A Neverland Tale
2 Desaparecimento
Notas iniciais
Dois meses depois...
– Princesa Adelaide?
Abri os olhos lentamente e senti cheiro de grama recém cortada. Levantei a cabeça e olhei ao meu redor. Eu estava deitada em um dos canteiros do jardim, toda suja de terra e com o cabelo completamente armado.
– Majestade? – o guarda chamou novamente.
– Oh...Eu não faço ideia de como vim parar aqui – murmurei confusa.
– O jardineiro a encontrou e me chamou para ajudá-la – ele disse.
Levantei do chão e esfreguei as mãos no vestido, não faria muita diferença já que ele estava imundo. O guarda fez uma curta reverencia.
– Como se chama? – perguntei.
– Kole, majestade. – respondeu surpreso.
– Acompanhe-me até meus aposentos – ordenei.
Kole assentiu e seguimos caminho pelos enormes corredores do castelo.O desconforto de Kole por estar em minha presença e a minha falta de assunto, dificultaram o início de uma conversa. Chegamos a porta do meu quarto e antes de entrar eu disse:
– Kole, eu agradeceria muito se você e o jardineiro guardassem segredo desse pequeno acontecimento.
– Certamente, majestade – ele respondeu enquanto fazia outra reverencia.
Fechei a porta e suspirei. Já era a quarta vez aquele mês em que acordava em um lugar diferente de meu quarto, sendo essa a primeira em que fui pega por alguém. De qualquer forma, sonambulismo era o menor dos males para mim. Retirei os sapatos e o vestido sujo de terra e penteei meus cabelos. Coloquei um vestido de seda e tranquei a porta.
Abri uma das gavetas de minha cômoda e peguei um caderno de couro com o nome de meu pai bordado na capa. Eu vinha estudando aquele diário há semanas, mas não conseguia encontrar nada de diferente . Tanto porque não havia nada escrito nele.
Frustrada atirei o caderno na parede com força, mas depois me arrependi e guardei-o cuidadosamente na gaveta de onde tinha o tirado. Aquela coisa só tinha servido para me dar dores de cabeça até agora.
CLIC
Ouvi o barulho de alguém tentando abrir a porta. Olhei pelo buraco da fechadura e vi minha mãe do outro lado. Destranquei a porta e deixei que ela entrasse.
– Quantas vezes vou ter que te dizer para não trancar a porta? – perguntou com as mãos nos quadris.
– Desculpa, mãe – respondi – Não quero parecer grossa, mas... o que está fazendo aqui?
– Vim checar como sua memorização está! – ela disse se animando.
Memorização? Do que ela estava falando?
– Por favor, me diga que não esqueceu.
– Esqueci o que?
– O baile de amanhã, aqui no castelo! – ela disse impaciente.
– Eu venho planejando este baile há duas semanas, Adellah! Passei aqui para saber se você leu as anotações sobre os convidados que deixei aqui.
– Desculpa, mãe – levei a mão a testa – Eu vou ler todas as anotações hoje.
– Não adianta, Adellah! Você não vai conseguir decorar os nomes dos convidados a tempo!
– Por que eu preciso fazer isso, mesmo?! – protestei.
Ela suspirou e puxou minha mão em direção a minha cama. Sentamos em silêncio e ela começou a me explicar.
– Esse baile não é uma mera festa, é uma oportunidade para você conhecer seus pretendentes.
– Pretendentes?! – exclamei.
– Sim, Adellah. Pretendentes – ela confirmou – Eu tive uma séria conversa com o conselho e juntos chegamos a conclusão de que dada a morte de seu pai, está na hora de você assumir o trono.
– Tomaram essa decisão sem nem me consultar?! – soltei sua mão rapidamente e desviei o olhar.
– Adellah, sinto muito que tudo esteja acontecendo tão rápido, mas precisamos de um novo rei imediatamente.
– E eu preciso de um tempo sozinha, portanto saia do meu quarto – disse apontando para a porta.
– Eu vou – ela disse se levantando — , mas vou enviar um guarda para garantir que você leia as anotações.
– Que seja... – murmurei.
Antes de sair ela se virou e abriu a boca como se fosse dizer mais alguma coisa, mas ao invés disso só deu um sorriso triste e fechou a porta.
Procurei pelo meu quarto e encontrei as anotações de minha mãe, provavelmente escritas pelo escrivão real. Havia uma lista com mais de cinquenta nomes de membros da realeza, a maioria desconhecidos por mim. Alguns estavam circulados, imagino que esses seriam os nomes dos meus ´´pretendentes``. Após um tempo lendo a lista, guardei pelo menos cinco nomes e rasguei-a em pedacinhos. Ás vezes eu desejava não ter nascido uma princesa.
– Majestade?
Uma voz grossa e familiar chamou meu nome, me dando um susto.Quando me virei, vi um homem jovem de cabelos rebeldes cor de mel me encarando com receio.
– Ah...Kole, não é? – disse com a mão no coração – Você me deu um baita susto.
– Peço desculpas por isso, Majestade – ele disse fazendo uma reverência.
Quando ele terminou olhou para o chão, onde se encontravam os restos das anotações da minha mãe.
– Estas não eram as anotações da sua mãe? Eram, Majestade?
– Talvez – eu respondi recolhendo-os.
– Você decorou os nomes? – perguntou apreensivo.
– Uns cinco – murmurei.
Ele se aproximou e me ajudou a catar o resto dos papéis.
– Vossa Majestade, deve estar passando por um momento muito difícil. Sinto muito por isso – ele disse sem me olhar.
Sorri para ele e disse:
– Obrigada, Kole. Por favor, me chame de Adellah. Quando você me chama de Vossa Majestade me sinto anos mais velha.
– Como quiser...Adellah – ele disse retribuindo o sorriso tímido.
Terminamos de catar os papéis em silêncio, mas como eu tinha muito o que fazer logo o quebrei.
– Bom, como as anotações não existem mais acho que seu trabalho acabou aqui – me desloquei em direção a porta com intuito de abri-la.
Kole rapidamente se pôs a minha frente e baixou o tom de voz.
– Eu não vim aqui a trabalho – sussurrou lentamente.
– Explique-se – dei um passo para trás começando a desconfiar se estava realmente segura ali com ele.
Kole inspirou pelo nariz e soltou o ar pela boca, como se tentasse acalmar a si mesmo.
– Eu vim aqui pedir sua ajuda, Majestade... Adellah – ele disse nervoso.
– Minha ajuda? – perguntei sem entender muito bem a situação. Ponderei por alguns segundos e fiz sinal para que ele se sentasse em uma das poltronas de meu quarto. Kole agradeceu e começou a falar:
– Há mais ou menos um ano, meu irmão Félix desapareceu. Ele estava trabalhando na cozinha do castelo, na noite em que sumiu. Segundo a cozinheira que estava com ele naquela noite, ela tinha saído para pegar mais verduras no armazém e quando voltou ele estava sendo arrastado janela afora.
– Por que eu e minha mãe não fomos notificadas deste acontecimento? Afinal, houve o desaparecimento de alguém em nosso castelo, que deveria ser um local seguro. – indaguei a Kole.
– Eu tentei fazer com que o assunto chegasse a vocês, mas o responsável pela segurança do castelo não gostou de ter seu trabalho questionado por um simples guarda – respondeu Kole olhando para seus pés.
Pousei minha mão no ombro de Kole, fazendo com que ele olhasse para mim.
– A primeira coisa que eu farei será puni-lo. Pode ter certeza disso, Kole. Quanto ao desaparecimento do seu irmão...Você sabe o que ou quem arrastou Kole para fora do castelo?
– Sim, eu vou dizer – ele disse gesticulando com as mãos — , mas jure que vai acreditar, por favor.
– Não posso jurar que vou acreditar, mas posso tentar – respondi dando de ombros.
– Certo – ele disse esfregando as mãos — , ela disse que viu uma sombra humana o arrastar pra fora de uma das janelas da cozinha.
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