A Origem do Trono - A Seleção
13 Não Confunda Duas Faces Com Dois Corações Confusos
Notas iniciais
Tevon seguiu Alan por uma estrada de asfalto sinuosa que seguia reto, virava a direita e em seguida reto novamente. Os dois corriam, apressados.
– Então, onde ela está? — Tevon perguntou.
Alan apontou para a enfermaria, que ficava na parte norte da região dos dormitórios, entre os dois prédios — masculino e feminino.
Tevon correu até o lugar, que era uma espécie de casa baixa, dividida em alas conforme a gravidade. As paredes de concreto foram pintadas de um cinza gelo, o que dava um ar modesto à enfermaria; as janelas eram de metal simples, apoiadas nas paredes como grandes quadrados que permitiam a entrada da luz do sol.
À porta da enfermaria, Kiva sentiu seu coração acelerar quando viu Tevon.
– Senhor, que bom que você veio, só você pode nos ajudar... — ela disse, mas ele passou a mão no ar, interrompendo seus agradecimentos.
– O que eu preciso fazer? — perguntou, sério.
– Cher precisa de autorização de algum líder do Comando Geral para ir para a ala de emergência. É que... As enfermeiras disseram que ela logo vai morrer e não querem despedirçar seus serviços com... Um caso perdido — Kiva engoliu em seco. Seus olhos lacrimejavam, lutavam para permanecer firmes, mas era difícil. Logo Cher, por que Cher? Ela... Não era exatamente ofensiva à alguém.
Tevon adentrou a enfermaria a passos pesados. Seu rosto estava vermelho, a fúria se acumulando conforme andava em direção ao responsável por aquele lugar. Quando enfim encontrou uma sala dizendo "diretoria", empurrou a porta com um chute e entrou.
– Quero aquela garota nesse exato momento na melhor ala que tiver — Tevon ordenou.
– M-mas, senhor... — o médico gaguejou. Tevon deu meia volta e saiu de sua sala. Então virou-se para o homem e apontou-lhe um dedo.
– Doutor, preste bastante atenção no que eu vou lhe dizer agora — ele falou. — Cher é membro de uma das minhas equipes missionárias do México. E eu preciso que ela seja tratada imediatamente. Dane-se quem estiver na fila. Arranje outro lugar.
O médico engoliu em seco e assentiu com a cabeça.
– Mas senhor, precisamos de um hospital de verdade se quiser continuar a dar ordens assim.
Tevon deu uma risada seca.
– Terá o melhor hospital da América, se quiser. Vá ao Comando Geral amanhã, e conversaremos sobre isso. — o médico abriu um sorriso discreto. — Agora trate de cuidar da garota.
***
Cher ainda dormia, incosciente, ligada à soros. Kiva e Alan aguardavam do lado de fora de seu quarto, onde as enfermeiras cuidavam da garota.
– Onde está o outro garoto? — Tevon questionou. — Hector?
– Ah, ele está pesquisando algum tipo de antídoto — Alan respondeu. — Ele virá assim que conseguir algo.
Tevon ergueu as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
– Desde quando ele entende de biologia?
Alan riu.
– Senhor, Hector é de uma família fugitiva de Illéa. Ele pode ser novo, mas entende dessas coisas. O garoto conseguira entrar para uma faculdade de engenharia bioquímica antes de fugir.
– Se ele tinha um futuro tão promissor, por que fugiu? — Tevon perguntou.
– Bem, — Alan começou — é uma história meio complicada.
Tevon deu de ombros e franziu os lábios, olhando para o quarto de Cher.
– Parece que terei tempo.
***
Hector havia acabado de buscar sua carta de admissão na melhor faculdade de ciências de Illéa; era, defitinivamente, o melhor aniversário de quinze anos que alguém poderia ter. O garoto chegou em casa correndo, sua respiração estava visivelmente irregular, mas isso não importava. Hector finalmente havia conseguido o que tanto queria, e agora o que mais desejava era poder compartilhar sua felicidade com sua família.
Bem, o que restou de sua família.
O pai de Hector morreu em batalha, numa guerra lutada ao lado do grande rei Kaius. Desde então, o garoto vivia com sua mãe, uma mulher de cabelos castanhos meio grisalhos e olhos atentos.
Ele abriu a porta com força e entrou em casa.
– Mãe! — Hector chamou-a, indo em direção a cozinha. — Mãe?
Procurou na sala, nos quartos e no banheiro. Mas não encontrava sua mãe em lugar nenhum. Hector começou a preocupar-se.
Quando tocou no telefone para chamar a polícia, ouviu um barulho vindo das portas dos fundos da casa.
– Mãe? — ele hesitou, aproximando-se sutilmente.
Hector arquejou quando encontrou sua mãe à porta da cozinha. Ela estava de pé, olhando para ele com aqueles olhos grandes arregalados.
Havia dois homens atrás dela, e um deles tinha uma faca em seu pescoço.
– Quem são vocês? — ele perguntou. — O que querem?
Os homens entreolharam-se e sorriram.
– Um garoto corajoso — disse um deles, franzindo os lábios para baixo em sinal de satisfação. — Eis o que queremos, garoto: você.
Hector semicerrou os olhos, confuso.
– Sabemos que você é uma espécie de... "Superdotado" — ele explicou. — Um cara como você seria muito útil para nós.
– Quem são vocês? — Hector voltou a perguntar.
– Ora, tão inteligente, mas fazendo as perguntas erradas.
– Então largue minha mãe, e perguntarei as certas — Hector deu de ombros.
Os homens menearam a cabeça, negando.
– Sinto muito, estamos sob ordens — disse um deles, o mais alto. — Pense sobre isso, garoto. Poderíamos te dar... Riquezas — o homem sugeriu. — Reconhecimento. Um mundo inteiro a seu dispor.
Hector respirou fundo e balançou a cabeça.
– Me deixem em paz.
– Pense sobre isso. Seu talento não deve ser desperdiçado com o governo prestes a cair de Illéa. Temos mais a te oferecer.
O homem enfim soltou sua mãe, guardando a faca na calça e jogando-a nos braços de Hector.
– Shh — ele tranquilizou-a, mesmo sentindo suas mãos tremerem mais que as pernas. — Ficaremos bem.
Os dois homens viraram-se para Hector antes de deixá-lo.
– Voltaremos, Hector, em breve, e espero que você tenha feito a escolha certa. — Ele sorriu outra vez. — Caso não... Bem, haverá consequências. — O homem apontou para sua mãe.
Em segundos, deixaram a casa.
– Não podemos mais ficar aqui — a mãe de Hector disse.
– O que? Mas, mãe, eu acabei de entrar para a...
Sua mãe agarrou os braços de Hector e balançou-o.
– Filho, você não entendeu o que está acontecendo? Poucas pessoas fazem o que você faz. Seu talento é uma ameaça, meu filho. É por isso que não podemos mais ficar aqui — ela explicou, subindo as escadas até seu quarto. Hector seguiu-a e viu ela puxar algumas malas do guarda-roupa. — Precisamos ir embora, para longe daqui.
– Mas para onde podemos ir, mãe? — Hector questionou, desesperado. — Eu não sou o único que conseguiu entrar para esse lugar tão novo.
Sua mãe virou-se e arqueou as sobrancelhas.
– Eu sei disso, meu filho. Os que conseguiram já estão mortos por terem recusado a oferta. Por algum motivo, esses homens te deram tempo. Eles o pouparam.
– Então talvez possamos ficar. Vamos pedir ajuda ao rei, ele é generoso e certamente vai nos proteger — Hector sugeriu.
Sua mãe jogou o que restou das roupas do guarda-roupa na mala.
– O governo não pode nos ajudar, meu filho. Essas pessoas... Elas não param. Nunca. Vão atrás de quem querem, quando querem, e conseguem o que querem.
Hector pôs as mãos na cintura.
– Como... Como sabe de tudo isso?
Sua mãe riu, esquivando-se.
– Sou uma mulher vivida, Hector. Agora vamos, trate de me acompanhar. Conheço um lugar onde estaremos seguros. Seguros de verdade.
– E que lugar é esse? — Hector perguntou, descendo as escadas atrás de sua mãe.
Ela abriu a porta de casa e seguiu em direção ao carro, destrancando-o rapidamente.
– Para o Sul.
***
– Então... Hector é um talento realmente disputável — Tevon comentou.
Alan balançou a cabeça para os lados.
– Não sei exatamente o quão fundo essa história vai.
Tevon levantou-se.
– Bem, agora que a garota será devidamente cuidada, terei de ir embora. Tenho coisas para resolver — ele anunciou, distanciando-se do lugar.
Alan e Kiva acenaram para ele, agradecendo brevemente.
***
Natalie abriu a gaveta da bancada de granito de seu viveiro e puxou duas luvas de látex, enluvando-as nas mãos. Em seguida, puxou um pequeno tubo de ensaio do suporte e aproximou-o da centrífuga.
– Você... — ela colocou uma mão dentro da jaula onde duas cobras ainda restavam, pegando a cabeça de uma delas. — Vai me fazer um favorzinho, agora.
Natalie apertou a mandíbula do animal contra o tubo de ensaio, torcendo para que ele não despertasse antes do tempo. A cobra havia adormecido depois de cinco minutos aspirando gás carbônico.
Com a peçonha extraída, Natalie voltou para a bancada do laboratório, colocando o tubo de ensaio dentro do aparelho de centrifugação.
Natalie tirou o tubo de ensaio da centrífuga depois de alguns minutos de extração de impurezas. Em seguida, congelou o líquido e esperou o freezer apitar.
– Droga — ela olhou para o relógio. Já estava há trinta minutos naquele lugar. Se Tevon estranhasse sua ausência, uma faísca de desconfiança já seria o bastante. Quando o congelador apitou, Natalie suspirou, aliviada. Ainda dava tempo de consertar o que fizera.
A mercenária puxou o tubo de ensaio, agora congelado, do freezer, e com uma mão, aplicou-a com uma seringa num hamster. O animal era geneticamente modificado, suas células eram capazes de enviar anticorpos com muito mais rapidez do que animais usados para antídotos — cavalos — e em apenas trinta minutos, Natalie já teria o que precisava.
Quando os trinta minutos passaram, Natalie enfiou outra seringa no animal e retirou um pouco de sangue. Com esse sangue, ela teria de centrifugar novamente para obter o plasma, a parte líquida responsável por curar Cher.
Natalie olhou para seu relógio novamente.
– Uma hora — ela falou, retirando as luvas de látex e segurando o pequeno pote de vidro onde estava o antídoto do veneno. — Hora de ir.
***
Hector limpava o suor que se formava em seu rosto há uma hora, desde que começara a pesquisar algum antisoro para o veneno que infectara Cher. O laboratório a que teve acesso era o da enfermaria, mas não parecia ser o mais apropriado a primeira vista. Quando ele olhou de verdade, teve certeza de que não era mesmo o mais apropriado para uma pesquisa científica urgente e de última hora. Mesmo com duas pessoas para ajudá-lo, ainda não era o bastante.
A amostra de sangue de Cher havia auxiliado a encontrar parte do veneno, mas ainda assim era muito pouco.
– Preciso de um animal — Hector concluiu. — Um geneticamente modificado para que possa absorver o veneno e gerar anticorpos rapidamente.
Um dos homens que estava com ele curvou os ombros.
– Mas não temos isso... — virou-se para seu outro auxiliar. — T-temos?
– Tínhamos alguns hamsters tempos atrás, mas eles morreram. Ou foram roubados — o homem ergueu as mãos e riu, voltando para seu trabalho.
Hector passou as mãos no rosto. Aquilo estava complicado demais. Talvez fosse melhor criar algo que ajudasse Cher a lidar com o veneno até que pudesse encontrar o verdadeiro antisoro.
Quando Hector reprogramou a breve missão da pesquisa para outro tipo de antídoto, desistindo dos tubos de ensaio e centrífugas, esbarrou com a mão em alguma coisa em cima da curta tábua da janela.
– O que é isso? — perguntou, pegando o pote. Era pequeno, quase do tamanho de seu dedo mindinho. Mas, havia algo escrito nele.
"Considere um presente".
Hector ergueu as sobrancelhas e suspirou.
– Parece que temos a cura.
O garoto abriu a janela e correu os olhos pelos arredores, perscrutando o lugar em busca de alguém. Qualquer um, desde que tivesse colocado aquela cura ali.
Como alguém conseguiu isso tão rápido?
***
02:03 da madrugada.
A primeira coisa que Cher enxergou quando abriu os olhos foi o relógio digital ao lado de sua maca.
Sua cabeça latejava um pouco, mas não doía. Era como se houvesse dormido por muito tempo, e agora acordara repentinamente. Tentou mexer os dedos, porém a tentativa não valeu o esforço. Eles estavam tão fracos e hesitantes que mal tremeram.
Cher não sabia se não sentia seu corpo ou se estava apenas meio incosciente. Entre todas as dúvidas, teve certeza de pelo menos uma coisa: ele estava mesmo ali, à porta de seu quarto.
– Rick — ela balbuciou, sentindo o ar tocar seus lábios secos.
Seus fios negros penteados para cima de forma bagunçada combinavam com seus olhos escuros. Cher sempre achara isso. E agora ele estava ali.
Mas o que será que isso significava? Eles haviam voltado? Estava... Tudo bem? Tudo às claras novamente?
– Estamos bem? — ela perguntou, tentando tocá-lo.
Cher empurrou o cotovelo na direção do garoto que estava na porta, e quando finalmente conseguiu, de repente ele pareceu mais distante do que há segundos atrás.
A garota espremeu os olhos tentando enxergá-lo direito.
Subitamente, uma dor lancinante invadiu sua cabeça.
Cher quis gritar, mas ainda estava fraca demais. Era Rick.
– Por que você me machucou? — Cher perguntou, quase sussurrando. — Por que? Eu... Eu te amo. Não me machuque, por favor. — A garota respirou fundo antes de falar outra vez. — Rick, por favor.
Aos poucos, Rick desapareceu de sua vista e a dor em sua cabeça sumiu. Cher sorriu levemente, agradecendo por ele tê-la ouvido.
Antes de fechar os olhos novamente para descansar mais um pouco, Cher sentiu duas mãos tocarem seus ombros com delicadeza. Então ela fez um esforço para manter-se acordada, apesar do desejo enorme de dormir. O que diabos estaria causando-lhe tanto sonolência?
– Cher, tudo bem? — uma voz perguntou com calma.
Cher balançou a cabeça para espantar a confusão. Sua visão desembaçou melhor depois disso.
Aquela voz era familiar, mas não de uma forma boa. Se estivesse certa, pelo menos do que se lembrasse, o dono daquela voz só tinha lhe passado raiva até ali.
– Hey, Cher? Pode me ouvir? — ele perguntou novamente.
– Eu... — Cher hesitou, temendo estar maluca. — O que está fazendo aqui?
– Se sente melhor? — a voz parecia mais preocupada em ser repelida a ser respondida. Tomava cuidado com as palavras, falando-as com calma.
– Alan — Cher respondeu. — Onde está ele? Ele... Veio me ver? Deixe-me vê-lo, ele não vai mais me machucar — a garota garantiu, sorrindo.
Alan balançou a cabeça e respirou fundo, afastando-se.
– Acho que ela está acordando pra valer, agora — ele informou a uma das enfermeiras e então seguiu em direção a porta.
– Ei — Cher chamou-o. — Você pode chamá-lo pra mim?
Alan virou-se para Cher e arqueou as sobrancelhas.
– Quem?
– Rick. Ele estava aqui, ele veio me ver — Cher respondeu, sua voz ganhando força aos poucos.
Alan cruzou os braços e mordeu o lábio inferior. Ótimo, agora a Barbie está maluca.
– Não tem nenhum Rick aqui, Cher — Alan informou.
Cher franziu o cenho.
– Mas eu... Ele estava aqui, na porta. — Cher deu de ombros. Será que Alan estava achando-a maluca? — Eu vi.
– Ah, sei — Alan falou, saindo de seu quarto. — Era eu quem estava na porta, Cher.
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