A Origem da Energia - As Crianças do Caos
5 Personificação do mal
Notas iniciais
Não houve aula no dia seguinte, pela destruição e tumulto que os fanáticos tinham causado à escola. Vergil ficou em casa, mas resolveu dar uma volta para perto do supermercado, passando do lado de um terreno baldio. Seu bairro não era um dos mais desenvolvidos da cidade, apesar de morar na capital, mas tinha uma quantidade decente de modernismo e antiguidade. O terreno tinha um acúmulo sem igual de mato rasteiro, e era cercado por estacas de concreto com arame farpado. O sol estava já se pondo, pintando o céu de laranja e refletindo nas nuvens, deixando-as amareladas. O clima era agradável, bem úmido mas não muito quente.
Foi nesse clima de tranquilidade que notou um pico de Energia. Nem estava usando sua Percepção, mas sentiu uma mudança no ar, e achou que as outras pessoas também, pois alguns dos transeuntes pararam de chofre o que estavam fazendo para olhar. Tinha sido na rua de trás, tinha certeza. Olhou para os lados rapidamente, e notando a atenção deles para a direção, murmurou “Accelero”. Com a sensação de que o tempo havia desacelerado, correu para lá, passando feito um borrão por eles.
No meio do caminho interceptou Cole, que estava perto de uma banca de revistas. Enquanto corriam para lá, ele disse que havia ligado para a polícia, como Scott orientou, mas que não pretendia ficar parado. Confirmando com a cabeça, eles pararam de lado de uma casa de esquina, vendo o que acontecia: muitos daqueles fanáticos, até mais dos que tinham atacado a escola estavam no meio da rua de terra. Todos eles faziam dois círculos concêntricos, e estavam ajoelhados na areia. A rua era bem larga, dando para passar dois caminhões lado a lado, e mesmo assim eles a estavam ocupando toda. Encolhidos e controlando a emissão de Energia, Vergil e Cole só observavam a situação, mas não entendiam o que estava acontecendo.
Os “farrapos” do círculo de fora se levantaram e começaram a dançar, andando. Suas lanças apontavam para o céu, mas em outra hora iam para trás, num ritmo constante. A Energia da área deu outro pico, quando eles apontaram para o céu e emitiram feixes amarelos para cima. De repente, o céu que estava alaranjado ficou negro e sem nuvens. O ambiente ficou imediatamente mais pesado, parecendo que iriam sufocar todos que observavam a cerimônia. A areia pareceu flutuar como num vento poderoso, mas o ar estava estagnado. Os feixes emitidos voltaram e atingiram o chão, formando em conjunto um pilar amarelo de luz forte. Estreitando os olhos, eles só podiam observar os fanáticos esticando os braços como dando as boas vindas para algo.
Um estrondo ensurdecedor. Uma baforada de areia e pedrinhas. Vários gritos desesperados e sangue espalhado pela cratera onde estava o grupo de farrapos. Da poeira levantada veio o sinal: a Energia de lá era poderosa. Mais do que qualquer coisa que já haviam sentido no Universo. Talvez se equiparasse à de Alucard, quando ele ativou o Primeiro Nível ao enfrenta-los. Uma risada macabra ecoou por lá, feliz em o que havia acontecido. Nenhum dos dois garotos sabia de onde via, mas não era da fumaça, pois de lá se formava uma silhueta muito grande para uma pessoa. Dos detritos se levantava um corpanzil vermelho e cilíndrico, do diâmetro de um homem adulto de pé. Era muito comprido, de forma que não conseguiam ver toda a extensão. Rastejava-se com músculos poderosos, que ficavam marcados na pele sua movimentação. Seu rosto subiu da cortina temporária, revelando a cabeça triangular de uma colossal serpente. Tinha dois chifres pequenos que despontavam pelas laterais. A boca estava entreaberta, revelando fileiras de dentes muito finos e espaçados, com dois maiores na frente. Olhava para os lados, procurando algo. E assim seu olhar se fixou nos dois garotos que viam toda a situação paralisados.
— Uh-oh... – comentou Cole, engolindo em seco.
— CORRE! – gritou Vergil, jogando o amigo para o lado, pois uma chicoteada de rabo veio quase instantaneamente em direção a eles. O impacto destruiu a calçada e a parte do muro onde estavam.
Cole estava jogado de lado, mas já se levantara. Vergil estava no ar quando viu o tamanho da serpente: ela passava facilmente de um prédio de 4 andares. E estava toda enrolada onde havia aparecido. Ao pousar, viu pessoas paradas frente à visão. Quis gritar, mas não deu tempo. A cobra se contorceu em direção a ele, devastando por onde passava, e as pessoas não foram exceção, sendo golpeadas e arremessadas feito folhas ao vento. Concentrou toda a Energia que podia à sua frente e projetou um escudo triangular vermelho. A serpente bateu com força e não o destruiu, mas a força foi suficiente para arremessar o lutador através de uma casa, perfurando as paredes como se fossem papel. Felizmente não se feriu muito, mas o impacto lhe pegara de surpresa. Olhou para os escombros confuso, enquanto se levantava. Saiu da casa, ignorando os olhares inconformados e perplexos dos habitantes.
— Caelesti Sagitta Quattuor!— ouviu o grito de Cole assim que voltou para a rua. Quatro virotes feitos de Energia atingiram o corpo da criatura. Não pareceram fazer muita coisa além de deslocar levemente a pele dela, mas chamara a atenção para si. Saltou para o lado, evitando a investida poderosa. Perto dele havia ainda uma das armas dos fanáticos. Resolveu aproveitá-la. Enquanto isso, viu Vergil saindo da casa e sem hesitar pulando em direção à cabeça do monstro. – Você tá doido?!
Vergil não respondeu; estava pensando na melhor maneira de derrubá-la. Preencheu o corpo com Energia, preparado para golpear, mas viu a ponta do rabo que havia lhe atacado chegando mais perto. Com a mente a mil, sentiu o tempo desacelerar, dobrando o corpo e as pernas, dando um impulso em pleno ar. O movimento gerou um estrondo sonoro poderoso, mas não parou por aí. Desviando da chicoteada ligeira, se impulsionou de novo e pôs o máximo de Energia na perna.
— Terrenus Contumelia!— um estrondo ecoou por todo o bairro quando o chute reforçado de Energia bateu contra a cabeça da serpente, atirando-a para uma outra casa e derrubando postes de energia. Escombros se moveram quando ela se levantou imediatamente, rodando o corpo. Abriu a bocarra e cuspiu uma substância incolor em direção ao lutador. Conjurou o escudo, defletindo o líquido para frente, que caiu no chão e chiou, soltando uma fumaça aparentemente tóxica. Correu circulando o monstro, procurando algum ponto fraco.
— Caelesti Lamnia!— a ponta da lança brilhou fortemente e, segurando com as duas mãos, Cole executou movimentos circulares. De cada sacudida voava uma lâmina veloz até a besta. Cada talho parecia fazer algo, marcando cada vez mais as escamas. Acuada pelo constante assalto, a serpente rugiu. O barulho era ensurdecedor, forçando os dois a cobrirem as orelhas com as mãos e fechar os olhos em dor. Sem enxergar pela agonia, Vergil e Cole foram vítimas do golpe de corpo da criatura, sendo jogados para longe. Girando descontrolado, o lutador concentrou Energia na mão e materializou um chicote escarlate, se prendendo num poste antes de ser jogado mais longe. Cole havia fincado a lança no chão, sendo arrastado e abrindo uma fenda pelo caminho. A arma mal resistiu ao momento, mas as tiras reforçadas de aço fizeram seu trabalho.
Poeira e escombros reinavam no ambiente. Haviam algumas pessoas mortas pela rua, e outras ainda paralisadas pela visão. Carros estavam amassados e arremessados por todo lado, bagunçados pela batalha. Assim, que desceu do poste, Vergil balançou a cabeça. Não iria deixar esse monstro matar mais ninguém, mesmo que fosse se ferir. Sua determinação estava lhe dando forças, sentindo um calor por todo o corpo. Cole estava se recuperando quando sentiu a potência de Energia do amigo. Até a serpente hesitou por um momento, mas imediatamente cuspiu de novo a substância ácida. Ela bateu no chão e evaporou a areia, mas o garoto não estava mais lá.
— Caelesti Spiculum Decem!— gritou Vergil do ar. Lanças feitas de Energia foram criadas acima da cobra e desceram imediatamente, perfurando nos locais onde Cole havia acertado os cortes em projétil. Sangue espirrou do ataque, o que fez ela rugir de novo. Alertas, os dois protegeram as orelhas. Algumas pessoas caíram desmaiadas.
— Temos que tirar esse monstro daqui! – gritou Cole, enquanto disparava mais projéteis de sua arma com movimentos circulares, tentando chamar a atenção dela.
— Eu-- — disse Vergil, antes de ser interrompido por uma investida que o forçou a desviar. O golpe abriu um carro em dois – Tô... Tentando!
Sem ideia de como conseguir tirar ele de lá, mas determinado a fazer algo, o lutador chegou perto da parte final dela e começou uma rajada de socos, chutes, cotoveladas e joelhadas. Os impactos não faziam muito por si só, mas o acúmulo de cinética estavam fazendo o corpo da cobra começar a se deslocar, e com um chute de Energia especialmente poderoso, a ponta do rabo voou alto. Ao se virar para a inconveniência que estava lhe atacando, a serpente foi acertada com a própria cauda no rosto.
Virou o rosto encolerizado para o garoto, e investiu muito mais rápido que antes, rastejando com tanta força que, por onde passava, a rua era escavada da mesma forma que máquinas faziam para instalar esgoto. Vergil fez como pôde, segurando a mandíbula do monstro com ambos os braços e pernas, usando toda sua força e Energia para isso. Depois que viu a cena, Cole correu e empurrou a lança na boca dela, dando a brecha que precisava para tirar o lutador de lá, encaixando-a na abertura. Puxou ele bem a tempo de escutar o metal dobrar e a madeira arrebentar. Ela sacudiu o rosto, atirando os pedaços para o lado e atacou novamente.
— RAAAHH! – urrou Cole, mirando um soco na investida que veio. Um clarão cegou momentaneamente todos ali, exceto o garoto e a criatura. De um lado estava o mago com o punho fumegante. Do outro estava a cobra com o rosto virado, uma marca gigante de dedos gravada nas escamas, também fumaçando. Em meio aos arquejos, Vergil sentiu a Energia do amigo se elevando. Viu o corpo dele sendo envolvido em bolhas de cor cinza, se juntando cada vez mais e lhe cobrindo totalmente num fluido de poder. Com uma ventania, o Primeiro Nível explodiu e a serpente recuou um pouco, mas avançou logo em seguida.
Cole executou um soco de baixo para cima, disparando um punho de Energia gigante que quase acertou o oponente, mas ela parou no último segundo. Mas o assalto não parou por aí, com ele efetuando mais e mais socos, fumaças brilhantes sendo criadas em todo lugar e sendo disparadas em forma de punho contra o monstro. Mesmo não vendo de onde partiam, ela estava desviando de grande parte delas, se contorcendo em posições bem difíceis. De repente, o garoto cessou a torrente de ataques, sentindo muita dor e seu fluido sumindo.
— O que foi, cara?! – perguntou Vergil, indo ampará-lo.
— N-Não sei... Eu tava bem, mas tô com o sangue gelado de repente – respondeu ele entre arquejos.
Não fazia sentido: Cole estava do seu lado, mas seu corpo estava extremamente quente, com fumaça visível saindo de sua pele. Criou um escudo em domo ao redor dos dois, bloqueando a abocanhada que o inimigo deu. O impacto foi muito forte, esgotando suas reservas de Energia. Não aguentaria muito mais dessas, mas não viu nada nem ninguém que pudesse ajudar. Corpos de pessoas, destroços de carros, escombros de casas e uma nova topografia de rua eram os seus arredores. Se preparou para outro golpe, e sua proteção estilhaçou. Numa tentativa desesperada, reuniu o pouco de Energia que tinha e gritou “Caelesti Sera!”, mas o disparo de Energia fez apenas com que ela virasse o rosto e voltasse ao ataque.
Um calor surgiu na sua frente. Ao olhar, chamas brilhantes e vermelhas circulavam em um tornado violento que parou o inimigo. Quase cego pela luz, Vergil e Cole mal conseguiram ver o que era que tinha os protegido. Só escutou uma voz de lá.
— Use a Energia. A sensação vai passar.
Vergil ficou sem entender, mas Cole pegou o recado. Mesmo todo contraído de dor, esticou os dedos da mão e sussurrou “Caelesti Sagitta”: sentiu todo seu corpo ficar normal novamente, a sensação ruim sumindo na hora. Uma flecha feita inteiramente de água partiu de sua mão e voou em direção à cobra. Não a atingiu, mas não tirou a surpresa dos dois jovens.
— Eu acabei de usar Água?!
— Você acabou de usar Água?!
Mas a surpresa acabou por não durar muito: em meio às violentas chamas, mais acima, bem perto da serpente, surgiu uma pessoa que Vergil se lembrava bem. Vestida com uma camisa social branca, saia social preta e sem sapatos, a loira de olhos arroxeados que havia lhe ameaçado nos primeiros dias de aula estava flutuando no ar. E também não havia esquecido de quando ela arremessou um caminhão em sua direção. Ao vê-la, a cobra se acanhou, como se também tivesse medo dela. Flutuava em pleno ar, sentada numa cadeira invisível com os cabelos esvoaçando. Ela começou a falar, e sua voz soava como se estivesse do seu lado, sendo magicamente ampliada.
— Eu avisei que teriam consequências, Vergil Gadson.
O garoto não conseguiu responder, só grunhindo em frustração. Ele não fazia a menor ideia de quem era a irmã dela, e mesmo assim ela havia soltado suas aberrações contra ele. O que mais lhe deixava com raiva era ela ter envolvido pessoas comuns nisso.
— Não sei o que fiz para você, mas não envolva inocentes nisso! – gritou, se levantando.
— Tarde demais, garoto. Você deve morrer pelo seus crimes.
— Sabe que não permitirei isso, Dyne – disse a voz do tornado, que começou a se dissipar. A silhueta foi ficando mais definida, mostrando que era uma mulher alta e curvilínea. Quando as chamas sumiram, nem Vergil ou Cole esconderam a surpresa ao ver que era Niéle.
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