A ORIGEM DA ESTRELA-DO-MAR

Liura Sanchez Lauri

Quando a Terra deixou de ser uma bola incandescente, os gases existentes na atmosfera condensaram e formaram os primeiros oceanos. Capazes de, com sua composição química, cinzelar as encostas que os restringiam, retirando delas os materiais formadores das praias. Essas encostas eram fustigadas com água e vento e placas de rocha eram arrancadas e reduzidas a seixos, diminuindo mais até restar algo anterior a um grão de areia.

Nosso protagonista fazia parte de um paredão de rocha; não importa onde olhasse tudo era escuridão, ele não entendia o que acontecia, mas sentia em suas entranhas algo pulsante! Essa sensação o fazia tremelicar, desejando o novo, o inesperado! Ele estava preso em algo parado até ouvir um rugido e sentir-se em um redemoinho, os sons estavam a cada momento mais próximos dele e isso o extasiava, querendo saber e ver o que viria. Depois de centenas de milhares de anos ele percebeu uma luminosidade chegando e, com ela, veio a curiosidade do que seria capaz de perceber, quais segredos aquela luz guardaria, que mistérios seriam revelados?

Antes de perceber o mundo, ele era imobilidade até um rugido forte, muito movimento e, então sons mais amenos iniciarem, ritmados, cadenciados. Ele havia acabado de aportar numa praia, sendo desgastado pelas ondas do mar e pelo vento que ainda fustigava a costa. Outras centenas de anos e numa manhã, sem chuva, uma onda removeu a última camada de rocha e ele então vislumbrou um maravilhoso céu violeta, com nuvens cotonosas ao longe, um Sol de brilho indescritível para nós, pois os gases da atmosfera ainda não estavam equilibrados como hoje. Jamais saberemos o que esse grão de areia viu, mas o impressionou de tal modo fazendo-o pensar, imaginar, sentir coisas novas.

— Que será isso? Essa imensidão violeta? Existem outros como eu?

Ele tentou olhar apressadamente ao redor, mas percebeu não conseguir se mover e isso levantou uma dúvida: o que ele era?... Ouviu aquele som cadenciado mais próximo e depois de algumas horas teve a sensação da umidade, quando a maré alta o recobriu e o fez perceber tudo diferente; alguns seres minúsculos passando acima dele, flutuavam naquele líquido vital, precursor da vida no planeta. Debaixo da água ele ainda percebia o céu violáceo, mas foi notando o dinamismo do dia, assim como dinâmicos eram seu pensamento e sua vontade de saber um pouco mais de si.

— Se existem outros, falem! Por que são tão calados?!

Foi então que alguns daqueles seres minúsculos riram baixinho.

— Que som é esse? Querem falar comigo? Eu não consigo entender...

Um deles se prendeu a ele para não ser levado pela água e comentou:

— Isso é uma risada, pequenino. Estamos rindo de você, porque temos a liberdade de nadar pelo oceano e você não... Está preso aqui, para sempre! Ou até que venha uma tormenta e te leve para o fundo do mar, onde só há escuridão...

— Risada... Fizeram esse som porque se acham superiores a mim?

E vários outros passaram, caçoando. O microrganismo se soltou e deu uma pirueta, desaparecendo na água. O grãozinho comentou para si: eles não sabem, mas eu sou muito livre, em meu pensamento!

O dia passou com o grão ampliando seus sentidos. Ele percebeu o pôr do Sol deixando o violeta do céu quase um breu, uma tela onde pequeninos pontos coloridos formavam imagens incríveis. Era Lua nova e ele viu as estrelas em todo seu esplendor. Algumas eram azuis, outras amareladas, outras branquíssimas. Umas maiores, outras pareciam tão pequenas quanto ele. Umas tinham a luminosidade intermitente, como quem quer conversar por código Morse. Mas foi no meio da noite daquele primeiro dia que nosso protagonista encontrou, em meio a milhares de centenas de estrelas, uma pela qual se apaixonou.

Ele não sabia ser paixão, ao olhar para aquele pequeno ponto avermelhado no céu captando toda a sua atenção. Ficou imaginando se pensavam igual, se sonhava ou acaso sofriam do mesmo silêncio? Cercado por indiferentes? As outras luzes se riam? Se achando superiores por algo ínfimo ou diferente? Esses pensamentos aqueceram nosso amiguinho a ponto de durante o dia ele se sentir vazio... Sentiu tristeza e se distraía com o mundo ao redor para não se deixar embotar por aquele sentimento.

— Que estou sentido? Não sei explicar...

Um polvo ancestral de passagem, muito esperto e inteligente, achou deveras interessante um grão de areia capaz de se expressar! Isso o intrigou a ponto de ele questionar:

— Estou ouvindo coisas? Seria a voz vinda de um grão de areia?

— Ah! Finalmente, outro ser que pode me entender! Sim, estou aqui e sou diferente dos outros grãos de areia!

— Eu também sou diferente dos polvos ao meu redor... Vago buscando alguém como eu por aí, mas jamais pensei encontrar um semelhante num pequenino grão de areia. Já encontrei em seres minúsculos que flutuam por este mar, também já encontrei em seres gigantescos nas suas profundezas, mas jamais pensei que algo inerte assim pudesse também ter sua consciência... Intrigante! – ele expressava, enquanto remexia os tentáculos ao seu redor, mantendo-se firme mesmo com a corrente.

— Inerte? O que isso significa?

— Que não se move, meu amigo...

— Deve ser incrível conseguir se movimentar, não é mesmo? E ter respostas pras suas dúvidas?!

E ele passou a contar todas as dúvidas que o assaltavam, falou por minutos com tanto entusiasmo deixando o polvo ciente do quanto aquele grão era diferente dele.

— Não, pequeno, infelizmente, não tenho essas dúvidas, o mais longe que vou é tentar encontrar outros como nós, mas preciso me preocupar com meu alimento no restante do dia, preciso também encontrar uma parceira... Essa ideia não para de martelar minha mente e, portanto, deve ser verdadeira. Deve ser o motivo pelo qual estamos aqui, mas essa é só uma ideia minha, claro...

— Comida? Parceira?

O polvo fez um movimento engraçado, inflando seus tentáculos e ampliando seu corpo enquanto soltava várias lufadas de água com um som diferente. O grãozinho sabia que aquilo era uma risada e ficou nervoso:

— Não venha me dizer que está rindo de mim?! Eu não sou algo criado para ser motivo de chacota!...

— Calma, pequenino... Não estou rindo de você, mas para você, das dúvidas que o assolam, só isso. Respondendo-as: comida é o que todo ser vivo, não inerte, precisa consumir para viver. Eu vou atrás de peixes e uso minha boca para comê-los, eles deixam de viver para que eu viva. – e o grão de areia prestava muita atenção – Já a parceira, é alguém semelhante, mas com estruturas diferentes que permitem trazer ao mundo seres iguais a você, apenas com um abraço apertado. É uma união que leva à multiplicação, entende?

— Hum... Eu não sei se entendi bem... Eu não tenho nenhuma estrutura, não é? Sou inerte, então, de acordo com você, eu não teria direito a uma parceira, apesar de me comunicar com você e ter tantas dúvidas sobre o mundo que nos cerca.

O polvo não respondeu verbalmente, mexeu a cabeça de modo positivo e, dando um adeus com os tentáculos, sumiu no mar pois os questionamentos daquele grão de areia estavam ficando difíceis demais...

Ele suspira, mais um se vai sem responder... E as dúvidas continuam. Aquela tristeza permanece e o grãozinho percebe que ela diminui conforme ia escurecendo, ele percebe seu anseio em ver aquele ponto avermelhado novamente e como essa espera o deixava diferente! Apesar da claridade e da quantidade de vida diurna do oceano, ele não via a hora do brilho chegar e, quando a encontrou, seu interior sorriu! Aquela luz não poderia ser sua parceira?

Muito tempo passou em nossa contagem humana. O pequeno grão foi percebendo o ponto maior, quem sabe, mais próximo dele? Era uma aproximação bem sutil, mas suficiente para acalentar seu coração e, durante o dia, ele tentava conversar com o máximo possível de seres, perguntar se eles viam aquelas luzinhas no céu e o que achavam delas, mas nenhum deles respondia a contento... Até um gastrópode ancestral se aproximar, lentamente, explorando o ambiente ao seu redor sem ligar para nosso protagonista. Ao percebê-lo, o grão chamou sua atenção e recebeu uma resposta tão lenta que quase não o entendeu! Sua voz saía na mesma velocidade de seu caminhar, então ele diminuiu a velocidade de sua fala também e conseguiram se entender!

O molusco disse já ter olhado para o céu sim, e dentro dele uma voz disse serem estrelas.

— Estrelas? É uma palavra muito linda, sim... Ela pode bem ser uma estrela... Mas, por que existem tantas cores diferentes? E algumas que pulsam? Enquanto outras parecem paradas?

— Calma, meu jovem, calma... Essas questões estão além do que sou capaz de responder, sabe?... Mas e se você tentar se encontrar com sua voz interior, talvez consiga as respostas, hein? – ele virou um dos olhos bem na direção do grãozinho e piscou.

Passaram o restante do dia conversando sobre tudo que o gastrópode já tinha vivido e ele também comentou sobre como havia parado ali, sobre como estava em silêncio por tanto tempo, imóvel, até que um estrondo iniciou toda sua aventura.

— Ah! Eu já vi isso acontecer, sabe? Conversando com outros como eu, mais velhos, esse conhecimento foi passando adiante... – ele parou, pra descansar um pouco, nunca tinha falado tanto assim. Tomou fôlego e continuou. – Está vendo aquela montanha ali na frente, pode ser de lá que você veio, estava imóvel porque fazia parte daquilo, até uma onda vir e te arrancar de lá, imagino quanto tempo se passou até que pudesse estar nessa praia e eu te chamando de “jovem”! Você, junto com esses outros grãos de areia, pode ter testemunhado o início da Terra, meu colega!

Aquilo fazia muito sentido! Era curioso os animais como aqueles contarem histórias uns para os outros, com isso, o conhecimento não se perderia jamais! Ele conseguiria, em algum momento, encontrar alguém para contar sobre os seus conhecimentos? E, como que adivinhando seu silêncio, o molusco falou:

— E eu passarei sua história adiante. De sua origem, de sua mente inquieta e do sentimento que nutre pela estrela vermelha! Ah! Que história! – e saiu de fininho, rindo baixinho de contentamento.

A tarde já ia sumindo e o grãozinho aproveitou para tentar encontrar sua voz interior. Acalmou o pensamento, como o gastrópode tinha dito e focou na estrela vermelha, mas nada! O viscoso colega avisou da dificuldade em ouvir essa voz, mas que ele não desistisse de tentar. Perfeito, pois além de inquiridor, nosso protagonista é focado. E, focando nesse desejo, os dias passaram, seguidos das semanas e dos meses, vêm os anos e, ainda assim, ele só percebe sua aproximação e isso o faz tentar cada vez mais algum contato. Os evos passam, a visão embaça, pois vários outros grãozinhos inertes começavam a se acumular sobre ele. Em tempo, ele encontrava algum gastrópode disposto a trazê-lo para cima, perpetuando um pouco sua existência nesse mundo inconstante.

Ele descobriu que era a distância era culpada pela falta de comunicação, pois depois de vários milhões de anos, finalmente ele conseguiu uma resposta!

Ela não era uma estrela comum! Ela era uma estrela cadente, cada vez mais próxima da terra, pois com ela se chocaria e conseguiriam, então, se encontrar.

Dentro dele, aquela voz interior era assertiva: ela vinha por ele e sabia de sua existência e de seu amor! E, depois de tempos, ele ouviu novamente a voz quente dela questionando:

— É você meu parceiro?

Sua alegria era indescritível!

— Sim, sim, eu sou seu parceiro!

E a voz cessava, parecendo cair num torpor insuportável... Volta ou outra ela dizia: estou cansada, meu esforço é enorme!...

E ele se sentia tão mal por ser inerte, por não poder ajudá-la nessa jornada... Mas a sua tristeza não vingava, pois quando a voz quente dela o inundava, ele contava histórias, reais ou inventadas e a divertia! O sorriso dela era vitalizador!

— Você me diverte, querido! Assim passo mais rápido minha viagem, eu gosto disso...

A conexão dos dois ficou perene e eles passavam trocando sonhos, esperanças e desilusões. O medo da estrela cadente era não cair próxima dele! O medo dele era ser soterrado antes dela chegar e, mesmo conversando com ela, não conseguir tocá-la... Mas ambos sacudiam os medos com as trocas de várias promessas. A estrela prometia nunca o abandonar e ele prometia fazê-la sentir-se única, sempre! Mas sem possui-la, pois sabia que não podemos ter o outro, apenas estar com ele durante nossa jornada e, se tivermos sorte, dividir alguns momentos de nossa história. Imagine como seria incrível se, um terceiro, perguntasse de alguma época de nossas vidas e tivéssemos a mesma história para contar? Se essa história fosse de confiança, carinho, amor e empatia? Assim conversando, eles perceberam dividir várias opiniões.

Finalmente, o momento de a estrela cruzar a atmosfera chegou e sua dor foi tanta que o grãozinho de areia pensou ser incapaz de sobreviver a tamanho sofrimento! Ele sentia as dores da estrela e ela conseguia captar um pouco de sua esperança e com o que haviam conversado durante esses milênios, sabia em qual praia devia aportar, mas conseguiria? Sendo tão inerte quanto ele! Não tinha controle sobre onde cairia e se seria capaz de chegar até o pequenino grão de areia... Mas ela faria de tudo ao seu alcance para isso!

Sua queda ocorreu há alguns quilômetros. Dentro do mar. Na sua reentrada, seu tamanho foi reduzido a ponto de ser facilmente transportada pelas marés. A queda na água a fez sentir um alívio imediato, a quentura do atrito se apagou e a ex-estrela cadente agradeceu ao vasto oceano por propiciar tamanho conforto. Ao se perceber afundando, começou a gritar pelo nosso protagonista:

— Grãozinho! Estou caindo sem parar! Como faço para parar?! Onde está você?

E, o que parecia um encontro certo, passou por alguns anos de incerteza antes de, finalmente, e pela ajuda de um certo clã de gastrópodes, se realizar! A história do grãozinho tinha mesmo sido passada entre os lentos animais e, com isso, bastava à estrela comentar de sua origem para ser reconhecida e levada, lentamente, até a praia. Outros animais ajudaram no transporte e, quando a viu, o grãozinho se questionou onde estava a cor avermelhada dela; quando o viu, a estrela não acreditou no tamanho dele! Ambos tinham feito idealizações e riram por dentro ao ver que não correspondiam à realidade – de tão parecidos! Iniciaram uma conversação genuína que durou centenas de séculos. Um animal ou outro parava para conversar e dividir pensamentos, outros ajudavam os dois a não serem soterrados pela areia, mesmo sendo um fato os grãos de areia também morrerem... Na verdade, se transformarem em parte do assoalho oceânico. E, quando já não havia mais o que falar entre si, pois um pensava exatamente como o outro, quase que um tinha se transformado no outro, eles pediram para que os deixassem afundar e, depois, muito depois, apareceu a estrela-do-mar! Não uma mas centenas, todas saídas do mesmo local do oceano, todas sabiam várias histórias sobre o grãozinho de areia e a estrela-cadente que se encontraram...

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