A Morte Das Areias do Saara

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Notas iniciais
beeeeeeem vindos ao cap q saiu rapidinho pq eu tava me coçando pra fazer hehe aproveitem xD imagem de hoje, por do sol (ou nascer, sei lá kk) no Nilo

Sempre que você se põe no horizonte ocidental, a terra fica na escuridão à maneira da morte. Eles dormem em um quarto com a cabeça debaixo das cobertas, e um olho não vê o outro. Se todos os seus bens que estão sob suas cabeças fossem roubados, eles não saberiam.

~ Fragmento de “Hino a Aten”

O sol já tinha se posto e os micênicos já tinham voltado para seu lugar de origem. Assim, Anúbis e Hórus continuavam de pé, ao lado das grandes pirâmides de Gizé. Ambos estavam aliviados pela reunião ter acabado bem, apesar de perguntas e respostas pendentes. Mas, já com outras preocupações em mente, Anúbis encarou Hórus preocupado.

— É apenas por causa de Akhenaton que está tão inseguro e nervoso? — perguntou Anúbis.

— Sei que mal voltou e… não foi fácil lá no Duat mas… o Salão do Julgamento está cheio demais. — disse Hórus apressadamente fugindo do assunto.

— Hórus… — tentou Anúbis.

— Então se puder julgar as almas, ao menos um pouco, todos ficariam bem gratos. — continuou Hórus ignorando a tentativa de interrompê-lo — Vou ver com Seshat se ela sabe o que está acontecendo com Zeus ou se consegue descobrir.

Sem mais tempo para conversas, Hórus se transformou num falcão e saiu voando para longe, deixando Anúbis sozinho com as pirâmides. O Anúbis suspirou, sem saber como lidar com o primo, mas deixou as pirâmides para trás e surgiu na sala das múmias, no submundo. Lá, ele encontrou Anput, que tranquilamente lia um papiro sentada sobre uma das mesas de pedra.

— Pelo tempo que demorou, imagino que tudo tenha ido bem. — comentou Anput enquanto Anúbis se aproximava e a envolvia num abraço com ela ainda sentada na mesa de pedra.

— Hum… — resmungou ele, pensativo, pousando a cabeça no ombro da esposa.

— O que foi? Aconteceu algo lá? — perguntou ela o abraçando de volta — Vai já julgar os mortos?

— Eu preciso… — respondeu ele suspirando — Está cheio demais… Desculpa por não poder ficar tanto tempo com você desde que voltei.

— A gente tira o atraso depois. — respondeu Anput fazendo cafuné nos cabelos negros dele.

— Aconteceu alguma coisa enquanto estive morto? — questionou Anúbis — Hórus está muito estranho.

Anput suspirou tristemente, mas nada respondeu. O comportamento deixou Anúbis bem preocupado. Para ele, foi quase como uma afirmação. Por isso, ele se endireitou e olhou a deusa firmemente nos olhos, mas ela desviou o olhar.

— Anput? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Anúbis.

— Lembra da profecia que Nekhbet fez que todos concluíram ser sobre Hatshepsut? — perguntou Anput retoricamente, os deuses tinham a memória perfeita — Sobre um faraó semideus, filho de Amon-Rá e de um faraó poderoso pelo sucesso estrangeiro que portasse o nome do deus… Nekhbet disse que essa profecia ainda não foi cumprida.

— Ãh? Mas Hatshepsut já até morreu. — comentou Anúbis perdido.

— Eu sei. Mas vem mais. — disse Anput aparentando extremamente preocupada segurando até os ombros de Anúbis firmemente — Ela aumentou a profecia dizendo que esse faraó precisa vir, e ele precisa ser o maior de todos os faraós que já vieram, ou o Egito acabará.

— O maior de todos? — perguntou Anúbis entendendo cada vez mais o desespero de Hórus — Akhenaton não é exatamente um faraó que dá para se dizer que tem sucesso no estrangeiro, então não tem como ser o filho dele.

— Exato. — concordou Anput — E dificilmente Nefertiti aceitará ter um filho com Amon-Rá, já que considera todos nós como deuses falsos, tal como o marido. Por isso, estão quase todos bem preocupados. Nekhbet disse que temos que passar dessa, mas é muito forte essa sensação de que o nosso tempo para cumprir essa profecia acabou. Sem falar que essa parte adicional da profecia também foi horrível e bem desanimadora.

— Bem que Nekhbet podia ter nos avisado antes… — comentou Anúbis.

— Concordo. — respondeu Anput — Mas ela disse que o futuro é incerto e que, pode não ter sido sobre Hatshepsut, mas ela também foi de grande importância. Acho, mas não tenho certeza, que ela quis dizer que por um tempo até foi sobre Hatshepsut mesmo, mas como o futuro é incerto, Akhenaton vai provavelmente nos deixar numa situação muito complicada.

Era muito para se pensar e processar no momento. Anúbis ficou uns segundos em silêncio pensando sobre tudo aquilo. Isso explicava porque estavam já falando em amaldiçoar toda a linhagem de Akhenaton mas, ao mesmo tempo, também explicava porque Hórus estava tão inseguro. Uma escolha errada podia ser claramente fatal para o Egito como eles conheciam.

Todavia, aparentemente tinha mais, pois Anput segurou o rosto dele repentinamente fazendo com que ele olhasse para ela. Anput parecia decididamente preocupada, ansiosa e claramente tinha algo mais a dizer.

— Com tudo isso acontecendo, fiquei com medo que você não conseguisse voltar. — admitiu Anput começando a ficar com lágrimas nos olhos — Acho que não fui só eu que pensou isso. E… me fez pensar… sentir que… às vezes achamos que temos a eternidade toda para viver e curtir, mas isso não é verdade. Todos os deuses morrem algum dia e não sabemos quando esse dia é. Só vemos a civilização que protegemos se despedaçando e, antes que notarmos, pode ser tarde demais para cumprir o que nos falta com objetivos.

— Eu estou aqui agora. — garantiu Anúbis vendo as lágrimas rolarem pelo rosto de Anput e prontamente ele as limpou — E vamos lidar com Akhenaton.

— Eu sei… bem, eu sei a primeira parte, a segunda ainda quero acreditar. — disse Anput continuando a chorar mas limpando ela mesma as lágrimas — Mas o fato é que comecei a sentir que gastamos tempo, eu praticamente só fiquei viajando, você praticamente só ficou trabalhando… o que não lhe culpo nem reclamo, de verdade. Vejo como é difícil e importante cuidar dos mortos. E… eu sou terrível explicando…

— Você queria viajar e ver os outros povos. — disse Anúbis acariciando a bochecha dela — E não é como se fossemos morrer amanhã. Seja lá quanto tempo vai demorar para o Egito cair, ainda podemos aproveitar o que sobrar.

— Eu sei… eu sei… — disse Anput suspirando parecendo se enrolar nas melhores palavras para dizer deixando as lágrimas rolarem pelo rosto — Mas com tudo isso, eu fiquei pensando em todos os meus arrependimentos se de fato morrêssemos amanhã… eu tenho medo de o povo adorar Aten e aí eu com certeza não vou ter muita oportunidade. Então… eu tomei uma decisão.

— Qual? — perguntou Anúbis preocupado limpando as lágrimas dela.

— Se realmente conseguirmos lidar com Akhenaton, — disse Anput lentamente começando a controlar mais as emoções e parecendo ficar ansiosa e na expectativa pela reação dele — só aí, vamos tentar ter um bebê?

Chocado, Anúbis olhou para ela como se não acreditasse no que ouvia. Depois de alguns segundos processando a fala, ele falou:

— Está falando sério?

— Porquê eu brincaria com algo assim? — perguntou ela, fungando levemente parando lentamente de chorar.

— Não é… não sei… algo que está falando só no desespero? — perguntou Anúbis, queria que ela tivesse certeza — Nem só pra me agradar? Sabe que pode ser sincera.

— Eu sei. E sim, estou falando sério. — respondeu Anput rindo de leve — Fiquei pensando nisso nesse um ano todinho. Mas só depois que nos livrarmos do problema que são Aten e Akhenaton. Eu não suportaria colocar uma criança nesse mundo numa situação tão instável como essa. Mas então, vai querer ou não?

— Claro que quero! — exclamou ele fazendo Anput começar a rir.

Empolgado, Anúbis segurou o rosto dela e começou a enchê-la de beijo, fazendo ela rir mais ainda.

— Depois que a gente resolver o problema do Aten e do Akhenaton! — enfatizou ela de novo.

— Tá tá tá tá. — respondeu ele parando os beijinhos pelo rosto e então beijando-a lentamente nos lábios.

Ela correspondeu ao beijo, logo sentindo o coração se livrar de um peso que o prensava. Anput eventualmente se separou do beijo, mas manteve um sorriso no rosto ao dizer:

— Vamos lá acabar com a bagunça no Salão do Julgamento.

Os dois foram, de mãos dadas e humor renovado, andando até o Salão do Julgamento de mãos dadas. Ao chegarem lá, a aparência do Salão estava bem diferente. Para tentar organizar e controlar o tanto de almas, Osíris havia feito uma magia que dividiu o Salão em quatro partes separadas por paredes mágicas cinzas bem escuras, ultrafinas.

Uma dessas partes, a menor de todas, era onde a maior parte dos deuses, e apenas os deuses estavam. Era uma ala que, com acesso a balança e ao portal do Aaru, aconteceriam os julgamentos, garantindo assim privacidade para a alma julgada. Dessa parte reservada aos julgamentos, havia três desenhos dourados de portas nas paredes mágicas cinzas. Era claro que era por ali que as almas iriam entrar.

Ao ver Anúbis e Anput se aproximando, Ammit foi a primeira a ir falar com eles, e foi logo seguida por Osíris. Enquanto o poderoso deus se aproximava, Anúbis fazia cafuné atrás das orelhas de Ammit, que claramente gostava do carinho.

— Tem certeza que já quer voltar aos trabalhos? — perguntou Osíris com uma leve preocupação.

— Sim. — respondeu Anúbis — Essa situação é um empecilho para todos, sem exceção. Certeza que essas almas já estão cansadas de esperar.

— Bem vindo de volta então. — disse Osíris com um sorriso orgulhoso passando o braço pelas costas de Anúbis com firmeza e andando com ele até o lado da balança — Mas se precisar respirar… não hesite em parar um pouco. Não vá ficar ignorando como você está para acabar com toda a fila, como tem mania de fazer. Especialmente agora que tem muitas pessoas.

— Eu estou bem, de verdade. — garantiu Anúbis — Mas… antes disso. Hades.

— Ah, sim. Conseguiram acertar tudo? — perguntou Osíris soltando Anúbis.

— De certa forma, mas… ele quer que visitemos o submundo dele e que ele venha visitar aqui. — disse Anúbis — Ele disse ter se encontrado com Lelwani já.

— Ai os hititas… — resmungou Osíris suspirando pesadamente — Sempre me arrepia a nuca ouvir deles. Não tenho uma boa sensação, mas pelo menos Lelwani não é tão ruim. Imagino que queria checar com ele o que achou de Hades.

— Sim. — confirmou Anúbis.

— Anput… — disse Osíris olhando para a deusa — Gostaria de ir falar com Lelwani, para variar um pouco? Precisamos checar o que ele acha de Hades e quais as intenções dele, caso ele saiba algo.

— Claro! — respondeu Anput orgulhosa — Algo mais que gostaria de checar?

— Talvez. Vamos discutir logo, mas antes… — disse Osíris olhando para Anúbis — Dividi as almas em três grupos separados por paredes também. Aquele primeiro ali, é onde estão as almas das crianças. Tawaret, Ísis e Néftis estão lá mas… sabe como é difícil cuidar das crianças.

— Bastante… — respondeu Anúbis sabendo bem como ao menos uma criança já ficava confusa ao desesperada com a súbita morte e a ausência dos pais.

— Na do meio, tem grupos de famílias inteiras, incluindo crianças, e desconhecidos confiáveis que conseguimos encontrar para cuidar de algumas das crianças que morreram sozinhas. — Osíris explicava para Anúbis — A última é basicamente todo o resto das almas.

— Posso chamar as almas na ordem que quiser? — perguntou Anúbis.

— Claro. — disse Osíris — Mas recomendo diminuir as crianças o máximo possível sem irritar o último grupo, que certamente vai acabar se sentindo ignorado.

— É… infelizmente não tem como atender todos justamente ao mesmo tempo. — disse Anúbis suspirando pesadamente.

— Tenho certeza que conseguirão lidar com tudo. — motivou Osíris — Hathor estará no segundo grupo para controlar qualquer confusão e Shu e Tefnut no último.

— Certo. — respondeu Anúbis.

— Na verdade só Shu. — disse Seshat se juntando timidamente na conversa após ter acabado de chegar no Salão do Julgamento — Aparentemente Zeus não foi pra reunião de hoje, Hórus veio perguntar se eu sabia algo, mas achei que Tefnut teria mais chance de descobrir algo.

— Bem, de toda forma, certeza que vocês conseguem cuidar disso. Vou falar com Anput sobre a ida até o submundo hitita enquanto a primeira alma não chega.

Osíris e Anput conversaram, em vozes baixas, sobre os detalhes da visita de Anput para o deus Lelwani, enquanto Anúbis e Seshat conversavam sobre os julgamentos que se viriam. Anput saiu do Salão do Julgamento segundos depois de Anúbis bater na porta falsa mágica duas vezes e, ao falar com Tawaret, pedir para ela mandar a primeira alma. A deusa hipopótamo pegou um longo papiro, checou o primeiro nome e repetiu-o para Néftis, que estava mais perto da criança em questão.

Os julgamentos assim começaram e dificilmente teriam hora para acabar. Enquanto alma por alma, Anúbis diminuía a multidão à espera no Salão do Julgamento, apesar de muitas almas impacientes reclamarem que queriam, tinham, ser as próximas, Anput chegava no submundo hitita.

Dankuš daganzipaš, a Terra Negra, era o submundo hitita. Anput, já dentro do submundo, parou diante de uma enorme porta de madeira com o dobro da sua altura. A porta parecia flutuar sozinha no meio do nada no meio da total escuridão, sem nenhuma construção da qual fazia parte.

Anput bateu na porta levemente e esperou alguns segundos. Não conseguia ouvir som algum vindo da porta, mas logo a porta se abriu revelando que, apesar de ser uma porta solitária flutuando na escuridão da Terra Negra, ela de fato levava a algum lugar. No caso, a porta levava para o que parecia uma sala de estar luxuosa, com uma lareira, tapetes luxuosos com padrões geométricos vibrantes, almofadas e várias ânforas num canto. Quem abriu a porta, foi uma mulher de pele branca, sobrancelhas grossas, olhos e cabelos castanhos, um nariz bem reto e com um longo vestido negro bem solto e de manga comprida com cintura presa por uma faixa branca de pano e que Anput nunca tinha visto.

— Anput! A quanto tempo. — disse a mulher, levemente surpresa em acádio.

— Ahm… — resmungou Anput confusa, no mesmo idioma — Eu… não…

— Ah… desculpa… — disse a mulher suspirando e então fechando os olhos com bastante concentração.

Diante dos seus olhos, Anput viu a mulher se transformar em um homem, com as mesmas características, mas acrescidas de uma barba volumosa, que ela identificou como sendo Lelwani.

— Desculpe a confusão. — disse Lelwani — Os mortais recentemente decidiram que eu sou mulher… sabe como é…

— Oh… — disse Anput sem saber o que responder, mas não achando nada tão absurdo assim.

— Mas, entre… — disse Lelwani abrindo espaço para Anput e estendendo o braço para o interior do cômodo — Não vejo você e Anúbis desde… uns 95 anos, creio eu?

— Creio que sim. — respondeu Anput educadamente entrando no cantinho de descanso de Lelwani no submundo e se sobressaltando ao ver Ereshkigal sentada nos tapetes de Lelwani degustando um bom vinho.

— Estava conversando com Ereshkigal. — respondeu Lelwani fechando a porta e caminhando até Anput novamente, colocando na mão dela uma taça de vinho, que surgiu magicamente, enquanto Lelwani voltava a forma de mulher.

A Suméria podia até ter caído, mas com os assírios a considerando uma deusa também, o tempo de vida de Ereshkigal havia ganhado uma extensão, de duração incerta, que certamente a deusa gostava. O território assírio podia não ser, ainda, tão incrível quanto o sumério, mas era muito familiar, pois também era centralizado ao redor do tio Tigre… apesar do Eufrates ainda estar fora de alcance.

— Nos reunimos esporadicamente. — justificou Ereshkigal — Gostamos de reclamar dos mitanni nos atrapalhando no meio do caminho entre os dois povos. Imagino que é uma reclamação que entendem, considerando que compartilham uma fronteira com eles agora praticamente no Eufrates, quase pegando a cidade de Aleppo para si.

— Ah, sim… — disse Anput — Mas a situação já foi pior antes.

— Ah os casamentos reais. — disse Lelwani sentando-se ao lado de Ereshkigal e dando leves tapinhas no tapete chamando Anput para sentar-se com elas, o que Anput fez — Me pergunto quanto tempo vai durar isso de Egito, Mitanni, Assíria e Hatti fingindo que se aturam. Ainda mais com a fronteira egípcia com mitanni estando tão perto de Aleppo. Se vocês não resolverem os mitanni ali no meio nos irritando, nós com certeza vamos.

— Lelwani… — disse Ereshkigal, séria como sempre — Tenho certeza que Anput não veio aqui para falar disso.

— Ah, sim, claro. — concordou Lelwani depois de dar um longo gole na própria taça de vinho — Algum problema está acontecendo?

— Por acaso já falou com Hades? O deus micênico novo do submundo. — perguntou Anput dando um pequeno gole do vinho logo em seguida.

— Ah sim. — confirmou Lelwani — Ele está perguntando para todo mundo se ele pode ver o submundo de cada.

— Perguntou para mim também. Mas ainda não me decidi. — declarou Ereshkigal.

— O coitado está numa situação complicada. — comentou Lelwani — Os mortais micênicos mal sabem que ele existe. Senti que é por isso que ele está tão determinado a organizar o submundo. Fiquei um pouco preocupada quando os micênicos pegaram algumas das ilhas não muito longe de Hatti mas… ele particularmente não me pareceu estar com segundas intenções além de realmente organizar o submundo.

— Acha que eles vão tentar avançar o território na direção das terras hititas? — perguntou Anput.

— Não… — respondeu Lelwani — Eles seriam loucos se resolvessem se envolver demais nesse extremo do mar mediterrâneo. Sabe bem como as brigas dos mortais por terra por aqui podem ser complicadas.

— Os sumérios que o digam… — comentou Ereshkigal suspirando.

— É uma região com povos muito antigos e mais experientes que os micênicos, que são meros bebês. — disse Lelwani, fazendo pouco caso com um gesto de mão — Eles deveriam seguir para oeste ou norte… aquele pessoal pra esses lados que fica fazendo círculos com pedras altas seriam um páreo melhor para o nível deles.

— Eles estão longe demais, Lel… — lembrou Ereshkigal.

— Ah, eu ouvi falar! — exclamou Anput empolgada — Dizem que alguns desses círculos são velhos como as pirâmides.

— Mas não espere muito. — disse Ereshkigal — Sem querer inflar o ego egípcio, não dá para comparar a dificuldade das duas construções.

— Não são tão incríveis assim nos avanços, pelo o que sei… — comentou Lelwani aos sussurros — Extremamente desinteressante. São só algumas poucas pedras altas, erguidas em formato de círculo mesmo. No máximo ouvi dizer que umas ficam com um alinhamento interessante nos solstícios. Nada que vocês já não tenham feito várias vezes, em maneiras bem mais criativas, nos mais diversos templos por todo o Egito.

— Bem primitivo… — acrescentou Ereshkigal — Bebês aprendendo a engatinhar, é isso que os povos do norte do Mediterrâneo são comparados a Suméria e ao Egito.

— Você é assíria agora. — lembrou Lelwani.

— Detalhes. — respondeu Ereshkigal voltando a beber de seu vinho.

— O que Hades quis ver quando visitou a Dankuš daganzipaš? — perguntou Anput.

— Perguntou como as coisas são organizadas. — respondeu Lelwani — Onde e como punimos quem merecia ser punido, o que fazemos com quem não merece ser punido, se existe um meio termo… Se temos alguma magia ou alguém para impedir fugas…

— Espero que não tenha mostrado demais. — comentou Ereshkigal.

— Eu mostrei a ele apenas o que me pareceu seguro. — respondeu Lelwani — E avisei que não importa quantos submundos ele visse, não adiantava copiar o sistema de algum submundo no micênico. Ele tem que refletir a cultura do povo de alguma forma.

— Claro, importante. — concordou Anput — Não combinaria no Egito, por exemplo, se o Duat se chamasse Terra Negra, como aqui.

— Bom exemplo! — disse Lelwani — Afinal “terra negra” já é como chamam as margens do Nilo e o próprio império. É a tradução literal de Kemet, não é? “Terra Negra” é dramático o suficiente para os hititas, mas para os egípcios seria estranho.

— Sim. — confirmou Anput — Não faria sentido o mundo dos mortos ter o mesmo nome das terras que fazem as comidas que trazem vida para o povo.

— Basicamente, Hades parece bem perdido e desesperado, ao que me parece. — opinou Ereshkigal.

— Acho que ao menos um pouco. — confirmou Lelwani parando para pensar um pouco — Mas não me parece mal intencionado. Ao menos não no momento. Mas temos que ficar de olho mesmo assim. Nada de mostrar as magias secretas que toda civilização tem.

— Não mesmo! — exclamou Anput horrorizada.

— Isso já era óbvio, Lel. — zombou Ereshkigal.

— Sabe algo mais sobre ele? — perguntou Anput — No geral mesmo.

— É difícil encontrar, imagino que já tenham percebido… — reclamou Lelwani suspirando — Mas sei que ele é o filho mais velho de Cronos e Réia, embora isso também tenha feito dele o último filho a ser regurgitado por seu pai. Nojento… E estranho que parece que eles usam a ordem que saíram da barriga do pai para definir quem é mais velho… então Hades ficaria assim como o mais novo de todos esses irmãos filhos de Cronos e Réia.

— Três anos atrás casou com a sobrinha. — acrescentou Ereshkigal — Uma deusa chamada Perséfone, filha de Zeus e Deméter. Os mortais chamam ela de Preswa. Ela também está com problemas de não acreditarem nela direito.

— Os micênicos estão com muitos problemas então. — disse Atena — Já são dois deuses que os mortais não estão acreditando muito.

— Verdade. Mas me pergunto se isso é tão ruim quanto o líder de uma civilização inteira decidir que não quer acreditar mais nos deuses desta. — respondeu Ereshkigal olhando intensamente para Anput.

Imediatamente, Anput ficou tensa e sentiu o olhar das duas deusas sobre si. Elas sabiam. Ereshkigal e Lelwani sabiam que Akhenaton era um faraó herege que estava adorando um deus novo. Disfarçadamente, Anput respirou fundo e tentou se manter impassível, como se a comparação de Ereshkigal não significasse nada.

— Não saberia dizer. — respondeu Anput — Nunca vi nada do tipo acontecer.

— Deve ser algo bem perigoso, não? — perguntou Ereshkigal — Especialmente com os líderes políticos sendo também os líderes religiosos, o intermediário divino entre os deuses e o povo.

— Provavelmente. — respondeu Anput querendo fugir dali e, por isso, se erguendo — Mas… desculpe atrapalhar a conversa, garotas, mas tenho que ir. A intensão era ser rápida mesmo. Afinal tenho que ajudar o Anúbis a julgar as almas dos mortos, sabe? Sabem como pode ser estressante.

— Com certeza. — confirmou Lelwani a olhando séria e analítica.

— Obrigada pelas informações. — disse Anput para Lelwani, que simplesmente levou a taça de vinho até os lábios, com o rosto sério, enquanto Anput saía o mais naturalmente que conseguia.

Preocupada e com o coração a mil, Anput deixou o local de descanso de Lelwani e então Dankuš daganzipaš para trás, e foi o mais rápido possível de volta para o Salão do Julgamento. Quando chegou, esperava encontrar algum julgamento acontecendo, mas ao invés disso, encontrou tudo parado mais uma vez, com boa parte dos deuses reunidos ao redor de Thoth, que parecia cansado e meio assustado, mas bem.

Anput suspirou, aliviada, ao ver Thoth de volta, mas foi direto para Hórus. Ela parecia tão obviamente aflita, o que Anúbis e Osíris notaram. Assim, eles também foram até Hórus, para entender o que estava acontecendo enquanto os demais continuavam a receber Thoth.

— Aconteceu algo com Lelwani? — perguntou Anúbis.

— Elas sabem. Lelwani e Ereshkigal. — disse Anput — Elas sabem.

— “Elas”? — perguntou Hórus, claramente perdido.

— Lelwani é mulher agora, mas isso não é importante. — disse Anput — Lelwani e Ereshkigal sabem que Akhenaton está adorando um deus diferente.

— Anput, explique tudo o que foi dito lá, por favor. — pediu Osíris — E com calma.

Em alguns poucos minutos, Anput explicou tudo o que havia acontecido entre ela, Lelwani e Ereshkigal. Osíris, Hórus e Anúbis ouviram o relato dela atentamente, sem interromper em nenhum momento, enquanto os demais mal notavam as preocupações que surgiam ali. Depois da explicação, Osíris perguntou alguns detalhes mais e Hórus foi imediatamente até Thoth, infelizmente atrapalhando as boas vindas de volta do deus.

— Voltou em boa hora. Temos um problema. — disse Hórus — Desculpa jogar essa informação assim repentinamente, sei que gostaria muito de descansar. Os deuses de fora do Egito já estão sabendo da situação com Akhenaton.

— O que eu perdi? — perguntou Thoth surpreso e imediatamente preocupado.

Novamente, Anput repetiu sua história. Dessa vez, todos os deuses presentes ouviram. Hórus aproveitou a oportunidade para atualizar Thoth da profecia de Nekhbet, que aparentemente se referia a outro semi-deus, e não a Hatshepsut. Preocupado e ansioso, Thoth inspirou profundamente e expirou logo em seguida, aparentemente tentando se tranquilizar enquanto tentava pensar.

— Nesse tempo que estive fora, tiveram alguma ideia de como lidar com Akhenaton? — perguntou Thoth juntando mais informações sobre a situação.

— Pensamos em amaldiçoar toda a linhagem dele. — falou Hórus.

— “Toda”?! — repetiu Thoth surpreso.

— Toda. — confirmou Hórus.

— Não é uma magia fácil. — alertou Thoth.

— Sei disso. — confirmou Hórus.

— Me dê uns dias para pensar. — pediu Thoth — Então veremos a opinião dos outros. Precisaremos de todos mesmo para fazer isso.

— Não demore muito, por favor. — pediu Hórus.

— Vou demorar o que achar seguro e necessário. — disse Thoth — Isso é claramente uma decisão importante demais.

— Bem… — disse Osíris suspirando — Acho que só nos resta continuar os julgamentos enquanto Thoth e Hórus se decidem sobre o que fazer.

Notas finais
*************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Hititas - Território equivalente atualmente a uma parte no centro da Turquia Mitanni - Partes do sul da Turquia e norte do Iraque, mas principalmente a Síria Assírios - Apesar do nome, no momento da história compreende uma parte no norte do Iraque O território do Egito, para lembrete, no momento da história, está compreendendo o Egito atual, o norte do Sudão, Israel, Palestina, Líbano, um pedacinho da Síria e quase nada do oeste da Jordânia. se tiverem interesse em verem os mapas, só abrir esse site e escrever pra abrir o ano de “-1352” http://geacron.com/home-en/ **** REFERÊNCIAS **** Hino à Aten - https://uh.edu/honors/human-situation/survival-kit/study-aids/Hymn%20to%20the%20Aten.pdf Lelwani - https://en.wikipedia.org/wiki/Lelwani Terra Negra - https://retrospectjournal.com/2021/11/08/the-dark-earth-hittite-influences-on-sapphic-poetry/ Casas Hititas - https://www.journalagent.com/itujfa/pdfs/ITUJFA-39974-DOSSIER_ARTICLES-KUCUK.pdf Roupas hititas - https://www.google.com/imgres?imgurl=https%3A%2F%2Fimage.shutterstock.com%2Fz%2Fstock-photo-traditional-hittite-s-dress-corum-turkey-1096968347.jpg&imgrefurl=https%3A%2F%2Fwww.shutterstock.com%2Fimage-photo%2Ftraditional-hittites-dress-1009-corumturkey-1096968347&tbnid=ZN2NI016noQ7AM&vet=12ahUKEwik3_qaiaT4AhV6MrkGHdPOCykQMygBegUIARC4AQ..i&docid=N739JdUU8L7uMM&w=1500&h=1434&q=hittite%20clothes&ved=2ahUKEwik3_qaiaT4AhV6MrkGHdPOCykQMygBegUIARC4AQ