A Mutação

2 Cap. 2: Vá Em Frente E Me Mostre O Que Você Tem


Félix socou algumas peças de roupas em uma mochila e saiu da casa quase de olhos fechados. Katy, que analisava o cenário apocalíptico, por pouco não viu o rapaz passar. Ela correu para acompanhá-lo, fora da casa.

–Hey, Félix, peraí… -Katy pediu. Ela ia cometer a gafe de perguntar se estava tudo bem, então calou-se antes mesmo de abrir a boca.

–Eu só quero encontrar minha tia…-Félix fechou os olhos e respirou fundo-E acertar as contas com quem fez isso…

Katy era boa em ler emoções, embora seu poder não fosse esse. Ela via que Félix estava lutando pra ter uma mínima chama de esperança acesa. Ele tentava acreditar que sua tia estava viva.

–Olha, sua tia está viva… E nós vamos encontrá-la. -Katy disse- Mutantes às vezes tem algum inimigo pelo caminho e…

–Mas eu não pedi pra nascer assim! Com… poderes, ou seja lá o que vocês chamem. -ele disse, alterando o tom de voz -Eu só queria ser um cara normal, com vida normal, amigos normais e tudo normal!

–Primeiro de tudo garoto… Nós, não somos anormais por sermos diferentes. -Katy disse fechando a cara e andando em direção ao carro-E depois, ninguém pediu pra nascer assim. Mas se isso aconteceu, foi por algum motivo, você só tem que querer descobrir qual é ele…

Katy entrou no carro, cruzando os dedos, rezando para que Félix fizesse o mesmo. Para sua felicidade, ele fez.

–--

A viagem estava tranquila para Félix. Tirando o fato de ter descoberto poderes mutantes, ser atacado por uma piromaníaca e sua tia ter desaparecido. Ah, também tinha o lance da mensagem sanguinárea.

Katy dirigia em silêncio, segurando forte no volante. Ele olhava a vista, que começava a se transformar em uma parte da cidade que nunca havia visto.

O trânsito começara a ficar lento, até que estava parado.

–Mas o que tá rolando?-Félix perguntou.

–Ah, droga… Tem obras ali na frente… -Katy disse olhando pela janela.

Félix revirou os olhos e virou para o lado. Algo em sua mente o fez ficar em alerta e olhar para o espelho retrovisor, onde avistou um vulto que ele conhecia, só não sabia de onde.

O rabo de cavalo castanho balançava junto ao vento, combinando em nada com seus passos pesados. A jaqueta de couro estava reluzindo. Seus punhos fechados e sua postura a faziam parecer um dos generais durões do exercito.

Era a C.

Félix começou a ficar nervoso. Sentiu seus poderes vindo e começando a ficar fora de controle. O carro estava ficando fora de controle. O porta-luvas estava abrindo e fechando sozinho. Os cintos no banco de trás se contorciam como serpentes sendo queimadas. Alguns objetos como copos plásticos utilizados, canetas e papéis aleatório começavam a flutuar.

–Félix, o que você está fazendo? -Katy gritou-Félix, o que houve?

Félix viu que C estava se aproximando e então se virou para Katy. Seus rosto suava.

–Aquela garota do ginásio… ela está vindo para cá!-Félix exclamou.

Katy soltou um riso tímido e deu um tapa na sua cabeça.

–Que cabeça a minha… esqueci de te falar. A C não queria e não quer te machucar. Ela tá com a gente. -Katy disse, simpática.

–O que?!-Félix gritou indignado-Então quer dizer que vocês duas são da mesma… Ai meu Deus! Você também quer me matar!

Félix pensou em sair do carro, mas percebeu que era tarde demais. Seus poderes estavam saindo do controle. Descontroladamente.

O carro começara a levitar. Pessoas lá embaixo olhavam indignadas, surpresas e confusas. Entre elas, estava C, que havia exclamado algo como “ah não!”.

–Félix, calma… Desça o carro. Com calma… -Katy disse com as estendidas, em sinal de paz.

–Não me toque!-Félix disse e então se desviou.

Félix empurrou Katy com a força do pensamento e então ela bateu a cabeça no volante do carro, com força, desmaiando. O carro levitava como um balão cheio de gás hélio.

A multidão lá em baixo ganhava força e número. Como sempre tem diretores cinematográficos amadores, umas dez pessoas já estavam com celulares a postos, para gravar o que pudessem.

Félix começou a se sentir fraco. Aquela sensação já estava ficando íntima: ele estava ficando fraco. Só que agora estava piorando, sua visão estava embaçando e uma tontura repentina chegou.

–Ah, não.. -ele se lamentou. Esticou o braço e tentou se segurar no conseguisse. Encostou em algo que nem viu o que era e tentou se sustentar ali mesmo.

O carro começou a dar leves caídas. Depois já estava com uma turbulência de um avião. Logo iriam cair.

Félix encostou a cabeça no banco de couro do carro e fechou os olhos, tentando se concentrar.

Então sentiu que estava caindo. Como uma avião em um pouso forçado, o carro ia em direção das obras, em uma velocidade… bem, uma velocidade ruim. Os operários avistaram a tragédia e saíram correndo o mais rápido possível.

Katy soltou um gemido e colocou a mão na testa. Estava começando a acordar. Seus olhos nem estavam abertos completamente quando ela viu qual era o destino deles. Em um rápido susto, tentou se acordar completamente e segurou no volante e em cima do carro, se concentrando o máximo que podia.

Félix, que nessa altura estava quase mais pra lá do que pra cá, sentiu uma onda de energia passar por ele e depois por todo o carro.

O veículo se diregia à um tanque de combustível, o que causaria uma grande catástrofe. Mas então eles atravessaram-no e fizeram o mesmo com os outros equipamentos da obra, deslizando levemente no chão.

Katy deitou no banco do carro, exausta. Havia usado suas energias e o que conseguia de seu poder para atravessar o que tinha pela frente.

Ou quase tudo.

Katy recuperando as forças quando viu um poste de iluminação na frente deles. Ela e Félix se olharam. Ambos estavam fracos e nada poderiam fazer. A única coisa que Katy conseguiu foi rodar o volante, tentando desviar o máximo possível.

O carro bateu de lado. O lado de Katy. O poste quebrou e caiu sobre o capô, amassando-o. Uma fumaça negra começou a subir ao céu.

Félix estava recuperando sua consciência, mas Katy estava mal. A garota estava caída. O vidro do seus lado havia explodido. Muitos cacos estavam em cima dela e alguns haviam cortado seu rosto e seus braços.

No meio da multidão, uma garota corria na direção do carro, sem medo do estrago já feito.

–Ninguém mais vai ajudá-los? Mas são um bando de inúteis!-C reclamava enquanto corria em direção do carro.

A durona chegou e tentou abrir a porta de Félix. Não muito surpreendente, ela não abriu.

–Se protege… -C cochichou para Félix.

O rapaz ainda estava tentando entender se aquilo era um aviso ou uma ameaça, quando uma parte da porta derreteu e a mesma se abriu.

–Vem, sai daí… -C mandou abrindo espaço.

Félix saiu. Estava com algumas dores no corpo, mas que não eram tão importantes naquele momento.

C se enfiou dentro do carro e tirou Katy de lá, com cuidado. Por pouco tempo de conhecimento das duas, Félix já havia visto que elas eram próximas. Podia ser de um jeito bom ou ruim, mas elas eram.

Katy estava como uma zumbi sub-consicente. C estava dando apoio para ela se erguer, o que estava sendo dificil. Os olhos curiosos ainda estavam neles. A fumaça ainda subia, mais forte agora.

Os três começaram a se afastar do carro em passos lentos, até que C sentiu um arrepio percorrer pelo seu corpo e deixá-la paralisada.

–Abaixem-se agora!-ela gritou.

Por algum motivo Félix achou melhor seguir sua ordem, então se jogou no chão.

Milésimos de segundos depois de encostar no chão, vários pedaços de metal e peças voaram com a explosão do carro, atrás deles. Destroços atingiram as obras. Um latão cheio de oléo tombou, derramando seu líquido, que escorreu pelo chão.

Algumas pessoas saíram gritando e correndo, aterrorizadas. Outras continuavam a olhar, curiosas.

–Mas que merda! -Félix gritou, levantando.

–Temos que tirar Katy daqui, ela está sem forças… -C disse, levantando a outra garota.

O céu começava a escurer, sinal de que logo iria chover. O oléo serpenteava pelo chão, inocentemente disfarçado.

Então, tudo aconteceu muito rápido. O oléo atingiu uma pequena chama, transformando o líquido em um muro de fogo, que atingiu a obra, fazendo-a sacurdir em uma explosão. Pedaços de concreto voou em direção do trio, e Félix teve que utilizar sua telecinese para fazê-los parar.

Pessoas corriam, fugindo de metais e ferramentas que voavam da obra, que agora estava em chamas.

–Félix, segure a Katy. Vou me concentrar para controlar as chamas. -C disse-Me dê cobertura. Se algo vier para me atingir, desvie.

Félix concordou com a cabeça e então segurou Katy. C arrumou sua postura e entendeu os braços, com as mãos em direção do fogo.

Ela se concentrou e seus olhos ganharam um tom avermelhado. Fechou os punhos e então Félix percebeu que o fogo estava baixando. Começava a sumir.

–A gente tem que sair daqui… estamos atraindo muitos olhos curiosos!-C disse, olhando para Félix. Muitas pessoas ainda olhavam para os três e algumas até filmavam.

Katy começava a acordar, levando a mão a cabeça.

–C, faça alguma distração… acho que consigo nos tirar daqui. -ela disse.

–Mas você está muito fraca… -C respondeu, ainda contendo o fogo.

–Faça!-Katy disse.

–Está… está bem… -C concordou. Ela pensou de um jeito fácil de criar tumulto, sem machucar ninguém. Algumas garrafas de alcóol, que possivelmente estavam sendo usadas durante as obras, haviam rolado até o meio da rua.

Torcendo para que Katy estivesse pronta, C minimizou as chamas até obter uma pequena bola de fogo, e então jogou-a nas garrafas de alcóol, que causaram uma explosão.

Nesse exato momento, C iria correr, mas sentiu uma força a puxando até a parede de um beco, onde estavam os outros dois. Katy os segurou e os três atravessaram a parede, saindo do beco do outro lado.

–Wow, isso foi demais!-Félix comemorou-Não acredito que consegui levitar uma pessoa!

–Foi você que me puxou?-C perguntou.

–Pessoal, não vamos gastar tempo… Estou fraca. -Katy disse, se apoiando na parede.

–Hey, calma… está bem? -C perguntou se aproximando dela.

–Só preciso descansar… -Katy disse-Agora vamos.

–Vamos para onde…?-Félix perguntou.

Katy olhou para ele.

–Pegar um táxi, oras.

–--

Depois de um tempo, o carro começou a adentrar uma zona rural e desconhecida por Félix, até agora. A cidade havia sido deixada para trás há alguns minutos e uma brisa fresca entrava pela janela. Ele havia pegado no sono e acabara de acordar. Observava os relevos cobertos por uma grama verde e linda.

–Pode nos deixar aqui, senhor… -Katy disse para o motorista, que parecia uma morsa bigoduda com uma camiseta havaiana.

–Tem certeza? No meio do nada…

–Sim, temos certeza. -C o cortou.

Os três saíram do carro e deram uma nota de cem reais, complementando que podia ficar com o troco. Depois que o carro deu meia volta e partiu em rumo à cidade, Katy comandou a caminhada morro acima.

–Nosso acampamento é daqui alguns metros. Você vai gostar… -Katy disse com um sorriso simpático. Ela parecia exausta e Félix estava com medo de que ela desmaiasse a qualquer momento.

Quando estavam chegando ao pico, uma vulto roxo apareceu e dele se formou uma garota sorrindo simpáticamente, limpando seu óculos na camiseta. A brisa fazia seu cabelo negro serpentear.

–Katy, que bom que você voltou… -a garota disse.

–Oi pra você também, Lolinha. -C disse, em um tom debochado.

–...pena que não possa dizer o mesmo pra você, C. -ela retrucou.

–Oi Lola, estou exausta… -Katy disse, dando um breve abraço na amiga.

–Normal… -ela respondeu com uma risadinha. Então mirou em Félix e o olhou da cabeça aos pés-Esse é o novato que você procurava?

–É, esse é Félix.-Katy apresentou-Félix, essa é Lola.

Félix respondeu com um sorriso. Eles começaram a descer o morro.

–Parece que a Jay vai ter bastante trabalho hoje. Eu também fui atrás de um mutante… e bem, a história dele é bem complicada. -Lola contou.

–Porque?-Katy respondeu.

–Parece ser um assassino. Matou o próprio pai.

Notas finais
Obrigado por ler.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.