A Orig. da Energia - As Crian. do Caos (obsoleta)
5 Personificação do Mal
Notas iniciais
– Entenda, Niéle: os carros possuem motor de combustão interna. Não há nenhum animal diminuto ou Sensitivo movendo o veículo. – disse Vergil, exaltado.
– Ok – respondeu um pouco cabisbaixa. – É que é difícil pra eu entender.
– Tem todo um sistema de engrenagens e tal – começou o garoto, mas viram que atingiram seu destino: ela o estava acompanhando para um treino de artes marciais. Mesmo com tudo aquilo acontecendo, ele não negligenciou seu treinamento. Houve um momento de admiração de todos os alunos, incluindo o mestre, sobre a alta garota que acompanhava o menino de cabelos pretos. Ela sorriu radiante e se sentou num banco longo, onde alguns acompanhantes dos alunos também estavam. Houve o início do treino com a execução das sequências de movimentos, cujo conteúdo era de defesas reativas e ataques definitivos. Cada ação era feita para incapacitar o oponente, até mesmo nas defesas, com um contra-ataque embutido. Depois disso, o mestre separara a turma em duplas, para a prática de luta. Era uma das partes que Vergil menos gostava, apesar de ser bom nelas. Formou par com Sora, a menina-gênio da academia.
Se cumprimentaram. Entraram em posição de combate, cada um distinto apenas pelo estilo de luta. O garoto estava com a mão direita fechada próximo ao rosto, com o braço dobrado, parecendo pronto para socar. O braço esquerdo estava esticado, apontando para o chão e acompanhando a inclinação da perna da frente. A de trás se dobrava pouco, apenas para manter a inclinação e estar pronta para um chute forte e rápido. A mulher matinha a mesma posição de mãos do lutador, mas as deixava abertas. Suas pernas estavam dobradas, abaixando ainda mais o centro de gravidade, para poder utilizar uma movimentação mais explosiva. Os cabelos pretos estavam amarrados, e os olhos fixavam Vergil com ferocidade, demonstrando que não iria recuar de forma alguma. O garoto estava com o olhar determinado, com a mesma intenção.
– Começar! – comandou o mestre.
Vergil aplicou um chute lateral, onde Sora desviou. Com a mão esquerda, ela golpeou onde estava a perna do garoto, mas este recuou rapidamente e chutou em arco com o outro. Desviando para baixo, ela ascendeu logo depois com um golpe de palma na direção do queixo do lutador. Ele não teve como desviar, bloqueando o impacto com ambas as mãos. Sem dar tempo para respirar, ela continuou o assalto, socando no abdômen dele assim que terminou. Vergil arrastou alguns centímetros para trás, mas defendera o impacto com uma mão. Essa mesma juntou os dedos e formou uma palma junta, perfurando em sucessão logo em seguida com os dedos. Sora desviava dos ataques com relativa dificuldade, mas mantinha a postura firme e calma. Por um erro de cálculo, ela foi atingida no ombro esquerdo. O garoto aproveitou a má posição para chutar no abdômen dela, o que a acertou em cheio. Ela cambaleou para trás aturdida, mas era parte do plano: enquanto Vergil investia para continuar a combinação de golpes, ela trespassou sua defesa e um soco mirado no plexo parou sua carga.
Ao ser atingido por toda a força de seu corpo, Vergil parou. Mal conseguiu respirar para desviar dos chutes consecutivos. Um pouco frustrado, avançou numa rajada rápida de chutes, atingindo onde podia. Porém, mesmo em meio à aparente indefensável parede de ataques, Sora conseguiu mirar um golpe de palma no peito dele, o derrubando no chão. O garoto rolou instantaneamente para retornar ao combate, mas o mestre havia decretado a parada. Ambos, bastante ofegantes, se cumprimentaram com uma reverência, apertaram as mãos e foram se sentar. Poucos minutos depois, o instrutor decretou o término da aula.
Quando estavam se organizando, Niéle foi até ele com uma compressa de gelo: alguns hematomas estavam formando em si. Sora notou uma proximidade entre os dois, com as carícias dela nos machucados, massageando de uma forma lenta e suave e com pouco espaço entre eles. Vergil não parecia notar, estava absorto nos pensamentos, mas o rosto estava levemente corado mesmo assim.
Assim que ele se levantou e se vestiu para sair, ela o chamou para conversar.
– Vergil? – chamou discretamente. Ele acenou para Niéle esperar e se dirigiu até a mulher.
– Sim, Sora? Por sinal, boa luta hoje. – comentou Vergil com um leve sorriso.
– Obrigada, mas eu queria lhe perguntar algo – iniciou Sora, e engolindo para organizar os pensamentos, prosseguiu – Essa garota é sua namorada?
– Q-Que?! – exclamou o garoto, dando um pulo para trás. – N-Não... Ela é só uma... – hesitou, pois ia falar “guarda” – Amiga...
– Certo – deu-se por vencida até o momento. – Apenas a achei muito próxima de você, por isso o questionei.
– Ah, ok... Sério? – respondeu Vergil entortando a cabeça um pouco de lado, numa pose engraçada, o que arrancou um riso da mulher. Ela gostava do garoto por sua habilidade e sinceridade, o encorajando sempre e repreendendo quando fosse necessário. Era interessante agir como uma irmã mais velha, e nem sabia quando havia começado. Satisfeita com a resposta, bateu no ombro dele e se retirou da área de treino.
Assim que a mulher saiu, Niéle se juntou a ele e assim se deslocaram para fora do recinto. A rua estava escura pela noite. Postes regularmente distribuídos iluminavam suavemente pequenas seções da larga estrada de paralelepípedos. Haviam carros estacionados em ambos os lados, com espaço para ainda passar duas vias de veículos em movimento, preenchendo o vazio provocado pela falta de pessoas. Apesar de ser movimentada durante o dia, a rua só possuía uma universidade particular que funcionava à noite, assim limitando o número de opções para tráfego lá. Alguns pedestres ainda andavam, indo para suas casas ou compromissos.
Logo que os dois passaram por um poste, conversando, avistaram uma menina caminhando na direção contrária. Ao pôr os olhos nos dois, ela deu um largo sorriso e veio correndo falar com o garoto.
– Vergil!!! – soou uma voz fina e empolgada, quase como de uma dubladora de filmes infantis. Vinha da garota de 1,55m, magra, mas com corpo atlético. Tinha cabelos louro-escuros longos, que refletiam à luz do poste, e olhos verdes e brilhantes, porém assustadoramente penetrantes. Sua pele era de origem morena, mas estava bem branca, já que não tomava muito sol.
– Err... Olá Amy. – respondeu Vergil, recuando um passo instintivamente àqueles olhos.
– Treinando bastante, né? Espero que sim. Você vai ganhar outro campeonato, tenho certeza. Já quase não existem atletas contra você. É bem famoso já. Essa daí é uma fã? Tomara que não. Eu sou sua maior fã. Garanto que ela não chega a meus pés. Você é o melhor lutador. Melhor que a Sora. Vai deixar nosso país famoso...
Durante alguns segundos, Amy falara mais que um cantor de rap, para depois ser interrompida pelo garoto, que selou seus lábios com um dedo. Ele respirou fundo e falou calmamente.
– Sim, Amy, estou treinando. Mas acho que você devia ir para casa; está muito tarde e aqui é um pouco perigoso. Saí do treino agora e estou cansado, ok?
– Ok! – disse ela com um grande sorriso, mas depois o encarou tão firmemente que ele se assustou – Estou lhe acompanhando! Tchau!
A menina saiu saltitando e balançando os cabelos, claramente feliz. Vergil suspirou profundamente, visivelmente cansado. Mas mal terminou e outra menina apareceu, dessa vez um pouco mais baixa que a anterior, com pele genuinamente branca e cabelos loiro-claros curtos num tom mais aberto que a anterior. Possuía olhos tão claros que pareciam prata, atrás dos óculos de armação vermelha. Era um pouco mais velha que a primeira, com um rosto mais angular. Tinha um olhar sério, mas não era hostil ou carrancudo.
– Olá, Vergil – cumprimentou formalmente, com um ajuste lateral nos óculos. Mantinha uma conjunção de cadernos e livros seguro nas mãos contra o peito.
– Olá, Lucy – respondeu sério.
– Já iniciou o trabalho? – inquiriu, com ar de líder.
– Terminei minha parte já – falou, soando casual. Mas Niéle notava o jovem se tencionando – Avise pros outros para juntar e concluir.
– Excelente – deu um sorriso leve, parecendo sincera – Ligo para você quando tiver tudo.
Acenou, que o lutador retribuiu com uma inclinada de cabeça. Ela desapareceu na esquina e Vergil finalmente relaxou. Recomeçou a caminhada a passos pesados. Tinha atravessado pouco menos que a metade da rua quando uma pessoa passou correndo e colidiu com ele. Massageou a cabeça, bagunçando os cabelos e abriu os olhos. Grandes órbitas de íris castanho-avermelhadas lhe encaravam com preocupação. Cabelos loiro-escuros e cacheados povoavam a cabeça da menina que o fitava. Ela se levantou e esticou o braço para ajudá-lo a levantar. Ele aceitou a oferta, tocando a pele morena da pessoa que colidira. Seu aperto era suave, mas firme mesmo assim. Lembrava muito a primeira que havia lhe abordado na rua, que por ser longa e com as interrupções, teimava em não acabar.
– Ai, oi, desculpe! Não vi na-- Oh... – parou de falar quando viu que era, e deu um riso leve – Heh.
– Scarlet? – descobriu, claramente surpreso. Não esperava esbarrar na irmã de sua maior fã. Tentou formular um plano de conversa, mas não veio nada. De repente, um soco voou em sua direção. Sabendo do que se tratava, segurou o punho pequeno da garota com uma mão. O lutador estava sério, mas escapou um meio-sorriso, como se fosse um cumprimento comum aos dois. Ela era muito mais fácil de lidar que a irmã, já que se conheciam desde pequenos.
– Continua forte...
– Eu tento.
– Você viu a Amy? Ela fugiu de mim a pouco tempo. Estava cuidado da Hanna quando disparou por aqui.
– Passou por mim e foi pra casa.
– Aquela piralha... – mordeu o lábio enquanto pensava – Desculpe por isso, Vergil: estamos cuidando dela o melhor que podemos.
– Certo. Só cuidado enquanto corre. Se fosse outro, talvez não conseguisse evitar se machucar.
Ela confirmou com a cabeça e saiu dando tchau com a mão, mas não sem antes dar um abraço rápido. Ela lembrava Niéle, com o corpo já desenvolvido, mostrando quadris curvos e posterior maior, e alta, mas não era maior que o lutador nem mais velha. Sumindo na esquina, este se voltou para a garota de seu lado, que observara toda a cena envolvendo as três.
– Vamos continuar? Acho que não há mais ninguém que possa me interromper...
– Tudo bem – confirmou Niéle com um de seus sorrisos largos e verdadeiros. Mas Vergil não deixou de notar uma nota de... ciúmes? Era difícil dizer em meio a todo aquele rosto radiante. Para completar, só de estar junto dela o garoto era acometido por um turbilhão de pensamentos e sensações. Já havia sentido algo parecido a dois anos atrás, quando se sentia inseguro sobre o que fazer em seguida no continente de Ryokun, quando era inseguro sobre os sentimentos que tinha em relação à Suzan, quando era obrigado a tomar uma decisão bem bolada e pensada em poucos segundos.
Mas agora, havia algo diferente. Além da sensação estar muito maior, ele sentia uma briga interna muito ferrenha. De um lado, a razão gritava para ele tomar aquilo como interpretação errônea e seguir caminho seguro para casa, e do outro o instinto rosnava ordens para inquirir mais a fundo no assunto, procurando descobrir mais informações acerca dela e avançar para um relacionamento. Com essas forças em conflito dentro de si, ficava difícil tomar uma decisão sensata, por isso ele estancou por um instante. A menina estranhou, e quase conseguiu perguntar quando ele recomeçou a caminhada. Ele respirava fundo e o coração estava acelerado.
– Vergil... – soou a voz dela, tão suave quanto uma seda no corpo. Ele saiu do transe e virou-se para ela. Ao encarar aqueles olhos de cores diferentes, ele desviou o olhar, ainda envergonhado. Tentou manter os passos constantes, a fim de permanecer junto dela, afinal era sua guarda. Sentiu seu ombro ser tocado de leve, um contato tímido, mas o suficiente para fazê-lo virar, e quando o fez, foi envolvido num abraço.
As mãos da garota tocavam suas costas sobre a roupa, os dedos finos a roçar na pele escondida. A cabeça estava repousando em seu ombro, com os cabelos cacheados e quase laranjas a encobrir seu pescoço e a lateral de seu rosto. O tórax encostava os seios grandes da garota, pressionando num contato mais firme. A proximidade com que ela estava sugeria certa sensualidade e insinuação, o que estava disparando o cérebro de Vergil a um nervosismo sem igual. Inúmeras palavras sobre todos os assuntos afogavam sua mente num oceano que se expandia sem fim, aumentando mais e mais a cada segundo de junção, não restando nenhuma em terra para ser usada. Seus olhos estavam erráticos, flexionando e mirando aleatoriamente em confusão. A respiração, descompassada, o desorientou mais ainda. O corpo ficou estático, rígido, mas os braços e as mãos se movimentavam num ritmo robótico, quase premeditado. Quando elas finalmente decidiram lhe obedecer, ele respondeu ao abraço. Poucos segundos depois, ela o soltou, mirando-o com olhos brilhantes e um sorriso, realçando suas bochechas coradas.
– NÃOOO!!! – gritou uma voz feminina alta e irritada, interrompendo qualquer ação que fosse desenrolar depois. Olhando para cima, focou num vulto do tamanho de um homem, que aterrissou no solo formando uma grande cratera e ativando o alarme de vários carros. A poeira se elevou como um presságio de sua chegada, encobrindo suas feições. Pouco tempo depois, a mesma voz feminina continuou.
“Maldito seja, Vergil. Já não basta ter roubado meu pai?”. Nisso, Niéle se encolheu, cobrindo as orelhas com as mãos e tremendo profundamente. O garoto ainda estava intrigado com o indivíduo que acabara de cair. Pelo som, não era de onde vinha a voz, mas ele sabia de quem era. Imediatamente, um buraco na fumaça o fez agir: girou o corpo lateralmente como num pião, desviando de um golpe com algum tipo de lâmina em investida. Mal terminou de cair e foi obrigado a se curvar para trás como uma antena de carro, evitando essa mesma lâmina. Por um momento, nada aconteceu. Escutou passos e viu, indo em sua direção, o executor dos ataques: um corpanzil vermelho e cilíndrico da grossura de um homem avolumava-se cortando a barreira temporária. Rastejava-se com músculos poderosos, tudo para relevar sua face, que estava um pouco atrás. Possuía dois chifres finos, que se assemelhavam a antenas. Dois olhos pretos sem pupila focavam nos dois castanhos que encaravam de volta. Era bastante parecido com uma cobra, e suas presas se projetavam para fora de sua mandíbula. O tamanho ainda era desconhecido, contudo pela dimensão do que se revelara até agora, era maior que um prédio de quatro andares.
A pele se retesou por um instante, o que foi seu único aviso: o tempo desacelerou para Vergil, que contorceu o corpo para evitar o bote da criatura. Enquanto se afastava, ainda nesse estado, o garoto chutou o pescoço dela para se afastar mais ainda e pensar no próximo passo. Porém, quando fez isso, lembrou-se de Niéle, que ainda estava acuada no canto, muito perto de onde a serpente atacou. Esta aproveitou o movimento, estando a postos de agarrar a garota para apertá-la com o corpo. Utilizando de sua força, o lutador pôs todo o ímpeto que pôde e tentou segurar Niéle para tirá-la do caminho. Porém, foi mal calculado, resultando nele preso à constrição. O aperto que se seguiu foi algo que jamais sonharia em enfrentar: as contrações do corpo vermelho e escamoso o imobilizaram e ameaçaram esmigalhá-lo como um graveto seco. A Energia em seu corpo o mantinha coeso e resistente, mas mesmo isso não era suficiente.
– Lança Celeste Tripla!!! – o grito ecoou pela rua. Três massas de Energia se concentraram pouco acima do corpo da serpente. Elas surgiram ao olho nu, se condensando até formar uma haste longa e vermelha, como um dardo de atletismo. Instantaneamente, elas foram disparadas para fincar no comprido alvo, deixando um rastro fumarento, quase elétrico. O monstro silvou alto em dor, explodindo janelas dos carros e de algumas casas. Vergil aproveitou e saiu da constrição, com o coração palpitando freneticamente.
O rosto da serpente se virou rapidamente para ele, e sua bocarra arreganhou, revelando dois pares de enormes presas na frente e duas fileiras de dentes puntiformes. O músculo das presas de baixo se contraíram, esguichando um líquido incolor, mas de grande volume em direção ao garoto. Em reação, este criou um escudo rubro translúcido de seu tamanho, com o formato de um escudo triangular de cavalaria europeia aninhado em seu braço esquerdo. A toxina da cobra bateu e resvalou para frente, não passando da proteção. Ao tocar o chão, soltou um chiado e fumaça, avisando que era ácido. Desfazendo o objeto, Vergil avançou em carga e, concentrando Energia nos punhos e pés, iniciou a ofensiva com uma voadora. O impacto deformou um pouco a pele, mas não pararia ali. Utilizando o local atingido como plataforma, deu um salto para trás, girando sobre sua cabeça. Com as mãos, desferiu uma rajada de socos em pleno pulo, carregados com Energia vermelha, e cada impacto explodindo numa nuvem de fagulhas. Assim que tocou o chão, investiu para outra parte, evitando uma chicoteada da cauda. Recomeçou o assalto, atacando com ferozes e inúmeros chutes que aos poucos deslocavam o incrível peso da cobra.
O lutador saltou à altura da boca dela. Com um giro de corpo, evitou um bote ao mesmo tempo que chutava com incrível peso, atirando a cabeça da serpente contra um prédio e derrubando partes dele. Aproveitou a brecha para pegar Niéle pelos braços e correr dali. Porém, o ataque que havia efetuado fora demasiado fraco, deixando o monstro bloquear sua saída da rua com o corpo. Um novo golpe com a boca disparou com velocidade. Vergil pisou no chão, bloqueando sua frente com o mesmo escudo triangular: o bote fora evitado. Um estrondo de metal reverberou com o impacto, e a serpente balançou a cabeça, confusa. A ponta da cauda seguiu quase de imediato, golpeando com arcos e investidas. Dessa vez, a proteção falhou em seu trabalho, sucumbindo em estilhaços vítreos após a segunda pancada. Sem tempo para formar outra, Vergil virou o corpo para proteger a menina.
Sons agudos de vibração percorreram seus ouvidos. Estranhou, pois não havia feito nada e não havia sentido o impacto finalizador. Ergueu os olhos na direção do som e viu uma pessoa trajada de uma armadura prateada de placas, ajustadas ao corpo de mulher. Uma espada com uma ponta de seta exagerada no final da empunhadura estava em contato direto com a ponta da cauda da serpente imensa, sendo apoiada por uma única mão. Cabelos de cor laranja esvoaçavam no vento, amarrados num rabo-de-cavalo. O semblante era calmo, mas era apenas uma fachada para esconder a temível ira que queimava dentro de si.
– Lillian!
– Explosão! – um impacto sonoro associado a uma fumaça preta e um solavanco violento brotou da ponta da lâmina, separando o impasse que se seguia da disputa de forças dos dois. Entendendo aquilo como uma oportunidade, Vergil correu a toda potência, deixando Niéle num canto seguro do outro lado da rua. Voltou a atenção para a luta que se seguia, e foi ajudar sua mentora. Ferido, o monstro usou a cauda para atacar, como se quisesse mostrar que aquilo não havia feito nada. Lillian rebatia os avanços em arcos sibilantes com sua arma, efetuando explosões pequenas e calculadas para aproveitar os mínimos distúrbios do movimento inimigo e tomá-los a seu favor. Infelizmente, um ataque pegou mais da metade do peso da criatura, forçando a espadachim a saltar para se livrar da pancada mortal, que abriu uma fenda na estrada do tamanho de dois carros. A poeira foi o suficiente para aturdi-la, mostrando o verdadeiro plano da cobra: havia saltado no ar com uma poderosa propulsão e prosseguia a atirar veneno para todas as direções. O líquido mortal corroia tudo que tocava, seja ele casas, carros e pessoas. Lillian estava protegida atrás de um muro, e Vergil com o escudo vermelho grande. Em meio ao borrifo, surgiram vários virotes que atordoaram o monstro: todos eles estavam ligados por uma fina linha escura, cuja forma era difícil de focar, na mancha preta que era a sombra da serpente.
O autor dos disparos, Daniel, estava empoleirado no topo dos escombros de um prédio que havia sido derrubado. Apontava uma besta ornamentada e um pouco grande, mas suficientemente leve para uma mão. Tal ofensiva puxou a criatura para o chão, espatifando-a com estrépito no asfalto. A fumaça levantada bloqueou a visão para ela, que os deixava apreensivos. Um silvo distante que ficou mais alto rapidamente revelou o bote, que mal foi bloqueado pela espadachim. Seu corpanzil auxiliou num retorno sem demoras, que felizmente foi parado por cinco lanças vermelhas fincadas no chão: Vergil corria pelos flancos do alvo, com a mão apontada para disparar novos projéteis. Num movimento aleatório destes, a serpente puxou o especialista de seu local de tiro, mas este conseguira evitar o impacto mortal no chão com uma rolada.
Irritada, a serpente sibilou alto, atordoando seus atacantes, e fugiu, sumindo em meio à densa poeira. Inconformado, Vergil pôs a mão no chão e disse “Busca Astral”: através da conexão com a Energia, ele conseguia ver, mesmo de olhos fechados, os seres e coisas a que estavam ligados. Expandiu sua área de visão o máximo possível, abrangendo todo o bairro, mas não conseguiu nenhum vestígio de que a cobra estava por lá.
A destruição que se seguia era sem precedentes: praticamente nada do que a rua era feito estava de pé. Carros capotados, esmagados e amassados povoavam algumas faixas de asfalto. Casas eram escombros e entulho amontoados por trás dos murros esburacados. Postes caídos e valas imensas abriam uma fenda no que antes era uma faixa planificada. Corpos de pessoas pegas na confusão estavam dispersos pela vastidão da confusão que o monstro provocara. Alguns ainda vivos, suplicavam por ajuda, que os lutadores corriam para prestar auxílio sem hesitar.
– Não esperava que isso fosse acontecer... – comentou Lillian, apreensiva, algumas horas depois de cuidar dos enfermos e estarem indo para suas casas, junto de Niéle e Daniel – A quantidade de Energia para ele aparecer deveria ser imensa.
– Mas o que era aquilo? – indagou Vergil. Ainda estava indignado por ter sido atacado sem mais nem menos, e todos esses problemas acontecendo ao mesmo tempo o estavam deixando louco.
– Aquele era Monai, um dos Sete Lendários.
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