A Missão
78 Capítulo 54
Notas iniciais
Tive um sono perturbado, agitado. Sonhei diversas vezes com Júlio. Mas ele sempre aparecia de costas para mim e por mais que eu gritasse seu nome e corresse atrás dele não conseguia o alcançar. Ele sempre me escapava. E eu não conseguia ver seu rosto.
E eu daria de tudo para conseguir aquilo. Para que, nem que fosse em sonho, ver seus olhos com vida, seu peito se mexendo no ritmo da respiração, sua boca sorrindo.
Quando abri os olhos me encontrei em um quarto desconhecido, com vários fios e tubos conectados a mim. Parecia um quarto de hospital. Tudo era claro. Cheirava a desinfetante.
– Olá. — ouvi uma voz. Olhando para o lado percebi uma mulher na meia idade vestida de enfermeira.
– Onde eu estou? O que aconteceu?- perguntei a ela, me sentando na cama. Minha cabeça rodava.
A enfermeira se aproximou de mim, trocando uma das bolsas que injetava alguma coisa em minha veia.
– Você está na clínica do quartel. Teve um surto psicótico e foi trazida para cá. — explicou ela.
As lembranças começaram a voltar a minha mente. Júlio dizendo que iria deter os soldados, ele caído no chão. Danilo me fazendo seguir em frente. Eu batendo em Thomas e fazendo com que ele me passasse o governo do país.
Mas por mais que essas lembranças fossem horríveis, não me causavam nada. Eu não conseguia ter emoção. Era como se estivesse anestesiada, como se aquilo não fizesse diferença na minha vida.
– Você quer que eu chame alguém para te ver? — a enfermeira perguntou – A Dra. Khaless ou o soldado Danilo? Eles estão por ai e poderão te explicar tudo que aconteceu. Aposto que você está muito confusa.
– Sim, se puder encontrar algum deles eu agradeceria – disse eu, indiferente.
A mulher saiu e eu fiquei olhando para a porta com o os olhos vidrados. Meu raciocínio estava lento, meus sentimentos também. Eu me sentia um zumbi. Sem mente, sem coração. Apenas um corpo sem sensação alguma.
A porta do quarto abriu e Danilo entrou seguido por Khaless. Fiquei olhando os dois se aproximarem de mim.
– Como você se sente? — Khaless começou a me examinar.
– Na verdade não sinto nada. Pareço um zumbi. — fui sincera.
– É normal. Você está medicada, para que não tenha mais nenhum surto. Mas está reagindo bem, então acho que não ficará mais muito tempo sobre o efeito da medicação.
Não sabia se aquela notícia era boa ou ruim. Porque eu preferia ficar naquele estado indiferente a sentir todo o sofrimento pela morte de Júlio. Aquele luto por ele acabaria comigo. Mas ele merecia que eu sentisse sua perda.
– Quanto tempo passei dopada? — perguntei. Queria saber a quantos dias o mundo tinha perdido o sentido sem Júlio.
– Menos de 24 horas. — Khaless respondeu.
Aquela resposta não me deu reação alguma. Tanto fazia se eu estivesse há uma hora desacordada, ou há um mês. Eu só queria mesmo era ter a informação.
– E o que aconteceu nesse tempo? — mais uma vez era somente a necessidade de saber as coisas.
Danilo estava quieto até aquele momento. Ele deixava que Khaless me examinasse atentamente. Talvez também estivesse muito mal pela perda do irmão. Era compreensível.
Mas foi ele quem se aproximou mais de mim para me responder o que eu havia pedido:
– Nada. Depois que acompanhei Thomas e Eric até a prisão, voltei e te encontrei em estado de choque. Khaless e outros médicos já estavam no palácio tratando dos feridos e recolhendo os mortos, então a chamei e ela deu uma injeção em você. Você desmaiou e a trouxemos para cá. Depois disso nada aconteceu.
– E Júlio? Ele já foi velado e enterrado? — eu esperava que não. Queria ao menos poder olhar uma última vez para seu corpo. Danilo e Khaless trocaram um olhar cúmplice. Percebi que alguma coisa estava acontecendo. — O que foi? Não encontraram o corpo do Júlio?
– Liss, — Danilo sentou na cama em minha frente e segurou meus pulsos – Júlio não morreu. Ele está vivo. Está na UTI em estado estável. Perdeu bastante sangue e o tiro que levou foi grave. Mas está vivo.
Eu achei que não era capaz de sentir qualquer sentimento, mas estava errada. Uma euforia me dominou, uma felicidade. Eu quis saltar da cama e começar a pular. Júlio estava vivo!
Mas como eu poderia ter certeza que aquilo era real? A enfermeira havia me dito que eu tinha tido um surto psicótico. E eu já havia lido alguma coisa que dizia que pessoas não sabiam o que era real ou não em um surto psicótico. Que imaginavam coisas. E se eu estivesse imaginando aquilo? Se Danilo em minha frente dizendo aquelas palavras não fosse real?
– Como? Eu o vi morto. Você viu também. Ele estava caído, cheio de sangue. — tentei argumentar, só assim descobriria se aquela situação era real ou não.
– Ele estava quase morto. Mas seu coração ainda batia. Minha equipe encontrou ele e o trouxe para cá – foi Khaless quem disse.
Era verdade ou não era? Ainda não tinha chegado a uma conclusão. Só havia uma maneira de descobrir isso:
– Eu quero vê-lo. Eu preciso vê-lo. — joguei meus pés para fora da cama. Tentando me levantar.
Mas Danilo me impediu:
– Você não pode. Ainda não está bem. E ele ainda está em coma. — ele me empurrou para que me deitasse novamente.
– Eu preciso vê-lo, Danilo. Você não entende. Só assim saberei se isso é mesmo real ou não.
Danilo me deu um olhar de piedade. Eu devia estar parecendo patética. Mas não consegui pensar muito. Minha mente começou a ficar cada vez mais nebulosa, meus olhos ficaram pesados. Deitei na cama e cedi ao torpor. Mas antes ainda ouvi Khaless dizendo:
– Ela estava muito agitada. Coloquei mais calmante em seu soro. Liss ainda não esta completamente bem.
Mais uma vez fui mandada para um sono forçado e agitado. Com vários sonhos estranhos. Mas dessa vez Júlio não fugia mais de mim e eu conseguia ver seu rosto.
Quando acordei novamente me sentia fraca e tonta. Deveria ter passado bastante tempo desacordada. Mas, pelo menos, não me sentia mais dopada. Conseguia ter uma linha de raciocínio e sentir emoções.
A primeira de todas foi relembrar que Júlio estava vivo. Meu mundo voltava a fazer sentido. Meu coração se enchia de alegria. O mundo parecia mais colorido, mais bonito!
Como estava sozinha no quarto da clínica apertei o botão que chamava a enfermeira. A mesma mulher da outra vez apareceu. Ela perguntou como eu estava, e trouxe um prato de sopa para mim. Comi tudo rapidamente, por mais que aquela refeição parecesse sem gosto, era maravilhosa para mim, que estava sem alimento por um bom tempo.
Tinha terminado minha refeição quando apareceram em meu quarto Khaless e Danilo, novamente juntos.
– Soubemos que você havia acordado. E viemos para cá – disse Danilo. Ele parecia cansado, com grandes olheiras e a barba por fazer.
– Como está Liss, ainda se sente um zumbi? — Khaless quis saber começando a me examinar.
– Não. Estou bem. Um pouco fraca, mas bem.
– Entendo. Acho que você está bem mesmo. Pelo menos do ponto de vista médico. Seu surto foi resultado do choque de achar que Júlio estava morto. É completamente normal. Você não deverá ter mais problemas. Vou te dar alta. Mas por via das dúvidas, deverá continuar tomando por um tempo, um remédio calmante que vou lhe receitar.
– Ok. Obrigado. E eu poderei ver Júlio? — pedi. Era tudo que eu mais queria naquele instante. Precisava vê-lo nem que fosse de longe.
– Sim. Ele ainda está em coma. Mas poderá vê-lo. Só que antes disso tem uma coisa que precisa saber. — Khaless deu olhar significativo para Danilo.
Ele se mexeu meio desconfortável, me deixando preocupada com o que iria me contar.
– Uma das balas que atingiu Júlio, parece que chegou até sua coluna. E Khaless e os outros médicos acham que ele pode ter alguma lesão devido a isso.
– Que tipo de lesão? — olhei de Danilo pra Khaless.
– Uma lesão que dificulte ou impeça alguns movimentos. Pelo local que a bala estava alojada, provavelmente os movimentos das pernas. Mas só poderemos ter certeza do quanto foi atingido quando ele acordar. — foi ela quem me explicou.
Os dois ficaram me olhando preocupados, provavelmente achavam que eu iria ficar mal com aquela notícia ou que poderia ter um novo surto. Mas eu não me importava. Júlio estava vivo. E isso era o suficiente para mim.
Depois de passar um tempo achando que nunca mais poderia vê-lo de novo, ou escutar sua voz, saber que ele teria uma deficiência não era nada. Júlio era forte. Ia ficar bem. E de qualquer jeito poderíamos ficar juntos.
– Não importa. Vamos superar isso – eu disse para acalmar eles. Eu estaria ao lado de Júlio nessa. Nós dois íamos superar esse obstáculo juntos.
Fui desconectada de todos os fios e tubos que me prendiam e pude trocar a camisola da clínica por uma roupa comum que Danilo havia trazido para mim.
Ele foi quem me acompanhou na visita a Júlio. Khaless tinha alguns pacientes para visitar e fomos sozinhos até a ala da UTI. Como eu era governante não tive problema nenhum em entrar e em levar Danilo comigo.
Júlio estava deitado em uma cama, com vários aparelhos conectados a ele. Um desses aparelhos dava um bip constante no ritmo de seu coração. Havia uma cadeira ao lado da cama, puxei-a e me sentei.
Júlio parecia diferente, ali deitado com os olhos fechados, completamente imóvel e com uma máscara de oxigênio no rosto. Mas mesmo assim continuava sendo lindo.
– Eu vou esperar lá fora. Para dar privacidade a você – Danilo disse, provavelmente porque eu olhava fixamente e apaixonadamente para Júlio.
– Não. Fique aqui Danilo. — pedi, e ele resolveu ficar sentando em uma poltrona do outro lado da sala, deixando um certo espaço para mim.
Peguei a mão de Júlio e fiquei segurando enquanto olhava para ele. Várias coisas se passavam em minha cabeça. Algumas lembranças de nós dois felizes, as imagens dele caído no chão, hipóteses de como seria dali para frente.
Um bom tempo se passou enquanto eu só olhava para ele. Meu olhar cheio de ternura e esperanças de que ele melhorasse de uma vez.
– Algumas pessoas dizem que alguém em coma consegue ouvir o que acontece ao redor. Talvez você devesse dizer alguma coisa. — Danilo estava sentado me observando.
Me levantei de pé e resolvi tentar. Não faria mal algum aquilo:
– Júlio. Sou eu, Liss. Estou aqui torcendo por você. — comecei a acariciar seu cabelo curto e macio – Você não sabe o susto que me deu. Eu achei que você estivesse morto. Obrigado por não estar. Sei que você vai acordar logo, logo e vamos poder conversar como antes. Não se esqueça que eu estou aqui contigo! Torcendo por você! — eu queria dizer que o amava, que ele era a razão da minha vida, que eu não conseguiria viver sem ele. Mas me controlei. Júlio já sabia de tudo isso, ao contrário de Danilo. Não queria fazer o outro irmão sofrer ainda mais expondo meus sentimentos a Júlio daquela maneira.
– Acho que está na hora de irmos. — Danilo disse, quando eu acabei de falar. Não tínhamos autorização para ficar ali muito tempo.
– Tudo bem – concordei.
Me despedi de Júlio, dando um beijo em sua testa, exatamente como ele fazia comigo, e murmurei em seu ouvido:
–Eu te amo!
Saímos da ala de UTI e eu fiquei meio perdida sem saber o que fazer, ou a onde ir. Eu queria ficar la com Júlio, esperando até que ele acordasse.
– Você devia ir pro palácio – disse Danilo.
– Não. Vou ficar aqui até o Júlio acordar.
– Não seja teimosa, menina. Não vai adiantar de nada você ficar aqui. É lá no palácio que você fará a diferença. Você é a única governante agora. Precisa ir lá resolver as coisas. Faz dois dias que esse país está uma bagunça sem ninguém para governar.
Era um argumento bom. Eu havia esquecido de todas as minhas obrigações de governante mesmo. Tinha feito Thomas passar o governo para mim porque eu já conhecia como tudo funcionava e fui a primeira pessoa que pensei no momento, já que eu achava que Júlio estava morto. Mas na verdade eu não queria governar. Ainda mais sozinha.
Só que não existia outra opção. Para quem mais eu passaria aquele cargo? Qualquer um não saberia o que fazer e levaria dias até aprender. Os únicos qualificados e de confiança eram eu e Júlio. Como ele estava inconsciente sobrava para mim.
Ok. Eu cumpriria meus deveres. Voltaria para o palácio e resolveria as questões mais urgentes. Mas assim que Júlio estivesse bem e apto novamente, eu passaria o governo para ele, para que ficasse no comando do país até que a eleição dos doze governantes fosse realizada.
– Tudo bem. — concordei.
– Se quiser te acompanho até o palácio.
– Não precisa. — eu ainda estava um pouco fraca, mas o caminho do quartel até o palácio não era tão longo.
– Não é seguro você sair sozinha por ai. Nunca se sabe, ainda mais agora que é a única governante e ainda esta fraca. Eu vou até lá contigo. Quero aproveitar para te perguntar algumas coisas. — não pude deixar de perceber o quanto aquilo soava parecido com uma atitude que Júlio teria.
Deixei que ele fosse comigo e fiquei esperando ele começar com as perguntas que queria me fazer. Eu não tinha nem ideia do que poderia ser. Foi somente na metade do caminho que ele começou com elas:
– Liss, o que aconteceu? Porque você e o Júlio foram presos? Eu não entendi muito bem.
– Nem eu entendi direito. Mas foi Thomas e Eric. Os dois estão juntos de novo. O Eric convenceu Thomas que eu e o Júlio tiraríamos o lugar dele de governante, e que seria muito melhor se o país fosse governando somente por ele. Então aquele dia, como eu e Júlio tínhamos dado carta branca para ele fazer qualquer coisa, ele nos tirou do poder e mandou nos prender. — olhei pra ele — Mas se você não sabia do motivo, porque nos ajudou lá no palácio, na nossa fuga?
– Porque Júlio é meu irmão e você é minha amiga. Eu ajudaria vocês de qualquer maneira.
– Ta, mas e como você nos encontrou? Você não tava no quartel?
– Desde que fiquei sabendo da prisão de vocês fiquei lá no palácio, tentando encontrar Thomas para tirar satisfação com ele. Mas o bonito ficava escondido. Aí quando tocou o alarme, eu tive certeza que eram vocês, por que quem mais estava preso e conseguiria arranjar uma maneira de fugir? Claro que você e o Júlio. Então sai correndo para a sala dos militares, peguei as armas e quando estava saindo de lá, já vi vocês no corredor cercado por guardas.
– Obrigada por nos ajudar. E obrigada por não me deixar matar Thomas.
Aquele dia eu estava fora de mim. Como podia ter agido com tanta violência nele e ter quase o matado, sem a mínima pena? Se aquilo tivesse acontecido eu me culparia eternamente. Ainda bem que Danilo havia me impedido.
– De nada. Mas o que você vai fazer agora com ele e Eric?
O primeiro problema que eu não teria capacidade decidir sozinha.
– Vou deixar os dois presos, por enquanto. — "até que Júlio seja o governante e decida". Completei mentalmente.
Estávamos chegando, e eu me virei para agradecer a Danilo por ter vindo comigo e para me despedir. Mas ele me segurou por um braço:
–Pera aí. A pergunta mais importante que eu tinha pra te fazer ainda não fiz.
– Então faça. — pedi. Não era normal Danilo hesitar.
– Seja sincera comigo, Liss. Você e o Júlio.... vocês estão namorando?
Parecia que havia se passado uma eternidade, mas no voo de volta pra capital, antes de sermos presos, eu e Júlio havíamos combinado de não esconder aquilo de Danilo. De contar a verdade a ele. Mas eu achei que Júlio estaria junto comigo quando isso acontecesse.
– Sim. — fechei os olhos e admiti.
– Desde quando? — ele não parecia bravo, apenas curioso.
– Desde que ele foi comigo pra Crytur. Mas já gostávamos um do outro a um bom tempo. Não fique chateado Danilo. Fizemos o que pudemos. Eu tentei esquecer Júlio. Para que nenhum de nós três sofresse. Mas não consegui. Desculpe.
– Você não tem do que se desculpar, Liss. Tá beleza. Eu já tava percebendo que rolava um clima entre vocês. Desde aquele dia que você encontrou ele preso. Você mesmo o beijou e disse que o amava. E a maneira como você olha para ele, sua preocupação, isso diz tudo.
Era verdade. Devia estar estampado na minha cara minha paixão. Eu não conseguia mais controlar meus sentimentos.
– Não queria ter impedido vocês. Espero que fiquem bem agora. Não guardo rancor. E torço pela felicidade de vocês. Acho que vocês combinam.
– Obrigada. Eu também torço pela sua felicidade, Danilo. Tenho certeza que vai encontrar uma menina que te mereça de verdade e que vai ser muito feliz com ela.
O olhar dele para mim foi triste. Ele ainda gostava de mim, por mais que quisesse que eu e Júlio nos dessemos bem juntos.
– Bom, está entregue. Vou voltar para a clínica e te aviso a qualquer novidade.
– Ok. Obrigado mais uma vez. Tchau. — dei um beijo na bochecha dele e entrei no palácio, para tentar cumprir minhas obrigações.
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