A Origem do Trono - A Seleção
4 O Início de Tudo - A Seleção de Clarkson
Notas iniciais
Clarkson se preparava para o último dia da Seleção, em que anunciariam a vencedora no programa de Illéa. Ele estava nervoso, suas mãos suavam frio e os pés, inquietos, entoavam um ritmo frenético dentro dos sapatos de couro. Clarkson tinha vinte e quatro anos, já era um homem. Por causa disso, a Seleção deveria ter sido há tempos, por volta de seus dezoito ou dezenove anos. No entanto, por causa das crises que volta e meia assolavam o país, Kaius, o rei, decretou que aquela temporada da Seleção seria adiada para quando Illéa estivesse num período estável. Naquela época, a coroa ainda não tinha problemas com os rebeldes, mas sim com outras nações. A China, depois de anos seguindo o tratado de diplomacia com Illéa, resolveu que queria o país de volta. Ameaças de guerras e invasões foram feitas, e por pouco a antiga América não foi devastada. A força militar passou a ser fortalecida por Kaius e seu filho, que tinha interesse descomunal por armas e lutas. O príncipe soube bem conduzir a parte militar do país, e depois de um tempo, tudo se acalmou. Illéa parecia ter voltado aos eixos, assim como sua economia e política. O que significava uma coisa: hora de arranjar uma princesa para o príncipe.
– Clarkson! — Lorena gritou seu nome. Ele balançou a cabeça, assustado, e virou-se para a mãe.
– Sim?
Lorena suspirou e passou as mãos pelo terno do filho, arrumando-lhe a gravata. Ela ainda era muito bonita, mas agora já estava velha. Alguns fios brancos se escondiam por baixo dos cabelos ondulados abaixo da nuca, e rugas surgiam abaixo dos olhos e ao redor dos lábios. Mesmo assim, Lorena parecia a mesma. O jeito alegre e extrovertido, determinado e firme ainda estava lá. Seus olhos podiam até ter bolsas sutis, mas o brilho...
– Estou te chamando há uns cinco minutos e você não diz nada. Está tão nervoso assim, querido? — ela perguntou, franzindo o cenho.
Clarkson curvou os ombros e olhou-se no espelho. Ele arrumou a postura, mascarando a expressão.
– Vou escolher uma esposa, hoje. A futura rainha. Eu deveria estar calmo, mamãe?
Lorena riu de seu sarcasmo.
– Sabe, filho, você não tem nada dos pais. Mas esse seu sarcasmo é idêntico ao de seu irmão... — ela virou o rosto ao falar de Tevon. Clarkson sabia de como lhe doía lembrar do filho, por isso, não entendia o motivo dela continuar falando dele e sentia raiva quando o fazia. Era como se Lorena estivesse constantemente o lembrando de que Tevon era o filho amado, de que ele nunca iria embora daquele lugar. Tevon estaria sempre presente.
– Tudo bem, hora de descer. Onde está Kaius? — Clarkson perguntou, seco. Ele nunca chamava Kaius de pai. Desde que Tevon foi embora, o relacionamento dos dois piorou mais ainda. Praticamente não se falavam, exceto se o assunto fosse sobre as forças armadas ou política.
Lorena revirou os olhos, irritada.
– Seu pai está lá embaixo, à nossa espera. E as selecionadas também estão lá.
Clarkson tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi uma careta. Pelo menos havia algo de bom em sua vida: a mulher com quem casaria. Achara prazer em algo banal para ele. Ah, o amor, o que o amor não faz com um homem, por mais cruel que seja!
***
O programa havia começado. Todas as câmeras apontavam para Clarkson, que, sentado no meio, entre Lorena e Kaius, procurava, aflito, pelas duas selecionadas restantes. Onde elas estariam? Por que não aceleravam aquilo logo? Ele não aguentava mais tantas perguntas vinda de Warren, o cerimonial.
– Querido príncipe Clarkson! — Warren sorriu exageradamente, enrugando a testa de forma engraçada. Clarkson ajeitou-se no trono, sentindo um terrível incômodo nas pernas. Elas começavam a formigar. — Há algumas perguntas que eu gostaria de fazer-lhe!
Clarkson sorriu.
– Claro, Warren — disse, desejando que ele simplesmente caísse duro à sua frente. Como esse cara me irrita. Ah, o sensacionalismo. Nada mais venenoso para alguém como Clarkson.
Warren bateu palmas, animado.
– A primeira pergunta vem de uma modelo da Carolina do Norte! Senhorita Ella Newsome pergunta: Vossa Majestade disse que certamente casaria com uma mulher que usasse azul claro. Mas hoje, se a sua escolhida não estiver de azul claro, você a escolheria mesmo assim?
Warren gargalhou da pergunta, assim como o rei e a rainha. Do que diabos estão rindo? Clarkson imitou os pais, pensando em uma resposta legal o bastante para uma pergunta que, obviamente, pedia por uma resposta curta e grossa.
– Eu acho que, nesse caso, escolheria a outra, afinal, um príncipe tem de cumprir com sua palavra, certo, Warren? — ele falou, sorrindo. Por um momento, ficou preocupado se dissera a coisa certa, mas logo sua preocupação passou ao ver Warren rindo.
– Certo, certo. Próxima pergunta... Hum, um cidadão hábil com ferro. Senhor Josser Hills, ferreiro, pergunta: Vossa Majestade, gostaria de testar sua bondade neste momento. Como você só pode escolher uma selecionada, reivindico que envie a não escolhida para a minha residência, fica em... — quando Warren percebeu a pergunta tola que estava lendo, rapidamente parou de lê-la, constrangido. Mas Clarkson não conseguiu segurar o riso. Aquilo realmente foi divertido, e ousado.
– É melhor que você peça permissão à ela, senhor Hills, mas talvez eu possa enviar um bolinho, ou algo assim — o príncipe argumentou, divertindo-se.
A noite passou rápido enquanto Clarkson se divertia com as perguntas do povo de Illéa, até que chegou o momento mais esperado do ano: a escolhida da Seleção. O hino de Illéa tocou e a família real levantou-se de seus tronos. Clarkson fitava, ansioso, as portas altas e luxuosas do Salão das Mulheres, de onde as selecionadas sairiam. Ele mal conseguia controlar a respiração, mas pôde fingir bem para as câmeras. Quando enfim as portas se abriram, o telão de exibição do programa chiou alto e uma imagem apareceu.
– O que é isso? — Lorena sussurrou para Warren, que balançou a cabeça.
A imagem no telão começou a receber digitações, formando uma pergunta. Warren não poderia perder uma oportunidade como aquelas. A audiência explodiria!
– Vejamos o que temos aqui, senhoras e senhores de Illéa! — ele pigarreou, então começou a ler. — Tenho uma pergunta para o príncipe Clarkson. — Warren esperou as próximas palavras. — Vossa Majestade, o que sua escolhida diria se soubesse sobre a ilegitimidade de vossa pessoa perante a coroa? Ela o aceitaria mesmo assim?
Lorena pôs as mãos na boca, abafando o grito. Kaius arregalou os olhos.
– O que é isso?– Clarkson perguntou, pausadamente.
– Ah, senhoras e senhores, trata-se de uma grande brincadeira! — Warren anunciou, atuando extremamente bem. Ele não percebera? — Bem, depois desse momento de suspense– ele riu e mandou um olhar para o rei — poderemos voltar para o grande momento do dia, Vossa Majestade?
Clarkson estava aturdido, mas assentiu. Então as selecionadas apareceram.
– Vejam quem temos aqui! — ele trouxe-nas para o tapete vermelho. — Senhorita Natalie Parker, num maravilhoso vestido longo vermelho, e Senhorita Amberly Schreave, num esplêndido vertido... Azul claro! — Warren riu. — Será coincidência?
Ao ver Amberly naquele vestido, o coração do príncipe disparou aceleradamente. De cera forma, ela se assemelhava à Lorena, sua mãe. Amberly era formosa, calma e pacífica. Sua beleza estava em sua paz e bondade. Ela sempre fez com que Clarkson se sentisse uma pessoa melhor. Já Natalie... Bem, seria mentira dizer que ele não aproveitou o que pôde da violoncelista. Que, inclusive, tinha um corpo de violoncelo... Natalie era extremamente bela, um mulherão. Poderosa e esperta, acordava todas as células possíveis que ele tinha, colocando-nas para dançar. Seus longos e ondulados cabelos castanhos e seus olhos negros eram uma atração fatal. Ela possuía um andar sexy, até a forma de falar era extremamente persuasiva. Até quase o fim da Seleção, Clarkson tinha certeza de que ela seria a escolhida. Ele mal podia esperar para colocar suas mãos naquele corpo todas as noites de sua vida. No entanto, em certo momento, alguma coisa mudou. Natalie perdeu o encanto de Clarkson, e Amberly o conquistou. Seu olhar doce, meigo e genuíno o atraía como o chão atrai um raio. Ela era encantadora sem se esforçar. Por mais que Natalie fosse fatalmente bela e sensual, e também uma ótima estrategista, Amberly havia, simplesmente, nascido para ser rainha. Clarkson estava perdidamente apaixonado por ela, não podia nem esperar para tê-la ao seu lado para o resto da vida.
– Amberly Schreave, você é a minha escolhida — ele anunciou. Natalie, obviamente, manteve a pose. Rosto para cima, olhar fixo em Clarkson, deixando-o receoso. Natalie tinha a capacidade de fazer qualquer coisa com o olhar, e nessa capacidade inclui-se deixar o príncipe totalmente constrangido.
– Ah, Deus — Warren balançou a cabeça. — É uma boa escolha, senhor Clarkson. Venha aqui, senhorita digníssima Natalie Parker! — ele lhe deu a mão e ela foi até o palanque, sorrindo com simpatia. Warren não pôde deixar de olhá-la dos pés a cabeça. Mas que mulher é essa, é uma criatura divina! Clarkson sentiu-se desconfortável ao perceber isso. — Natalie, uma talentosa violinista, uma jovem belíssima e muito inteligente! Palmas para essa mulher, pois ela merece! — Natalie sorriu e agradeceu, curvando-se graciosamente frente às câmeras. Seu vestido vermelho tinhas as costas nuas. Como ela estava virada de costas para Clarkson, ele não pôde deixar de observar, talvez pela última vez, a beleza da mulher que rejeitou. Desviou o olhar para Amberly para certificar-se de que havia, sim, feito a escolha certa. Ela sorriu para ele, e ele sentiu seu coração pular. — Agora, querida Amberly, venha aqui. Senhoras e senhores, admirem, nesta noite, a futura rainha de Illéa! Amberly Schreave, a escolhida!
A noite se arrastou mais um pouco depois da apresentação. Natalie pegou as malas e foi levada a um avião para que voltasse para sua casa. Ela, agora, seria a mulher mais cobiçada da nação. Não apenas por ter chegado à reta final da Seleção, mas por ser quem era. Durante boa parte da competição, ela se destacou de forma inacreditável por seus conhecimentos militares, o que encantou não só Clarkson, mas toda a nação. Natalie virou favorita dos generais e diplomatas, tendo até mesmo ajudado Kaius, o rei, na guerra civil que estourara no norte do país. Ninguém sabia de onde ela aprendera tudo aquilo, mas sabiam que ela era esperta, e muito. Clarkson acompanhou-a até o aeroporto real.
– Natalie Parker — ele a chamou. Ela se virou, elegante, sobre os saltos negros. Seu olhar era frio, distante, o que o cortava, pois em algum momento, houve algo entre os dois. — Você foi excelente em todo o tempo. Sabe disso.
– Eu sei — ela ergueu uma sobrancelha e bateu as unhas no corrimão da escada do avião.
– Eu não sei bem o que dizer a uma garota como você, pois você é diferente de todas as outras garotas — ele riu, perdido nas próprias palavras. — Mas eu quero agradecer por esse tempo. Você foi especial pra mim. Sempre será...
Natalie se aproximou de Clarkson, colocando seu rosto perto do seu. Ela o interrompeu com o próprio silêncio. Seu olhar ainda estava fixo nele.
– Clarkson, não preciso de palavras bonitas. Não quero seus discursos gravados. Ou você diz o que tem a dizer, ou me deixe ir logo embora. Eu sei que sou diferente, sei que fui especial. Não me importo mais se isso soar arrogante. Não temos mais tempo para etiquetas — ela disse, sua voz rouca inundando o ar gélido ao redor dos ouvidos de Clarkson.
– Tem razão — ele falou. — Mas eu escolhi Amberly, não posso fazer isso com ela. Você sabe, não posso ceder agora. Então não se aproxime mais, por favor.
Natalie sorriu e se afastou.
– Você parece forte, mas na verdade é fraco. Eu sempre soube disso, Clarkson.
Ele desviou os olhos.
– Eu espero que você seja feliz. Você é uma grande mulher e merece um grande homem.
Ela começou a subir as escadas. Ele seguiu-a.
– É por isso que não me casei com você, Clarkson — Natalie falou. Havia um tom debochado em suas palavras. — Bem, — ela se virou — acho que aqui é o nosso adeus. Amberly será boa para você. Sei disso porque a conheço bem. Espero que você também seja bom para ela.
Clarkson colocou uma mecha de cabelo atrás de seu cabelo. Ela permaneceu em seu lugar, inerte. Ergueu uma sobrancelha.
– O que está fazendo, Clarkson?
– Me despedindo de você — ele se aproximou de seus lábios. Natalie ergueu as sobrancelhas, afastando-o em seguida.
– É exatamente por isso que eu não escolhi você — ela falou, sorridente, e então entrou dentro do avião.
Clarkson ficou do lado de fora, com as mãos nos bolsos, vendo o avião decolar. Ela sequer olhou para ele pela janela.
– Você é diferente de todas as outras, Natalie Parker — ele riu de si mesmo. Como era idiota quando estava perto dela.
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