A Origem da Energia - As Crianças do Caos
7 Herdeira do Caos
Notas iniciais
A luz do transporte o cegou por um instante. Imediatamente, sentiu um frio cortante, pondo as mãos nos braços, esfregando-os para se esquentar. Tinha a sensação que entrara numa geladeira. Deu um passo e sentiu que estava pisando em algo que parecia gelo raspado: todo o chão estava repleto de neve.
Vergil olhou para os flocos brancos com uma mistura de sentimentos de perplexidade e curiosidade. Nunca havia visto neve na vida, e tudo era muito fascinante. Por alguns segundos, esqueceu-se de como havia chegado ali e ficou olhando e tocando, curioso e maravilhado. Assim que retomou a postura, lembrou-se que estava com muito frio e olhou ao redor, procurando sinais de civilização em meio à imensidão de montes brancos e montanhas despontando de trechos de grama baixa e verde. A cordilheira rodeava um semicírculo atrás de si, com uma pequena passagem congelada no meio dela. O vale em que se encontrava tinha algumas poucas árvores sem folhas e de tronco retorcido. Acostumado com a paisagem de sua cidade e Ryokun como se lembrava, achou o local exótico e ao mesmo tempo fascinante. Foi aí que se deu conta que estava uma pessoa caída ao seu lado: era Niéle.
Primeiro, ficou aliviado por encontra-la, a missão que tinha dado para si mesmo. Depois veio a indignação, por ela ter escondido sobre quem era, e sua relação com Ryokun e a executiva do mal. Mas por fim a razão venceu, pois ela estava parada no lugar, sem se mexer. Tradou pelo espaço que os separava e a puxou com um solavanco, pondo seu braço por cima do ombro. Ela parecia estar bem, só inconsciente. Observou e usou a Percepção, mas não viu mais ninguém. Perguntou-se onde Cole havia ido parar, já que não tinha tanto tempo que eles decidiram entrar na torre. Felizmente não estava ventando, o que deixava o frio mais suportável. Apesar disso, não iriam durar muito tempo nessa temperatura se não encontrassem logo um abrigo. O céu, rajado de laranja e repleto de nuvens, contava regressivamente os minutos restantes de vida. Quando a luz estava quase fenecendo, encontraram uma cabana coberta de neve e aparentemente abandonada. Adentrou chutando a porta, que caiu com facilidade e bateu rangendo na madeira.
A cabana era pequena, mas resistente. Era feita de madeira de ipê, pela cor escura da casca e interior claro. Possuía algumas janelas, mas estavam barradas com tábuas toscamente pregadas. Encontrou uma armação de cama, uma mesa velha e dois restos de cadeira, fora alguns pedaços e estilhaços de madeira soltos. Deitou a menina com cuidado na mesa e foi recolocar a porta. Forçou um pouco, mas conseguiu reposicioná-la no arco. Agora que estavam abrigados (ou algo parecido), ele respirou fundo e acessou sua Energia. Mesmo que ele não tivesse mais uma transformação de elementos como Cole, ele podia circular a Energia pelo corpo. E sabia que isso esquentava, pelo próprio esforço físico. Sentou precariamente na cadeira que estava mais inteira e apontou as mãos para ela. Sua Energia ficou visível, uma luz vermelha cobrindo suas falanges. Concentrou-se, tocando de leve no ombro e na cintura dela. E então fez seu fluxo circular com ela, como tinha feito com os amigos para mostrar a Energia. Com a respiração liberando vapor, manteve o contato até que pudesse deixa-la quente. Sentia o fluxo ir de uma mão e chegar na outra, mas não estava notando a temperatura dela aumentando. Resolveu aumentar o contato, tocando na testa dela e a outra mão no abdômen. Ficou um pouco envergonhado, mas tirou esses pensamentos, já que a vida dela podia estar em perigo. Essa mudança pareceu fazer mais efeito, já que a temperatura dela estava estabilizando. Vergil permaneceu com o contato por alguns minutos, respirando fundo pelo esforço. Praticamente suando, não notou quando ela abriu os olhos e se viu naquela situação. A garota deu um grito agudo e o empurrou para longe, cobrindo o peitoral com os braços e parecendo ofegante.
Como se tivesse sido combinado, Vergil sentiu um ponto de Energia atrás dele, se virando imediatamente. Quando Cole adentrou a cabana, derrubando a porta, ele ficou aliviado, mas o garoto não estava tão bem: repleto de neve pelo corpo, as extremidades avermelhadas e muito ofegante, ele parecia que estava dentro da nevasca e tinha brigado com algum animal. Estava segurando na mão o que parecia ser um bastão branco, mas ao notar mais detalhes se via que era o cetro que Niéle estava usando depois de se revelar.
Só que Vergil não teve tempo de fazer muita coisa, pois o amigo deu um urro e estava correndo para cima da garota, o que forçou o mais alto a segurá-lo.
— Uou! Calma, cara! – disse Vergil, enquanto grunhia para segurar o avanço de Cole. Por mais que ele fosse de Alteração e um pouco gordo, Cole tinha bastante força.
— Não me segura! Ela vai ver só! Não saí de dentro do gelo para você me parar!
— Se acalma!
— Não, ele tem razão... – os dois pararam quando Niéle falou, olhando para o lado e envergonhada do que tinha feito – Eu não devia ter feito isso, e devo ser punida. Burra! BURRA!
Torceu a expressão de tristeza para raiva e começou a socar o rosto sem pudores e a puxar o cabelo, se machucando. Vergil soltou Cole imediatamente e foi conter os punhos dela. Ela tentou forçar e lhe atacar, mas não tinha forças para isso, nem vontade.
— Deve tá pensando que sou hipócrita... – disse Niéle, de súbito.
— Pode apostar que sim, sua--
— Cole... – censurou Vergil, numa expressão séria. Cole ficou bufando, mas entendeu a mensagem.
— Eu não queria esconder nada, mas ela... – e sua voz estremeceu quando pensou em falar da executiva – Vergil, Cole... Vou lhes contar tudo. Depois, deixo meu destino nas mãos de vocês.
Vergil acenou com a cabeça, e Cole também, apesar de não parecer convencido. Recolocaram a porta da cabana e puseram os restos das cadeiras na ladeira. A garota fez um gesto tímido com a mão e pequenas fagulhas brotaram de lá, incinerando a madeira. O calor foi bem vindo, já que os dois garotos estavam vestidos de forma tropical, e não preparados para esse frio.
— Aquela pessoa... É minha irmã – falou devagar, os cabelos cacheados cobrindo parte do rosto, como se tivesse vergonha do fato.
“Meu nome completo é Niéle Hudson Dorman. Conheci vocês, os Heróis da Profecia, no dia que invadiram o castelo. Meu pai, Alucard, nos mandou para longe, para que não víssemos o confronto que se seguiria... Assim que soube o que aconteceu com ele, Geardyne, minha irmã, os procurou para conseguir sua vingança. E refez seus passos até chegar no Universo, usando o ancião para isso. Daí, me deixou sozinha aqui, à mercê dos mercenários e caçadores querendo derrubar a monarquia de meu pai. Felizmente, consegui fugir para Universo antes que fizessem algo. Escondi meu sobrenome e tentei sobreviver no mundo de vocês. Foi aí que descobri que vocês estavam naquele... ‘Colégio’.”
Vergil ficou pesaroso e confuso. “Se ela tinha entrado no Universo, como havia lhe encontrado? O Brasil era muito grande, e o mundo nem se falava. E mesmo se tivesse o encontrado logo, porque ela não havia feito nada, mesmo sabendo de tudo que fizera?”. Cole foi o primeiro a falar:
— Por que então você entrou no colégio, já que estava atrás de nós? Imagino que seria muito fácil para você cuidar da gente com suas... Chamas e tornados de fogo.
— Eu tinha que ter certeza da sua motivação – respondeu a garota, retornando o olhar firme de Cole – Não me entendam mal: fiquei muito triste ao saber do ocorrido, mas meu pai era um homem cruel e impetuoso; além de nunca ter me aceitado como sou, não nos via como filhas e sim como ferramentas e soldados. Dyne não via isso; só admirava o homem que ele era cegamente, ignorando todo o abuso verbal que falava.
— Desculpe por isso. Deve ter sido doloroso falar... – disse Vergil, apologético.
— Na verdade, tirou um grande peso que tinha em mim – respondeu ela com um sorriso e mostrando o rosto. Estava sujo e um pouco ferido, mas mesmo com os olhos marejados, ela estava radiante. – Dyne era tão obcecada com ele que não aceitou de forma alguma ele ter morrido. Foi como se tivessem tirado o deus dela, a única coisa que ela acreditava. Por isso, Vergil...
Ela se aproximou e pegou as mãos do garoto. Não precisou dizer nada. Seu olhar era suplicante, como o de alguém que viu e quer esquecer coisas terríveis que vivenciou. Que precisa de algo para se livrar dos problemas que teve que suportar. Que precisa ter alguma esperança no que irá acontecer, um futuro ao qual acreditar.
— Não se preocupe, Niéle: prometo que vou lhe ajudar – disse Vergil com determinação. Nem bem sabia porque havia dito aquilo. Ele não era uma pessoa conhecida por assumir esse tipo de compromisso, mas algo no olhar dela disse que estava sendo sincera.
Vergil olhou por cima do ombro para o amigo. Sua expressão era neutra, em contraste com o que tinha acontecido. Pareceu acreditar no que ela falava, mesmo que a contragosto. Levantou-se da cadeira, que rangeu nervosamente, se aproximou com o cetro e o entregou de uma forma súbita à garota.
— Tome... Acredito na sua história, mas não pense que lhe perdoei ainda. Vergil confia em você, e é suficiente para mim.
Quando ela pegou a arma, sem entender, ele manteve o aperto, sem querer entregar. E isso se fez verdade quando ele se aproximou bem do rosto dela e disse um pouco mais baixo.
— Vergil é meu amigo, quase meu irmão. Se você fizer algo que falhe com ele, eu vou ter a certeza de acabar com você...
A garota engoliu em seco, e segurou fracamente o cajado, que quase caiu ao lado. Cole recuou e ficou olhando pela fresta da janela. A nevasca havia passado, mas ainda estava bem frio lá fora. A noite caía pesada, a escuridão bloqueando qualquer procura.
— Então, o que vamos fazer para passar a noite? – perguntou Cole, sem tirar o olhar.
— Essa madeira não vai durar pela noite, e não temos como todos dormir nesse resto de cama – disse Niéle, ainda esfregando os braços para se esquentar um pouco.
— Eu tenho uma ideia, mas vamos ter que confiar uns nos outros pra isso – disse Vergil, determinado. Ambos olharam para o garoto, na expectativa.
“Posso gerar um pouco de luz com minha Energia, ou mesmo Niéle pode fazer isso com o fogo. Estimo que uma árvore daquelas deve ser o suficiente para passar e esquentar a noite. A cabana não é tão grande e o chão é de madeira, logo não deve esfriar mais que isso. Vamos ter que derrubar uma árvore e carrega-la para dentro, só que não consigo carrega-la sozinho.”
— Hmpf – bufou Cole – É melhor que nada. Vamos logo.
Os três saíram da proteção e puseram os pés no gelo de fora. A temperatura estava bem mais fria de quando chegaram, mas as árvores não estavam tão longe. Prevendo isso, Niéle sacudiu um pouco a ponta azul do cajado e um escudo transparente barrava os cristais de gelo ao redor deles, até mesmo dos pés, revelando o chão enegrecido e úmido. Agradecido, Vergil levantou o punho e uma esfera de luz vermelha do mesmo tamanho se elevou e ficou acima da cabeça deles, iluminando num círculo de 5 metros de raio. A visão era um pouco prejudicada, mas era possível ver alguns detalhes. Ao chegar na base da árvore mais próxima, Vergil fez menção de usar a Energia, mas percebeu Cole pedindo espaço:
— Isso vai ser mais rápido, acredite em mim...
Estranhou o comentário, mas se afastou junto com Niéle. A iluminação permaneceu na altura de sua cabeça. Cole esticou o braço para trás, fechando a mão, mas deixando dois dedos apontados para fora. Uma concentração de Energia ficou visível na ponta deles, a aura azul tomando forma de uma ponta de lâmina. Girou o braço num movimento único e arqueado, com eles escutando um barulho de zumbido. Em instantes, a árvore começou a escorregar e caiu para o lado, cortada exatamente onde a mão dele passou. Cole estava um pouco ofegante, mas levantou o braço em afirmação. Vergil foi até o tronco e tentou levantar, sem sucesso. Seu amigo tentou ajudar, sem muita diferença, enquanto Niéle olhou confusa:
— Por que vocês estão tentando levantar o tronco sem Energia?
Os dois garotos se olharam, amaldiçoando a estupidez. Conseguiram levantar o tronco depois da recomendação com bastante facilidade, caminhando até a cabana, onde cortaram com o corte pressurizado de água de Cole e jogaram as lenhas para incinerar. Estando abastecidos pela noite, fizeram turnos de descanso, mas nunca deixando a garota sozinha. Em um dado momento, quando Cole dormia na cobertura da cama (eles cortaram as pernas da mesa e improvisaram uma superfície para deitar), Vergil e Niéle conversavam.
— Uma coisa que me deixou curioso: você realmente controla Fogo e Água?
— Sim, bem... É algo que não tenho muito orgulho...
“Por ser uma das filhas de Alucard, que é um dos maiores Sensitivos que Ryokun já viu, tanto eu e minha irmã temos muita Energia.”
Vergil concordou com a cabeça, recordando da presença que a mulher tinha na Energia, quando usou a Percepção pela primeira vez no Universo.
— No meu caso, eu era conhecida pelo pessoal do castelo como “Herdeira do Caos”... Se juntar os dois elementos, você acaba provocando uma das formas mais puras de Energia. Mas é muito difícil ainda assim...
— Imagino que seja...
Ela olhou para ele não muito convencida.
— Que conversa é essa? Você usa Raio.
— “Usava” seria um termo mais correto – e olhou para a mão, enquanto sua Energia movia e dançava pela palma, estalando, mas sem aquele ímpeto relampejante que sempre teve – Depois que voltei, algo aconteceu e não sei usar mais nada disso. Espero que ainda seja eficiente no que quer que apareça...
— Tenho certeza que vai ser. Não se ponha tão pra baixo.
Ele deu um sorriso leve, e voltou seu olhar para a frente, encarando a lareira.
— Sabe onde estamos? – perguntou Vergil, se movimentando direto para manter a irradiação no corpo.
— Frio desse jeito, só pode ser em Arteris... – respondeu a menina com simplicidade.
— Arteris? Não lembro desse lugar... Estamos mesmo em Ryokun?
Ela deu uma risada leve e divertida antes de responder.
— Sim, se você considerar que Ryokun é o mundo. Arteris fica ao norte do continente que conhecemos, e é conhecido por ser bem frio. Nunca vim pra cá, mas já li a respeito. Devemos encontrar algum porto pela manhã, ao sairmos daqui.
O garoto acenou com a cabeça, mas o sono já o castigava. Niéle não estava muito distante também, e mesmo tendo que avisar a Cole para ele cuidar da vigília, ambos adormeceram, com as costas na parede de madeira. O fechar de olhos foi rápido na sua concepção, pois assim que os abriu, viu os raios de sol passando pelas frestas da madeira. Vergil bocejou e tentou reconhecer o ambiente.
Não era sonho: eles estavam mesmo na cabana de madeira, no continente frio e tinham derrubado a árvore para esquentar a lareira, que estava quase nas fagulhas finais. Mas nesse momento era o que menos importava, pois se viu numa situação embaraçosa: durante a noite, com o sono pesando seus membros e pensamentos, ele havia dormido sentado. Seria normal se Niéle não tivesse escorregado pela parede e deitado a cabeça nas suas pernas. Estava encolhida e serena, dormindo sem preocupação. Virou a cabeça para cima e viu Cole também dormindo, se remexendo desconfortavelmente na mesa da armação da cama. Seu rosto ficou vermelho na hora, e tentou se mexer para sair, mas a garota estava bem resoluta em permanecer ali, se aninhando ainda mais. Pondo a mão no rosto em frustação, tentou cutucar Cole, mesmo se arrependendo do que viria depois.
— Psiu! Ei! – sussurrou o mais veementemente que pôde, enquanto estocava o amigo com a ponta do indicador. Escutou gemidos de sono, mas viu Cole se levantando e esfregando os olhos.
— Já é hora de trocar a ronda? – falou preguiçosamente, enquanto se esticava e procurava os óculos para equilibrar nos olhos. Nesse momento, ele viu a situação e seu rosto passou de surpresa para análise, terminando em malícia – Assim, se você quisesse a “cama” para isso...
Vergil fez menção de falar, mas Cole sacudiu uma mão em dispensa, se levantando.
— Eu sei, eu sei, mas não posso perder a oportunidade...
O garoto deu um sorriso amarelo, enquanto viu o amigo pegar um tronco e jogar na ladeira. O barulho deu um susto na garota, que levantou rapidamente sem entender. Depois de se organizarem em meio a uma Niéle muito confusa e dois garotos bem mal agasalhados, eles saíram assim que o tronco foi virando cinzas. A paisagem mudou ligeiramente de quando entraram, com um pouco menos de neve e o sol forte no horizonte, mas ainda tinha o problema de não saberem o caminho ou se havia civilização por perto. Olhando ao redor, Niéle fez uma busca, mas foi Cole que notou que havia um caminho mais rebaixado, provavelmente utilizado pelos habitantes para transporte. No trajeto tortuoso, encontraram algumas carroças, puxadas pela força animal de um touro-bétula, segundo ela. O animal lembrava mais um bisão que um touro, repleto de pelos sobre pelos, como camadas de um grande lençol grosso. Seus chifres eram pequenos e quase escondidos, contrastando com o focinho grande. O corpanzil marrom trotava pela estrada com agilidade, vencendo a temperatura e as irregularidades com destreza não esperada para um animal daquele porte. Com a ajuda desses viajantes ocasionais, eles conseguiram chegar à cidade portuária de Esquife.
Esperavam encontrar uma pequena doca de onde crescia uma pequena vila de pescadores, pela própria desolação do lugar. Assim que passaram ao lado de uma imensa montanha e desceram o vale, encontraram uma verdadeira metrópole: ruas largas construídas com blocos quadrados amarelos, juntos com areia. Casas se estendendo por todo o vale e alcançando a praia, feitas de tijolos escuros e telhados com inclinação elevada. Galpões extensos ficavam no porto, próximo ao mar, um colossal espelho azulado recortado com placas brancas de gelo.
Nas ruas, enquanto andavam, viam algumas pessoas vestidas com grossas roupas de algodão, de cor principalmente escura. Eram alvos e de olhos claros na sua maioria, apesar de haver suas exceções, como cabelos pretos ou pele morena. Não viram guerreiros ou Sensitivos por perto, o que os tranquilizou. Não parecia haver necessidade de tanto poderio militar aqui como no continente tropical, como se o clima fosse desafio o bastante para os habitantes.
— Você sabe como chegaremos à Ryokun daqui? – perguntou Vergil, enquanto se escondia do frio com Cole, perto de uma loja de roupas.
— Ainda não. Precisamos de dinheiro para chegar lá, pelo menos. – respondia Niéle, esfregando a palma das mãos, fazendo o fogo nelas dividir e espalhar, retornando à forma de chama única quando terminava – Não acho que os mercadores daqui fretariam uma viagem para nós de graça.
— E como vamos fazê-lo? Tem uma arena ou coisa parecida aqui? Ou sei lá, algo pra coletar?
— Hm... – ponderou a garota – Da última vez que vi, tinha algo assim perto do mercad--
Um som quase imperceptível e um brilho oportuno do sol foram sinais detectados por Vergil, que havia tirado o amigo e a mulher do caminho de uma faca peculiar, com lâmina em losango e feita de ferro escuro. Havia algo enrolado no cabo, limitado pela lâmina e argola na outra extremidade. Não chegou a ler o papel, porque a arma explodiu em fumaça e som, os jogando para longe dali. Aproveitando a adrenalina correndo pelo corpo e a aceleração ativada, procurou pela direção o autor do ataque enquanto os outros se recuperavam do atordoamento. Distinguiu apenas uma fumaça verde translúcida em forma de gente por um instante, até que ela se moveu numa velocidade tão grande quanto a sua. Saltou para tentar alcançar, e para sua surpresa, se elevou a mais de 30 metros de altura, mais que um prédio de 10 andares, conseguindo vislumbrar a cidade praticamente toda. Pelo canto de olho, viu a fumaça tomar forma de uma pessoa, mas não teve tempo de prestar atenção nos detalhes: outra faca, com o mesmo papel enrolado vinha em sua direção, com a lâmina cintilando pela luz do sol. Instantaneamente, Energia fluiu para a ponta de seus dedos em várias linhas, se enroscando e formando um revólver de 6 tiros de cor vermelha, disparando logo em seguida na arma arremessada. A explosão do contato pairou no ar, mas não lhe jogou para trás. Aterrissou formando uma pequena cratera, mas não se machucou nem nada.
Apesar disso, não deu trégua para o oponente: mirou a arma em sua mão e disparou incessantemente, flashes avermelhados saindo da ponta do cano e liberando os projéteis em altíssima velocidade, provocando um estrondo sonoro. Um dos últimos tiros acertou o alvo, e interrompeu o movimento. Cole surgiu no ar, pouco acima do amigo, com as mãos juntas em um único punho, e gritou:
— Aqua Malleo! – logo acima dele, um grande martelo aquoso se formou imediatamente e desceu, batendo no indivíduo e o mandando para o chão. Porém, antes de se impactar, conseguiu se recuperar e se restabeleceu, arqueando as pernas e dobrando bastante os joelhos.
Não era um homem como haviam imaginado, e sim uma mulher, não muito mais velha que eles. Tinha cabelos de um ruivo intenso, quase roxo, com uma franja a cobrir um dos olhos, encobertos por um capuz. Seu rosto era também triangular, mas estava encoberto por um pano preto que se conectava com a roupa. O olho que se via era de uma íris prateada, com um pouco de verde e pupila fendida. Sua vestimenta era toda camuflada de tons brancos e azuis, com o tecido justo ao corpo para fazer o mínimo de barulho ao percorrer o ar rapidamente. Em seus braços, estavam as empunhaduras das facas que usara para atirar, assim como na cintura e nas pernas. Seu corpo era baixo, não aparentando ter mais que 1,60m. Tinha braços fortes, mas não volumosos e torso estreito, contrastando com o grande volume das pernas.
Ela mantinha um dos braços nas costelas, sustentando a respiração. Sua pele branca era mostrada pelos rasgos provocados pelo movimento. Suava na lateral do rosto e encarava o lutador procurando uma brecha. Sem perder os olhos dela, o garoto pronunciou, apontando a mão:
— Caelesti Eruptio!— sua Energia se juntou na palma da mão, mas subitamente parou, forçando-o a se ajoelhar. A ninja aproveitou a deixa para fugir, mas não sem antes usar uma bomba de fumaça para impedir os olhos sobre ela. Praguejando, Vergil tentou persegui-la, mas já havia sumido de seu alcance. Cole também tentara, mas era muito rápida. Caminhou forte até a calçada e se sentou, ignorando as olhadas que as pessoas da rua lhe davam. Niéle se aproximou, mas não puxou conversa. Assim que ele se acalmou, ela disse:
— Não se preocupe.
— Como não? Chegamos aqui e já fomos atacados por um assassino. Assassina, que seja...
— Mercenários sempre estão atrás de vocês, ou já se esqueceu? – disse, olhando fixamente nos seus olhos e bem próxima – Vocês, os Heróis da Profecia, estão sendo caçados por minha irmã. É natural que tenha mais alguém atrás de você.
— Tá, tá, entendi – respondeu, carrancudo. Uma olhada de Cole bastou para que ele se focasse.
— Ela tá certa, cara. Não se encuca com isso...
Foram até o porto, onde viram as pequenas e grandes embarcações sendo ajudadas pela força dos marinheiros e práticos, descarregando mercadorias e parando para uma noite de reparos. A confusão de pessoas era enorme, e ficava difícil procurar alguém com quem conseguir informações. Por fim, desistiram, indo até o mercado, com suas barracas dispostas num labirinto de estandes com os variados peixes e camarões da área. Algumas vendiam frutas e verduras, mas pelo aspecto eram importadas do outro continente, já que nessa época gelada não se plantaria nada por aqui.
Encontraram mais à frente uma estalagem pequena, diretamente na entrada do mercado. Tinha uma fachada modesta e de cor clara, contrastando com o resto da cidade. Tinha escrito numa placa mais acima, “Sequoias Sorridentes”.
— Com licença...? – começou Vergil, avistando o recepcionista grande, careca e de barba espessa, com braços roliços como troncos. Este espanou o pano que levava no ombro e prosseguiu a limpar o balcão com ele, envolto na sua grande mão.
— Sim, o que desejam? – falou em uma voz nem amigável, mas tampouco hostil, levantando um olhinho apertado em direção aos três.
— O senhor sabe como fazemos para chegar nas Escarpas, em Ryokun?
— Hm... – ponderou o homem por um instante – É bem longe...
“Vocês vão ter que pegar um barco até a cidade de Cosy e atravessar a estrada e montes por uma estrada quase abandonada. Vocês podem se informar no porto quando alguma embarcação vai pra lá.”
— O porto está uma confusão só. Não há ninguém que possa nos ajudar lá.
— Perguntaram sobre Bernard?
— Quem?
— Bernard Trassius, o auxiliar de administração do porto. Ele quem detém quem vem e quem sai, inclusive os destinos de cada. Vocês vão o encontrar na Junta Marítima.
— Obrigado, senhor – disse Cole, se dirigindo à saída.
Caminhando pelas ruas, não demoraram a encontrar a tal junta: um pequeno prédio, não maior que uma simples casa, estava empoleirado numa baixa elevação de madeira em treliças, com uma pequena escada de 5 degraus. Vergil e Cole tomaram a dianteira, deixando Niéle um pouco atrás. Bateram na porta e viram um sujeito baixo, com nariz protuberante, óculos de aro de arame, olhos e cabelos pretos, com feições que lembraram um cachorro da neve. Ele escrevia as coisas em papéis grossos com uma “caneta” de ponta suja de tinta preta. Assim que Cole juntou ar para falar, ele levantou um dedo em espera. Poucos segundos depois, ele baixou a caneta e olhou diretamente para eles.
— O que querem?
— Saber qual navio vai para Ryokun – disse Cole com determinação. Seu forte era a negociação.
— Comporta 2, um barco comercial de média carga. Partirá em dois dias. Comporta 5, um navio privado. Partirá essa noite. Comporta 6, uma barcaça privada. Partirá em um dia, nessa mesma hora de agora.
— Obrigado...
— Onde há um quadro de missões? Precisamos de dinheiro... – perguntou Vergil.
— Há um em frente à taverna “Gelo de Ferro”. Não tenho conhecimento de nenhum outro. Agora, se me dão licença...
Com o cumprimento de todos, ele respondeu com uma mesura. Com o caminho traçado, o grupo chegou ao local e procuraram algum trabalho que pudessem executar. Aproveitando que ainda era tarde, foram imediatamente. À noite, voltaram exaustos, mas com a Fruta de Iara, uma variedade que crescia no Vale da Provação nos intrigantes pinheiros-d’água. Para consegui-la, esperaram até a luz da lua iluminar todo o Vale e iniciar um vigoroso jogo de feixes azuis, refletindo no topo de cada uma. O Fruto ficou visível logo depois, uma conjunção de morango (sem as sementes na casca) com manga (pelo tamanho e suculência) e a cor azul.
O pagamento de 2.600 Stips foi mais que suficiente para comprar novas vestimentas, armas, a estadia pela noite e a passagem para o continente de Ryokun. Vergil conseguiu um sobretudo grosso de pelo de lobo-pontar, sendo preta rajada de branco, Cole pegou uma parca camuflada de branco e azul, com uma calça mais pesada de cor caqui, e Niéle um casaco de couro do touro-bétula marrom. O amigo mais baixo pegou duas espadas japonesas de comprimento menor, para poderem ser usadas em conjunto. Já Vergil, capaz de criar armas sólidas com sua Energia, preferiu apenas braçadeiras e perneiras de metal leve. Com o tempo passado, eles falaram com o dono da embarcação, um sujeito baixo e gordo, trajado com roupas e panos chiques coloridos, com vários anéis em cada dedo de cada mão. Havia sido arrogante, mas concordou em leva-los até Cosy, de onde iriam partir para as Escarpas (Cole quase o atacava depois de um insulto particularmente ofensivo). No trajeto do barco, Vergil resolveu perguntar mais à garota, já que não estava entendendo muito do que estava acontecendo.
— Você sabe quem pode ser aquela assassina? – Cole estava bem entretido conversando com os marinheiros, enquanto aprendia como mexer nas várias cordas que movimentavam a vela.
— Hm – pensou ela antes de continuar, debruçando-se sobre o parapeito do navio, que rasgava preguiçosamente sobre o espelho imutável de água, com apenas neblina e um fraco sol no alto, iluminando debilmente o convés, o que dava a impressão que eram um navio espectral e o dia não havia chegado, mesmo com o céu estando aberto na partida. – Não sei dizer, desculpe – respondeu, sem graça.
— Não precisa... – avisou ele, apoiando os cotovelos no parapeito e ficando de costas para o mar, olhando o outro lado do convés, à bombordo – Só gostaria de saber o que diabos está acontecendo...
“Sei que muitos querem minha cabeça... Não queria fazer nada daquilo... Sinto-me estranho também... Antes, em meu mundo, eu me sentia bem normal, apesar de ser um Sensitivo. Agora, em Ryokun, desde que cheguei, eu me sinto muito mais forte, muito mais ágil, muito mais resistente, o que não faz sentido.”
— Isso é realmente estranho. Tente não pensar muito. Acredito que não é nada.
— Certo. Até lá, vamos aproveitar a calmaria.
Como se fosse um gatilho, um barco se chocou lateralmente com o deles. O dono do navio saiu em polvorosa, estando vestido apenas de pijama listrado e um grande casado de peles de animais. Quando compreendeu do que se tratava, soltou um guincho e tentou fugir para dentro de sua câmara, mas os agressores saltaram rápido para dentro e o seguraram pela gola.
Eram humanos normais, ou achavam que eram. Trajavam coletes bordô, colares variados de metal, calças azuis e botas de cano alto com biqueira de metal rebitado. Em sua maioria eram magros e assombrosamente tatuados. Cabelos eram negros, lisos e sujos. Eram cerca de 15 piratas e haviam apenas 6 guardas no navio. Estes brandiram suas armas e se preparavam para entoar o comando, mas um dos corsários antecipou a manobra, invadindo a área deles e cortando-os com precisão num arco perfeito de suas cimitarras. Dois ainda conseguiram, mas os outros companheiros, alertados, atacaram com suas armas e os mataram rapidamente.
Não conseguiu conter sua ira: ignorou toda puxada que Niéle lhe dava e praticamente voou para cima dos inimigos. Agarrou um pela cabeça e o arremessou na água, como quem joga um coco. Os outros ficaram surpresos com o ataque, demorando a reagir aos socos, chutes e arremessos que eram feitos contra eles. Em um instante, pouco mais que uma piscada de olho, os piratas do barco foram incapacitados. Assim que a excitação da batalha acabou, ele percebeu o que havia feito, mas seu olhar não mudou.
— I-Isso. – falou o dono do navio, parecendo convincente – E-Era o mínimo que você tinha que fazer por mim.
Vergil olhou com ferocidade para o homem, sua raiva transbordando na forma do Primeiro Nível. A ventania provocada, junto da intensidade do sentimento e o inexplicável aumento de sua Energia fazia com que ele fosse capaz de destruir todo o navio com o mínimo movimento.
— Como? – disse ele com a voz calma, mas emanava intenção assassina. Deu um passo em direção ao homem gordo, e as tábuas do barco rangeram perigosamente. Iria continuar, mas foi impedido por Cole, que surgiu à sua frente. Seu olhar dizia “Não vale a pena”. Como se fosse a resposta, o garoto se acalmou, mas manteve fixo o olhar. O dono do navio correu para seus aposentos e ficou lá durante toda a viagem.
O caminho depois dos piratas foi tranquilo, com eles cortando a névoa persistente através do caminho reto sem pedras de Esquife até Cosy. Os marinheiros do navio contavam histórias à noite, o que sempre deixava as noites animadas. Assim, os dois dias restantes passaram rápido.
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