A Nossa Secessão

2 Percy Jackson: Faço um exército inteiro ficar com medo de tomar banho


Notas iniciais
HELLO PESSOAS! Olha quem voltou? Eu mesma! Não, o demagorgon do bloqueio criativo não me alcançou. Ainda. Já estou adiantada alguns capítulos, mas vou (tentar) manter as publicações semanais. Vai saber quando eu vou ser arrastada para o Mundo Invertido? Pelo menos lá tem Wi Fi. Sobre a história agora: sei que o capítulo passado foi meio paradão, mas isso porque eu acabei jogando toda a ação para esse aqui, por isso ele ficou meio longo... :D Espero que vocês gostem! Uma ótima leitura a todos!

2 de Julho de 1863:

A carroça prisão sacudiu ao passar sobre um buraco, quase me lançando do banco em que estava precariamente sentado. Diante de mim estava a minha mãe com um semblante aterrorizado, de quem vê seus maiores medos se tornando realidade. Ela tentou mascarar o sentimento, mas eu a conheço muito bem para me deixar enganar. Éramos os únicos prisioneiros ali e ela sabia de algo que não queria me contar.

— Aquela... coisa te machucou? — perguntei. Ainda não tinha encontrado uma palavra adequada para descrever a criatura que me arrancara da minha casa no começo da noite. A criatura que um dia fora meu patrão. Um arrepio subiu a minha espinha.

— Eu estou bem, Percy. — ela falou com a voz controlada — Não precisa se preocupar comigo.

O que ela não diz fica implícito no olhar de relance que ela me lança logo em seguida. “Preocupe-se com você”. Senti um gosto amargo na boca e baixei os olhos para o chão, tentando entender o que estava acontecendo. Ok, eu era de Nova York, assim como a minha mãe, mas será que os Confederados estavam tão paranoicos a ponto de pensar que qualquer pessoa que se mudasse do norte para o sul era espião agora? Além do mais, eu estava ali desde os quatro anos de idade! Fazia mais de uma década que eu me mudara! Tudo isso só me fazia acreditar ainda mais que tinha algo muito errado ali, eu só não conseguia descobrir o quê.

Perdera a noção de tempo quando fora jogado ali dentro, mas o dia já estava raiando. Podia ver a luz pálida se infiltrando através das frestas da carroça. Sentia sono, mas não conseguia pregar os olhos. Estava com medo. Por mim e pela minha mãe. Uma sensação incomoda me dizia que aquelas pessoas não tinham nada a ver com a Confederação. E não era só o fato de eles terem monstros em suas linhas de frente.

— Para onde estão nos levando? — sussurrei.

— Eu não sei filho. — minha mãe sussurrou com os olhos fixos no chão — Não conheço essa gente.

Mordi o lábio inferior, nervoso.

— Eu não fiz nada de errado. Juro.

Minha mãe sorriu com bondade.

— Acredito em você, Percy. Mas o que quer que essas pessoas queiram conosco, vamos ter que esperar pelo que vai acontecer.

Mal ela acabou de dizer isso e um berrante se fez ouvir do lado de fora. A carroça parou abruptamente e eu ouvi espadas sendo desembainhadas. Alguém deu uma ordem em uma língua que eu não conhecia... Seria latim? Passos nervosos circundaram a carroceria, mas o silêncio tornara a reinar na floresta.

E então veio o pânico. E veio do meio do nada. Flechas se enterraram na madeira da carroça com um ruído característico e, pelos gritos do lado de fora, nos soldados que nos escoltavam. Os cavalos relincharam assustados, tentando escapar da emboscada na estrada.

— Mantenham a formação! — berrou alguém — Não deixem os graecus chegarem perto da carroça!

Novamente a sensação de que algo estava errado ali se apossou de mim, fazendo meu estômago parecer uma rocha de dez quilos afundando nas minhas entranhas. Não havia nenhuma unidade da União chamada graecus e nem um povo indígena com esse nome. Eu sabia disso porque vinha secretamente torcendo pelos Estados Unidos e frequentemente buscava me informar sobre tudo que estava disponível.

Espadas se chocaram com espadas enquanto a cacofonia de um campo de batalha se espalhava ao nosso redor. Não havia, porém, o som de cascos acompanhando. Não era a cavalaria do exército da União que atacava o comboio.

— Ok... Isso é, no mínimo, estranho. — comentei.

Minha mãe também parecia ter notado, mas algo em seu olhar indicava que ela sabia o que estava acontecendo. Envolvendo minhas mãos na sua, ela me puxou mais para perto.

— Percy, preste atenção. — sua voz tinha um som de urgência — Essas pessoas lá fora, elas sabem quem você é. Eu tentei manter isso em segredo para te proteger, mas agora é tarde de mais.

— Mãe, do que você...

— Filho, escute. — ela acariciou meu rosto com delicadeza. Seus olhos se esforçavam para transmitir uma calma que eu sabia que ela não tinha — Tem muita coisa que você não sabe ainda. Sobre quem você é. Sobre o seu pai.

— Meu... Pai? O que ele...

— Eu preciso que você entenda que tudo o que eu fiz, foi para proteger você dos perigos dessa vida. — ela me interrompeu.

— Mãe eu não...

— Eu preciso que você vá com as pessoas que alegam ser do exército da União, Percy. — ela prosseguiu — Eu preciso que você confie neles.

— Eu não vou deixar você para trás. — respondi com determinação.

Ela sorriu e me abraçou e eu senti que aquilo era uma despedida. Eu não podia deixar ela para trás. Não sabendo que aquelas pessoas que estavam ali fora vinham nos resgatar. Para onde eu fosse, ela vinha junto. Ponto final.

— Eu te amo. — murmurei.

— Eu também te amo, filho. — ela respondeu — Eu só queria que...

A porta da carroça foi escancarada, interrompendo suas palavras. Na verdade, a porta foi arrancada das dobradiças e jogada para longe como se fosse um disco de lançamento. Onde quer que ela tenha caído, provocou gritos de dor e indignação. Mas tudo isso perdeu a importância quando o mesmo monstro que me imobilizara durante a noite botou a sua cabeçorra de touro dentro da estreita abertura que ele criara e deu um urro de gelar a espinha.

— Alguém elimina esse maldito minotauro! — berrou a voz de uma garota por sobre a confusão do lado de fora enquanto eu e minha mãe ficávamos imóveis e pasmos diante da criatura.

Bufando ao perceber que não conseguia entrar pela estreita abertura que criara, o monstro libertou a cabeça e enfiou o braço dentro da carroceria. Seus dedos se fecharam em volta da minha perna e, antes que eu pudesse pensar em reagir, fui lançado para o lado de fora como um pedaço de lixo inútil. Meu corpo se chocou contra um pinheiro e garanto para vocês que todos os mal-jeitos que eu dei na coluna durante o meu trabalho nas docas se resolveram com uma sequência de estalos e muita, muita dor.

Caí no chão grunhindo, a cabeça rodando e a vista borrada. Ao meu redor não havia fumaça, como era costumeiro dos campos de batalha com armas de fogo e artilharia, apenas corpos ensanguentados de homens — ou melhor, adolescentes — trajados nos uniformes de ambos os exércitos. A luta se desenrolava do outro lado de onde eu caíra, mas isso não impedia um grupo pequeno de soldados confederados de correrem na minha direção com expressões determinadas.

— Levem ele daqui. — falou um dos garotos — Vamos manter os graecus distraídos enquanto vocês...

Um grito de dor interrompeu a sua fala enquanto ele desabava no chão com uma flecha enterrada entre as suas costelas. Tentei levantar, mas meus músculos pareciam feitos de chumbo. A árvore atrás de mim me impedia de recuar. Os dois soldados restantes desembainharam suas espadas e se viraram para o arqueiro, empoleirado no topo do morro com a arma retesada apontada diretamente para a cabeça de um deles. Os três esperaram pelo movimento um do outro, completamente alheios ao restante da batalha. Tão alheios que nem perceberam a aproximação da besta com cabeça de touro que os atingiu no meio do peito e os esmagou sob seus imensos pés como se fossem dois ovos. A flecha do arqueiro inimigo voou pelo ar, enterrando-se no ombro da criatura, o que apenas pareceu deixá-lo ainda mais nervoso.

Com um urro de raiva, ele voltou seus olhos para mim. Dois poços de pura loucura completamente descontrolados. Agora não eram só os graecus gritando para derrubarem o minotauro. Todos praguejavam contra a criatura e alguns amaldiçoavam com a voz pouco contida um certo Octavian. Forcei-me a ficar de pé, usando o tronco da árvore como apoio. O mundo girou vertiginosamente ao meu redor, mas eu não me atrevi a fechar os olhos. Não quando o monstro se abaixava, mirando seus chifres em meu abdômen.

Da carroça, minha mãe gritava meu nome, implorando para que eu corresse.

Mas eu vira aquela coisa correndo. Eu não era páreo para fugir dela. Não no meu estado. Acabaria esmagado no chão como aqueles dois garotos. E eu não estava nem um pouco a fim de virar geleia de Percy. Precisava de outro plano e eu já tinha um em mente. Deixei que o minotauro disparasse na minha direção, tão rápido quanto uma bala de canhão, e esperei o último instante possível para me jogar para o lado.

O impacto da cabeça do monstro contra o tronco da árvore retumbou até em meus ossos. Ergui-me devagar e olhei para a criatura, presa pelos chifres na madeira. Seria cômico e eu até teria rido se ele não tivesse, no processo de tentar se libertar, me atingido em cheio no meio do peito com uma de suas mãos enormes.

Novamente me vi lançado pelo ar, caindo no chão no mesmo momento que o minotauro se libertou. A terra foi tão gentil comigo quanto a árvore e eu não demorei a perceber que respirar fazia o meu peito doer.

— Ah, legal. — resmunguei, cuspindo uma bola de sangue e saliva que subira à minha boca com o impacto.

Consegui me por de joelhos com certo esforço. A criatura havia se distraído com os corpos previamente esmagados, arrancando membros e devorando-os com a voracidade de um cão faminto. Nunca tinha visto nada como aquilo. O pânico cresceu em mim e eu quase deixei que ele me controlasse. Aquilo não podia ser real. Tinha que ser um pesadelo! A dor nas minhas costelas parecia muito real, mas até aí eu já tinha sonhado muitas coisas que pareciam real, bastava perguntar à minha mãe.

Mãe! Olhei para a carroça. O veículo ainda estava de pé, e agora soldados confederados haviam criado uma barreira ao seu redor e impediam o avanço do grupo da união com escudos retangulares quase do mesmo tamanho que seus portadores. Ela me olhava com preocupação e medo, mas não ousava falar nada. Podia ver em seus olhos que ela tinha medo que o monstro a atacasse também. Mas por enquanto ela estava a salvo e eu me permiti um fraco suspiro aliviado.

Forcei-me a ficar de pé. A última coisa que eu precisava naquele dia era virar lanchinho de um monstro que comia carne humana. Eu precisava de algo para me defender. Algo que eu soubesse usar. Uma espada estava fora de questão. Pistolas não pareciam estar disponíveis. O ideal seria uma faca, mas a única coisa mais parecida com isso era um chifre de touro enterrado na madeira de uma árvore. Bufei. Era isso ou tentar a minha sorte desarmado em um campo de batalha.

Andei com cuidado, agarrando a lateral do corpo e com um olho onde eu pisava e o outro no monstro logo adiante. Precisava evitar ao máximo chamar a atenção dele. Pelo menos até ter algo em minhas mãos para poder me defender. Ah, mas o que eu estava pensando? Que eu tinha alguma chance contra aquela montanha de músculos e pelos? Por algum motivo desconhecido, algo dentro de mim dizia que sim e foi só essa ideia maluca que me fez prosseguir com meu plano de tentar recuperar o chifre.

O objeto estava fincado fundo na madeira e minhas costelas protestavam com maravilhosas pontadas de dor por causa do esforço. Vez ou outra, principalmente depois de soltar um grunhido, eu me virava para trás , para ver se o meu colega monstro já tinha notado a minha presença, mas ele parecia bem mais entretido com o seu café da manhã do que eu achava possível. Melhor para mim. Atrás dele, soldados confederados ainda tentavam segurar uma horda de soldados da união, mantendo-os afastados da carroça, magicamente ainda intacta. Será que eles achavam que o plano tinha dado certo e eu já estava longe dali em um lugar seguro? Não importava. Eu só precisava conseguir tirara aquele chifre e resgatar a minha mãe. Por enquanto, tudo estava dando certo.

Mas claro que só porque que achava isso a minha sorte tinha que mudar. Uma brisa leve soprou logo atrás de mim e, quase em seguida, o minotauro ergueu o focinho da carcaça que devorava e farejou o ar. Ele identificou o meu cheiro e, aparentemente, eu era mais apetitoso do que uma pessoa pisoteada. A montanha de músculos tornou a se levantar, jogando para o lado o que eu julguei ser um dos braços do pobre soldado morto. Ele abaixou a cabeça e raspou o chão com os pés humanos enormes. Suas narinas cobertas de sangue soltavam nuvens de partículas vermelhas e gosmentas enquanto ele bufava.

— Droga, droga, droga! — sibilei, fazendo mais força para puxar o chifre, mas sem sucesso.

O monstro deu um urro e atacou. Era agora ou nunca. Firmei o pé na madeira e usei toda a força que me restava para arrancar o objeto. Cai para o lado, mas não a tempo de escapar das mãos do minotauro. Ele, novamente, me agarrou como se eu fosse uma boneca de pano e me ergueu no ar com a mesma facilidade que eu ergueria um graveto. A dor no meu tórax se intensificou e eu reprimi um berro de agonia. Ele me aproximou do seu enorme focinho e eu percebi pela primeira vez que ele fedia a carne podre.

Não esperei para descobrir se ele só queria me elogiar pelo meu perfume ou se estava mais interessado em tentar provar a minha cabeça. Deixei meus instintos agirem e, antes mesmo que eu percebesse, tinha enterrado o chifre no pescoço da criatura o mais fundo que eu conseguia. O monstro urrou e me largou, lentamente se desfazendo em poeira, como se fosse um enorme boneco feito de areia e que agora era soprado pelo vento enquanto tentava se afastar de mim.

Cai com os joelhos no chão, completamente sem forças, o que não foi nada agradável, visto que eu tinha sido içado uns bons dois metros do chão. Os urros guturais do minotauro chamaram a atenção de todos os combatentes restantes e, de repente, eu me vi como o centro das atenções. Cada par de olhos estava voltado para mim.

E foi isso que permitiu que os soldados confederados fugissem com a carroça com a minha mãe dentro enquanto ela gritava meu nome.

— Não. — murmurei, sentindo a língua enrolar na boca.

Tentei gritar, pedir para que eles parassem, falar qualquer coisa, mas as palavras pareciam travadas na minha garganta. Pior do que isso: eu não estava conseguindo respirar. Se antes já estava difícil puxar o ar para os pulmões por causa da dor nas costelas, depois do apertão do minotauro não ficou nem um pouco mais fácil. O mundo começou a ficar escuro e a última coisa da qual eu me lembro antes de desmaiar é de uma garota loira bonita vestida com o uniforme de general da União se aproximando de mim e gritando por médicos.

...

O mundo ao meu redor começou a ganhar sentido de novo. Podia ouvir o som de uma fogueira crepitando não muito longe e o murmurinho baixo de conversas. Sobre eles, os ruídos de lâminas sendo afiadas e carroças sendo carregadas. Onde eu estava? Não tinha a menor ideia. Só sabia que eu estava deitado em uma maca, coberto por um cobertor de lã.

— Tem certeza que esse é o cara certo? — perguntou uma voz sussurrada a poucos metros de distância.

— Tenho. — respondeu uma voz feminina — Mas isso não é o importante agora. Precisamos levar ele em segurança para a nossa base de operações, mas, acima de tudo, temos que descobrir como os romanos sabiam dele.

Abri os olhos para observar a dupla. Ambos loiros. A menina tinha olhos cinzentos, mas o garoto estava de costas para mim, o que só me permitia ver a sua nuca. Ele era mais alto e, muito provavelmente, mais velho do que ela. O garoto trazia presa em um cinto uma espada com meia lâmina de aço normal e a outra com uma cor de bronze enquanto a garota não parecia estar armada. Eu não tinha a menor ideia de quem eles eram. Nenhum dos dois percebeu que eu já estava acordado.

— Talvez Lupa também estivesse de olho nele. — ele respondeu dando de ombros.

— Os romanos não são conhecidos por suas habilidades com navios, Luke. — a garota falou — Netuno não era o deus mais adorado ou respeitado por eles.

O garoto riu.

— Você realmente acha que ele é...

— Filho do deus dos mares? — a garota completou — Quíron acha que sim. — ela olhou por sobre o ombro dele para mim, finalmente percebendo que eu acordara — Leve a mensagem para ele, por favor. — Luke também se virou para olhar. Uma cicatriz branca cortava o lado esquerdo do seu rosto de alto a baixo. Ele me deu um sorriso amistoso e recolocou o chapéu.

— Nos vemos mais tarde então, Annie. — ele falou e se dirigindo para um grupo de cavalos amarrados a suportes improvisados.

A garota observou ele montar em um dos animais, que eu finalmente percebi possuírem asas, e alçar voo entre as árvores. Resolvi ignorar isso. Devia estar alucinando de alguma pancada na cabeça. Ela então se virou para mim e se aproximou com passos calmos.

— Como está se sentindo, senhor Jackson? — ela perguntou se colocando ao meu lado.

— Bem... General. — respondi, me sentando, sem entender o motivo da pergunta.

— Isso é bom de ouvir, porque temos um caminho longo pela frente.

— Er... Temos? — lancei-lhe um olhar confuso — Desculpe a pergunta, senhora, mas... Onde eu estou exatamente e... Bom... Quem são vocês?

A garota suspirou e se agachou do meu lado, seus olhos cinzentos me observando com atenção, como se esperasse que eu falasse qualquer besteira que denunciasse que eu não era quem ela pensava que eu era.

— Meu nome é Annabeth Chase. Sou general dessa unidade e estamos te levando para um lugar seguro.

— Por quê? O que há de errado com a minha casa? — perguntei.

— Will me disse que você poderia ter dificuldades de se lembrar do que aconteceu. — ela suspirou — Me diga, senhor Jackson. Qual é a última memória que você tem do dia de ontem?

Ontem?

— O que você quer dizer com ontem? — murmurei baixando os olhos para o cobertor em meu colo.

— Se atenha à pergunta, senhor Jackson. É importante.

— Percy. — falei — Pode me chamar de Percy. — busquei na minha mente as memórias do que tinha acontecido, mas tudo parecia irreal de mais — Eu... Tive uma discussão com o meu padrasto... Ele deve ter me nocauteado, porque o resto tem que ser um sonho muito estranho. — resmunguei, passando a mão pelo cabelo.

— E porque você acha isso, senhor... Percy? — Annabeth insistiu.

— Porque... — eu recapitulei os eventos mentalmente — O meu chefe se transformou em um monstro com asas e eu apanhei de um homem gigante com cabeça de touro.

Annabeth sorriu, parecendo aliviada, o que só me deixou mais desconcertado.

— Sinto ser eu a te informar isso, mas todos esses acontecimentos foram reais, Percy. — ela falou com suavidade — A sua cabeça não inventou nada disso. Prometo para você que tudo ficará mais claro quando chegarmos a nossa base de operações, mas agora...

Suas palavras foram interrompidas por um berrante. Imediatamente, Annabeth se colocou de pé e olhou na direção de onde o som tinha vindo. Um garoto trepado em uma árvore fazia gestos com as mãos que não tinham sentido nenhum.

— Merda. — ela sibilou — Levantar acampamento! Agora! Sigam para o rio Green!

Imediatamente, todos se levantaram e, apressados, começaram a organizar as próprias coisas, gritando uns para os outros o que fazer. A general começou a se afastar de mim com pressa, quase correndo na direção das carroças.

— Ei! Espera! — chamei, jogando a coberta para o lado e me colocando de pé — O que está acontecendo? Por que estamos indo embora?

— Não tenho tempo para explicar, Percy! — ela respondeu exasperada — Apenas ajude os outros para sairmos daqui o mais rápido possível!

Assenti e recolhi a maca e o cobertor, entregando-o para um grupo de garotos com a insígnia de médicos em seus uniformes. Eles me olharam com uma cara engraçada, como se se perguntassem o que eu já estava fazendo de pé, mas, acho que devido às circunstâncias, não falaram nada. Olhei ao redor, buscando algum lugar em que eu seria útil. Não foi difícil encontrar. Com a movimentação, os cavalos, que de fato tinham enormes asas na lateral do corpo, ficaram agitados e agora empinavam, recusando os cavaleiros que tentavam montá-los e ameaçando qualquer um que se aproximasse de mais. Um deles conseguiu se libertar do poste que o prendia e disparou pelo acampamento. Não pensei duas vezes. Corri até o animal e me coloquei na frente dele. Assustado com a minha interferência e não querendo me machucar, ele empinou e eu aproveitei para agarrar as rédeas.

— Sai da frente, seu maluco! Eu vou embora daqui!

— Hey! Calma! Vai ficar tudo bem! — falei, olhando-o nos olhos.

— Quem é você para dizer que vai ficar tudo bem? — o animal perguntou, descendo as patas dianteiras com força no chão — Eu nunca te vi por aqui! Você não sabe de nada!

— Posso não saber o que está acontecendo, mas sei que essas pessoas querem ir embora daqui. — respondi, ignorando completamente o fato de que eu estava falando com um cavalo — Por isso eu preciso que você se acalme. Nós temos que sair daqui.

— Você... me entende? — o cavalo perguntou ao mesmo tempo confuso e surpreso, inclinando a cabeça para o lado e ficando momentaneamente mais calmo, talvez por conta da dúvida, ou talvez apenas para recuperar o fôlego.

— Olha, eu sei que falar com cavalos não é uma coisa normal. Não precisa esfregar na cara. — resmunguei — Agora por favor, vamos embora!

— Eles mataram o Bek! Eles vão nos matar também! Não queremos morrer! — ele escoiceou o ar atrás de si, como se estivesse em um rodeio — Queremos dar o fora daqui!

— Eu sei! Eu também quero! — respondi lutando para manter as rédeas nas minhas mãos e forçando o animal a me olhar nos olhos — Todo mundo aqui quer! Por isso estamos arrumando as coisas! Por favor, confie em mim! Vamos nos ajudar e ninguém vai morrer no processo. Mas para isso você precisa se acalmar, ok?

O cavalo bateu com os cascos no chão, impaciente, mas abaixou a cabeça.

— Ok. — ele resmungou.

— Obrigado. — falei, passando a mão em sua crina, agora me ajude a acalmar os outros, ok?

Com um aceno de cabeça, ele me seguiu de volta para a posição dos outros e rapidamente os acalmou, repetindo mais ou menos as mesmas coisas que eu tinha dito.

— Você tem jeito com os animais. — falou um soldado da minha idade pegando dois cavalos e atrelando-os ao que parecia ser uma carruagem.

— Temos que ir embora daqui agora! — ouvi Annabeth gritar — Os romanos estão nos cercando e vão acabar no encurralando contra o rio!

Os animais restantes foram montados com pressa. Eu fiquei parado no mesmo lugar, sem ter a menor ideia do que fazer. Fixei os olhos no horizonte da floresta enquanto mais e mais soldados passavam por mim carregando suas coisas ou com armas em punho. Bem ao longe, na linha dos arbustos entre as árvores, tive a vaga impressão de ver figuras se aproximando.

— O que você está fazendo? — perguntou Annabeth entredentes, se materializando do meu lado e me puxando para longe pela manga da camisa.

— Eu não tô fazendo nada! — protestei, seguindo seus passos apressados de forma trôpega.

— Exatamente! Esse é o problema! — ela sibilou — Os romanos não podem por as mãos em você, está entendendo?! E anda direito caramba!

— Romanos?! — perguntei, tentando acertar meu passo com o dela — Achei que a guerra era civil e não com fantasmas de um império!

A general soltou um grunhido de irritação, lançando um olhar para os céus como se perguntasse a eles o que fizera para merecer aquilo. Mais adiante, eu conseguia ver o restante do exército se agrupando.

— Se você não fosse um completo alienado, juro que te matava eu mesmo. — ela resmungou me empurrando a frente — Continue correndo até alcançar aquele grupo!

Ela então colocou o chapéu na cabeça e, literalmente, desapareceu. Fiquei alguns instantes encarando o nada, completamente abismado e, muito provavelmente, com a boca aberta, até que o nada resolveu me empurrar na direção que eu devia correr. Confuso de mais para entender alguma coisa, apenas obedeci.

Ao me aproximar do restante da unidade, percebi que tínhamos um problema. Os soldados, que eram pouca coisa mais novos ou mais velhos do que eu — quando o eram — não estavam se agrupando ali porque queriam. O rio Green estava no seu período de cheia e as águas revoltas batiam contra as pedras de forma ameaçadora.

Na outra margem os soldados que montaram nos cavalos alados tentavam convencer os animais a voltarem para buscar os outros. Eu podia gritar para chamá-los, mas, além de correr o risco de parecer maluco, havia uma grande chance de ser ignorado pelos animais, afinal, já fora difícil o suficiente convencê-los a não fugirem antes.

— Estamos encurralados. — resmungou um garoto, observando a correnteza com melancolia.

Ou talvez não.

Afastei-me do grupo, apenas o suficiente para não ser ouvido, e me ajoelhei à margem. A água espirrava na minha calça, rapidamente encharcando os joelhos. Não me importei. Estava mais preocupado em ser descoberto. Eu tinha feito uma promessa para mim mesmo de nunca fazer esse tipo de coisa depois dos vários acidentes nas docas. Mas ali... Ali era uma questão de vida ou morte. Tinha que ser uma exceção.

Mergulhei ambas as mãos na água. Senti sua energia me preencher como se fosse o meu próprio sangue. Fechei os olhos e me concentrei na correnteza. Era como um cavalo selvagem: sem controle. Esvaziei minha mente e mentalmente, pedi para que o rio se acalmasse.

A princípio, pensei que não tinha funcionado. Sendo bem realista, aquilo era um tiro no escuro. Eu não esperava que desse certo. A maioria das vezes que eu interagira com a água desse jeito, fora de forma inconsciente. Eu nunca tinha a intenção de que algo acontecesse quando esses fenômenos ocorriam. Como daquela vez em que eu dera um banho involuntário em uma garota que batia em uma criança escrava. Ninguém suspeitou de mim, já que fora uma onda estranhamente grande que atingira o píer, e nem eu sabia o que estava fazendo, mas não posso dizer que não fiquei internamente satisfeito com o ocorrido.

E então veio o burburinho. Não conseguia identificar as palavras, já que eu tinha que ficar cem por cento focado na correnteza, mas uma fala que se destacou.

— Atravessem o rio enquanto dá e agradeçam às dríades!

Passos chapinhados dispararam em um alvoroço através do rio e, quando eu tive certeza que ninguém mais estava passando, abri os olhos. Todos já estavam do outro lado, as calças molhadas até os joelhos, conversando distraídos entre si, acreditando já estarem seguros do outro lado.

Todos menos Annabeth.

Assim que me viu, ajoelhado ao lado do rio, ela disparou na minha direção com a expressão digna de uma leoa furiosa. Seus olhos brilhavam de raiva e mascaravam alguma outra coisa que eu não conseguia identificar. Seria surpresa? Ela veio para cima de mim como uma tempestade, novamente me agarrando pela manga da camisa e me arrastando consigo para dentro do rio.

— O que você ainda está fazendo aqui?! — ela perguntou num tom de voz de raiva controlada.

— Eu... Não sei. — menti. Mesmo com toda aquela história de homem com cabeça de touro e combate contra os romanos, não estava nem um pouco a fim de revelar minhas habilidades. Talvez tudo aquilo fosse uma pegadinha. Não queria que ela pensasse que eu era maluco ou idiota.

A resposta dela foi um bufo irritado. A água ao nosso redor continuava calma, como se a minha simples presença fosse, agora, suficiente para controlá-la. Estávamos no meio do caminho quando uma flecha quicou em uma das pedras a alguns centímetros da minha perna.

Involuntariamente, olhei para trás. Onde antes havia apenas floresta, folhas caídas e enormes rochas expostas, agora tinha também um exército armado com espadas e equipado com enormes escudos retangulares. Um único arqueiro se destacava do grupo, armando mais uma flecha no arco e trajado com o uniforme cinza dos Confederados.

— Corre. — falou Annabeth.

Ela nem precisava ter dito. Disparei com ela ao meu lado, tomando cuidado com o limo nas pedras sob os meus pés. Uma segunda flecha zuniu pelo ar, passando a centímetros da minha cabeça. Alguém cuspiu uma praga do outro lado da margem, enquanto do nosso lado, os soldados se preparavam para o combate, desembainhando espadas e erguendo escudos circulares de bronze.

Mal colocamos os pés em terra firme e começamos a ouvir passos na água. Olhei para trás. A correnteza continuava mansa como um cordeiro e, por mais que eu tentasse, não conseguia me controlar o suficiente para fazê-la voltar ao normal. Os soldados do outro lado continuavam avançando. Eram maioria. Pelo menos dois deles para um dos nossos. Annabeth já começava a gritar ordens, pedindo aos médicos que recuassem com os feridos e mandando os arqueiros se posicionarem a beira do rio a postos. Mas tanto ela quanto eu sabíamos que os escudos retangulares eram grandes o suficiente para protegerem os soldados que os carregavam das flechas.

Eles chegaram ao meio do caminho. Muitos já soltavam os seus gritos de batalha. Do nosso lado, os olhares eram de resignação e medo. Os cavalos alados, assustados, recuavam com suas bigas e montarias, negando qualquer auxílio e olhando aterrorizados para os céus, como se buscassem um monstro entre as nuvens.

— Percy, eu preciso que você fuja. — Annabeth falou.

— O quê? — perguntei confuso.

— Eles querem você, seu idiota! Já te disse isso mais de uma vez! E nós não podemos correr o risco de perder você, está entendendo?!

— Eu não... — ouvi um zunido característico e, a coisa seguinte da qual eu me lembro é estar segurando uma flecha a centímetros da têmpora de Annabeth. Ela nem percebeu.

— Se abaixe! — ela gritou me jogando para o chão. Uma segunda flecha se cravou em uma árvore, passando exatamente por onde a minha cabeça estivera segundos antes — Fique abaixado e, assim que conseguir, saia daqui, entendeu?

Assenti e observei ela desembainhar uma faca de bronze da cintura e avançar para a linha de frente formada por arqueiros. Observei os soldados inimigos, a menos de cinco metros de distância e avançando em velocidade. Não pensei no que fiz a seguir. Apenas me concentrei na água do rio e ergui os braços a frente acima da cabeça. Senti uma fisgada nas entranhas, algo que eu já tinha sentido antes, e, bruscamente, a água se ergueu em um paredão de quase dez metros de altura.

O outro lado silenciou de repente, tão assustado com o nosso, que se mexia de forma desconfortável, se afastando lentamente da parede de água. Até que eles me viram. Senti cada um dos mais de vinte pares de olhos colarem nas minhas costas.

— Vão! — falei, tentando tirar a atenção deles de mim — Saiam daqui enquanto podem! Não sei por quanto tempo consigo segurar isso.

— Unidade, recuar! — bradou Annabeth correndo até mim enquanto o restante dos soldados obedeciam suas ordens com prazer — O que você está fazendo?

— Não sei. — admiti com a respiração ofegante. Manter aquela parede estava drenando toda a minha energia — Mas acho que tem algo a ver com salvar a vida de vocês.

— Muito engraçado. — a general sibilou — Se livre logo disso para podermos sair daqui.

— Eu disse para vocês irem. — argumentei trincando os dentes por causa do esforço que fazia suor escorrer pela minha testa como se eu estivesse carregando as sacas de tabaco no sol a pino do verão.

— É. E eu acho que eu te disse que não vou deixar você cair na mão dos romanos. — ela retrucou.

Uma ponta de lança atravessou a água e meu corpo reagiu provocando uma pontada em meu fígado. O esforço atingiu o ápice. Cada músculo do meu corpo começou a tremer e eu simplesmente não consegui mais segurar. Em uma última tentativa desesperada de manter aquele exército afastado, empurrei a parede de água para frente com as minhas últimas reservar de força e deixei meus braços caírem inertes do lado do corpo.

Ouvi os gritos de medo e alerta dos soldados do outro lado enquanto eles eram carregados pela água de volta a sua margem de origem. O rio voltou a rugir com a correnteza de antes, como se estivesse furioso comigo por tê-lo manipulado daquele jeito. Mentalmente, pedi desculpas, alegando que era a única forma, enquanto perdia os sentidos.

Notas finais
FIM! E continua semana que vem! Eu realmente tô com a impressão de que o Percy desmaiou mais que o Jason nesse capítulo, mas enfim... O que acharam? Deixem suas dúvidas, sugestões, correções e opiniões nos comentários! E nos vemos sexta-feira que vem se a minha memória de peixinho dourado não me falhar. Por hoje é isso, pessoas! Até a próxima!