A Morte Das Areias do Saara

52 Divergências no submundo


Notas iniciais
olaaaaa!! cheguei com o capítulo novo! espero que gostem ♥ esse tá grandinho

E então ouvi a voz de uma tempestade ou a voz faminta da tempestade furiosa. O que se movia rapidamente, se aproximando apressadamente, aterrissando bem diante de mim. Eu pensei que era uma onda do mar ou pessoas se refugiando nas ondas da foz do canal. Árvores quebraram e a terra tremeu. O que é isso na água? Enfrentando a divisão das rebentações, agachei-me, pois estava chegando e se aproximando rapidamente. Eu cobri meu rosto; nós somos encontrados.

~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”

Sentados tranquilamente em um dos sofás que se encostavam na parede feita de tijolos de barro, Anúbis e Anput relaxavam depois de um longo e demorado processo de falar com cada um das dezenas de deuses. De pé perto deles e de braços cruzados, estava Ereshkigal encarando a festa com olhos entediados.

Os olhos entediados de Ereshkigal não eram inteiramente sem motivo. Apesar de uma lira arcaica e demais instrumentos ajudaram a compor o ambiente da festa, as festas egípcias eram sem dúvida mais animadas. Gula e seu marido Ninurta conversavam com outros deuses e soltavam risadas perto de onde Nergal, o deus com o qual Ninurta estava lutando quando Anúbis e Anput haviam chegado, ficava escorado contra a parede encarando Ereshkigal com uma expressão difícil de ler.

— Acho que para mim chega. — dizia a deusa suméria — Dei as boas vindas em um ambiente menos hostil. Acho que está de bom tamanho.

— Voltará para o Kur então? — perguntou Anúbis.

— Sim. — disse Ereshkigal — Não tenho pretensão de ficar aqui por muito tempo. Sem falar que bem sei que muitos aqui não gostam de minha presença.

— Oh, deixe de ser dramática, irmã. — disse Inanna se aproximando com dois copos de cerveja na mão e então estendendo um deles para Ereshkigal — Fique mais um pouco. Já passa tanto tempo naquele lugar deprimente.

Soltando uma leve bufada e olhando para a irmã de cima à baixo, Ereshkigal resolveu abrir uma pequena exceção ao menos por alguns minutos mais. Por isso, pegou o corpo de argila mas não levou-o a boca ainda. Com um pequeno sorriso, Anput se botava em uma posição mais confortável deitando a cabeça no ombro de Anúbis e então levando uma suculenta amora até a boca.

— Também não gosta de festas, Ereshkigal? — perguntou Anput.

— Não. Você também não? — perguntou Ereshkigal.

— Não não. Eu adoro. — disse Anput cutucando Anúbis na barriga — É uma certa pessoa aqui do meu lado que não gosta.

— Não é que eu não gosto de festa… — disse Anúbis tentando se defender enquanto se encolhia das cutucadas de Anput — Seria muito bom se eu pudesse simplesmente ficar aqui sentado ou com você. O problema é que aqui a gente é obrigado a falar com todo mundo. Lá no Egito eu posso simplesmente ignorar todo mundo sem dar problema.

A breve fala de Anúbis fez Ereshkigal soltar uma risada que veio até como uma surpresa para Inanna. Assim, o sorriso que apareceu no rosto de Inanna era mais devido à risada de Ereshkigal do que à fala de Anúbis.

— Acho que posso me identificar com isso. — disse Ereshkigal.

Apenas por mais alguns poucos minutos os quatro ficaram conversando, pois logo Ereshkigal se cansou de estar no lugar e foi embora. Antes de ir, no entanto, Ereshkigal acertou os detalhes da visita de Anúbis e Anput ao Kur que iria se iniciar nas Montanhas Zagros, a cordilheira onde ficava a entrada principal do submundo sumério e onde era marcado os limites do território sumério à leste.

Com a ida de Ereshkigal, o assunto entre Anúbis, Anput e Inanna trocou para a breve cena que viram, o deus Haya, cortejando Seshat que tentava educadamente recusar. Seshat abria um sorriso sem graça por educação enquanto tentava se desviar das cantadas do deus.

— Olha a cara que a Nisaba tá olhando para o Haya. — sussurrou Anput olhando para a deusa da escrita e do aprendizado.

— Não duvidaria nada se ela desse um tapa nele no final da festa. — disse Anúbis.

— Isso se ela aguentar esperar até o final. — disse Inanna — Mas, mudando de assunto, Djoser não tem medo de mandar Imhotep para tão longe? Ele passa uma clara impressão de ser muito importante para o Egito. Principalmente por causa da construção da tumba de Djoser.

— Acho que foi um pouco por isso que viemos. — disse Anput.

— Como está a construção com ele por aqui? — perguntou Inanna.

— Na verdade está de certa forma parada. — respondeu Anúbis — Tipicamente as construções grandes assim só acontecem quando o povo não tem que trabalhar nas plantações.

— Interessante… — disse Inanna — Não usam os escravos nas construções então?

— Só para cortar as pedras. — respondeu Anput logo dando um gole em seu copo.

— Me pergunto se Gilgamesh irá falar com Imhotep sobre as construções. — ponderou Inanna — Ele está querendo fazer algo em Uruk para chamar mais atenção do que a cidade de Ur. Nenhuma possibilidade de vocês ensinarem quais as técnicas usadas na construção e para cortar as pedras?

— Nenhuma. — respondeu Anput soltando uma leve risada.

Inanna soltou um suspiro mas deu de ombros mesmo assim exibindo um sorriso gentil no rosto enquanto Anúbis, já não muito interessado no rumo da conversa, deixou seu olhar procurar por algo mais interessante. Dentre os tapetes ricamente detalhados no chão e os vasos de cerâmica graciosamente pintada enfeitando o ambiente, achou mais interessante se perder alguns segundos nos padrões do tapete. Até porque, lembrava bem de Ptah e Khnum mencionando como os sumérios parecem ter copiado a cerâmica egípcia. Então, era difícil mostrar algum interesse a mais nela.

— Tudo bem. — disse Inanna dando de ombros — De toda forma, não temos tantas pedras para construções por essa região como vocês tem por lá.

Os três também não ficaram mais muito tempo conversando, até porquê não demorou muito para a atenção de Inanna ser roubada pelo deus Dumuzid, deus dos pastores, que insistentemente cortejava a deusa que, embora de fato gostasse da atenção, não conseguia decidir entre ele e Enkimdu, deus da agricultura. Um olhar diferenciado que Inanna lançou para Dumuzid talvez escondia muito, pois na mente da deusa estava o conselho do irmão gêmeo, Utu, que dizia que Dumuzid seria um partido muito melhor.

Embora no começo tivesse muita coisa para fazer já que, eventualmente, algum deus ia falar com Anúbis e Anput, não demorou muito para os dois, principalmente Anúbis, começarem a querer escapar da festa. Vendo o deus Nergal saindo da festa com expressão fechada e irritada e alguns minutos depois a doce Gula saindo sozinha, Anúbis e Anput julgaram que talvez já desse para escapar da festa sem ninguém reclamar ou sem começar nenhum problema diplomático.

Saindo do local da festa, Anúbis e Anput andaram pelo jardim dos deuses por alguns breves segundos. O farfalhar das folhas deixava o ambiente calmo e relaxante mas Anput logo percebeu que talvez fosse melhor aproveitarem a beleza que o jardim podia proporcionar dando um passeio por ele durante o dia. Assim, eles voltaram para o luxuoso cômodo separado para eles e, dado o clima tranquilo e fresco da noite e da solidão, não demorou muito para que eles resolvessem aproveitar o cômodo.

As horas tranquilamente se passaram até a luz do sol começar a inundar o cômodo. E logo os dois deuses se arrumaram para ir para o Kur. Sabiam que, aproximadamente ao mesmo tempo, Seshat teria uma reunião com Enlil enquanto Imhotep teria uma com Gilgamesh. Assuntos mortais e divinos estariam sendo discutidos praticamente ao mesmo tempo.

Deixando para trás as margens férteis dos rios Tigre e Eufrates, os dois deuses seguiram para leste. A distância percorrida foi grande, mas a magia também fazia com que a jornada não durasse mais do que alguns segundos. Eles deixaram para trás o ponto que, passados alguns milênios, marcaria a fronteira do Iraque e entraram no que um dia seria o Irã. A vegetação do deserto ali parecia perder espaço para um verde tímido mas belo com várias árvores e formações rochosas no que seria conhecido como as Montanhas ou Cordilheira Zagros. O topo delas estava marcado pelo tapete branco da neve e foi exatamente por isso que Anput insistiu para que fossem até lá ao menos um pouco para ver a neve de pertinho.

Com um olhar brilhando de curiosidade e um leve sorriso no rosto, Anput tirou as sandálias de couro e pisou com o pé desnudo na neve gelada e logo foi imitada por Anúbis.

— Nunca vou me acostumar. — disse Anput rindo de leve — Parece tanto com areia, mas é tão gelada! Não quente por causa do sol.

— É mesmo um pouco estranho… — disse Anúbis pegando um punhado com suas mãos — Não parece ter muita diferença da neve que vimos em Punt aquela vez. Achei que pudesse ter várias cores como a areia também tem.

— Pela cara não. — disse Anput — Mas parece ter vários… não sei dizer… formatos? Algumas são mais grudadas.. outras parecem… sei lá… ficam duras... mas no final das contas parece ser tudo água.

A cor da neve mudou brevemente quando uma sombra passou por cima dos dois deuses rapidamente. Olhando para cima, eles viram Ereshkigal se aproximando voando com suas asas negras poderosas. Com uma expressão neutra, a deusa governante do submundo pousou diante dos deuses e abriu um pequenino sorriso que não conseguia ser exatamente simpático ou carinhoso.

— Imagino que a neve seja mesmo algo interessante e diferente para os povos do Saara. — disse Ereshkigal.

— Por serem lugares tão mortos e predominantemente de areia, às vezes parece que todos os desertos são iguais… mas de fato os desertos daqui são diferentes. — disse Anúbis enquanto tanto ele como Anput colocavam as sandálias de couro de volta — Nem mesmo a montanha mais alta do Egito tem neve em seu topo desse jeito.

— Imagino que também não tenham cavernas com entradas para o submundo em suas montanhas. — disse Ereshkigal esticando o braço para a direção da entrada do Kur.

— De fato não. — disse Anúbis.

Os três deuses foram até a entrada de uma caverna que parecia magicamente mais escura e tenebrosa que qualquer outra. Por alguns vários minutos os três ficaram descendo e descendo pelo solo irregular que logo se transformou em uma escada. Vários minutos depois eles chegaram num portal que, caso estivesse fechado, não passaria de uma parede de pedra. Mas, aberto, ele mostrava a continuação do caminho até o Kur. Ao seu lado, estava Neti, um deus menor de longo cabelo encaracolado combinado que, seguindo o caminho oposto da moda suméria, não exibia uma barba em seu rosto.

— Creio que não foram apresentados ainda. — disse Ereshkigal — Esse é Neti. Porteiro chefe dos sete portais do Kur.

Neti acenou brevemente com a cabeça enquanto botava a mão fechada sobre o coração tentando imitar o típico movimento egípcio de respeito à uma pessoa superior. Afinal, Neti não só era um mero subalterno de Ereshkigal, como também não passava de um deus menor. E, foi exatamente por esse último motivo, que Anput lançou um olhar mais longo e pensativo pensativo para o deus enquanto Ereshkigal continuava a andar.

— Atualmente, os portais estão abertos e desativados. — explicava Ereshkigal — Mas eles são mágicos e extremamente poderosos seja para prevenir que as almas saiam do Kur como para impedir a entrada de invasores.

Depois de passado o primeiro portal, a deusa continuou andando sem dar mais muitas explicações. O silêncio só era quebrado pelos passos dos deuses durante toda a descida até o momento em que eles passaram pelo sétimo portão. Depois do sétimo portão, o corredor no qual andavam se abriu para um grande e enorme salão escavado na pedra. Tão grande que nenhum dos três conseguia ver onde ele terminava embora pudessem ver o teto cerca de 20 metros acima da cabeça deles.

No espaço entre o chão e o teto, demônios voavam e chamas douradas flutuavam iluminando um pouco a escuridão pesada do lugar. Os demônios tinham as mais diversas aparências enquanto voavam dentre estalactites pontudas que constratavam com o solo fofinho feito de areia cinza.

— Ali é onde Dumuzid e Geshtinanna organizam o registro das almas falecidas. — disse Ereshkigal apontando para uma abertura na pedra — Os dois revezam entre si através do ano para registrar os nomes das placas de pedra ou argila.

— Deveriam tentar usar papiro algum dia. — disse Anput — É bem mais prático de várias formas possíveis.

— Mas seria tão duradouro? — questionou Ereshkigal.

— Guardando do jeito certo… — disse Anúbis dando de ombros — Só a facilidade de escrever nele já compensa o suficiente acho.

— Mas é na pedra onde as palavras viverão para sempre. — disse Ereshkigal.

— Para os mortais, talvez. — disse Anúbis — Um pouco de magia deixa qualquer papiro tão duradouro quanto qualquer pedra.

— Talvez… — disse Ereshkigal.

Ereshkigal continuou a andar liderando o caminho mostrando a cada passo que o Kur era bem maior do que a primeira vista parecia. Na verdade, assim como o Duat, ele servia para guardar muito mais coisa do que apenas a alma daqueles que se foram ou um lugar de julgamento dessas almas.

Depois de alguns passos, entrou na vista deles um enorme palácio em formato de zigurate feito de tijolos negros, o palácio de Ereshkigal apelidado de Ganzir. O palácio exalava uma aura sombria e fúnebre em suas paredes negras nada comuns para a época.

Quando o trio entrava no lugar indo direto para um cômodo mais propício para conversarem, foram logo seguidos por Dumuzid que corria para acompanhar o grupo. No braço do deus, estava uma placa de argila que usaria para escrever os detalhes da reunião. Por mais perfeita que a memória dos deuses fosse, eles haviam concordado que seria melhor registrar os detalhes acordados. Era exatamente por isso que, ao se sentar em uma das cadeiras do cômodo, Anput fez surgir magicamente em sua mão uma longa folha de papiro e um pequeno kit de escrita.

— Achei que fosse chegar atrasado ou perder a reunião, Dumuzid. — disse Ereshkigal.

— Perdão, Senhorita Ereshkigal. — disse Dumuzid enquanto Anúbis se sentava ao lado de Anput.

— Essas suas tentativas de cortejar minha irmã estão deixando seu trabalho desleixado. — completou Ereshkigal sentando-se elegantemente em sua cadeira também.

Sentindo-se humilhado, Dumuzid abaixou a cabeça constrangido. Não surpreendentemente, Anúbis e Anput ficaram meio desconfortáveis por ficarem com dó do pobre deus. Os dois egípcios se entreolharam silenciosamente enquanto Dumuzid, decidindo que seria melhor ficar de pé para evitar irritar Ereshkigal, tentava se recuperar e preparar a tábua de argila para escrever. A tábua começou a flutuar diante de si e o deus preparou seu próprio kit de escrita que, devido a superfície no qual seria usado, era mais arcaico do que o de Anput.

— Peço perdão por não poder oferecer nada para distrair o paladar. — disse Ereshkigal — Tudo aqui tem gosto horrível.

— Sem problema. — disse Anúbis — Até porque talvez seja melhor continuar sem quaisquer distrações visto que temos muito a discutir.

— De fato. — concordou Ereshkigal — Nossos métodos de lidar com os mortos são diferentes e nossos povos estão começando a se misturar. Egípcios morrem perto ou dentro da fronteira dos reinos da suméria, sumérios morrem perto ou dentro do Egito. Acho que a primeira coisa que surge em minha mente seria de que temos que nos livrar dessa antiga ideia compartilhada por muitos de que os deuses só operam dentro de suas próprias fronteiras.

— Acabar com essa ideia totalmente envolveria muitos outros deuses na discussão além de nós. — disse Anput enquanto Anúbis soltava um pesado suspiro já imaginando o esforço que seria fazer isso dar certo

— E isso ainda nem é o único problema. — disse Anúbis — Sempre também foi considerado a nacionalidade e agora temos os povos e o sangue se misturando.

— Acho melhor deixar essa parte por último. Vai ser sem dúvida a mais complicada. — disse Ereshkigal — De toda forma, se for melhor para você, posso pegar esses sumérios para mim.

— Não. — discordou Anúbis de cara — Suas formas de julgar os mortos… desculpe dizer mas eu não concordo.

— Ora, porquê não? — questionou Ereshkigal — Já parou para pensar que se também desse um melhor pós vida para aqueles com melhores sepultamentos você eventualmente teria ainda mais construções como a que estão fazendo para Djoser?

— E, da mesma forma, seria extremamente injusto com os pobres. — rebateu Anúbis — Mesmo a mumificação mais básica não é de graça. O mais justo que posso ser é julgar aqueles que conseguem chegar até o Salão do Julgamento de acordo com o que fizeram em vida e pelas mentiras e verdades que pesam seu coração.

— O mais justo não seria dar um pós-vida melhor para aqueles que mostram uma reverência maior aos deuses e aos costumes? — questionou Ereshkigal.

— Não esqueça que isso está limitado pelo tanto de condições que cada pessoa tem e sobre isso elas não tem muito como decidir. — lembrou Anúbis.

Não era de se surpreender considerar que eles passariam um bom tempo ali discutindo. Anúbis e Ereshkigal não concordavam em praticamente nada e nenhum dos dois queria ter uma alma que considerava sendo responsável ou parcialmente responsável por recebendo um pós-vida que consideravam injusto. Assim, por horas e horas eles ficaram ali discutindo os detalhes não só da divisão de almas, como também dos próprios julgamentos e submundos. No entanto, não havia animosidade. Tanto que, por uma ou duas vezes eles ficaram falando de seus animaizinhos demoníacos. Ereshkigal achou engraçado saber que Ammit não era tão cruel quando não tinha que devorar ninguém.

Quando eles finalmente haviam decidido que a discussão tinha durado tempo o suficiente por um dia, faltava apenas algumas horas para o pôr do sol. Foi nesse momento que Anúbis e Anput deixaram o Kur pelo mesmo caminho que haviam entrado e, lá, encontraram Seshat esperando por eles sentada numa pedra.

— Como foram as cosias por lá? — perguntou Seshat.

— Suficientemente bem, eu acho. — disse Anput dando de ombros — Ainda tem uns detalhes para decidir, mas acho que conseguimos chegar no começo de um meio termo entre os dois.

— Ao menos a situação dos mortos fora da fronteira foi resolvida. — disse Anúbis — Mas, de resto, talvez o que fique decidido será que eles vão para o submundo no qual acreditarem.

— E se não acreditarem em nenhum? Isso é possível? — perguntou Seshat — Ou até se acreditarem em ambos.

— Essa é a parte que falta decidir. — disse Anput soltando um pesado suspiro.

O olhar de Anput então se perdeu no horizonte a leste admirando a incrível vista que eles tinham ali no alto da montanha. Mesmo sem chamar os outros dois para curtirem a vista com ela, não demorou muito para os dois notarem que era a vista o motivo do brilho que tomava conta do olhar de Anput. Com a bela paisagem, começou a crescer no peito deles também uma saudade de casa, pois bem sabiam que era naquela direção que ficava o Egito.

Lentamente, Anúbis olhou para Anput com o canto do olho quando uma ideia surgiu em sua mente. De forma gentil, ele passou o braço ao redor da cintura dela o que fez com que ela se distraísse da paisagem e olhasse para ele.

— Que tal se fossemos até Ur para conhecer a cidade um pouco? — sugeriu ele — Gilgamesh não tem que ficar sabendo que fomos para uma outra cidade.

— E se o deus patrono dessa cidade não gostar? — perguntou Seshat — O patrono de lá é Sin né? Filho de Enlil e Ninlil.

— Vai ser apenas uma visita. — disse Anúbis dando de ombros — Não acho que vai dar problemas e, se der, os resolvemos depois.

— Seria uma oportunidade boa ver como ela está. É a cidade mais velha dos mortais. — disse Anput pensativa mas logo se enchendo de energia — Bora!

Não foi necessário mais do que aquelas duas sílabas para que os deuses deixassem a cordilheira iraniana de Zagros para trás e fossem para a cidade suméria de Ur. Mesmo que o sol lentamente ameaçasse tocar no horizonte a leste, a cidade ainda vibrava de vida. Os três deuses, principalmente Anúbis, achavam libertador poder andar daquele jeito entre os mortais sem serem imediatamente reconhecidos nem terem pessoas se curvando em volta deles. Assim, por vários minutos os três deuses aproveitaram o que o comércio barulhento e alegre tinha a oferecer, admiraram as artes presentes nas tapeçarias e ouviram histórias contadas por um homem idoso numa praça ampla nas bordas da cidade.

Determinada a levar algo para distrair Chenzira de sua eternidade como um mero fantasma, Anput conseguiu arranjar para o amigo uma tábua com um pequeno mas belo poema em sumério para o amigo ler sem se preocupar em o vento carregar, como acontecia com os papiros. Era nessas horas que via lucro em ter ensinado o idioma para o amigo.

Com o céu já tingido de laranja, os três deuses sentaram-se às margens da água extremamente azulada de o que um dia seria conhecido como Golfo Pérsico. Tanto tempo se passaria até que as áreas que eles haviam visitado naquele dia ganhassem esses nomes, Iraque, Irã, Golfo Pérsico, que até a geografia do lugar iria mudar. Afinal, aquela linda água que beirava a cidade de Ur, a provável primeira cidade da humanidade, iria recuar tanto que vários quilômetros iriam um dia separar as ruínas da cidade da orla do Golfo Pérsico.

Com o cair da noite, os três deuses resolveram dar o passeio como terminado e, tão facilmente quanto eles haviam chegado em Ur, eles deixaram Ur para trás. Agora na cidade de Uruk, os três deuses resolveram ir direto para onde sentiam que Imhotep estava. Julgando que provavelmente não seria tão bom eles repentinamente aparecerem no quarto de Imhotep, os três deuses resolveram aparecer nas bordas do terreno do palácio de Gilgamesh e andar até onde sentiam que Imhotep estava. No caminho, encontraram o sacerdote Shullat que disse que Gilgamesh estava procurando por eles. Os três deuses continuaram então a andar até o quarto de Imhotep enquanto Shullat ia chamar Gilgamesh. Contudo, para estranhamento de Anúbis, Anput e Seshat, Imhotep não estava em seu quarto.

— Como assim? — perguntou Seshat estranhando aquilo — Era para ele estar aqui.

— Ele parece estar aqui… ao menos a sensação que dá é que a alma dele está aqui… mas ele não está aqui. — ponderou Anput.

— O cheiro dele ao menos não está aqui também… — completou Anúbis estranhando aquilo junto com as outras duas deusas.

Cheio de questionamentos e estranhamentos, Anúbis virou a cabeça para a entrada do quarto quando ouviu passos se aproximando. Não demorou mais do que alguns segundos para que pelo portal passassem apressadamente Gilgamesh, Shullat e Enkidu. O lendário deus sumério havia claramente ido o mais rápido que podia até ali, pois Shullat, provavelmente o de menor preparo físico do grupo, estava meio ofegante.

— Ele não está com vocês então? — perguntou Gilgamesh.

— O que quer dizer? Onde está Imhotep? — perguntou Anúbis já começando a ficar preocupado e de mal humor.

— Eu não sei! — exclamou Gilgamesh levantando as mãos brevemente em dúvida e depois deixando-as cair com um pesado suspiro — Estávamos em reunião. Fui chamado brevemente para resolver outro assunto mas, quando voltei, ele não estava mais lá. Fazem horas que não o encontramos!



Notas finais
########################################## REFERÊNCIAS O conto do marinheiro naufragado - https://www.ancient.eu/article/180/the-tale-of-the-shipwrecked-sailor-an-egyptian-epi/ Ereshkigal - https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ereshkigal Ereshkigal 2 - https://www.ancient.eu/Ereshkigal/ Frutas na Suméria - https://ancientsumeriansvnp.weebly.com/food.html Haya - https://en.wikipedia.org/wiki/Haya_(god) Nisaba - https://en.wikipedia.org/wiki/Nisaba Arquitetura - https://en.wikipedia.org/wiki/Architecture_of_Mesopotamia Dumuzid - https://en.wikipedia.org/wiki/Dumuzid Enkimdu - https://en.wikipedia.org/wiki/Enkimdu Cordilheira de Zagros - https://en.wikipedia.org/wiki/Zagros_Mountains Desertos do mundo - https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_desertos_por_%C3%A1rea Kur - https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Mesopotamian_underworld Neti - https://en.wikipedia.org/wiki/Neti_(deity) Namtar - https://en.wikipedia.org/wiki/Namtar Pós-vida sumério - http://www.ancientpages.com/2017/05/12/death-and-afterlife-in-sumerian-beliefs/ Ur -https://en.wikipedia.org/wiki/Ur Sin - https://en.wikipedia.org/wiki/Sin_(mythology) ps : Pra época, o nome do Sin, filho de Enlil e Ninlil, deveria ser Nanna. Mas, para não confundirem com a Inanna, deixei Sin que é o nome dele em alguns séculos no futuro. Assim como o nome da Gula mencionado no cap anterior. e começa a treta! XD