Notas iniciais
Na primeira vez que escrevi essa história, eu não tinha muita noção de como me aprofundar no enredo de um personagem, mas ainda assim eu tentei com a Kara, e eu acho que explorar os traumas vai ajudar, o que me leva ao segundo tópico dessa nota: Se você é muito sensível a assuntos como aborto e traumas, eu recomendo pular certa parte do POV da Kara, pois fala disso, algo que vou me aprofundar nos outros capítulos.

Pov. Jessica:

Em duas semanas de convivência com Kara, pude perceber mais alguns aspectos nos quais ela era diferente de Kilgrave, ela não era arrogante, apesar de ter orgulho de si mesma, e ela era extremamente introspectiva, não costumava falar muito, coisa que o pai poderia ter aprendido com ela. E apesar de gostar que ela fosse um tanto mais quieta, sabendo pelo que eu passei e também fiquei calada ao invés de enfrentar, e é claro, os surtos de raiva e os pesadelos que ela tinha, era preocupante que ela ficasse quieta por tanto tempo, como se algo estivesse mantendo sua mente ocupada demais.

–Tudo bem, garota? — Perguntei ao observá-la, sentada no sofá, com a cabeça apoiada no encosto do mesmo, o braço apoiado no braço do sofá e os dedos batucando contra o tecido, ela olhava para o teto, não era a primeira vez que ela ficava assim. Minha pergunta pareceu despertá-la, pois ela ergueu a cabeça e virou seu olhar em minha direção rapidamente, como se estivesse assustada. — Eu...acho que sim — Respondeu simplesmente, seus olhos pareciam enevoados, distantes dali. — Acha? — Questionei, ela deu de ombros e rapidamente se levantou do sofá.

Ela foi em direção a porta, puxando a jaqueta que sempre estava no cabideiro e vestindo. — Eu vou sair, não precisa se preocupar — Falou simplesmente, sem muitas informações, eu sabia muito bem o que ela iria fazer e senti o impeto de segui-la, mas não o fiz porque não adiantaria de nada, suspirei, se era assim que Trish se sentia em sua convivência comigo, eu tinha que pedir desculpas a ela.

†‡†

era noite quando ouvi a porta abrindo da sala, onde eu estava e Charlie entrando com um sorrisinho idiota em seu rosto, ela estava vermelha e pelo cheiro que exalava, estava completamente bêbada, mas foi quando ela se virou na minha direção que tive o instinto de me levantar e ir até ela. — Você está horrível.

–Você devia ter visto o outro cara — Disse sorrindo, não se importando com o olho esquerdo, roxo e inchado, um corte em seu lábio e sua testa escorrendo sangue, já havia me metido em brigas de bar, mas nunca havia ficado naquele estado, aquilo era preocupante. — Você não devia ter bebido...- Murmurei, ela riu, parando em seguida, fazendo uma careta de dor. — Você não tem muita moral pra falar, mamãe — Resmungou lambendo o canto do lábio, onde estava o corte.

–Ao menos eu tenho mais resistência — Rebati, ganhando um olhar raivoso da garota enquanto eu tirava a jaqueta que ela vestia. — Okay, vamos subir — Afirmei, já a puxando pela camiseta que vestia. — O que vamos fazer lá? — Não respondi, ela provavelmente nem se lembraria do que caralhos tinha acontecido, pelo estado que estava, ela provavelmente nem se lembraria de como chegou ali, e eu não perguntaria.

A puxei até o banheiro, ouvindo-a resmungar alguma idiotice e antes que ela pudesse protestar, a fiz entrar na banheira e liguei a água gelada. — PUTA QUE PARIU — Gritou quando a água atingiu sua cabeça e corpo, revirei os olhos, torcendo para que não tivesse que lidar com um adolescente bêbado nunca mais em minha vida, as vezes que havia ajudado Trish e agora com Kara, que resmungava xingamentos, já foram suficientes pra eu querer uma laqueadura. — Assim você realmente parece filha do seu pai — Mencionei sem pensar.

Seu resmungos cessaram na mesma hora, sua expressão se transtornou, as sobrancelhas antes contraídas pela irritação relaxaram em segundos e ela subiu seu olhar até mim. — Ele te machucou muito não é? — Questionou em um sussurro, buscando uma resposta. — Ele te machucou e me abandonou — Continuou, como se mais uma vez entrasse em sua mente por apenas um segundo antes de se levantar e começar a tirar a blusa que vestia. — O que está fazendo? — Perguntei confusa.

-Eu preciso tirar essa sujeira de mim — Falou simplesmente e entendendo a mensagem, deixei o banheiro. Ouvindo o chuveiro ainda em funcionamento, desci as escadas em busca do meu celular, sabia que não havia remédios ali e a caixa de primeiros socorros precisava ser reabastecida, por isso liguei para a primeira pessoa que eu poderia pensar e como sempre, ela atendeu.

†‡†

Pov. Trish:

Uma ligação de Jessica durante a noite nunca era realmente uma surpresa depois do que aconteceu com Kilgrave, havíamos voltado a nos comunicar um pouco mais, apesar dela se manter a uma distância segura como sempre, mas uma ligação sobre Charlotte era uma surpresa, um tanto inesperada.

A garota observava em silêncio enquanto eu higienizava a gaze para passar em seu rosto machucado, como se estivesse fascinada com tudo aquilo, ela parecia cansada, como se não estivesse dormindo direito a noite. — Você se importa com ela — Murmurou quando eu finalmente me aproximei com a gaze com álcool, limpando o ferimento em sua testa, seu rosto se contraiu levemente quando o tecido gelado tocou sua pele. — Jessie é minha irmã, claro que me importo — Retorqui simplesmente.

–É mais que isso...- Continuou, me olhando com total atenção, seus olhos me analisavam como os de Jessica, com atenção, como se soubesse exatamente como minha mente funcionava, talvez soubesse, devido as suas habilidades. — Ela te salvou não é? — A olhei, tentando entender o porquê de sua pergunta, sua mão segurou meu pulso antes que eu pudesse limpar o corte em sua boca. — Me responda — Seu comando era claro, mas seu tom era quase uma súplica desesperada.

–Salvou sim, inúmeras vezes — Obedeci automaticamente, sentindo o calor da sua mão deixar minha pele. Charlie suspirou e deixou que eu continuasse. — Talvez ela possa fazer isso por mim também — Resmungou enquanto eu colocava os curativos em seu rosto.

Quando ela finalmente já estava deitada, cobrindo o próprio corpo com o edredom grosso e eu guardava os itens de cuidados médicos na pequena maleta, tive coragem de a olhar nos olhos, verdes escuros e frios naquele instante. — Kara — Seu olhar se concentrou no meu rosto. — Por quê quis que Jessica viesse pra cá? — Perguntei, isso ainda me intrigava profundamente.

–Pra que ela não me deixe ser como ele — Respondeu sonolenta. — Mesmo que eu já seja tão doente quanto...

†‡†

Pov. Kara:

Minha cabeça estava estourando quando acordei e minha boca tinha um gosto horrível, minha língua parecia uma lixa, seca e parecia arranhar o céu da minha boca, eu queria vomitar, mesmo que sentisse que já havia o feito. Me sentei o mais lentamente na cama, sentindo que se eu fizesse isso rápido, era capaz de arrancar meu cérebro do eixo e acertá-lo contra o meu crânio dolorido.

Nada estava muito claro em minha mente, tudo parecia um tanto confuso. Eu havia brigado no bar que visitei, isso eu tinha certeza pela sensação de ter algo em meu rosto, curativos talvez, lembrava de ter chegado e ter tomado bronca de Jessica, isso me gerou um sorriso dolorido, pois ela realmente havia soado como uma mãe. Me lembrava de Trish, mas não lembrava o que ela havia feito exatamente, mas sabia que havia sido a primeira vez que eu havia realmente parado pra conversar com ela e olhá-la nos olhos, eles eram azuis com um leve tom esverdeado, foi o que pude guardar em minha memória. E me lembrava do que havia dito a Jessica, da sensação de estar suja simplesmente pelo sangue que corria em minhas veias.

Respirei fundo e até mesmo isso fazia meus pulmões arderem como álcool em ferida aberta, já estava mais do que na hora de eu me levantar e descer, porque apesar de estar me sentindo como um belo pedaço de merda, estava com fome, a última coisa que havia comido foi um sanduíche bem estranho no meio da tarde do dia anterior e que havia me feito vomitar até que não sobrasse nada além de água. Por instinto olhei para a mesa de cabeceira ao lado de minha cama e vi um comprimido e um copo d'água, com certeza coisa de Trish, ela tinha mais cuidados com essas coisas do que Jessica, engoli o comprimido e logo em seguida dois goles de água antes de me levantar e seguir para fora daquele quarto frio pra caralho.

Desci as escadas o mais silenciosamente possível, apenas para ver Jessica sentada a mesa, com uma pasta de algum de seus casos sobre a mesa de jantar, algumas fotos espalhadas ali, e um prato vazio ao lado de tudo aquilo, ela me olhou e sorriu, muito provavelmente querendo rir. — Você está uma merda. — Disse ainda me olhando, parecendo se divertir com meu estado, normalmente eu já descia preparada para o dia, trajando algo decente e com os cabelos arrumados, mas eu estava só com uma camisa imensa e uma calça de moletom e descalça. — Bom dia pra você também, capitã óbvia — Resmunguei seguindo até a cozinha em passos lentos. — Na verdade é boa tarde, Trish preparou comida ontem a noite — Explicou com um tom de voz um tanto alto, o que me causou uma forte pontada de dor nas laterais da minha cabeça, enquanto eu abria a geladeira apenas para encontrar um pote coberto com papel alumínio.

–Ela sabe da nossa falta de habilidade na cozinha — Falei baixo enquanto tirava o que cobria a comida e colocava no microondas, mas sabia que ela ouviria, a casa estava como sempre, terrivelmente silenciosa, exceto pelo barulho extremamente irritante do eletrodoméstico a minha frente que esquentava o pote de legumes ao molho xadrez que Trish havia me preparado. Num dos primeiros dias da Jones ali, eu tinha tentado preparar algo para comermos ao invés de pedirmos como havíamos feito nas outras noites, mas me desesperei quando a carne de soja se tornou literalmente um carvão e Jessica não foi de muita ajuda também, pois quase queimou não só a comida como a cozinha, nos levando a pedir comida no final das contas.

Minha cabeça só deixou esse fato para trás quando os apitos — horrivelmente altos aos meus sentidos — do microondas soaram pela cozinha, peguei um garfo e o pote antes de voltar a sala de jantar e me jogar numa das cadeiras, do outro lado da mesa, já comendo o que havia no recipiente em minhas mãos. Comi mais rápido do que o normal para mim, não me importando se estava fazendo sujeira, aquilo também não era costume, meus avós não haviam me educado daquela maneira, mas eu sinceramente estava pouco me fudendo pra isso. Ainda assim comi em total silêncio, observando a morena a minha frente analisando tudo que tinha em mãos, quando terminei, deixei o pote na mesa, sendo acompanhada pelo olhar sutil dela.

–Eu não preciso ler sua mente pra ser capaz de ler você, Jones — Comentei com certo divertimento, a mulher a minha frente era uma excelente detetive, mas ainda assim, em questões de descrição, ela não era uma especialista, por assim dizer. — O que você quer saber? — Perguntei de uma vez, minha cabeça doía demais para ficar de enrolação. Jessie ficou em silêncio por um tempo antes de dizer o que tinha em mente. — Ontem quando você perguntou se ele, seu pai, havia me machucado, você soou como se–

–Como se soubesse? — Finalizei sua frase, dessa vez a olhando nos olhos, ela assentiu. — É porque eu sei...- Suspirei, não sabia como ela reagiria quando eu a contasse como havia descoberto cada coisinha doente que Zebediah fez a ela, mas com seu olhar curioso em mim, eu soube que deveria. — Parte das minhas habilidades como telepata é algo chamado de oneirocínese — Comecei, verificando se seu olhar continuava em mim. — Durante o meu sono, eu consigo entrar nos sonhos dos outros — Continuei, me recostando em minha cadeira. — Não foi minha intenção, mas na noite em que aquilo aconteceu. — Apontei para a cicatriz em seu braço, causada pelo corte que lhe causei, fechei minha mão em punho em seguida, me sentindo culpada por aquilo e bati levemente contra a madeira da mesa. — Você teve um pesadelo, com o que aconteceu entre você e ele...

A vi fechar sua mão em punho também, como se aquilo pudesse ajudá-la a segurar as lágrimas que percebia encher seus olhos verdes, por isso não mencionei que havia em meio aquele pesadelo, havia visto ela chorando copiosamente e sangrando num banheiro que eu não conhecia, ela havia sofrido um aborto espontâneo do filho que quase teve de Kilgrave, havia um nome ligado aquela memória.

Connor...

O silêncio era tão doloroso naquele momento que não ousei tocar em Jessica quando pronunciei as próximas palavras. — Me desculpa, Jessica — Murmurei, mesmo sabendo que eu não tinha culpa pelos atos de meu pai, era a coisa mais próxima dele que havia sobrado, a única pessoa que poderia descobrir cada coisinha que ele havia feito e tentar limpar pelo menos parte de sua bagunça, era exatamente aquilo que eu havia tentado fazer no dia anterior, e claro, havia falhado miseravelmente. — Ele te fez sofrer também...- A mais velha mencionou depois de um tempo. — Mas ainda assim você falou que ele era um bom pai — Soltei uma risada leve e sem humor algum. — Negação é uma coisa poderosa, não é?

Admitir que havia negado tudo que estava de errado com meu pai por tanto tempo era ao mesmo tempo que libertador, torturante, pois apesar de não apagar as boas memórias que tinha de meu pai, as tornava amargas feito fel e me doíam no peito. — É claro que o que ele fez comigo não se compara ao que ele te fez sofrer — Proferi recostando minha cabeça contra o respaldo da cadeira na qual estava sentada. — Mas ele fez comigo o mesmo que os pais dele fizeram com ele, só que de uma maneira diferente...- Era o que havia ocupado minha mente no dia anterior. — Ele me internou em uma escola e sumia por meses...e quando veio pra cá, eu fiquei quatro anos sem notícia alguma...

Fechei os olhos, tentando evitar chorar, era patético que eu o fizesse, era patético que o comportamento do meu pai morto me afetasse de tal maneira, mas quantos eram os traumas que eu havia negado a mim mesma lidar simplesmente pela imagem de bom homem que eu havia criado dele conforme a passagem dos anos, apenas para ser capaz de dizer que eu havia tido um pai. Meus devaneios foram interrompidos pela risada triste de Jessica, despertando minha curiosidade, a olhei e ao mesmo tempo que ela chorava, havia um sorriso pequeno em seus lábios. — Eu acho que somos mais fudidas do que pensamos — Comentou me olhando e eu não fui capaz de controlar minha risada por essa ter sido a primeira coisa que ela havia pensado em falar.

–Tal mãe, tal filha...

Notas finais
Eu me lembro de alguém ter chamado Kara de diva em um dos capítulos originais dessa história, e eu acho que realmente criei a Kara muito baseada no meu lado mais diva, ela é muito diferente de outra personagem da época, Becky. Pode parecer maldade, mas conforme os anos passam, eu me sinto mais afeiçoada a Kara do que a qualquer outro personagem que já criei.