Notas iniciais
Um novo capítulo para vocês. Espero que gostem, pois foi um dos que mais gostei de escrever até agora.

O contraste com a cidade portuária de partida era evidente, ainda mais pelo clima: um ambiente úmido e quente os revigorava da imensidão fria que ficou para trás. As névoas dissiparam assim que vislumbraram o continente. O sol da manhã raiava entre as nuvens, dando um aspecto de novo à pequena cidade de Cosy.

Desembarcaram e viram toda a extensão da cidade: uma companhia de navios, que cuidava das docas; lojas e estandes de venda de mercadorias, em sua maioria comidas e especiarias de Arteris; e algumas poucas casas, dos prováveis moradores. Não havia um planejamento adequado no posicionamento, sendo todas as lojas localizadas num arco vindo do porto. As casas formavam o começo de um círculo oposto que partida das lojas, como se fosse as duas metades de uma circunferência invertidas, porém só era até aí o padrão, pois algumas outras casas formavam tortuosas ruas dentro da área residencial. Ao colocarem os pés na fina e compacta areia que cobria o pavimento, sentiram uma Energia familiar.

Da multidão que assolava a feira, surgiram os membros restantes do grupo que entrou no mundo de Ryokun. Eles se cumprimentaram e trocaram experiências, vendo que foi apenas um erro de trajetória que eles foram parar no continente frio.

– Aposto que tiveram que se abraçar pra se esquentar – brincou Cole, o que arrancou risos de Daniel, John e Lúcio.

– N-Não vem ao caso – disparou Vergil, com o rosto vermelho, o que intensificou a algazarra.

– Vamos continuar nossa tarefa. – soou a voz de Lillian, autoritária – As Escarpas ainda estão longe, então precisamos nos apressar.

Com o comando do grupo, ela correu na frente, os cabelos laranja esvoaçando enquanto o tintilar da armadura ficava para trás, com a velocidade que se movia. Apenas Tyler e Lúcio estavam com dificuldades para acompanhar, mas ainda se mantinham perto.

A noite chegou rápido, com eles tendo percorrido vários quilômetros. Pela recomendação da Solar, permaneceriam em acampamento pela noite, justamente pelo perigo que era. Encontraram formações rochosas despontando do solo, parecendo uma lixa de madeira na camada de terra. A cidade ficou para trás numa pequena faixa iluminada no horizonte, dando para cobrir com o dedo indicador. A lua seguia majestosa no ar, com todo seu tamanho enchendo o ambiente de uma iluminação suave prateada. O local que escolheram possuía uma pequena lagoa, abastecida pelo córrego que era afluente do rio Dragós, o principal corpo d’água do continente. Lá, na margem, fizeram uma pequena fogueira e manufaturaram os utensílios para a noite com algumas árvores da redondeza, pedra e teia da Aranha-Esqueleto.

Escutaram grunhidos do Lince-Prata, mas o mesmo não se atreveu a avançar perto do fogo. Com Vergil de vigília, os outros foram dormir. Foi aí que se lembrou da conversa com Lillian mais cedo, sobre não conseguir usar as palavras de comando.

– Ah, isso acontece por causa do tipo de Energia do mundo.

“No Universo, a Energia vem das coisas manufaturadas pelo homem, e por isso podemos usá-la falando português. Já em Ryokun, a Energia vem do ambiente selvagem e só é acessado através da língua anterior, o latim. Os motivos ainda nos são desconhecidos, mas constatei quando entramos.”

– Entendi agora. Mas mal lembro das palavras de comando...

– Não há problema, Vergil. Lembre-se que sou professora também – disse, acenando com uma piscadela. Após um tempo, o lutador continuou.

– E quanto à nossa Energia? Eu estou me sentindo muito mais forte do que era no nosso mundo.

– Isso é... Inesperado – comentou Lillian, mais para si mesma – Você sente algo de diferente fora isso?

– Não, nada.

– Isso é bom para nós, pelo menos. Vamos continuar.

Apoiou-se com os braços, sentado no chão, e olhou para a lua. Ela refletia no espelho de água, com pequenas ondas pelo vento suave que permeava a lagoa. A temperatura era agradável e tudo contribuía ao sono, mas estava se mantendo alerta sentindo toda a vibração sonora do ambiente. Foi por isso que notou quando uma pequena Energia se aproximou da área do lago, tão imperceptível que poderia ser confundido por um animal, mas seu olhar acostumado à escuridão viu o movimento de algo bem maior que um coelho. Sem esboçar reação, ficou atento à figura. De repente, ela sumiu de sua Percepção, e foi aí que sentiu o vácuo de Energia no ambiente. Dessa vez não esperou: com um salto silencioso, mas poderoso, se lançou ao ar, bem acima do lago, interceptando o inimigo no meio deste. Sua impulsão foi forte o suficiente para superar a cinética do impacto e ainda jogá-los para o outro lado. Materializou um bastão rubro na mão e golpeou com uma estocada.

O ataque foi defletido com uma adaga, soltando faíscas ao atravessar a distância que os separava. Foi seguido de um apresamento no pescoço com um arremesso ao chão. O inimigo, pouco antes do impacto, se transformou numa névoa esverdeada e foi jogado para longe pelo vento. Seguiu instantaneamente quando ele voltou à forma humana, e constatou que era a mesma assassina de mais cedo. Surpreso, mas não distraído, o lutador chutou lateralmente, visando as costelas da inimiga. Esta seguiu o ataque com um seu, combatendo forças com o impacto de sua própria perna. A disputa não durou muito tempo: deixou-se levar pela força que ela fazia e girou o corpo ao contrário para atacar com o calcanhar. O ataque a acertou bem na têmpora, atordoando-a. Quis aproveitar a chance, mas ela deixou cair algo no chão, que explodiu num flash e liberou fumaça, cobrindo sua visão e percepção. A fumaça dispersou rápido pelo vento, mas não havia mais sinal da inimiga.

Como havia tomado distância, saltou a largura do lago até chegar de volta ao acampamento. Felizmente, não acontecera nada com os outros. Pouco tempo depois, Lúcio levantou para o segundo turno, e Vergil contou o ocorrido. O buscador manteve a expressão neutra e calculada, como se já estivesse com tudo sob controle.

– Obrigado por me contar. Vou preparar algo caso resolva aparecer de novo – falou com um risinho malicioso.

No dia seguinte, partiram imediatamente após o sol nascer, iluminando a pequena superfície vítrea do lago com raios brancos. O trajeto era conhecido, percorrido por inúmeras caravanas. Pela situação do mundo, Vergil acreditava que os habitantes estariam apreensivos ou mesmo muito calados, mas parecia muito pior, já que quase nenhuma carroça trafegava pela estrada nem o semblante dos comerciantes era calmo. Todos andavam com no mínimo 4 seguranças de armadura pesada e armas grandes, temendo perigos que o lutador não tinha ideia. John se remexeu inquieto, produzindo um barulho metálico ao roçar a ponta de sua arma nas perneiras de aço que iam até acima do joelho.

Ao passarem nas cercanias da vila Jagra, viram soldados oriundos do Círculo da Batalha nas entradas da mesma. Porém, não havia o conhecido brasão de Alucard gravado em suas vestimentas. Ao invés dele, encontraram um símbolo totalmente diferente: enquanto o do tirano era um círculo partido em quatro partes iguais, com as divisórias excedendo o comprimento do próprio e de cor verde, a nova era formada por um olho fendido e de cor roxa, com três pontas, parecendo espinhos, apontando para ele, todos na parte de baixo.

Vendo o tal emblema, Niéle conteve um assombro, que passou despercebido por todos, menos o lutador. Entendeu rapidamente do que se tratava e recomendou a Lillian a se apressarem. Atravessaram uma densa floresta após um trecho, que tiveram de despistar uns bandidos através de uma demonstração de força ao derrubar uma árvore que estava empoleirados com um soco. Com a furtividade de Daniel, encontraram um caminho que puderam passar sem chegar próximo a um posto avançado dos soldados do emblema do olho. Constataram um número muito grande deles guarnecidos nas poucas vilas do trajeto, o que era estranho. A tensão tomava conta do mundo.

Chegou a noite e passou sem incidentes. O ar frio e úmido da mata baixou bastante a temperatura, e a súbita queda de pressão fez com que chovesse durante a noite. Arrumaram uma tenda às pressas, e por isso dormiram poucas horas. O dia amanheceu ainda na chuva, mas Vergil (após ter acordado em meio a uma poça de água, já que dormiu profundamente quando a chuva estava no auge) criou um escudo largo e côncavo acima das cabeças deles, como um guarda-chuva gigante e vermelho sem cabo. Todo o mato ficou com uma coloração espelhada e viva, retificando a beleza natural do ambiente que os cercava. E foi em meio a esse ambiente acolhedor que chegaram ao ponto marcado do encontro com a herdeira: as Escarpas Vulcânicas.

Tudo o que haviam visto até agora era parecido com qualquer clima possível e visual. Mas as Escarpas era uma coisa à parte: lembrava uma ferida na terra, uma injúria ainda não cicatrizada, com o sangue exposto a iluminar toda a redondeza. A cava descia vários metros, terminando em placas pedregosas e pedaços de chão com grama chamuscada em meio a veios de lava e rios de lava. Se estendia dois quilômetros de largura e vários de comprimento, com uma placa marrom de rochas e de tamanho colossal, cobrindo todo o resto dela. Assim que chegaram, sentiram a massiva Energia do local e a maior ainda Energia da herdeira. Era uma força opressora e intimidadora, pesada e carregada, tentando subjulgar seus sentidos para que abandonassem ou se submetessem ao comando dela, como uma grande mão autoritária os forçando para curvar-se ao domínio de Geardyne Dorman.

– Então... É isso. – comentou Vergil, suando um pouco – É como se estivesse frente a frente com Alucard, mas está muito pior. Sinto como se a Energia dela fosse me esmagar a qualquer momento.

– Ela está... A alguns quilômetros à frente... Posso sentir sua posição geral, mas temos que atravessar esse inferno. – balbuciou Lúcio, se esforçando para falar.

– Será que não é mais seguro contornar? – indagou Cole, surpreso por ninguém ter dado a opção.

– A entrada delas é por aqui, de onde viemos. – explicou Lillian, franzindo o rosto – Mais à frente, a passagem se fecha, se tornando uma caverna e continua até o subterrâneo. Duvido que ela esteja esperando por nós na ala aberta e garanto que será perda de forças se atacarmos a abóboda da cratera para chegar mais rápido.

“As Escarpas Vulcânicas são repletas de forças caóticas e desconhecidas, mas que são fontes de descoberta e Energia. Faz sentido que a herdeira tenha usado o local para se estabelecer, apesar da falta de sensatez. Diz que foi aqui que Tau olhou para o mundo.”

– O QUE?! – exclamou Vergil, muito alto – Um deus fez isso só olhando?!

– É o que diz a lenda – discorreu John, com sua voz profunda – A Energia dos deuses é tão intensa que seus meros sentidos são capazes de moldar o mundo.

– Mas vamos nos preocupar com a herdeira – disse Daniel, olhando logo à frente – Consigo sentir não somente ela, mas inúmeras outras presenças...

Pisaram na primeira “ilha”, amassando a grama por baixo dos pés. Ela não se moveu nem um pouco, sugerindo que era firmemente colada ao chão em meio à lava. Um a um, eles foram saltando nas plataformas de pedra, sempre pisando com cautela. Andaram algumas pedras quando um vulto tomou forma bem à frente de Vergil, que estava na retaguarda. Fumaça verde emanava dos braços e pernas da mulher que havia lhe abordado antes no lago e ainda no continente de Arteris, na cidade de Esquife. Ela estava com uma espada de lâmina reta de um único gume, com um guarda-mão quadrado e empunhadura preta apontada para ele. O aço reluzia com cor verde-escura.

– Vergil Gadson Rayfield, lutador, eu tenho um pedido. – sua voz era fina, porém impactante.

– Fale – respondeu sombriamente.

– O desafio para um Saishuu Sentou.

– O que?

– Um Combate Final.

– Por que eu faria isso? – disse, tentando passar uma imagem de confiança.

– É a única forma de parar com os ataques.

“Como falhei duas vezes em lhe eliminar, o código dos Assassinos me dá a última alternativa: devo lhe desafiar para o Saishuu Sentou e assassiná-lo em combate direto. Caso não consiga, então eu devo tirar minha própria vida.”

– Por que você achava que iremos acatar com isso? – disse Tyler, segurando a soqueira com cravos nos dedos. Daniel pôs a mão no braço dele, impedindo de qualquer ato futuro, e alertou com um olhar.

– Só assim eles conseguem manter a honra, Tyler. Caso contrário, ela será caçada pelo Clã para limpar as evidências.

Relutante, o garoto deixou a mão cair ao lado do corpo. Estava preocupado com o amigo, e por mais que tivesse confiança que ele pudesse vencer no combate direto, não havia garantias que a inimiga não teria preparado armadilhas ou chamado sua equipe de suporte para cuidar da situação. Olhou para o lado e viu Cole com a mão na espada, mas sem ter o menor ímpeto para sacar. No outro estava Niéle, apertando os braços contra o abdômen num abraço apreensivo. Lillian sentou cruzando as pernas, mas mantinha o olhar fixo nos dois. John girava a kukri amarrada, como se fosse caçar, mas não havia nenhuma intenção que iria fazê-lo.

Assim, os dois que se encaravam saltaram para uma outra placa, um pouco distante da vista, mas ainda larga o suficiente para terem espaço de movimentação. Era vagamente circular, e feita de pedra pura e chamuscada. Cem metros separavam os dois. Por mais que estivesse inseguro com relação à suas habilidades, havia sido capaz de lidar com a inimiga antes. Então, Vergil ajustou seus braços e pernas, e ambos começaram a emitir uma luz vermelha, precedida de uma fumaça fluida e reluzente, que estalava ocasionalmente. Era como se houvesse ativado o Primeiro Nível apenas nas extremidades do corpo. Sua inimiga preparou a espada, deixando na posição para estocada, recuada pouco atrás da cabeça e flexionou as poderosas pernas.

Até o vulcão parecia parar diante da tensão que estava. E então aconteceu: um impacto violento espalhou todo o ar para os lados, jogando cinzas e faíscas para cima deles. Os dois disputavam forças com suas armas: de um lado Vergil com uma katana conjurada e do outro a ninja com a ninja-to liberando faíscas do contato. Por um momento, eles estavam equilibrados, mas a mulher agiu primeiro jogando uma bomba de fumaça no chão. Prevendo alguma ação assim, o lutador fingiu ceder à força e se afastou bem a tempo de escutar o reboar da espada batendo na pedra. Mantendo a concentração, formou uma lança faiscante na mão e disparou como um caçador. A ninja desviou do longo projétil, mas a mira não havia sido nela: com outra em mãos, Vergil a fincou perto de seus pés, saltando logo em seguida.

Sua inimiga foi astuta: o interceptou no ar com duas adagas especiais, enroladas no papel explosivo. Ele cruzou os braços e formou o escudo grande triangular para se defender, mas o impacto das bombas ainda o jogou para o limite da arena. Aproveitando o momento, ele correu circularmente e atacou com ambas as palmas nela. Sem esperar o golpe, ela recebeu e foi lançada para longe. Levantou-se rápido, enquanto via o lutador atirando mais uma das lanças no chão, pouco atrás de si. Fez uma pose com os dedos da mão, e se tornou a névoa verde que havia utilizado antes para se movimentar, percorrendo a distância que os separava instantaneamente. Mas o lutador era rápido e efetuou uma pirueta para trás, evitando a perfuração da ninja-to.

– Lupus Contumelia! – no momento que as palavras de poder foram ditas, sua perna direita foi envolvida por sua Energia vermelha, de forma muito mais intensa e violenta que no começo da luta. O impacto foi intenso e feroz como um lobo: mesmo usando a mudança para névoa, a ninja ainda recebeu todo o dano, sendo jogada para cima pela diagonal. Vergil se impulsionou, levantando poeira e formando uma pequena rachadura no local onde estava momentos antes. No ar, moveu sua perna novamente, visando atirá-la para baixo e prendê-la na ilha, mas a oponente reagiu no ar, acertando uma joelhada no abdômen do lutador. Curvou-se ao impacto, e só conseguiu evitar o corte da espada pois conseguira conjurar uma fraca proteção momentos antes de ser atacado.

Caiu ruidosamente no chão, rachando-o e formando um buraco com a forma de seu corpo. Levantou fracamente e foi imobilizado pela ninja, que o prendeu com um dos braços, com o outro armado de uma faca. Prestes a ser degolado, Vergil expandiu sua Energia, ativando o Primeiro Nível. Dessa vez, o fluido de Energia estava com um alcance maior, quase parecendo fogo, já que era rubro e fustigava com violência. Apoiando uma das mãos no chão e com as pernas bem abertas, o lutador parou a aceleração de fuga arrastando no piso e foi aí que a oponente entendeu que ele não estava mais em suas mãos.

Arregalou os olhos frente a isso, mas retomou a postura, fazendo uma pose diferente na mão, seguida de outra e mais outra, numa incrível sucessão. Quando terminou em menos de um segundo, seu corpo estava translúcido: mantinha a mesma forma de ser humano, mas era quase transparente e totalmente verde. Com um grito, ela também ativou o Primeiro Nível, emanando o fluido de poder que parecia a mesma névoa que se transformava. Toda essa mudança a fazia parecer um fantasma, um ser etéreo, uma alma preparada a colher a essência de seu inimigo.

– Incrível... – exclamou Vergil, incapaz de conter a surpresa.

– Yuurei-do – disse ela, a voz soltando um eco estranho, como se fosse as vozes dos mortos – O Caminho do Fantasma...

Mesmo depois da fala, ela surgiu instantaneamente atrás dele, estocando com a espada. O lutador desviou e golpeou com uma rasteira, mas acertou apenas o ar. Saltou para trás numa acrobacia, mas a ninja já o esperava. Dessa vez não conseguiu desviar, recebendo um corte horizontal no peitoral. Por pura perícia, havia sido superficial. Encostou no chão e concentrou Energia na mão direita. Subitamente, sentiu sua força se esvaindo, e constatou que a inimiga estava drenando sua Energia pelo corte aberto. Era possível ver o fluxo vermelho se tornar verde no ar, enquanto percorria o caminho até a oponente. E foi nesse momento que Vergil fincou a lança final no chão. Com as quatro lanças nos quadrantes do campo, o lutador esticou o braço em direção a ela.

– LUPUS EXSILIUM!!!

As lanças haviam sido colocadas para extrair Energia do ambiente e iam ser usadas para o plano de Vergil. Como a inimiga o forçou a partir para a ofensiva, elas viraram pontos de condução, com ele como foco. Energia do ambiente ficou visível e foi se juntando na palma de sua mão, incrementando e aumentando uma esfera que lá se formava. Percebendo o que havia feito, a ninja voou em sua direção, desviando quando viu que Vergil iria disparar o ataque. Mas o flash que se seguiu ocultou onde ele estava. Virou a cabeça para os lados, procurando-o. Só percebeu onde estava tarde demais: com o braço totalmente vermelho e transbordando Energia, Vergil apontou a mão e emitiu um feixe de luz vermelha intenso e de largo calibre, que a cobriu por completo.

Quando parou a emissão, a ninja estava estática. Estava de carne e osso, mas ilesa, apenas fumaçando um pouco. Se ajoelhou, surpresa e sem entender o que havia acontecido. O lutador caminhou até ela, mas ela falou antes:

– E-eu... Perdi... – sussurrou a mulher, e sua voz parecia sem vida. Puxou uma das facas e mirou em si, mas foi interrompida pelo garoto, que golpeou para longe a arma.

– Não faça isso.

– Mas eu perdi o Saishuu Sentou. Preciso manter minha hon--

Vergil deu um olhar tão ameaçador e intimidante que ela hesitou por sua vida que estava prestes a tirar.

– Se os Assassinos da Floresta renegaram você, então eu vou acolhê-la. Preciso de aliados para enfrentar a herdeira, e você é mais do que capaz disso. Me ajude e eu vou barrar qualquer tentativa de assassinato.

– Mas... Por que? – questionou a mulher, com os olhos incrédulos.

– Pude notar isso ao lutar com você: estava tentando acabar de uma única vez e o mais longe possível, para que pudesse se ver livre deste fardo. Você também não concorda com as regras que vive, o que deixa a transparecer no jeito que luta. Quer fazer parte de algo maior, de algo para mudar o mundo, e por isso aceitou o trabalho.

Se antes a ninja estava com os olhos abertos, dessa vez o olhar ficou esbugalhado. Como era possível que ele pudesse saber tanto de si se era a melhor em esconder suas intenções e rastros? Se era a mais indicada pelos mentores para executar tarefas desse tipo? Sacudiu a cabeça como se estivesse tentando afastar um sonho, uma emoção reprimida, que tinha desde sua infância. Levantou-se muito lentamente, e viu os outros companheiros dele a cercando, preparados para atacar. Resolveu aceitar seu destino, já que o lutador era muito mais forte do que imaginava e ainda parecia estar escondendo sua força. Ajoelhou diante dele e disse, com voz solene:

– Minha lâmina é sua, milorde. – respondeu a ninja.

– Não precisa disso... Apenas sermos amigos já basta. – disse Vergil, coçando a cabeça.

– Milorde?

– Viu o que eu disse? Sem formalidades. Primeiro, qual seu nome?

– Kai Satsumi, mi--. Amigo.

– E eu sou Vergil Gadson, mas você já sabe disso – disse com um sorriso. – Esses são meus ami--

Subitamente, Cole correu e segurou Vergil pelo colarinho. Tyler estava logo atrás, também muito indignado. Apenas Lillian, John, Daniel e Lúcio estavam parados. Kai não se mexera desde então.

– Por que, Vergil? – perguntou Cole rispidamente – Você vai levar a assassina conosco?

– Olha, Cole: estamos precisando de aliados para enfrentar a herdeira, e ela é uma aliada. Se visse como eu vi, ela estava tentando acabar tudo num movimento só.

– É, eu vi, tapado, mas isso não quer dizer nada.

– Cole... – disse Lillian, intervendo na conversa. – Não é apenas nós do Círculo da Batalha que estamos insatisfeitos com o que está acontecendo com o mundo. Mesmo os estados independentes de Ryokun estão ruindo por falta de liderança e objetivo, e a herdeira de Alucard não está ajudando nada para consertar isso. Ela não quer saber de nada a não ser destruir e acabar com tudo. Entendo sua indignação por ver que Vergil quer recrutar a assassina, mas eles preferem manter a honra acima de tudo, e se jurou lealdade a ele, então é sincera no que fala.

O garoto ficou emburrado, mas assentiu. Fez um gesto de afirmação para Tyler, que concordou no que quer que tenham planejado, e virou-se para a ninja.

– Você é nossa aliada por enquanto, mas vou ficar de olho em você.

Ela adotou um ar divertido em si, e confirmou, virando a cabeça e balançando os longos cabelos ruivos. Por um momento, o garoto ficou admirado, mas voltou à expressão normal. Ela, depois, tirou o pano que cobria o rosto, revelando uma face muito bela, com pele branca e lisa. Seus olhos prateados resplandeciam ainda mais com o rosto, parecendo uma pessoa radiante. Assim, todo o grupo prosseguiu para uma nova placa, montando o acampamento para descansarem diante da imensidão vermelha que eram as Escarpas.

Notas finais
O próximo capítulo vai demorar um pouquinho a mais, porém virá com mais palavras...