Notas iniciais
Essa história é real, eu sou apenas a narradora.

- Polly! Socorro! O Derek! Ajuda! Deus! – Disse a melhor amiga de Polly, já dentro da casa, sem oxigênio e ofegante.

-Isa, o que foi? Fala mulher! O que tem o Derek? – A garota de cabelos negros e ondulados retira os fones e se levanta com um salto do sofá.

-O Derek... Na rua... Um caminhão surgiu!... E ele foi pego! E não vi mais nada! – As frases da garota eram interrompidas por sua respiração desesperada, afinal, não dera tempo de ela pegar um ônibus, teve de correr o mais rápido que pode quase 7 km.

-O Derek foi atropelado? Onde? Fala Isa!

-Na rua principal, lá no Centro! Ei, espera!

Mas a garota já saia rua a fora correndo desesperada, buscando atalhos para chegar ao Centro o mais rápido possível. Correu mais rápido que a amiga, chegando em poucos minutos. Em volta do local, uma multidão se reunira, formando um bloqueio forte e resistente.

Quando ao final, apos uma dura batalha de empurrões, alcançou o auge, viu o que temia. Um caminhão estava dentro de uma casa e seu motorista, pendia morto no capo. Um pouco distante, o rapaz de corpo definido e cabelos castanhos e embaraçados, agora ensanguentados, gemia de dor. Polly se aproximou dele e o abraçou. Era perigoso, ele fraturara a coluna.

-Derek! Vai ficar tudo bem! Eu lhe prometo! Não me deixe! Derek! Deeerek!!! – Ela se debruçou sobre o rapaz e chorou, suplicando a Deus que não o levasse.

Com muito esforço, ela deixou com que os médicos da ambulância o levassem para o hospital. Porém continuou ali... Muito depois de todos os policiais terem feito tudo... Muito depois de tirarem o caminhão e levarem o corpo do homem... Muito depois de todos irem em bora... Muito depois de escurecer... E principalmente muito depois de suas lagrimas acabarem e sua esperança também.

Muito depois de a lua brilhar alta no céu, Polly se decidiu. Saiu correndo em um disparo e, em pouco tempo, chegou a sua casa. Seus pais a aguardavam preocupados na sala, porém ela os ignorou e seguiu veloz para seu quarto. Depois de trancar a porta e desferir palavras nada sensíveis aos pais para que parassem de perturba-la, foi até o armário e abriu-o violentamente.

Derrubou tudo no chão e pegou uma chave de fenda que se encontrava no fundo. Com ela, removeu pacientemente os oito parafusos que prendiam o fundo do armário a parede e o retirou, exibindo um tipo de cofre antigo, fechado por um cadeado velho e enferrujado.

Tudo deveria ser feito exatamente na ordem correta e calmamente, se um passo, qualquer que fosse, saísse ruim ou desconfiado, tudo daria errado.

Foi até sua escrivaninha e abriu a primeira gaveta, de lá retirou um colar antigo e fosco em forma de coração. O partiu no maio com a chave de fenda e dele saiu uma chave mais velha ainda. Com ela, abriu o cofre e dele tirou uma bolsa de couro empoeirada e cheirando a mofo. Para finalizar esta etapa, pegou no seu espelho uma foto de Derek, a beijou e sussurrou como se fosse no ouvido do próprio:

-Em breve tudo estará resolvido!

Então saiu do quarto. A mãe, que estava apoiada na porta, foi recebida com ameaças e maldições e logo deixada para trás com a batida forte da porta do sótão e com sua tranca virando. O sótão era o maior dormitório da casa, muito empoeirado. Fora construído na forma de um triangulo com três janelas redondas. Possuía um sofá velho, uma mesa e algumas caixas esquecidas. Era um lugar que há tempos ninguém ia.

Sozinha novamente, Polly colocou a mochila no chão e deitou no sofá, abraçada a foto de Derek, onde adormeceu por uns instantes, apenas até o momento exato em que o ritual deveria se iniciar.

Logo que se levantou, tirou tudo de dentro da bolsa e começou a organizar as coisas. Fez um triangulo perfeito com sal grosso, cada ponta apontava para uma das janelas, e em cada uma colocou um pedaço de espelho quadrado, os da base virados para o da ponto que estava virado para o centro.

Abriu as janelas até a metade e em cada uma depositou um outro pedaço de espelho, e todos apontavam para um dos pedaços no centro do comodo. Por fim, fez um circulo atravessando o triangulo com pó de tijolo misturado com um pó negro e colocou no centro de tudo um cristal negro que tombou para o lado. Estava pronto.

Ela se sentou na direção da base, ainda dentro do circulo, e aguardou. Quando o primeiro raio da luz do sol adentrou no local, foi logo direcionado, nos três cantos, para os espelhos, que por sua vez, transferiram a luz uns para os outros, fazendo um triangulo de luz, uma luz amarela, forte e cegante. Permaneceu neste ciclo por pouco tempo, logo os raios de sol se intensificaram e, através do extremo do triangulo, o foco atingiu o cristal.

Assim que atingido, todo o ciclo se tornou negro e a pedra se levantou e começou a girar. O ritual estava dando certo. Neste momento, Polly pegou um livro amarelado e desgastado pelo tempo e começou a le-lo em uma língua antiga. Em uma das mãos, segurava a foto de seu namorado e na outra, um colar que representava o amor dos dois.

Quando terminou de pronunciar as palavras estranhas que aprendera a falar com a avó, o foco negro se direcionou a ela e uma dor intensa a inundou. Tomou conta de suas veias, artérias, órgãos, ossos, músculos e tecidos. Ia como fogo, queimando tudo e causando muita dor. A garota gemia e gritava com a sensação que sentia, foram os cinco minutos mais dolorosos de sua vida e ela sentia que nunca aquilo iria acabar.

Até que parou, sessou como se nunca tivesse ocorrido nada. Não sentia mais nada. Olhou para suas mãos e em torno, tudo havia se tornado pó e era levado por uma brisa calma para fora e para o alem. Apenas seu colar estava em seu pescoço, mas ela não mais o sentia.

Começou a pensar que fora um sonho, tudo aquilo, até que apareceu uma porta de madeira maciça a sua frente. Polly não hesitou em abri-la. Quando estava dando o primeiro passo para dentro da escuridão da porta, seus pais arrombaram a abertura do sótão e adentraram no lugar. Ela olhou para trás e viu sua mãe ajoelhar-se no chão, com as mãos na boca, sem respirar. Seu pai correu até um corpo pálido e frio jazido do chão. Tinha os cabelos compridos e negros. Assim que o homem encostou-se ao corpo inerte, Polly sentiu um calor em seus braços, e então viu que o corpo era ela. Tentou voltar, mas algo a puxou e a ultima sena que viu foi de seus pais chorando ao lado de seu corpo inerte antes de tudo virar trevas.