A Nossa Secessão

12 Frank Zhang: Um urso vai a um julgamento, e isso não é o começo de uma piada


Notas iniciais
E EU VOLTEI DO REINO DOS MORTOS! Sim, eu sei que se passaram seis meses e que eu sugeri que esse capítulo seria postado no carnaval. Mas não deu certo. A minha inspiração fez "puft" e simplesmente fugiu pra Narnia, Oz ou qualquer que seja o lugar que as inspirações vão quando fogem de você. Além disso eu tive um semestre barra pesada que dificultou bastante eu trabalhar com qualquer dos meus projetos literários. Mas eu consegui escrever, depois de sofrer nas mãos do Tio Rick com O Labirinto de Fogo (TOT) e espremer muito a minha inspiração em um desses negócios de fazer suco de laranja. O resultado está aqui embaixo. Espero que vocês gostem. Boa leitura a todos!

6 de Julho de 1863:

Depois de impedir Jason de matar Octavian assim que o áugure pôs os pés no acampamento, Reyna me instruiu a cancelar minha viagem para Lexington para que todo o alto escalão estivesse presente durante o julgamento. O que ela não me disse foi que, ao fazer isso, eu também seria designado para ficar de guarda do lado de fora da cela, construída no centro do Campo de Marte por alguns poucos filhos de Hefesto desocupados. Aparentemente eu era uma das poucas pessoas disponíveis no acampamento todo que não tinham uma rixa mortal ou um laço de lealdade com Octavian.

Resumindo: Passei a noite de pé, junto com outros três legionários, garantindo que ninguém se aproximasse enquanto Octavian roncava tranquilamente dentro de sua cela improvisada. Não preciso dizer que me arrependi mortalmente de não ter deixado Jason acabar com essa palhaçada de uma vez.

Agora, oito horas da manhã, eu era o responsável por escoltá-lo em direção ao Senado, onde ele seria julgado. Ou pelo menos esse era o plano. Precisei requisitar reforços para abrir passagem pela multidão que chegara no meio da noite apenas para ver o espetáculo. Como a notícia tinha se espalhado tão rápido eu não sabia, mas me senti tentado a levá-lo para o coliseu e pendurar em seu pescoço uma placa escrito: Atire tomates em mim! É de graça!. Assim eu tenho certeza de que conseguiria arrancar o sorriso presunçoso que ele exibia desde o momento em que eu o retirara da cela, mesmo que seu rosto ainda apresentasse uma série de cicatrizes de seu encontro com a Medusa.

Eu não conseguia saber se as pessoas que estavam ali protestavam contra o julgamento ou queriam matar o áugure. Término podia proibir a entrada de armas além da linha Pomeriana, mas isso não iria impedir ninguém. Para turbas enfurecidas, bastava que tivessem pedras.

— Eu não entendi o porquê de todo esse trabalho — ouvi ele comentar enquanto eu, com muito esforço, guiava-o através de um estreito corredor de legionários irritados. — Eu sou inocente.

— Veremos se você consegue provar isso — rebati, trincando os dentes quando alguém tentou acertá-lo com um cabo de vassoura e eu fui forçado a aparar o golpe com o braço. A madeira afundou a braçadeira da armadura na minha pele e com certeza deixou um hematoma para trás.

— Ora, General Zhang. Eu e você sabemos que é só uma questão de palavras.

Não respondi e dessa vez fingi me distrair com meu uniforme quando alguém acertou um ovo bem no meio de seu rosto. A expressão de nojo que o tomou me fez desejar ter uma câmera para registrar aquele momento histórico. Ouvi um dos guardas inquerir a multidão sobre quem era o responsável por aquilo, mas honestamente ninguém estava muito interessado em descobrir, ou em se incriminar.

Chegamos dez minutos atrasados para a sessão. Jason parecia prestes a começar a criar uma nuvem particular de tempestade sobre a sua cabeça, tamanha era sua impaciência, e Reyna arranhava o braço da cadeira com as unhas, como se desejasse fazer novos entalhes na superfície já gasta da madeira. Justificar meu atraso não foi necessário, visto que eu tive que empurrar as pessoas que tinham se aglomerado na porta para fora do caminho.

— Finalmente — ouvi Jason murmurar, se ajeitando na cadeira.

Coloquei Octavian no centro do Senado, diante do pódio, o rosto ainda sujo de clara e gema, e me encaminhei para a primeira fileira de assentos. Quase não havia senadores por ali (dos dez, menos da metade estava presente, sem contar Octavian, é claro). O restante estava liderando suas tropas em diferentes cantos do país. Boa parte dos presentes eram pessoas novas ou velhas demais para a guerra, feridos em recuperação, lares e legionários estacionados no acampamento para a proteção do local. Havia, é claro, uma parte da Primeira Coorte que estava no Forte Wagner e que fora selecionada para dar seu testemunho e alguns campistas que estavam nos arredores e conseguiram uma licença para vir assistir ao espetáculo do século.

As conversas lentamente cessaram quando Reyna se levantou e se colocou diante do prisioneiro com as sobrancelhas erguidas. Talvez fosse apenas minha imaginação, mas tive quase certeza de que ela estava lutando para não rir da cara suja de gema do garoto a sua frente.

— Uma vez que o réu está presente, daremos início ao julgamento de Octavian, legado de Apolo, centurião da Primeira Coorte e áugure do Acampamento Júpiter — começou Reyna, sua voz ecoando no silêncio do lugar. — Jacob, leia as acusações.

O porta-estandartes se adiantou um passo de sua posição ao lado de Jason e abriu um rolo de pergaminho diante de si, projetando sua voz grave para todo o salão.

— Octavian, legado de Apolo, você é acusado de crimes contra a Primeira Coorte e contra a Décima Segunda Legião Fulminata. As transgressões atribuídas a você são as que seguem: Colocar as tropas sob sua responsabilidade em perigo desnecessário, insubordinação, assassinato de seus subordinados, formação de alianças não autorizadas e traição. Dos cinco crimes imputados a sua pessoa, quatro são tidos como faltas graves e apenas um como intermediária. Diante dos fatos aqui apresentados, foi determinada a realização de um julgamento de emergência para se estabelecer a sua pena de modo que ela seja justa e adequada aos crimes cometidos. Assinado por Reyna Arelleno e Jason Grace, pretores do Acampamento Júpiter, no dia seis de julho de 1863.

Jacob voltou para sua posição, prendendo o pergaminho no cinto como se nunca tivesse saído dali. Reyna olhou brevemente para Jason com expectativa e com uma expressão cansada, o pretor se levantou.

— Vale lembrar... — começou ele.

— Eu entendi direito essa declaração? — Octavian cortou — Eu já estou sendo considerado culpado por esses crimes?!

— Espere a sua vez para falar, áugure — rebateu Jason, lançando-lhe um olhar ameaçador que apenas fez o legado dar de ombros casualmente. — Como eu dizia antes da interrupção, apenas Senadores e o alto escalão podem votar no veredicto e na sentença a serem estabelecidos e apenas os convocados para testemunho podem relatar casos. Aqueles que não fazem parte de nenhum dos dois grupos, peço que não interfiram no julgamento e se lembrem de que estão aqui em uma posição passiva de ouvinte, apenas para dar apoio ao seu lado de preferência.

Um murmúrio de concordância tomou o salão, o que me fez suspirar aliviado. A última coisa que eu queria era ter que separar brigas de vassouradas e puxões de cabelo. Ainda assim, eu não consegui relaxar, e não era por entusiasmo de querer ver Octavian receber o que merecia. Tinha mais a ver com o que ele me dissera mais cedo. É apenas uma questão de palavras. O babaca sabia que podia mudar a situação dele sem nem gastar muita saliva e esse era o meu medo.

— Vamos ouvir o relato do réu agora — prosseguiu Reyna de sua cadeira. — Conte-nos a sua versão dos eventos. Apenas lembre-se de que ela será confrontada com a das testemunhas.

— Apenas admita, Reyna — provocou ele. — Você está muito mais propensa a aceitar a história deles, mesmo que mentirosa, à minha.

A pretora juntou as mãos no colo, entrelaçando os dedos, e lançou um olhar frio para Octavian.

— Se você acha isso então agradeça aos deuses pelo seu veredicto não depender apenas de mim. Agora, por favor, nos diga porque você é inocente.

Da posição em que eu estava, vi o exato momento em que o áugure lhe dirigiu um sorriso amarelo cínico antes de se virar para as fileiras de acentos.

— Povo de Nova Roma, senadores e legionários! — ele começou, sua voz reverberando pelas colunas de mármore da construção e ecoando na cúpula que a recobria. — Eu me prostro humildemente diante de vocês, como um bom servo de Roma, para esclarecer esse grandíssimo mal-entendido em que nos encontramos.

Um burburinho surpreso e confuso se espalhou pelas linhas mais altas de acentos, ocupada majoritariamente por lares, e foi calado quase que instantaneamente por um olhar duro de Reyna.

— Os crimes dos quais os pretores me acusam são falácias! — ele continuou como se sequer tivesse percebido a inquietação que suas palavras provocaram. — Mentiras criadas para denegrir a minha imagem de servidor honesto dos deuses.

Octavian baixou os olhos para o chão em uma falsa expressão de culpa. Era difícil levá-lo a sério com aquela enorme mancha amarela se esticando do espaço entre seus olhos até seu queixo, mas mesmo assim eu me perguntei quantas pessoas estavam caindo em seu joguinho de atuação.

— Acredito que muitos dos presentes, se não todos, saibam que eu e os pretores nem sempre nos entendemos com relações a assuntos oficiais e isso, é claro, acabou por enfra...

— Octavian — interrompeu Jason, olhando para o garoto a sua frente com impaciência emanando de sua postura rija. — O seu relato, por favor. Não temos o dia todo para gastar com discursos. A guerra não foi interrompida por causa das suas trapalhadas.

Algumas risadas se espalharam pelo Senado, mas isso não pareceu desincentivar Octavian, que se virou novamente para o público com uma expressão clara de Eu não disse?

— Ah, claro pretor Grace. Eu já estava chegando lá, mas como insiste que eu me apresse... Pois bem! Ao relato! — Ele esticou a coluna e juntou as mãos a frente do corpo antes de fazer uma expressão de luto forçada. — Todos aqui sabem da empreitada desastrosa que a nossa pretora organizou para capturar o filho de Netuno. Muito vão dizer que a culpa de não termos conquistado a vitória foi minha, mas é preciso compreender um fato que, muito provavelmente, não foi divulgado para vocês: Eu estava sem o pessoal necessário.

Um murmúrio de confusão perpassou as fileiras de pessoas assistindo ao julgamento. Ao contrário de muitos, que se inclinaram para a frente, curiosos, decididos a saberem mais, eu me recostei em meu assento, passando a mão pelo rosto como se eu tivesse sido atingido por um ovo podre. Ele ousava... Meus olhos se encontraram com os de Jason, frio como uma rocha, mas em suas íris azuis eu via a energia que preenchia o filho de Júpiter. Tenho certeza que, se ele pudesse, ia pular na jugular de Octavian sem piscar um olho. Nós dois sabíamos o que ele ia fazer. Reyna também, a julgar por sua postura rija e olhos faiscantes, girando o anel de Belona em seu dedo com tanta força que eu tinha certeza de que ela estava simulando torcer o pescoço do áugure.

— Pela surpresa de vocês — prosseguiu ele, lutando para manter seu sorriso prepotente oculto sob a máscara de luto e vergonha que ele ostentava. Como alguém conseguia acreditar nele?! — vejo que nossos queridos pretores não os informaram de tal detalhe. Apenas metade da Primeira Coorte estava comigo durante a apreensão ao semideus grego. Claro, alguns de vocês devem achar ridículo eu estar reclamando disso, mas é necessário lembrar que o garoto é filho de Netuno. Da última vez que nós agimos contra um filho dos três grandes, — ele lançou a Jason um olhar maldoso e discreto por sobre o ombro que só serviu para deixar o pretor com uma expressão ainda mais azeda — usamos duas Coortes para tanto. Então, de fato, não deveria ter sido surpresa nenhuma que tenhamos falhado em nossa missão.

— Vale lembrar — cortou Reyna, a voz fria como uma pedra de gelo. Como ela conseguia manter a calma com um cara como aquele minando o chão bem embaixo dos seus pés, eu simplesmente não entendia — que não estamos aqui para julgar seus acertos e falhas, Octavian. Por favor, prossiga com o seu relato.

— Imediatamente, pretora. — Ele se curvou para Reyna em um ato supostamente respeitoso, mas que muito provavelmente serviu para ocultar o sorriso em seu rosto. Eu podia ouvir o veneno pingando de seus lábios enquanto ele pronunciava aquelas palavras. — Como eu ia dizendo, eu estava com pouca gente para a missão. Eu não queria que nada de mal acontecesse às nossas tropas, então consultei os deuses e, por um breve momento, eu obtive respostas.

Aquilo surpreendeu a todos. Eu duvidava que fosse verdade, mas ainda assim senti certa esperança. Se por algum milagre Octavian não estivesse mentindo para a plateia, o fato dos deuses estarem nos respondendo significava que o equilíbrio estava sendo restabelecido, com Roma como dominante. Isso era bom. Ou seria. Eu me forcei a pender para o ceticismo apesar de tudo. O áugure era uma cobra falante, não dava para acreditar em nada que ele dizia. Tudo tinha uma segunda intenção, mentira ou ocultação por trás.

O burburinho instaurado demorou a cessar e Octavian aproveitou o tempo para, discretamente, limpar o rosto na manga de seu uniforme. Reyna foi forçada a se levantar para que a atenção voltasse a se concentrar no centro do Senado, passando aqueles olhos duros pela plateia que me fizeram ter vontade de me encolher no lugar. Eu podia ser filho de Marte e general do Acampamento Júpiter, mas meu instinto de preservação sempre falava mais alto quando Reyna estava envolvida, especialmente se ela invocasse aqueles cães metálicos dela. Eu nunca admitiria isso, mas Aurum e Argentum me deixavam extremamente nervoso.

— A mensagem dos deuses — prosseguiu ele, captando os últimos resquícios de atenção dispersa de volta para si — dizia que devíamos nos aliar aos nossos inimigos, mas não era clara quanto a qual... Ora, basta pensar um pouco para entender o que eles queriam dizer. — Ele começou a andar pelo palanque, as mãos ainda atadas gesticulando da melhor forma que conseguiam. — Os graeci estavam fora de cogitação. Nunca iriam nos entregar uma peça tão importante simplesmente porque os deuses mandaram. Eles definitivamente não são os melhores exemplos de obediência. O Minotauro nasceu da teimosia de um rei grego que condenou sua mulher, Aquiles se negou a lutar e quase deu a vitória para Troia por se recusar a se submeter a Menelau, Ícaro morreu por não obedecer a seu pai... A lista é tão longa que eu poderia passar horas citando exemplos, mas isso seria um desperdício do nosso tempo. Todos nós já sabemos como os gregos são tacanhos e teimosos. — Ele fez uma pausa e pigarreou tão levemente que duvido que alguém sentado além da primeira fileira tenha ouvido e se virou novamente para a plateia, a expressão de tristeza novamente tomando seu rosto. — Então eu recorri aos nossos outros inimigos: Os monstros.

Eu não sei o que ele pretendia com a pausa dramática antes de anunciar os seus crimes, mas eu sei que ele conseguiu fazer muitas pessoas se inclinarem ainda mais para frente na cadeira. Eu me contive para não revirar os olhos. Octavian estava adorando aquele teatrinho, mas para mim aquilo já estava ficando chato. Além de exausto, eu ainda tinha que ficar aturando a ladainha daquele áugure metido a besta? Isso é pior do que muita punição do Mundo Inferior.

— Não foi uma atitude pensada ou ponderada, admito. Eu estava desesperado. As minhas tropas também estavam receosas com tal plano, mas viram que não tínhamos escolha. — Outra pausa dramática. O cara estava confundindo o próprio julgamento com uma peça de teatro. — Conseguimos capturar dois monstros no nosso caminho até Wilmington e lá encontramos com uma Benevolente disposta a nos ajudar. Nossa aliança com os monstros só se mostrou problemática quando os gregos atacaram. Vejam bem, se isso não tivesse acontecido, o Minotauro nunca teria matado um dos nossos.

Não finja que você se importa, eu quis gritar, mas fui forçado a manter o decoro. Por que eu não tinha partido uma horinha mais cedo ontem? Cinco minutos que fossem! Reyna provavelmente me mandaria voltar para o julgamento, mas eu pelo menos teria dormido um pouco e estaria menos propenso a querer jogar um tijolo de ouro imperial na cara falsa de Octavian.

— Depois do fiasco que foi a operação, o pretor Grace veio avaliar os danos da nossa empreitada — prosseguiu o áugure. — Eu, obviamente, assumi toda a culpa pelos ocorridos e, assim que Jason partiu, repassei sua ordem de rumar para o Forte Wagner. Infelizmente, os dois soldados que receberam a ordem de eliminar Medusa acabaram mortos por ela e, quando chegamos ao nosso destino, ela ainda matou mais dois legionários antes de atentar contra a minha vida.

Um novo burburinho se ergueu das fileiras de assentos. Raiva, indignação, incredulidade, tristeza... Mas poucos desses sentimentos pareciam ser dirigidos para Octavian. De alguma forma aquele idiota tinha conseguido fazer quase todos naquele salão comerem na palma de sua mão. A causa já estava perdida, e não estávamos nem na metade do julgamento ainda.

— Este é o meu relato, pretores — finalizou o áugure, virando-se para as duas cadeiras de espaldar alto com uma mensura levemente debochada. — Espero que não o desconsiderem depois que ouvirem as testemunhas.

Reyna devia estar fazendo força para não revirar os olhos. Ela se virou para Jason, que parecia incrivelmente concentrado em não começar a soltar faíscas dentro do Senado para Término não ter um treco, e inspirou profundamente. Seus olhos encontraram os meus por um breve instante antes que ela prosseguisse.

— Marcus, Nathan. — Os dois legionários se colocaram de pé em meio a uma fileira de lares. — Por favor, escoltem Octavian até o Fórum e permaneçam com ele até segunda ordem. Daremos início aos depoimentos das testemunhas.

— Por que Octavian deve ser retirado?! — bradou alguém do fundo do salão. Eu tentei identificar quem era, mas havia muita gente agrupada ali com rostos furiosos para conseguir distinguir qual deles era o ultrajado.

— Porque — respondeu Jason, ficando de pé e calando o burburinho com seu tom duro — a presença de Octavian pode intimidar e/ou coagir as testemunhas. Nós queremos que elas se sintam confortáveis para darem seus depoimentos.

— Isso é ridículo! — reclamou outra voz, retomando o burburinho de protesto. — Vocês estão tratando Octavian como culpado desde o momento que ele colocou os pés no acampamento!

Pronto. Uma única frase e o Senado se dividiu em discussões acaloradas. Jason e Reyna tentaram restabelecer o silêncio, mas suas vozes sumiam em meio a algazarra. Alguns senadores pediam calma e silêncio, mas eram devidamente ignorados; outros tinham se juntado aos lados e argumentavam aos gritos com qualquer um que fosse contrário. Os lares tremulavam em suas formas roxas, discutindo entre si e com os vivos enquanto zanzavam pelas fileiras de assentos, desprezando completamente o espaço pessoal de algumas pessoas. Os espectadores mais ousados tentaram impedir os dois legionários de alcançarem Octavian, parado no centro do palanque e sorrindo discretamente para o caos que se instaurara. Pode ter sido impressão minha, mas quando nossos olhos se cruzaram, tive certeza de que ele formou as palavras Eu te disse com os lábios.

Marcus e Nathan se libertaram aos empurrões e desceram as escadas até o centro usando ombros e cotovelos em qualquer um que ousasse tentar impedi-los de cumprir as ordens. Os protestos se tornaram ainda mais intensos quando os dois agarraram o áugure pelos braços e o guiaram em direção a porta. Bolas de papel foram jogadas na direção deles, vaias e vivas competiram nos ecos das paredes do Senado e várias pessoas avançaram contra o grupo.

Nessa hora eu me vi forçado a intervir.

Ficando de pé em um salto, nem pensei no que estava fazendo. Precisava encerrar aquela loucura antes que alguém se machucasse (ou Término resolvesse aparecer e nos dar um sermão sobre ser civilizado, a morte de Júlio César e porque o Senado perdeu poder durante o Império. Ouvir esse discurso uma única vez já era mais do que suficiente). Senti meu corpo mudar, aumentando em massa e em altura e, quando eu me dei conta, era um urso-pardo de mais de duzentos quilos parado no centro do Senado de Nova Roma.

Uma pena que todos estavam distraídos demais para perceber.

Me ergui nas patas traseiras, atingindo fácil três metros de altura e rugi. Os gritos de medo e susto foram logo substituídos pelo silêncio. Ninguém se movia. Todos os olhos estavam colados em mim enquanto eu voltava para as quatro patas e caminhava tranquilamente até os legionários que acompanhavam Octavian. Os arruaceiros recuaram quando me coloquei entre os dois grupos, olhando para mim com mais receio e ódio do que eu achava possível caber em um ser humano. Ignorando isso completamente, empurrei as pesadas portas do Senado com uma das patas e assisti às pessoas na rua recuarem em choque. Nathan e Marcus saíram logo depois, com um Octavian levemente contrariado entre eles. Foi só então que eu me permiti voltar à minha forma humana.

Lancei às arquibancadas um olhar duro e irritado, mas não voltei para o meu lugar. Estava tonto e trêmulo devido ao esforço e a última coisa que eu precisava era cair de cara no chão na frente de todo mundo, mesmo que desmaiado. Usei o pretexto de fechar as portas novamente como desculpa para me recuperar e Jason aproveitou o recém-recuperado silêncio para se pronunciar.

— Se a forma como o julgamento está correndo não os agrada, vocês podem acompanhar Octavian até o fórum. O mesmo vale para todos aqueles que planejam atrapalhar o prosseguimento deste tribunal. Se qualquer um de vocês interromper o relato das testemunhas, serão convidados a se retirarem. Espero, honestamente, que o que acabou de acontecer não se repita. — Ele então se virou para mim que, respirando fundo, já começava a me afastar na direção do meu lugar. — Obrigado pela ajuda, Frank.

— Não foi nada, Jason — eu respondi, mas nós dois sabíamos que eu muito possivelmente tinha acabado de impedir uma catástrofe.

Para o meu alívio, o restante do julgamento correu tranquilo e sem novos incidentes. Os depoimentos das testemunhas levaram algo em torno de três horas e, para o meu desespero crescente, nenhum deles se mostrou tocante o suficiente. Eu sabia que eles falavam a verdade, mas as pequenas inconsistências apontadas por eles dificilmente seriam suficientes para convencer a turba apoiadora de Octavian.

Quando Hazel foi chamada a frente, meu primeiro instinto foi me esconder. Óbvio que eu não fiz isso, me limitei a me mexer desconfortavelmente em meu assento, desejando ter me sentado mais pro fundo, talvez entre as fileiras de lares para poder me ocultar atrás de seus corpos translúcidos. Eu sei que eu era um general romano condecorado e tudo o mais, mas Hazel... Bom, Hazel não ligava para essas coisas, ela era diferente. Meu status simplesmente não me ajudava a me aproximar dela.

Evite ficar encarando, eu repetia para mim mesmo, sem muito sucesso. Hazel era uma das legionárias mais novas e mais poderosas da legião. Só não ascendera a um posto mais alto por dois motivos: oposição do Octavian e medo das tropas. Só porque ela conseguia controlar a névoa e era filha de Plutão, as pessoas já ficavam aterrorizadas. Eu nunca entendera isso. Ela era a pessoa mais gentil de todo o Acampamento, não faria mal nem a uma mosca. As pessoas só tinham medo dela porque não a conheciam. Além do quê, Hazel era linda, mas isso não vem ao caso.

Quando a última testemunha terminou seu depoimento e foi retirada do Senado, Reyna e Jason ficaram novamente de pé. Suas posturas e expressões podiam ser neutras, mas eu conhecia os dois bem o bastante para saber que se sentiam tão derrotados quanto eu.

— Vamos dar início a discussão e votação do veredicto — falou a pretora no mesmo tom duro de sempre. — Quero lembrar a todos que aqueles que não são senadores ou membros do alto escalão não irão votar e, portanto, peço que permaneçam em silêncio e se abstenham de se manifestarem durante a sessão. — E então estreitando os olhos, acrescentou: — Se isso for de mais para algum de vocês, terei que pedir que se retire e espere o veredicto lá fora. — Ninguém se pronunciou e, satisfeita, ela prosseguiu. — Comecemos então.

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— Tendo em vista o apresentado pelo réu e pelas testemunhas convocadas, os senadores e o alto escalão de Nova Roma discutiram e chegaram ao parecer final do julgamento de Octavian, legado de Apolo, centurião da primeira Coorte e áugure do Acampamento Júpiter. O veredicto é o que se segue: Do crime de colocar as tropas sob sua responsabilidade em perigo desnecessário, o réu e considerado inocente; Do crime de insubordinação, o réu e considerado inocente; Do crime de assassinato de seus subordinados, o réu é considerado inocente; Do crime de formação de alianças não autorizadas, o réu é considerado inocente; Do crime de traição, o réu é considerado inocente.

A voz de Jacob se perdeu em meio aos vivas e vaias da plateia. Eu suspirei resignado e me deixei escorregar um pouco no assento. Eu já sabia que este seria o resultado, mas isso não tornava a decepção de ver meus achismos se tornarem fatos nem um pouco menor. Inocente! Não de um, mas de todos os cinco crimes! Ao menos de insubordinação ele podia ter sido julgado culpado! Mas não! Larry tinha que ter votado a favor da inocência de Octavian em todos os aspectos. Por dois votos ele fora inocentado. Isso porque menos da metade dos senadores estavam ali. Se Gwen e Dakota pudessem ter comparecido...

— Eu agradeço Nova Roma por sua sabedoria e honestidade — se pronunciou o áugure, ainda com as mãos atadas a frente do corpo. — Sei que a posição em que me coloquei foi complicada e gerou certa confusão, especialmente entre o alto escalão. — Ele se virou levemente para que, enquanto falasse, pudesse também se dirigir aos pretores, acomodados cada um em suas cadeiras com expressões de igual descontentamento. — Por isso peço um pouco mais de confiança por parte dos pretores. Estou a serviço de Roma há sete anos. Conheço bem as regras e não vai ser agora que vou agir como se estivesse em probatio.

— Assim espero. — Duvido que a aspereza na voz de Reyna tenha passado despercebida ao restante do Senado, mas as pessoas estavam mais preocupadas em celebrar o resultado. — General Zhang, por favor, liberte Octavian para que ele possa retomar suas atividades.

A contragosto eu obedeci. O áugure sorria presunçoso quando me coloquei a sua frente e prontamente me ofereceu seus punhos atados para que eu os soltasse. Meu desejo de ter uma faca ali se dividia entre poder cortar as cordas e me livrar logo daquela situação, e reencenar o assassinato de Júlio Cesar.

— Eu te disse que tudo ia dar certo — ele comentou, olhando para as fileiras com uma expressão satisfeita.

— Sim, você disse — respondi com casualidade, puxando a corda com certa indelicadeza, mas sem dar sinal de que tinha reparado. — Eu me pergunto quantas pessoas você teve que ameaçar para conseguir isso.

Ele franziu as sobrancelhas em uma demonstração apática de pena que me fez ter vontade de lhe acertar uma bem merecida patada de urso na cara.

— Ah, mas agora você está sendo um mal perdedor, general. Não deixe que os gregos descubram essa sua fraqueza ou podem resolver se aproveitar disso.

A corda caiu aos meus pés com um ruído seco e, antes que ele pudesse se afastar de mim com seu sorriso vitorioso, eu segurei seu antebraço em um aperto de mão romano. A força do meu aperto foi suficiente para fazer seu rosto se contorcer em uma careta de dor, mas a minha expressão forçosamente simpática deixava claro que ele não devia abrir o bico.

— Tome cuidado com a queda, Octavian — sibilei entredentes. — Ela vai ser muito pior do que uma ovada na cara.

— Agradeço a sua preocupação, Zhang — ele cuspiu. — Mas se eu fosse você, tomaria cuidado com os meus inimigos. Os gregos podem estar trajando as armaduras e apontando as armas, mas não se esqueça de que César foi morto pelo próprio sobrinho.

— Que cometeu suicídio após perder para o seu xará na Batalha de Filipos, mas obrigado pela aula de história. — Soltei seu braço e aproveitei o breve momento de satisfação em que ele teve que se controlar para não massagear a parte dolorida. — Aproveite sua vitória enquanto ela dura.

Com um sorriso mais amarelo do que um punhado de milho, ele se afastou para celebrar com os seus amigos e seguidores. Agora a única coisa que eu podia fazer era torcer para que Octavian não desse mais problemas até o fim da guerra com os gregos. Não sei quanto a ele, mas eu definitivamente não queria repetir esse julgamento novamente. Além de extremamente maçante, ele se provara completamente inútil.

— Cobra criada — rosnou Jason se colocando ao meu lado. — Vamos dar o fora daqui antes que eu me arrependa de não ter lançado um raio na cabeça desse incompetente.

Rindo, segui o pretor para o lado de fora, onde a multidão de curiosos já começava a se dissipar. Em pouco tempo seria impossível imaginar que a confusão que acontecera horas antes naquelas ruas fora de fato real.

— Eu não consigo acreditar que as pessoas ainda caem na ladainha de Octavian — admitiu ele em um suspiro exausto. — Já são sete anos disso! Como alguém pode ser tão ingênuo?!

— Acho que isso pouco tem a ver com ingenuidade, Jason — comentei, seguindo o caminho que levava de volta às coortes, para a fora da Linha Pomeriana. — Octavian vem de uma família poderosa, sem falar que ele é uma das pessoas mais influentes da Legião. Os idiotas que o defendem querem poder e sabem que ele é o caminho mais rápido. Simplesmente não se importam de apoiar um crápula.

— Eu sei disso. É só que... — Ele respirou fundo e encarou o céu límpido de verão como se desejasse que houvesse uma tempestade se aproximando. — Octavian me dá nos nervos. Ele quer o poder e acha que pode consegui-lo simplesmente ignorando os que o detém. Esse veredicto só vai servir para ele ficar ainda mais desrespeitoso.

Concordei com a cabeça. Aturar Octavian já era horrível antes, quando ele exibia sua importância para todos que passassem perto o suficiente. Agora que ele se achava acima da lei, ia ser quase insuportável ficar a menos de um quilômetro de sua pessoa.

— Quem sabe depois dessa os gregos não coloquem uma recompensa na cabeça dele? — sugeri, arrancando uma risada de Jason.

— Conhecendo a General La Rue, todas as nossas cabeças devem estar a prêmio — ele rebateu e eu concordei. Minha meia-irmã grega precisava urgente de alguma forma de controlar a própria raiva. Talvez isso tivesse alguma coisa a ver com a forma grega de nosso pai. — Falando nos gregos, eu preciso seguir para o Forte Wagner o quanto antes e preparar as nossas defesas. Esse julgamento, além de inútil, só serviu para atrapalhar os nossos planos de batalha.

Queria dizer que não era verdade, que o julgamento era uma demonstração de justiça, mas tive que dar o braço a torcer dessa vez. Octavian era culpado. Dava para ver isso em sua cara. Aquele evento todo tinha servido apenas para ele nos mostrar o quanto éramos impotentes diante da sua influência. Sem falar que tinha atrapalhado todo o processo de relocação dos prisioneiros para o Forte Sumter.

Paramos alguns instantes no topo da ladeira que descia até os Campos de Marte e os alojamentos para evitar sermos atropelados por um comboio de bigas que atravessava o cruzamento e eu aproveitei para apreciar a paisagem. A estrada brilhava em meio a pradarias verdes e, ao longe, era possível ver Charleston. Pela posição do sol, passava de meio dia e as cigarras davam seus gritos nas árvores próximas, nada insuportável, mas me fez perceber o quão quente estava. Jason devia estar cozinhando dentro da toga que ele usava por cima da armadura.

— O quanto antes viajarmos, melhor — concordei. — Não podemos nos dar ao luxo de atrasarmos ainda mais os preparativos. Eu tenho prisioneiros para buscar e você...

— Me deixe passar Término!

A voz chamou a nossa atenção para a pequena comoção que se formara na entrada de Nova Roma.

— Não com armas, seu centurião atrevido! — rugiu o deus. — Eu posso gostar das suas sandálias, mas isso não significa que você terá tratamento especial!

— Término...

— As regras são claras! NADA DE ARMAS DENTRO DA LINHA POMERIANA!

— É uma emergência!

Eu e Jason trocamos olhares preocupados.

— E essa agora? — deixei escapar antes de disparar ladeira a baixo na direção do conflito.

O centurião atrevido era Hank, da Terceira Coorte. Vestindo armadura de combate completa por cima do uniforme da confederação, ele parecia ter sido atacado por uma horta, tamanho era o número de vinhas crescendo por entre as placas metálicas do peitoral da armadura. Ao me ver, seu rosto, parcialmente oculto pelas sombras do elmo, se iluminou de alívio e ele parou de tentar atravessar as fronteiras da cidade, mesmo que Término tenha continuado com a sua ladainha sobre a importância das regras para o Império Romano e como a falta de disciplina entre os jovens ainda significaria a desgraça da Décima Segunda Legião.

— Ok, Término. Acho que Hank já entendeu que o que ele estava tentando fazer era inaceitável — eu cortei, recebendo da estátua um olhar de desprezo, mas não dei muita importância para isso. Término poderia gritar comigo mais tarde. Agora eu precisava conseguir ouvir o que o garoto tinha a me dizer. — Qual o problema, Hank?

Ele se colocou em postura de sentido e bateu uma continência desajeitada devido à armadura empenada.

— É Lexington, senhor. Fomos atacados.

Notas finais
Por hoje é isso, pessoas! Sugestões, correções, dúvidas e outros comentários são sempre bem-vindos! Não garanto que posto o próximo semana que vem (até porque as minhas aulas vão voltar então, né? :/ ), mas eu já comecei a escrever então, quem sabe? Cruzem os dedos para a minha inspiração não fugir de novo! Até o próximo capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.