.
– Eu sou o rei. Deve haver alguma vantagem secreta nisso.
Ela afundou o rosto em seu peito e fechou os olhos. Orava há tantos dias em busca de uma solução, e finalmente achara uma. Graças à Kaius, poderia ter um filho. Isso jamais poderia acontecer se se tratasse de outro rei. Um rei que considerasse a lei acima do sangue.
Kaius enxugou as lágrimas do rosto de Lorena e beijou seus lábios delicadamente.
– Iremos amanhã, mesmo, meu amor. Sei que seu coração não pode esperar mais.
Ela lhe devolveu o beijo, fechando os olhos e sentindo toda a angústia que se alojara em seu peito indo embora a cada vez que seu marido a tocava.
Marido... Era estranho pensar nisso. Estavam casados há um ano, e nesse um ano, tudo de ruim que poderia ter acontecido aconteceu. Rebeldes atacaram o castelo, descobriu-se que a rainha não podia ter filhos, o país entrou numa crise econômica grave e a República Comunista da China anulou o tratado de paz que tinha com Illéa. Mesmo assim, Kaius e Lorena haviam conseguido passar por todos esses momentos juntos. Quebrados, mas quebrados juntos. Desesperados, mas desesperados juntos. Aturdidos, mas aturdidos juntos. E esse era o verdadeiro valor de um casamento: passar por tudo juntos. O amor não é algo perfeito, não é algo que não machuca e que não produz efeitos colaterais. Mas é a atitude de quem ama que faz do amor algo perfeito, que não machuca e não produz efeitos colaterais.
Ali, ao lado da pessoa com quem escolhera passar o resto da vida, Lorena agradeceu por ser tão sortuda. Ele era tudo de que ela precisava, pois quando não tinha mais nada, ele ainda estava ali. A dor de não poder ter filhos tirara a graça dos vestidos, do luxo e da coroa. Mas não tirara a graça do amor. Ainda era maravilhoso amar Kaius.
Amar.
– Eu te amo – ela sussurrou em seu ouvido.
Kaius segurou sua cintura e se curvou para beijá-la. Desceu até seu pescoço, depois à clavícula, e então beijou sua barriga. Sua pele arrepiou-se. Ela vestia apenas uma lingerie fina, que ele tirou com facilidade.
Ela deslizou as mãos sobre suas costas e puxou-o para mais perto. A cama rangeu.
– Eu te amo – ele respondeu.
***
O rei e a rainha saíram cedo para iniciar a missão de encontra uma criança. Kaius sugeriu o Abrigo Sra.Fidds, no centro de Angeles, e Lorena concordou. Às sete em ponto, já desciam as escadas.
– Nem acredito que poderemos ter uma criança – ela sorria, encantada. – Uma criança que não tem nada. Uma criança que terá a coroa. E mais do que isso, uma família!
Kaius olhava para ela com fascínio.
– Sempre que você fala desse jeito, me certifico de que casei com a mulher certa.
Lorena riu e lhe deu um beijo.
Os guardas abriram a porta do carro e os dois entraram.
Kaius arrumou a gola do sobretudo de Lorena. O tempo estava extremamente frio, pois era o auge do inverno. As ruas estavam cobertas por neve, que enchiam as calçadas e embaçavam o vidro das janelas. Mesmo assim, a rainha ainda conseguia ver, em meio à névoa gélida, crianças correndo e jogando bolas de neve umas nas outras por trás dos grandes portões do abrigo. Ela sorriu ao ver aquela cena. Seu coração parecia dançar dentro de seu peito a cada vez que uma criança gargalhava, tão alto que ela podia ouvir de dentro do carro.
A rainha ainda era bem jovem. Tinha apenas vinte e quatro anos, e Kaius tinha vinte e seis. Em janeiro do primeiro ano de casados, o pai de Kaius morreu. Sua mãe decidiu, então, que estava cansada demais para governar o país sozinha. O príncipe e a princesa foram coroados um mês depois. Portanto, ainda eram novos demais, mas não menos competentes. Os dois conseguiram segurar as pontas naquele ano difícil. E agora, depois de tanto sofrimento, finalmente algo bom aconteceria.
Ao entrar no abrigo, foram cumprimentados pela sra.Fidds, que os levou até o Berçário, onde bebês recém-nascidos dormiam quietinhos e silenciosos. De um lado, à parede rosa, havia dez berços onde dez garotinhas dormiam. E do outro lado, à parede azul, dez berços onde dez meninos dormiam.
Lorena apertou a mão de Kaius.
– Eles são tão lindos – ela sussurrou. A sra.Fidds riu.
– Espero que também ache isso quando vi-los acordados! – brincou.
Kaius fingiu uma careta.
– Bebês são tão barulhentos.
A rainha observava o teto, decorado com um monte de anjinhos, e parou em frente a um berço sem nem perceber. De repente, sentiu algo quente envolver suas mãos enluvadas.
Era a mãozinha de um bebê. Ele agarrara a mão de Lorena na tentativa de esquentar a sua. Lorena arregalou os olhos quando ele apertou seu dedão e se aconchegou no pequeno travesseiro, satisfeito.
– Ah meu Deus – ela sentiu os olhos esquentarem e Kaius a abraçou. A sra.Fidds não sabia bem o que dizer. – Ele estava com frio, é melhor eu tirar meu cachecol e dar para ele.
– Não, Vossa Majestade, não precisa se incomodar! – a Sra.Fidds se desesperou.
Lorena tirou seu cachecol e envolveu-o ao redor daquele bebê. Era um garotinho tão pequeno!
– Tudo bem, Fidds – Kaius tranquilizou-a e ela respirou fundo, tensa.
– Hum... Há algo que queiram que eu faça? Posso mostrar o resto do abrigo para vocês, se quiserem – ela se ofereceu.
A rainha olhou para o rei e deixou que as lágrimas caíssem de seus olhos.
– Não precisamos olhar mais nada. Eu quero essas mãozinhas aqui – Lorena anunciou.
Kaius respirou fundo e deu a mão para a Sra.Fidds.
– Decidido. Adotaremos esta criança – ele disse com voz firme. – O que precisamos fazer?
A Sra.Fidds curvou os ombros.
– Como são o rei e rainha, não temos burocracia para vocês... Além do mais, como é algo secreto, acho que não levarei muito tempo para que a Justiça libere o caso. Preciso de dez dias. Tudo bem?
Kaius assentiu com a cabeça, sério, mas feliz.
– É claro. Voltaremos em dez dias.
Ao sair do abrigo, Lorena não sabia se seu coração estava ali ou se havia pulado pela boca e desaparecido entre a neve.
Dez dias, ela não parava de repetir em sua mente, dez dias para tê-lo em minhas mãos.
***
Os dez dias passaram contados pelo casal. Lorena mandara suas criadas costurarem um monte de roupas para o bebê. Encomendara um enxoval totalmente original, com tecido importado da França e Índia, berço, lustres, brinquedos: tudo estava pronto. Kaius não conseguiu acompanhar todo esse movimento, mas Lorena...
– Nunca me senti tão feliz na VIDA! – ela exclamou ao sair do banho, abrindo os braços e improvisando uma dança. Kaius, que estava na cama, gargalhou alto.
Lorena estava tão linda. A alegria voltara para seu corpo, ela até mesmo ganhara uns quilinhos a mais e tinha voltado a se encher de joias.
Aquele dia seria o último dia de sua espera. A véspera da chegada do bebê. Kaius deixara o escritório mais cedo para poder passar a noite ao lado de sua mulher, aproveitando as últimas horas de “liberdade” que teriam.
Lorena saíra do banho envolta numa toalha preta, mas a tirara no meio do caminho entre o quarto e sua cama, onde Kaius estava.
– Uau – ele sussurrou, vendo-a andar em sua direção. – Você é tão linda.
Kaius foi até a beirada e puxou-a antes que subisse. Beijou-a da cabeça aos pés, provocando suspiros e calafrios.
– Você é toda minha – ele disse, passando a mão por suas pernas. Ela mordiscou sua orelha e o fez deitar na cama, sentando em cima dele.
Quando Kaius olhou no fundo de seus olhos, sentiu seu coração acelerar como nunca antes. Ele a amava, estava perdidamente apaixonado. E esse sentimento já durara um ano e meio, desde a primeira vez em que a viu entrar pelas portas do palácio. Tê-la ali, à sua frente, sem nada para esconder sua beleza, o fazia queimar de desejo. Ela era sua, e seria para sempre. “Sim”, ele dissera, “na alegria e na doença, até que a morte nos separe”.
Agora que estavam devidamente unidos, o que poderia impedi-los de curtir toda a diversão?
Lorena beijou seus lábios, dando uma leve mordida. Depois, foi acelerando, mas Kaius não aguentou se conter e empurrou-a para baixo, trocando de lugar.
Ela arranhou suas costas enquanto o beijava, sentindo a dor se misturar ao prazer. Kaius a tocava com desespero, desejo. Ele era voraz. Como se cada vez fosse a última vez.
A lua surgiu por entre as cortinas, grande e amarela, e iluminou os dois por entre uma brecha minúscula. Sob a luz prateada, Kaius parecia mais belo ainda. Seu corpo másculo, seus cabelos loiros e olhos cor de mel e a pele bronzeada. Sua voz, seu cheiro...
– Você é tão lindo – Lorena suspirou.
***
Às sete da manhã, Kaius entrou no quarto real a passos silenciosos. Lorena ainda dormia, e seu corpo estava descoberto. O rei ordenara que os guardas não deixasse ninguém subir no andar de seu quarto enquanto ela não levantasse.
Ele abriu a porta lentamente, e então entrou. Aproximou-se da cama e colocou-o ali.
Suas mãozinhas pequenas e suadas puxaram o cabelo de Lorena, que abriu os olhos, assustada.
– Ah meu Deus! – ela sussurrou. – Como você fez isso?
Kaius riu.
– Assim que o sol nasceu, fui buscá-lo. Desculpe, quis muito fazer essa surpresa pra você. Na verdade, mal consegui dormir. Só fiquei pensando em formas de compensar tudo o que você sofreu. Achei que acordar com as mãozinhas dele aqui pudesse consertar seu coração – ele passou a mão sob seu rosto, olhando-a com ternura. – Lorena, você merece toda a felicidade do mundo.
– Ah, Kaius – ela sorriu. – Não sei nem como te agradecer.
Quando tentou beijá-lo, foi interrompida por alguém que levantou os pés e colocou-os em seu rosto. Ela olhou para baixo e riu.
– É melhor eu me acostumar – disse, entre risos.
Lorena pegou-o no colo e encostou-se à cabeceira da cama. Kaius, ela e o bebê agora estavam praticamente colados um no outro. E aquele calor era tão aconchegante!
– Já decidiu como vamos chamá-lo? – ela perguntou.
Kaius abriu um largo sorriso.
– Clarkson. Ele se chamará Clarkson.
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