A Morte Das Areias do Saara
103 Indícios do Futuro Brilhante
Notas iniciais
..... para escalar a janela da torre. Ora, aconteceu muitos dias depois disso ... ele lhes disse: "Saíis; chamarei alguma divindade. Irei para escalar entre vós."
Eles iam escalar, de acordo com seu costume de todos os dias.
O jovem ficou de longe olhando.
A serva da filha do príncipe da Mesopotâmia estava sobre a torre.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Um silêncio leve havia se instalado no cômodo onde Hatshepsut e Senenmut estavam enquanto ele folheava os papiros, marcados pela viagem longa ou breve de alguns até o palácio real, com os mais variados pedidos de reformas de templos. O povo construir suas casas era uma coisa, já que eram principalmente feitas de tijolo de barro, mas os templos, pirâmides e tumbas eram um serviço mais complicado. A logística de corte e transporte de enormes pedras não era fácil. Além disso, serviços tão perto do divino também deveriam ser feitos sob o olhar do faraó.
Não só reformas seriam necessárias, e até encorajadas, eventualmente, de milênios em milênios, se tornaria necessário retirar a areia de algumas construções, como a Esfinge, que eram ameaçadas pelo deserto que parecia tentar engolir a mata verde e a lama negra que se estendiam por alguns quilômetros além do Nilo. Os faraós tinham que agradar aos deuses e isso era feito construindo templos cada vez maiores e incríveis ou espalhados por todo o império. Mas, considerando o estrago causado pelas guerras que o próprio pai de Hatshepsut tinha conseguido levar para longe do interior do império, a quantidade de templos precisando de reforma era grande e não tinham como fazer todos ao mesmo tempo.
— Não podemos fazer todos ao mesmo tempo… — disse eventualmente Senenmut — Seria bom escolher alguns para começar e aproveitar que não estamos na época nem de plantio nem de colheita.
— Sei disso. — declarou Hatshepsut.
— Quais seriam do interesse de Vossa Majestade que sejam os primeiros? — perguntou ele — E o mais importante também para que eu possa ver como está e quanto de trabalho será necessário.
— Qual acha que seria mais lógico fazer primeiro? — questionou ela se remexendo desconfortavelmente com a mão sobre a enorme barriga.
O desconforto que tomava conta de Hatshepsut começava a parecer como se estivesse com o desconforto de um dia de menstruação com cólica. Então não era exatamente assim grande novidade. Afinal, quando não estava grávida sentia cólica sempre uma vez por mês. Mas também era um pouco diferente, pois depois de algum tempo sumia sem que ela precisasse fazer nada, um luxo que não acontecia nos dias de menstruação.
— Eu?! — exclamou ele surpreso por um segundo mas, quando ela apenas afirmou com a cabeça o analisando minuciosamente, ele logo voltou os olhos para a papelada em sua mão — Algum templo em Tebas ou perto daqui seria mais fácil de lidar já que já estamos trazendo os materiais da pedreira para ampliar o Templo de Karnak. Ou, se preferir escolher algo longe de Tebas para que todas as partes do império se sintam lembradas… os templos de Zawty estão bem cercados de pedreiras de calcário. O transporte de materiais não seria muito custoso e não é tão longe de Tebas a ponto de eu levar muito tempo para ver qual o estado e planejar a reforma.
Hatshepsut estava de fato prestando muita atenção nas palavras ditas por Senenmut, pois aproveitava a oportunidade para avaliar o conhecimento do arquiteto. No pouco que ele disse, ela já havia ficado feliz, pois também havia pensado em fazer algo em Tebas também e se preocupado em outras partes se sentirem excluídas por isso. Contudo, ela não tinha em mãos a informação de onde todas as pedreiras ficavam para que pudesse pensar no segundo melhor lugar para uma reforma.
As palavras de Senenmut enchiam os ouvidos da rainha e abriram uma brecha para ela notar mais o dono das palavras. Jovem, provavelmente no máximo 3 anos mais velho que ela. As linhas do rosto bem definidas numa pele de um tom mediano de argila e o cabelo negro raspado, tal como quase todos os homens. Mas, apesar do conhecimento que via por trás das palavras de Senenmut, a menção de uma cidade trouxe uma lembrança à ela. Antiga e breve, como uma fraca brisa num dia quente de verão, a lembrança veio agarrada ao nome da cidade de Zawty proferido pela voz de algum antigo tutor da época de infância.
— Zawty… — repetiu Hatshepsut atraindo a atenção do olhar de Senenmut que mudou dos papiros, para ela — É o maior centro de adoração à Anúbis, certo?
— Sim. Ouvi falar que sim. — confirmou o arquiteto — Tem algumas tumbas de cachorros e chacais por lá e outras oferendas ao deus. Pensa em fazer um templo para ele? Não é muito comum.
— Não tenho certeza… Ele não parece ser do tipo que gosta de algo muito espalhafatoso. — resmungou ela.
Ele olhou para ela por alguns segundos um tanto confuso. Se havia alguma coisa que parecia que todos os deuses gostavam, era de templos grandes e espalhafatosos. Até porque se havia alguma coisa que parecia que os egípcios não sabiam fazer, era obras pequenas. No entanto, Senenmut achou melhor não falar o que pensava das palavras ditas em voz baixa pela rainha.
— Bem… voltando às reformas. E se começarmos pelo Templo de Mut? — perguntou Hatshepsut — É bem ao lado de Karnak e está destruído desde a batalha de meu pai contra os Hicsos.
— Podemos convocar mais alguns homens para cortar e transportar uma quantidade maior de pedras até lá. Podemos aproveitar o esforço já empregado em Karnak consideravelmente e, como ainda não está na época do plantio, já que não faz tanto tempo que o Nilo inundou, será fácil achar mão de obra. — explicava Senenmut — Eu posso ir até lá hoje ou no mais tardar amanhã para avaliar a estrutura do templo e então considerar o número de pessoas e a quantidade de pagamento necessária.
— Acha que conseguimos começar as obras em algum dos templos de Zawty antes da época de plantio chegar? — perguntou Hatshepsut.
— Só terei como lhe responder isso depois de avaliar bem como está a situação no Templo de Mut, Majestade. Tentarei lhe informar o mais rápido possível mas… pretende fazer uma reforma ou uma nova construção em Zawty.
— Uma reforma. — decidiu Hatshepsut — Apesar da ideia de fazer um templo também me interessar. Mas não é o momento ideal. Aliás, Senenmut, já parou para pensar sobre como falta criatividade nos templos?
— Acho os templos incrivelmente bonitos, Majestade. — respondeu ele — Mas… creio que se refere ao fato de terem muitas semelhanças entre si. Tirando as pinturas e escritas, as colunas são muito parecidas, os portais também. Um outro tem algum fator que os tornam mais diferentes.
— Sim! — respondeu ela satisfeita por ele ter entendido rápido — Eles, no geral, têm alguns padrões constantes mesmo entre suas diferenças.
— Se me permite… Admito que, quando mais jovem, eu olhava para o grande Templo de Karnak, e me imaginava fazendo algo novo, talvez até não tão magnífico quanto, pois seria algo difícil de alcançar, mas de uma beleza tão notável e única quanto. — admitiu ele.
— Quem sabe? — disse Hatshepsut sorrindo e logo levantando-se com um pouco de dificuldade e correndo o olhar demoradamente pelo rosto angular e inteligente do arquiteto — Mas deixe isso entre nós… Não irei tomar mais de seu tempo, tem muito o que fazer afinal de contas. Me mantenha informada sobre as reformas.
Entendo na frase o pedido para que ele fosse embora, Senenmut levou a mão ao coração e, dando um leve cumprimento com a cabeça à rainha, foi embora com a mente se ocupando de várias coisas. Senenmut forçava sua mente a pensar na logística das reformas que teria que fazer, mas a mente insistia em repassar aquela conversa com a rainha. Sua mente repassava a forma bela que o sorriso dela brilhou quando pareceu que gostava do que ouvia, como tinha comentários, e um olhar, extremamente inteligentes, e o jeito que o linho branco caía sobre o corpo cheio de curvas, curvas essa que incluíam a enorme barriga que carregava o filho de ninguém menos do que o faraó. Um fato que motivava em muito Senenmut à focar nas reformas e em nada mais.
Hatshepsut, por outro lado, seguiu Senenmut partir com o olhar e, embora tenha dado uma última corrida com os olhos pelo homem, seu pensamento já estava em outro lugar. Tinha coisas importantes a fazer e a descobrir e a ausência do irmão era muito oportuna. Queria se livrar logo disso e jogar-se em alguma cama ou sofá confortável pois a base de sua coluna estava lhe matando.
Foi um tanto incomodada fisicamente que ela colocou a mão embaixo da barriga e andou para a elegante mesa que havia no cômodo. Sinceramente, não aguentava mais aquela gravidez. Suas costas e pés doíam de um jeito tão irritante em momentos tão inoportunos, que frequentemente tinha vontade de não fazer absolutamente nada. Mas não tinha esse luxo. Todo o povo do Egito dependia de si… bem, e do irmão… mas ela não confiava em Tutmósis II para fazer tudo sozinho.
Ela debruçou-se sobre a mesa sem sentar-se na cadeira na esperança de que a posição, curvando-se sobre a mesa com a coluna ereta, funcionasse como algum alongamento para tirar-lhe o desconforto da coluna que era totalmente diferente da cólica que lhe incomodou no meio da conversa com Senenmut. Pareceu ter funcionado um pouco. Assim, evitando mudar demais a posição da coluna, ela esticou as mãos para agarrar tudo que precisava sobre a mesa. Pegou um pedaço de papiro, um pincel, e preparou a tinta preta. Com tudo em mãos, ela fitou um pouco o papiro em branco e logo começou a escrever pausadamente, pois cada palavra e frase tinha que ser impecável.
Ela parou no meio da escrita ao sentir que a cólica chata havia voltado. A rainha abaixou o pincel para que nenhuma gota de tinta caísse no importante documento e respirou fundo esperando a cólica passar. Pelo menos não era tão forte, pensou ela. Quando sentiu-se melhor, ela voltou a escrever a carta como se nada tivesse acontecido.
Sabia que havia riscos no que fazia, mas precisava testar sua teoria de algum jeito mais concreto. Sendo seu irmão o faraó, todas as cartas, como aquela, iam com o nome dele assinado, mesmo que muitas delas ela tivesse escrito. Preferencialmente queria falar as palavras que escrevia presencialmente ao destinatário mas, incapaz de viajar no momento, esperava que o papiro lhe trouxesse as respostas das suspeitas que tinha.
Terminando de escrever as palavras, ela sentiu um breve arrepio correr pelo seu corpo quando assinou o papiro com o próprio nome. Um sorriso apareceu por sua face mas, como precisava esperar a tinta secar de qualquer jeito, ela ficou ali debruçada na mesa na mesma posição por mais alguns minutos.
Depois de um tempo, sentindo-se melhor e ansiosa por se enrolar na cama ou talvez algum balde de água quente nas costas, ela checou delicadamente com a ponta do dedo se a tinta do papiro havia secado. Satisfeita, ela enrolou o papiro até que formasse um pequeno rolo e prendeu-o naquela posição amarrando uma pequena fita vermelha. Orgulhosamente segurando o rolo nas mãos, ela deixou a sala para trás para que pudesse entregar o papiro para o responsável por organizar o envio ao destinatário.
Contudo, a volta da cólica fez ela parar no meio do caminho. Se tivesse sido como as outras, ela teria simplesmente continuado a andar mas, aquela havia sido mais forte. Forte o suficiente para ela repentinamente se encolher colocando a mão embaixo da barriga. Foi ali que ela notou que talvez a sensação era por um motivo totalmente diferente do que as cólicas e dores que havia sentido nos últimos dias, meros alarmes falsos. Aquilo podia ser outro alarme falso, já tivera um assim forte mas uma parte dela achava que não.
Com o papiro numa mão e a barriga na outra, a rainha se apoiou contra a parede e fechou os olhos brevemente antes de juntar fôlego e gritar:
— GUARDAS!
Imediatamente ela ouviu passos apressados encherem os corredores quando dois homens armados surgiram e olharam chocados para a rainha que, pela posição, já dava pistas o suficiente do que estava acontecendo apesar de sentir a dor mais uma vez diminuir.
— Você. — disse ela apontando para o primeiro guarda com o papiro na mão — Faça com que isso seja enviado para os líderes da Núbia com a maior segurança possível. É uma ordem.
O guarda pegou o papiro um tanto assustado e receoso lançando um olhar para o outro que não passou despercebido por Hatshepsut.
— Agora! Ande! Vou ficar bem! — insistiu ela e o guarda saiu correndo deixando apenas o colega, para o qual a rainha falou — E você, vá atrás de minha parteira e de meu irmão.
— E… deixá-la sozinha, Majestade? — perguntou o homem.
— É! — insistiu ela já sem muita paciência já preocupada com quando viria a próxima cólica, ou melhor, contração — Vá! Não vou morrer. Vou ficar aqui e quem sabe alguém passe pelo corredor.
O homem saiu correndo deixando a rainha sozinha para trás. Ela respirou fundo e silenciosamente rezou para Tawaret pedindo que o bebê esperasse a parteira chegar antes de começar o show. Alheios à preocupações com partos eminentes, na parcial escuridão de uma caverna à nível do mar no que um dia viria a ser a capital do Líbano, Anúbis e Anput aproveitavam o estranho conforto dali para terem uma conversa séria.
Curiosa com que rumos a conversa teria, Anput olhava para Anúbis curiosa mas com um aperto no coração. Não sabia sobre o que ele queria falar mas, dadas as conversas sérias e discussões dos últimos meses, como a com Qebui e a entre apenas os dois na sala das múmias, a expectativa de uma nova conversa séria já deixava ela preocupada novamente.
— Sobre o que quer falar? — perguntou Anput.
— Estou me perguntando, já tem um bom tempo, se está mesmo feliz e satisfeita ou se prefere não contar algo para que eu não fique pensando demais…. — admitiu ele — Fico lembrando de quando falei de não poder viajar com você para os lugares e então você rebateu com “Porquê não somos tão grandes ou importantes quanto vocês”?
— Ah, isso… — respondeu ela suspirando e abaixando o olhar para a água, notando um pequeno peixe a nadar perto dos dois.
O silêncio voltou mais uma vez enquanto Anúbis tentava encontrar as palavras certas e Anput acompanhava o pequeno peixe com o olhar esperando as palavras que viriam.
— Você… ainda pensa essas coisas? — perguntou ele — Sente-se inferior como parece se sentir com essa frase?
— Às vezes, um pouco, não sei… — admitiu Anput juntando as mãos em uma concha tentando pegar o pequeno peixe na água.
— Imagino que de pouco adiante eu falar que você é incrível e muito importante… — disse ele.
— Ajuda um pouco. — respondeu ela com um pequeno sorriso enquanto o peixe escapava de suas mãos para longe dali — Eu sei que você não acha que sou inferior mas, é difícil não pensar nessas coisas quando fico rodeada de deuses super fortes, necessários e importantes quase todos os dias. É meio como Qebui falou apesar do jeito que ele ter tido ter sido bem bem bem ruim e eu também não concordar com tudo. Admito que eu tento não pensar nisso, é mais fácil quando vejo a satisfação das pessoas quando estou cuidando dos Nomos mas… lá no Salão do Julgamento é bem mais difícil. E… é mais confortável ficar com a Seshat e os demais. Mas sério… já disse, eu estou feliz com ter que cuidar do Nomo e poder viajar. Mas, lá no fundo esse incômodo às vezes aparece, mas tento não escutar.
— Prefere que conversemos com Hórus para te dar mais algum Nomo talvez? — perguntou Anúbis — Já fazem séculos que separamos os Nomos mesmo.
— Não… tudo bem. — disse Anput olhando para ele — Assim eu posso dar o máximo de atenção pro povo. Você fica com o Nomo de Atef-Khent como sempre, afinal Zawty fica lá. Eu fico com o meu e Hórus continua fingindo que não sabe que sou eu quem cuida de lá.
— Tem certeza? — perguntou ele — Qualquer coisa eu vou atrás do Hórus ou até de Amon-Rá já que apesar de tudo Hórus obedece ele.
— Até Amon-Rá?! — exclamou Anput caindo na gargalhada — Hórus ia ficar irado com você se chegasse até esse ponto.
— Ele é mais fácil de convencer do que Hórus.
— Inclusive, ele ainda está meio estranho, não acha? — perguntou ela.
— Ele parecia bem normal quando fui falar com ele ano passado.
— Hum… deve ser impressão minha então.
— Mas… certeza que vai ficar bem mesmo? — perguntou ele olhando para ela e, diante da pergunta, ela sentou-se bem perto dele e puxou seu braço para ao redor de si.
— Relaxa… — disse ela dando um beijo em sua bochecha — Eu estou lidando com às vezes me sentir inferior, você está lidando com às vezes se isolar mas também não gostar de ficar sozinho e assim vamos indo. Juntos. Afinal não somos tão perfeitos como alguns como Sobek gostam de pensar somos só porque somos deuses e imortais. Vai dar tudo certo e… quem sabe? Alguma hora eu decido que a vida tá muito repetitiva e decido que uma novidade tipo um bebê seria legal.
— Não me dê falsas esperanças antes da hora. — pediu Anúbis fazendo Anput rir.
— Da próxima vez que eu tocar no assunto vai ser pra valer. — prometeu ela — Por enquanto, vamos voltar. Já fugimos por tempo demais dos nossos afazeres. Depois pedirei para Seshat nos mostrar onde é a caverna bonita que mencionou. Porque esse passeio de hoje foi meio um fiasco. Vamos aproveitar nosso tempo livre em um lugar que vale a pena.
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