A Onda Branca
3 II - Carta por Carta
Notas iniciais
A atenção de Kira estava inteiramente voltada para o filme que passava na pequena televisão de seu quarto quando um estrondo a desnorteou, deixando-a confusa e assustada.
John adentrou o quarto às pressas, ignorando o fato de sempre acabar ficando enjoado naquele lugar. Nunca soube exatamente o porquê, entretanto nunca fora uma questão preocupante. O excessivo uso de verde no quarto, talvez. Mas naquele momento, haviam muitos outros problemas que tinham de ser esclarecidos.
– Mas o que... – foi inevitável. Kira soltou mais palavrões do que gostaria, antes de raciocinar o que havia acontecido. – Merda! O que você quer?
– Precisamos visitar sua mãe. Agora. – John ajeitou o microfone que, se tudo estivesse como deveria, estaria imperceptível, camuflado na gravata verde musgo. Sua voz era firme, e apesar de ter total consciência de que o aparelho poderia captar o áudio de até metros de distância, não pôde evitar dizer cada sílaba da forma mais clara possível.
Kira arregalou os olhos e se “preparou” para o pior – não que fosse possível se preparar para aquilo, mas poderia pelo menos tentar não ter um surto psicótico, porque, convenhamos, nunca é uma boa hora para um surto psicótico. De certa forma, esperava apenas uma única resposta. Boas notícias viraram milagres ao longo do tempo, provavelmente não só para ela, mas para todos.
– Diga. – foi a única palavra que conseguiu formular. A última coisa que queria ouvir era algum discurso desnecessário de compaixão; ou ele seria direto, ou Kira não se responsabilizaria por seus próximos atos, e John sabia muito bem disso.
Silêncio.
Poças de água foram se formando nos olhos vermelhos da garota, não de tristeza, não de arrependimento, mas sim de ódio.
Kira já não se sentira nem mesmo humana; consumida pelo ódio, cerrou os punhos, respirou fundo e conseguiu, de alguma forma, esperar.
– Eu quero ouvir as palavras saírem de sua boca. Quero que você as diga, quero que você as berre, quero que cuspa na minha cara. – encarou-o, os olhos carregados de raiva e lágrimas. Era a única forma de aceitar, ela sabia.
Ele não respondeu.
Sua paciência não durou o bastante.
Antes mesmo de perceber, a palma de sua mão ardia e a bochecha do homem começava a alcançar uma tonalidade avermelhada.
E ele sorriu largamente.
O sangue fervia nas veias cheias de droga de Kira.
– Ela ainda não está morta. Só quis me divertir um pouco, sabe... – brincara com fogo, e sabia disso. Mas uma queimadura a mais, uma a menos... que diferença faria, não?
– Se você não me disser agora o que realmente aconteceu, eu juro que... – não teve a chance de completar a frase, que fora interrompida por uma risada fria.
– Me poupe de suas ameaças. Temos um acordo, e eu sei que você não quer descumpri-lo. Mas, – ele fez uma pausa, com um suspiro – eu realmente preciso que você venha comigo visitá-la.
Era hora da encenação.
– Vá direto ao ponto. – rosnou Kira. Não havia como retrucar: ele havia usado seus dois pontos fracos, sua mãe e a droga.
– Ela disse que saberia o que fazer e se recusou a falar comigo. Confie em mim, tentamos de tu... – não foram necessárias palavras para cortar friamente a frase. O ambiente e o olhar da garota deram conta.
– Eu vou fingir que não ouvi a palavra “confiar”. Vou de ônibus até lá e você não vai me impedir. Não pense que é o único que sabe subornar... Frederick.
Sorriu e se retirou do quarto. John foi logo atrás, sem reação.
– Eu vou te esperar no carro. Não pense que temos tempo à perder. Ele continua passando, mesmo quando você é infantil o suficiente para se recusar a entrar num veículo comigo e gastá-lo sem necessidade como uma criancinha de birra. – não esperou nenhuma resposta senão o silêncio. Apenas caminhou em direção à garagem, com esperanças de que ela o estivesse seguindo.
*
Quase todo o trajeto fora silencioso. As ruas livres por conta do horário – não eram muitas as pessoas que decidiam sair de casa às quatro da manhã –; não haviam nem mesmo as buzinas ou os pneus derrapando.
John quebrou o silêncio quando estavam à dois quarteirões de distância.
– Debaixo do seu banco tem uma garrafa d’água. Pegue, por favor.
Um pouco surpresa, Kira tentou se contorcer, mas percebeu que seria impossível enquanto usasse o cinto de segurança. Apertou o botão vermelho e arrastou o cinto até o apoio. Se abaixou, colocou o braço no chão abaixo do banco e tateou cegamente até encontrar a garrafa, o que não demorou muito. Felizmente, estava de fácil alcance.
– Que hora inoportuna para ter sede... – comentou, ao estender o braço com a garrafa, esperando que John retirasse uma das mãos do volante para agarrá-la.
– Não, eu... guarde com você, porque... – fingiu uma tosse para que tivesse alguns segundos para pensar numa desculpa, em vão. – o filtro de lá quebrou e acho que vamos ficar tempo suficiente para precisar dela.
Kira apenas resmungou baixinho, cansada demais para retrucar, e deixou a garrafa no porta-luvas do carro.
*
Kira corria pelos longos corredores do lugar, com John logo atrás de si, aos tropeços. O quarto ficava nos fundos. Dali, já era possível ver o reflexo dos vidros que cercavam o cômodo.
Quando estava prestes a chutar a porta, no puro desespero e pressa, parou repentinamente.
– John?
– O... que? – John flexionava os joelhos, onde apoiava as duas mãos e respirava pesadamente, tentando recuperar o fôlego.
– Como você soube? Digo, você não veio aqui, e eles cortaram o telefone dela. – a desconfiança da garota aumentava gradativamente. Refletiu na corrida pelo prédio o que não teve coragem de refletir num local fechado com ele, alguns minutos antes, no carro.
– Andrew... Andrew estava passando por aqui... e veio... me ligou e... – a frase era constantemente entrecortada em pausas para respirar. Já Kira, parecia não ter feito nenhum exercício físico; a idade trazia seus males.
– John.
– O que foi, merda!? – retrucou, irritado.
– Andrew está num intercâmbio na França, seu desgraçado! Mentir sobre ela, John? A que nível você se rebaixou? – Não sabia como, mas conseguira controlar muito bem sua raiva. Normalmente já teria pulado em cima dele e arranhado seu rosto até sangrar. Daquela vez, simplesmente se virou e caminhou lentamente para fora, com o intuito de sair dali o mais rápido possível, entretanto, o pai fora mais rápido e a puxou pelo braço.
Seus olhos estavam cheios d’água.
– Por favor, eu... – e antes que ela pudesse sequer pensar em se desvencilhar do aperto, ele chutou a porta, escancarando-a e empurrou-a para dentro com força, para que houvesse tempo de trancá-la dentro do quarto.
E assim o fez.
Como os vidros bloqueavam totalmente qualquer som, John apenas observou Kira berrar, ruborizada de raiva, fazendo sinais indicando seu ódio pelo homem. Maureen, deitada na cama no canto do quarto, parecia confusa, mas não tinha forças para dizer algo a respeito daquele situação inusitada.
Com uma última visão da filha batendo desesperadamente no vidro, John caminhou lentamente até a saída, de corredor a corredor.
Sem coragem de conferir se Kia havia ou não levado a garrafa d’água, dirigiu até sua casa e, exatamente às cinco horas, recebeu a esperada ligação.
– Vai demorar muito, Sünder? Não temos a vida toda para isso, entende?
– Me dê mais dois dias. Daqui quarenta e oito horas, terei as provas que você quer. – Conseguiu transpassar mais confiança do que esperava com aquela frase.
– Você está ciente que precisaremos de provas concretas de que o indivíduo estava, de alguma forma, infectado, certo senhor?
– Não se preocupe. Terei áudio e filmagem de tudo o que precisam. Mas, sabe, preciso de uma condição para entregar a cura. É simples, nada fora de seu alcance...
– Não aceitaremos nenhum tipo de acordo, senhor. Você se ofereceu, e se essa cura for verdadeira, considere-a nossa. – A firmeza na voz de Ethan poderia facilmente manipular as mentes mais fracas. Felizmente, não deveria ser o caso de John.
– Vamos analisar os fatos. Temos milhões de pessoas precisando de informações, informações que vocês não querem que elas saibam, como, por exemplo, o que fizeram com o homem que criou o vírus. Tenho provas, arquivos. Elas estão desesperadas, Ethan... eu posso sentir daqui a insegurança diante de vocês... seria um ótimo acordo para todos, e você sabe.
Um leve suspiro.
Ponto.
– Qual a condição, Sünder? Não banque o esperto. Caso você tenha a audácia de tentar um golpe, tenho um armamento que faria com que seu corpo seja dizimado até das memórias alheias.
– Não se preocupe. Vou direto ao ponto: eu trabalho com o por acaso, entende? E, talvez, por um acaso, a pessoa da qual eu apliquei a vacina, não soubesse disso. Talvez tenha precisado de um empurrãozinho... um empurrãozinho que... como posso dizer? Deve passar despercebido. Eu sei que você pegou o recado.
– O que... – John não poderia deixar que Ethan argumentasse de alguma forma, então o interrompeu antes que pudesse pensar no que dizer.
– Nos vemos em breve. Tenha uma boa noite.
Enquanto isso, a água dentro da garrafa esquentava dentro do carro, assim como o sangue fervia de raiva e ódio nas veias de Kira.
*
Kira sentia as lágrimas caírem graciosamente pelo seu rosto, a garganta se fechar com soluços altos e a visão embaçar por conta da água. Maureen continuava em seu estado demasiadamente crítico para quaisquer reações ou percepções do mundo além de sua própria mente quebrada.
A garota tentara de tudo, de berros à chutes e objetos em direção ao vidro – que renderam-lhe apenas leves escoriações em suas mãos. Chegara à escrever um pedido de ajuda na janela, arranhando-a com uma chave, que de nada adiantou. Todos que passavam por ali – que já não eram muitos, considerando o fato de que havia uma mulher infectada dentro daquele quarto, ou melhor dizendo, daquela zona de quarentena pessoal – ignoravam-na.
A frustração de Kira quando alguém passava por ali, encarava o quarto, encarava-a e logo em seguida apressava os passos acabou lhe rendendo ainda mais lágrimas e sede de vingança. Sentia o ódio consumindo-a a cada segundo que passava ali. Nem mesmo tentara falar com a mãe, com medo de que pudesse machucá-la no meio de algum surto.
“Que patético!” pensara ela, analisando a situação. Passara noites em claro, querendo ir ver a mãe, Maureen, infectada pela Onda Branca, corroendo-se de preocupação, enquanto esta fora mantida em um quarto dentro do laboratório de biomedicina, recebendo tratamento especial, à espera de uma cura. E naquele momento, ela estava ali, no mesmo quarto que ela, sem nenhuma barreira de vidro impenetrável impedindo-a de aconchegar-se naquele colo que tanto sentira falta, e era incapaz de até mesmo olhar para a mulher.
O dinheiro compra quase tudo; comprara um lugar especial para que sua mãe pudesse se recuperar da doença, mas não comprara a cura. Não comprara a única coisa que realmente importava.
Aos poucos seus pensamentos desviaram-se e a preocupação foi além dos sentimentos em relação à família; até o momento, o estômago embrulhado devido à angústia e apreensão evitara que a fome e a sede se tornassem mais um empecilho de dezenas, ao menos.
Voltou seu olhar para o relógio empoeirado que jazia pendurado na parede impecavelmente branca.
Três horas e dezessete minutos. O que significava que quase doze horas haviam se passado e que seu tempo antes dos sintomas da Onda Branca aparecerem se esgotava de forma torturantemente lenta.
E também que em menos de uma hora, o efeito da droga passaria e Kira cairia no sono.
Não percebera quando começara, mas lá estava ela, tremendo em desespero. Aquela hipótese assustava-a muito mais do que o fato de estar infectada pelo vírus que destruíra grande parte do mundo.
Por que, afinal, o que o mundo alheio importa, quando o seu próprio está prestes a ser corroído?
Em um certo dia, uma certa voz lhe disse que a esperava ansiosamente por trás de um certo telefone, dentro de um certo sonho.
E de alguma forma, ela sabia que não era mentira.
Evitara tal reencontro durante toda a sua vida, através de uma droga modificada por John que a impedira de dormir desde então.
E tudo que havia construído durante todo esse tempo, estava sendo derrubado como um castelo de cartas diante de um sopro.
Não havia situação mais desesperadora, mais angustiante, que presenciar aquilo.
Carta por carta.
Sopro por sopro.
E quando havia apenas um andar sobrando do que antes era um império, um som invadiu seus ouvidos.
Um telefone.
Ao lado da cama de Maureen, em cima de um criado-mudo. Estava certa de que não estava funcionando, mas lá estava ele, tocando.
“Não era um sonho. Está tudo bem atendê-lo.” Queria poder soar tranquilizadora para si mesma, em vão.
Caminhou até o aparelho e o atendeu, sem hesitar.
– Bom dia, filha. Como está? Temo que tenhamos alguns assuntos pendentes à se resolver, não?
Pela primeira vez em muitos anos, desejou que fosse um pesadelo, desejou ouvir aqueles berros, aquela risada, no lugar de ouvi-lo.
Feliz ou infelizmente, uma situação parecida ocorrera; mas daquela vez, os berros foram de Kira e a risada, de John.
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