A Morte Me Dá Spoilers

16 Capítulo 15: Mapa de um Crime Incompleto



A noite sem dormir está pesando sobre mim. Meu corpo está exausto, mas minha mente não sossega. Rachel parece ainda mais desgastada, com olheiras profundas e uma energia inquieta, como se seu cérebro não conseguisse desligar mesmo depois de vinte cafés. Ela é a chave para todas as nossas respostas agora, e sei que isso está pesando sobre ela tanto quanto sobre mim.

— Achei um lugar na rodovia que tem um outdoor com uma propaganda da Fazendinha Azul e uma torre de transmissão perto — ela diz, com a voz rouca, quase sumindo. Sua expressão está cansada, mas não esconde o alívio contido de quem, depois de horas no escuro, finalmente vê um fio de luz.

Brian se senta ao meu lado no sofá, atento, a expressão tensa. Ele não diz nada, mas seus olhos estão fixos nela. Ele também está esperando por uma explicação.

— Como fez isso? — ele pergunta, com uma curiosidade genuína.

Rachel respira fundo e esfrega o rosto, como se quisesse forçar o cérebro a se organizar para recapitular tudo.

— Bem... não foi tão difícil. — Ela fala com aquele tom típico de quem fez um trabalho absurdo e ainda acha pouco. — Comecei buscando em NY e nas rodovias próximas por torres de telefonia. Cruzei isso com os pontos de venda de anúncios em outdoors. Usei uma planilha simples pra ir marcando as sobreposições de localização... mas não achei nada que batesse com o que a gente viu. Então, mudei a busca pra torres de transmissão — aquelas mais altas, de sinal amplo, geralmente próximas à malha viária — e aí consegui reduzir as áreas de busca.

Ela se inclina na cadeira e pega o notebook, abrindo um mapa com algumas marcações.

— Usei o satélite pra ver os outdoors próximos das torres, mas nem todos estão atualizados. A imagem de alguns ainda estava com anúncios antigos. Então... liguei para as empresas responsáveis pelos outdoors. Fiz uma conta de e-mail comercial falsa — NadineHolmesMarketing, bem genérica — e fingi interesse em comprar um espaço de anúncio pro “Centro Recreativo Verão Azul”. Minha única cláusula no contrato era que o concorrente, "Fazendinha Azul", não tivesse usado aquele outdoor.

Eu a encaro, meio abismada. Brian também parece surpreso.

— E alguém caiu nessa? — pergunto, mais por admiração do que por dúvida.

— Uma empresa caiu. Me respondeu com um PDF de disponibilidade e mencionou que o outdoor da I-87 Norte, saindo de NY, já estava reservado para a próxima semana com um anúncio da Fazendinha Azul. Disse que não poderia garantir exclusividade nesse local.

Ela vira o notebook, apontando para o mapa com círculos vermelhos.

— Mas tem mais... Quando ampliei a área ao redor da torre e do outdoor, vi pelo satélite uma estrutura metálica retangular perto de uma trilha de terra batida. O sol estava em posição favorável na imagem — dava pra ver bem a sombra projetada do que parece ser um container. E, alguns quilômetros floresta adentro, tem o que parece um lago ou talvez um pântano. É uma área úmida, escura, sem muita cobertura vegetal nas bordas. Pode ser o mesmo lugar que vimos na visão.

Ela amplia a imagem no notebook e mostra. A tela exibe um trecho da rodovia, com a torre de transmissão visível, o outdoor numa clareira ao lado da pista, e uma trilha que leva até o que parece ser um container parcialmente encoberto por árvores. Mais ao fundo, uma mancha irregular — escura demais para ser só solo — revela o possível lago.

— Isso tudo está na mesma região — ela continua traçando com o dedo uma linha imaginária entre os pontos. — A estrada passa por aqui, tem um acesso de terra até esse ponto onde tá o container. E essa mancha aqui... provavelmente é o lago.

Me aproximo mais da tela. Meu coração acelera devagar, daquele jeito que só acontece quando a intuição começa a gritar antes da razão.

— Você filtrou por áreas com pouca movimentação, certo? — pergunto.

— Sim — ela confirma. — Cruzei com zonas sem cobertura residencial nos últimos cinco anos. Regiões com acesso difícil, sem câmeras de trânsito. As chances de alguém usar um lugar assim sem ser visto são bem maiores.

Brian se inclina, cruzando os braços.

— Acha que ele usou esse container pra esconder os corpos?

— Ou pra armazenar alguma coisa... não sei — Rachel diz, os olhos ainda fixos no mapa. — Mas o padrão de desaparecimentos faz sentido com essa localização. Se ele teve acesso a um carro ou caminhão, poderia ter transportado as vítimas até aqui. E se os corpos foram jogados perto da água, o pântano ou o lago ajudaria a disfarçar tudo.

— Isso explicaria por que ninguém achou nada até agora — digo, com um nó no estômago. — Se o nível da água variar, ou se tiver lama o suficiente, pode esconder qualquer coisa por anos.

O silêncio toma conta da sala por um instante. Eu olho para Brian e ele já está no celular, checando o tempo de viagem.

— Três horas e vinte minutos — ele diz. — Se a gente sair agora, dá pra chegar lá antes de escurecer.

Eu fecho os olhos por um segundo. Aquela sensação familiar volta: estamos nos aproximando da beira do abismo. Mas também estamos perto da verdade. Muito perto.

— Vamos — digo, com firmeza.

Brian se levanta. Rachel fecha o notebook com cuidado, como se não quisesse acordar mais demônios do que já acordou naquela madrugada. Pegamos as mochilas. A estrada nos espera. E, de algum jeito, sei que o que vamos encontrar no fim dela vai mudar tudo.

O carro corta a estrada deserta, engolido por uma paisagem cada vez mais silenciosa. As árvores dos dois lados parecem crescer sobre nós, formando um túnel irregular de sombras. A luz do fim de tarde entra pela janela e pinta o interior do carro com tons alaranjados e melancólicos. Ninguém fala por um tempo. Estamos todos digerindo o que Rachel descobriu.

Brian é o primeiro a quebrar o silêncio.

— Como... como você conseguiu pensar em tudo isso? — Ele pergunta, sem tirar os olhos da estrada. — Quero dizer, quem em sã consciência pensa em cruzar outdoors com torres de transmissão?

Rachel, no banco do passageiro, suspira e dá um sorriso torto, puxando as mangas da blusa para cobrir as mãos.

— Eu só... pensei como se estivesse escrevendo um livro sobre assassinato. — Ela dá de ombros. — Tipo, se eu fosse montar essa história, quais pistas seriam plausíveis? O que deixaria rastro? O que seria burro demais até para um vilão clichê? E aí fui eliminando o improvável.

Eu me viro no banco de trás, olhando para ela, surpresa.

— Espera. Você resolveu um possível esconderijo de um assassino real fingindo que estava editando um thriller?

— Basicamente — ela responde, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Pistas boas são como cenas bem escritas: têm que estar lá desde o começo, mas só fazem sentido quando você olha pra trás.

Brian solta uma risada baixa e balança a cabeça.

— Isso é assustadoramente genial.

— É por isso que ela é a chefe — comento, e o carro inteiro explode em uma gargalhada nervosa.

Rachel revira os olhos, mas sorri.

— Eu só não queria mais uma madrugada olhando para nada. Ou pior, acreditando que a gente não tinha mais por onde ir.

O silêncio volta, mas agora é mais leve. Ainda há tensão, claro. Ainda estamos indo em direção ao desconhecido. Mas, por um momento, há também admiração. Orgulho. Talvez até esperança.

Mas então, como se algo dentro de mim acendesse de novo, uma lembrança me cutuca.

— Espera — digo, endireitando a postura no banco. — O outdoor... ele ainda não está com o anúncio da Fazendinha Azul, certo?

Rachel confirma com um aceno lento.

— Exato. A empresa disse que o espaço está reservado pra próxima semana, mas o anúncio ainda não foi colocado.

O peso daquelas palavras se espalha dentro do carro como uma corrente elétrica silenciosa. Brian aperta o volante com mais força. Rachel olha pela janela, como se tentasse enxergar além da estrada.

— Isso quer dizer que ainda temos tempo — sussurro enquanto lembro do rosto da menina. — Pouco, mas temos — digo.

Brian pisa um pouco mais no acelerador. Lá fora, o mundo segue impassível. Aqui dentro, a urgência se torna palpável. Cada segundo agora tem peso. E talvez, só talvez, ainda seja tempo suficiente para impedir o pior.

A trilha se tornava cada vez mais apertada, engolida pela floresta que parecia silenciar até os próprios pensamentos. O container estava ali, como uma cicatriz metálica no meio da vegetação densa, meio coberto por lonas velhas e encostado em troncos caídos. Paramos atrás de um emaranhado de arbustos quando ouvimos o som de metal se abrindo.

Um homem saiu do container. Alto, postura tensa, o rosto escondido por um boné e a barba malfeita. Carregava algo nos braços, envolto em um lençol grosso. O volume era grande… mas não do jeito que esperávamos. Era pesado, sim. Mas logo percebemos: grande demais para ser uma criança.

Ele seguiu pela trilha até a margem do lago. Brian sinalizou com a cabeça e foi atrás, corpo abaixado, pisando com cuidado. Rachel e eu ficamos próximas, espreitando entre as folhas, tentando não respirar alto.

O homem chegou à borda e, com esforço, arremessou o embrulho. O som da água sendo rasgada foi abafado, mas denso — como se o conteúdo tivesse muito peso. O lençol flutuou por um segundo antes de começar a afundar devagar, engolido pelo lago turvo.

Brian se aproximou silenciosamente e, com voz firme, deu o bote:

— Polícia! Mãos para cima!

O homem se virou, assustado, sem reação, os braços imediatamente erguidos.

— Eu... eu só recebi ordens — disse, a voz trêmula.

— De costas. No chão. Agora.

Brian o algemou com precisão.

Eu e rachel voltamos escondidas até o carro, afinal o Brian não teria uma desculpa para a nossa participação.

Quando vimos o rosto do cara sabíamos muito bem que aquele não era o Hernadez. Alguém estava ajudando-o e agora ele iria saber que descobrimos o seu cemitério. Isso não era nada bom... Porque agora ele não iria trazer a menina para cá. De novo alterei a rota. Será que agora ele vai acabar matando ela?

O que foi que eu fiz?

O som das sirenes ecoa por entre as árvores antes que os carros da polícia sequer apareçam. Brian está parado ao lado do suspeito algemado, os ombros rígidos. Nadine e Rachel mantêm distância, mas não o suficiente.

Os primeiros policiais descem armados, mas tudo está sob controle. Até que o chefe deles aparece: um homem alto, com cara de quem dorme mal e acorda pior.

Ele caminha direto até Brian, ignorando o suspeito.

— O que, exatamente, está acontecendo aqui? — pergunta, com um tom gelado.

Brian engole seco.

— Eu recebi uma denúncia anônima. Decidi investigar por conta própria e encontrei o suspeito em flagrante.

— Sozinho?

Brian hesita por um segundo. Pequeno demais para um profissional como o chefe ignorar.

— Sim.

Os olhos do chefe se estreitam. Ele olha por cima do ombro e vê Nadine e Rachel. Volta a encarar Brian.

— Tem certeza de que quer manter essa história? Porque, se eu descobrir que você envolveu civis numa operação, vou suspender você agora. E quando a corregedoria terminar, sua carreira vai estar enterrada junto com os corpos que encontrar.

O silêncio pesa.

E então, Nadine se adianta.

— Foi por minha causa — diz ela. A voz firme. O tom, quase entediado. — Ele não quebrou protocolo. Tentou proteger a minha identidade. A Rachel só ajudou a cruzar dados. Mas quem... viu tudo, fui eu.

O chefe ergue uma sobrancelha.

— Viu?

— Antes de acontecer. Eu tenho visões. Não é uma coisa que eu controle, não me pergunte como funciona. Mas a gente chegou aqui por causa de uma imagem na minha cabeça. Foi o que me guiou.

— Você é vidente?

— Pode chamar assim, se preferir. Mas antes de você rir — ela se vira para ele com os olhos semicerrados —, posso te dar uma prévia das próximas horas.

Ele cruza os braços.

— Me surpreenda.

Nadine suspira, como se estivesse entediada com a própria existência.

— Primeiro, o painel esquerdo do outdoor da Fazendinha Azul vai dar mal contato. Vai piscar durante exatos 32 segundos e depois apagar.

Rachel solta um risinho discreto.

— Segundo... um carro verde, uma picape velha, vai passar por essa estrada. Vai estar em alta velocidade, provavelmente fugindo de alguma coisa — ou de alguém. Vai sair da pista depois de três quilômetros e bater numa árvore. Sem vítimas graves.

O chefe começa a abrir a boca, cético.

— Terceiro — Nadine continua —, um pássaro vai cagar bem no seu ombro esquerdo. Pode ser um corvo. Talvez uma gaivota nervosa. Difícil prever a espécie com exatidão.

Silêncio.

Brian esfrega o rosto. Rachel prende o riso com dificuldade.

O chefe revira os olhos.

— Você tem cinco minutos de crédito com minha paciência.

— Vai querer um guarda-chuva? — Nadine pergunta, apontando pro ombro dele com um sorrisinho.



Eu não esperava aplausos. Mas uma leve admiração? Talvez um “caramba, que mente brilhante”? Nada. Só olhares de julgamento e uma tensão que dava pra cortar com colher de plástico.

Então o rádio do carro da polícia chiou.

— Central para unidade 12, cópia?

O chefe pegou o rádio com a calma de quem estava prestes a mandar prender uma lunática.

— Unidade 12. Fala.

— Chefe… o painel do outdoor tá dando curto. Um lado inteiro apagou e começou a piscar. Parece mal contato.

Strike um

Rachel tossiu pra esconder o riso. Brian mordeu o lábio. E eu? Me limitei a cruzar os braços e erguer as sobrancelhas com a serenidade de quem está sempre certa.

— Coincidência — murmurou o chefe, desligando o rádio como quem tenta matar uma profecia com teimosia.

Dois minutos depois, um som ecoou ao longe.

O carro passou por nós parecendo uma gosma verde de tão rápido que estava e em questão de segundos ouvimos um barulho seco, de algo colidindo contra madeira com a delicadeza de um rinoceronte em patins. Todos chocados com a previsão e eu ainda estava me perguntando quem pintaria um carro de verde musgo por livre e espontânea vontade? Isso por si só já deveria ser um crime.

Strike dois

— Opa — falei, apontando vagamente na direção. — Três quilômetros certinhos. Quer carona até lá?

Dessa vez, até um dos agentes atrás do chefe soltou um risinho nervoso. O chefe, claro, fingiu que não ouviu. Mas já dava pra ver o suor se formando na testa dele. A camisa engomada começava a parecer justa demais.

E então, como se o universo estivesse lendo um roteiro meticulosamente cronometrado… um som agudo cortou o silêncio.

CUI-CUI-CUI — veio de cima. Eu olhei. Rachel olhou. Brian olhou.

O chefe olhou… tarde demais.

PLOFT.

Strike três

Bem no ombro esquerdo. Uma bomba biológica recém-processada de um pássaro desafiando as leis da estética.

Silêncio. Aquele tipo de silêncio que vem antes da explosão. Mas eu me antecipei.

— Eu avisei. E olha… eu nem cobrei por isso.

Brian virou de costas pra esconder o riso. Rachel fingiu verificar algo no celular. O chefe… o chefe ficou parado. Como se parte dele tivesse morrido ali, junto com o último fragmento de ceticismo que ele carregava no coração.

— Chefe... — disse um dos policiais. — Acredito que devíamos ouvir o que ela tem a dizer.

Ele olhou pra mim. Depois pro ombro. Depois pro rádio. E, finalmente, de volta pra mim.

— Onde está a menina? — perguntou, seco, engolindo o orgulho junto com a vergonha.

Eu balancei a cabeça.

— Ainda estamos procurando. Esse cara — apontei pro suspeito algemado — jogou um corpo, mas não era o dela. A minha visão parava antes disso. O que sei é que ela ainda está viva… e que temos pouco tempo.

Ele ficou alguns segundos me encarando, como se tentasse decidir entre confiar em mim ou fingir que nada disso aconteceu.

— Está bem. — Ele respirou fundo. — Mas se você for uma assassina com poderes, eu te mato pessoalmente.

— Anotado — respondi, sorrindo. — Mas eu tenho cara de quem levanta da cama cedo pra matar alguém?

— Você tem cara de quem mataria de sarcasmo.

— Obrigada.

Rachel finalmente deixou escapar um riso alto. Brian ergueu as mãos, rendido.

E foi assim que, entre um outdoor falhando, uma picape desgovernada e um pássaro com senso de timing impecável, eu conquistei o direito de continuar ajudando.

Ou, no mínimo, de não ser presa. Por enquanto.