A Máscara de Hannya
4 O Templo das Cinzas
Kagome
A vila amanheceu envolta em um silêncio desconfortável. O ataque da noite anterior ainda pairava sobre o lugar como um peso invisível, sufocando qualquer tentativa de normalidade. Os aldeões se moviam rápido pelas ruas estreitas, murmurando entre si, mas evitavam olhar para mim ou para Hannya. Não éramos bem-vindos ali. Nunca fomos.
Após o confronto com o Goryō, havia muitas perguntas sem resposta. Por que um espírito vingativo surgiu aqui, em uma vila que, teoricamente, não possuía laços com guerras ou traições? O ritual que encontramos na noite anterior ainda martelava minha mente, e a suspeita de Hannya sobre o chefe da vila não parecia mais tão exagerada.
Não podíamos mais interrogar ninguém. A essa altura, qualquer aldeão preferia mentir a nos ajudar. Se tivesse algo a ser encontrado, estaria em um lugar que já foi importante, mas que agora era esquecido. O templo.
Ninguém ia até lá há anos. Eu sabia disso porque era assim em todas as vilas como esta. Locais de culto perdiam seu valor quando a fé era substituída pelo medo. E pelo estado das coisas, os deuses haviam sido abandonados ali muito antes de qualquer ataque.
A subida até o templo foi solitária. O caminho, coberto por raízes e folhas caídas, serpenteava colina acima, e o ar ali era mais frio, como se a própria natureza tentasse afastar aqueles que ousavam se aproximar. A madeira do torii na entrada estava velha e apodrecida, rachaduras serpenteando pela estrutura como cicatrizes de um tempo que não voltaria.
Ao cruzar o portão, soube imediatamente que havia algo errado.
O cheiro da madeira antiga misturava-se a algo mais recente, algo que não deveria estar ali. Óleo queimado. Tinta fresca. Os degraus de pedra que levavam ao santuário estavam gastos pelo tempo, mas os símbolos que marcavam o chão eram novos.
Meu olhar percorreu o interior do templo. O altar estava intacto, mas o que estava diante dele não era um objeto de culto.
Era um pergaminho, estendido sobre um suporte de madeira, com símbolos que eu já havia visto antes.
Norai.
Me aproximei devagar, os dedos hesitando antes de tocar o papel envelhecido. As marcas eram precisas, desenhadas por mãos que sabiam exatamente o que estavam fazendo. Não era apenas um fragmento de conhecimento esquecido. Era um aviso.
Meus dedos deslizaram sobre o pergaminho, sentindo a textura áspera do papel antigo. Os símbolos da Seita Norai estavam ali, nítidos e bem preservados, traçados com uma precisão quase obsessiva. Eles seguiam um padrão que eu já havia visto antes, nos círculos de invocação espalhados pelo chão da vila. Mas esses aqui eram diferentes. Mais detalhados. Mais antigos.
Franzi o cenho, estudando os traços com mais atenção. A caligrafia era cuidadosa, como se tivesse sido feita por alguém que não apenas conhecia os rituais, mas que os compreendia profundamente. Não era o tipo de coisa que um aldeão qualquer copiaria por acidente.
Alguém aqui sabia exatamente o que estava fazendo.
Respirei fundo, tentando ignorar o frio incômodo que rastejava pela minha nuca. O templo abandonado parecia respirar ao meu redor, o silêncio pesado, a sensação de que algo observava, mas nunca se mostrava.
Dobrei o pergaminho com cuidado e o prendi à faixa da minha cintura. Se havia respostas, elas não estavam ali. Mas alguém talvez soubesse.
Quando voltei para a vila, Hannya estava onde sempre parecia estar: à margem de tudo, observando. Ele estava encostado na estrutura de madeira de uma das casas, as sombras do telhado cobrindo parte de seu corpo, fazendo a máscara parecer ainda mais parte dele.
Ele já sabia que eu estava ali antes mesmo de eu falar.
— Encontrou alguma coisa? — Sua voz veio baixa, sem urgência, mas também sem interesse forçado. Ele já sabia que eu tinha algo.
Cruzei os braços, avaliando-o por um instante antes de responder.
— Um pergaminho com símbolos de Norai no templo abandonado.
Mesmo sem ver seu rosto, soube que ele não estava surpreso. Nenhuma reação, nenhuma hesitação. Apenas um silêncio breve antes de um simples:
— Mostre.
Puxei o pergaminho da faixa e o entreguei. Hannya não precisou de mais do que alguns segundos para reconhecer os símbolos. Seus dedos deslizaram pelo papel, e ele inclinou ligeiramente a cabeça, como se analisasse algo que já conhecia.
Foi nesse momento que algo me incomodou. Ele não parecia apenas interpretar os símbolos.
Ele os entendia.
Cruzei os braços, inclinando ligeiramente o corpo para a frente.
— Você reconhece isso.
Ele não respondeu imediatamente. E o silêncio dele me deu mais respostas do que qualquer palavra poderia.
Abaixei o tom, observando-o com mais atenção.
— Você já viu esse padrão antes, não viu?
Ele rolou o pergaminho de volta, prendendo-o entre os dedos, e então ergueu o olhar para mim. Seus olhos estavam invisíveis sob a máscara, mas ainda assim, senti que ele tentava decidir algo.
— Isso não muda nada.
— Para você, talvez não. Para mim, sim.
Deixei o silêncio se prolongar entre nós, esperando que ele completasse a resposta. Mas, como sempre, ele apenas se afastou um passo e virou o rosto para a estrada. Ele sabia e não me diria nada, por enquanto.
A vila parecia menor do que antes, como se os muros invisíveis da desconfiança tivessem se fechado ainda mais ao nosso redor. Os aldeões evitam cruzar nosso caminho, desviando os olhos como se ignorar nossa presença pudesse apagar os eventos da noite anterior. Mas a verdade era que o medo os tornava mais perigosos do que qualquer yōkai.
O pergaminho ainda pesava contra minha cintura enquanto eu seguia Hannya pela rua principal. Ele andava à frente, silencioso como sempre, mas eu sabia que estava processando o mesmo pensamento que eu.
Havia símbolos da Seita Norai no templo, então esse lugar guardava mais segredos do que imaginávamos.
Hannya parou de repente. Apenas percebi o motivo quando ouvi o som de um pedaço de madeira se chocando contra o chão. Um velho estava sentado perto da entrada de uma casa abandonada, segurando um pedaço de bambu gasto, os dedos trêmulos sobre a superfície. Seu olhar vago se fixava no vazio, mas sua expressão não era de ignorância, e sim de alguém que já tinha visto demais.
Eu me aproximei primeiro. Hannya ficou para trás, observando.
— O templo sempre esteve abandonado? — perguntei, sem rodeios.
O velho soltou um suspiro baixo, a voz embargada pelo tempo.
— Nem sempre... Havia sacerdotes ali. Mas foram mortos.
Minha expressão se endureceu.
— Mortos? Como?
Ele apertou os olhos, como se relembrar fosse um esforço físico. A resposta veio baixa, arranhada pelo peso dos anos.
— Queimados.
Senti minha respiração travar por um instante. Queimados. Isso explicava o cheiro de óleo queimado no templo.
Troquei um olhar rápido com Hannya. Ele também havia entendido.
O velho continuou, como se as palavras não tivessem peso para ele, apenas para nós.
— O chefe da vila diz que foi um acidente. Mas eu era jovem. Eu vi. Não foi acidente.
A última frase fez algo dentro de mim se retesar.
— Então foi o quê?
O velho desviou o olhar para a estrada de terra que levava ao templo, e sua voz caiu para um sussurro quase inaudível.
— Um sacrifício.
O vento soprou frio.
Minha mão apertou o cabo da naginata, e por um momento, o mundo pareceu um pouco mais sombrio.
O velho não disse mais nada. Não precisava. A palavra sacrifício já pairava no ar como um veneno invisível, corroendo qualquer vestígio de dúvida.
A vila queria esquecer. O chefe queria apagar. Mas os mortos ainda estavam lá. Esperando para serem encontrados.
Troquei um olhar rápido com Hannya. Ele já sabia o que eu ia fazer.
— O templo.
Ele não perguntou se eu tinha certeza. A resposta estava nos nossos olhos.
Seguimos pela trilha novamente, a subida parecendo mais curta desta vez, como se algo chamasse por nós. O vento cortava mais forte, e o cheiro de madeira velha e umidade já não era o único. O odor de óleo queimado que eu havia sentido antes se tornava mais forte à medida que nos aproximávamos. Não era apenas um resquício do passado.
Algo ainda estava impregnado ali.
Ao atravessar o torii apodrecido, senti a presença antes mesmo de cruzar o altar. Dessa vez, o templo parecia menor, como se os muros invisíveis ao nosso redor tivessem se fechado.
Olhei para Hannya, e ele já não estava ao meu lado. Ele havia parado na entrada.
— O que foi? — perguntei.
— Há algo aqui. — Sua voz saiu firme, mas baixa.
Meu olhar desceu para a madeira do altar. O pergaminho ainda estava seguro na faixa presa à minha cintura. Mas eu já sabia que as respostas não estavam apenas no papel.
Puxei a tocha pendurada na lateral do santuário e deslizei os dedos sobre a superfície do altar. As marcas esculpidas ali eram quase imperceptíveis a olho nu, mas agora que eu sabia o que procurar, conseguia sentir os traços irregulares sob a pele.
— Há um compartimento — murmurei, pressionando com mais força.
A madeira cedeu com um estalo seco.
O cheiro subiu primeiro.
Podridão, mas não comum. Algo que não havia apenas morrido—algo que fora esquecido.
Peguei a tocha e a empurrei para dentro da escuridão. O buraco era estreito, mas fundo o suficiente para que a luz tremulante revelasse um solo de pedra bruta.
Eu entrei primeiro.
Os degraus eram irregulares, desgastados pelo tempo e pela umidade. A câmara subterrânea se abria em um espaço apertado, as paredes cobertas de marcas rudimentares—traços gravados com força, como se feitos por mãos desesperadas.
A chama da tocha iluminou o centro da câmara.
E então, eu os vi.
Corpos.
Não ossos. Corpos secos, retorcidos, encolhidos como se tivessem se contorcido antes de morrer. A pele era acinzentada, esticada sobre os ossos, os olhos há muito desaparecidos. Mas as bocas estavam abertas.
Não em gritos silenciosos, mas em um estado de absorção.
Eles não haviam apenas morrido.
Algo foi retirado deles.
Apertei os dedos ao redor da tocha, sentindo o peso do pergaminho contra minha cintura. As marcas nas paredes eram as mesmas desenhadas no papel.
Aquelas inscrições não eram apenas selos. Eram guias para o sacrifício.
Ouvi os passos de Hannya atrás de mim. Ele parou ao meu lado, e mesmo sem vê-lo, soube que já havia entendido.
— Isso foi um ritual de extração — sussurrei.
Ele se abaixou perto dos corpos, os olhos fixos nos rostos imóveis dos sacerdotes.
— Eles não foram apenas queimados — disse, sua voz baixa, mas carregada de algo que eu não conseguia decifrar. — Eles foram drenados.
Olhei para as correntes que prendiam os corpos ao chão. Elas estavam manchadas de algo escuro, quase negro.
— O chefe da vila sabia — murmurei.
A tocha tremulava em minha mão, projetando sombras grotescas nas paredes de pedra. O silêncio da câmara não era o silêncio comum da morte. Era algo mais profundo, um vácuo onde o tempo havia parado, onde os mortos pareciam ainda sussurrar entre si.
Os sacerdotes estavam dispostos em círculo, suas correntes presas às rochas como se ainda tivessem que mantê-los ali. Mas um deles chamou minha atenção. Ele não estava deitado como os outros. Seu corpo estava inclinado contra a parede, os braços estendidos, como se tivesse tentado alcançar algo no último momento.
Eu me aproximei, sentindo o cheiro seco e envelhecido da pele morta. O tecido de suas vestes estava gasto, mas havia algo ali.
Marcas.
A pele de seu peito exibia um símbolo queimado na carne—não um selo qualquer, mas algo mais profundo, mais antigo.
O silêncio da câmara subterrânea parecia mais pesado agora. Como se os mortos ao nosso redor ainda esperassem algo.
Hannya se levantou sem dizer nada. Eu não perguntei de novo.
Ele já havia dado sua resposta—e sua resposta foi uma mentira.
A chama da minha tocha tremulou quando me virei para sair, sentindo o peso dos olhos invisíveis que nos observavam da escuridão. O templo não era apenas um túmulo.
Era um aviso.
E nós o quebramos.
Enquanto subíamos os degraus, senti um arrepio gelado percorrer minha espinha. Não por medo.
Mas porque a sensação de algo nos observando não desapareceu.
No instante em que deixamos a câmara e voltei a selar a entrada, soube que nada mais seria como antes.
Porque agora, eu carregava duas verdades perigosas:
A Seita Norai havia sacrificado aqueles sacerdotes.
E Hannya estava ligado a isso de alguma forma.
A vila queria esquecer. O chefe queria apagar.
Mas eu não ia esquecer.
E a Seita Norai não deixaria que ficássemos vivos por muito tempo depois disso.
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