A Missão

55 Capítulo 36


No outro dia, acordei mais cedo para dar um jeito naquela minha aparência. Me olhando no espelho sentia pena de mim mesmo. Eu estava com o rosto inchado, o nariz vermelho e os olhos pequenos de tanto chorar. Havia chorado uma boa parte da noite, e nem percebi quando dormi ou quando as lágrimas secaram.

Durante a noite parecia que o mundo havia acabado para mim. Não via mais sentido em nada. Achei que não conseguiria continuar vivendo ali no quartel. Mas hoje, com o dia já amanhecendo achei exagero da minha parte tudo que havia ocorrido ontem. Era claro que eu continuaria ali no quartel, a vida não havia acabado. E existia uma solução muito simples pro meu problema: hoje a noite daria um jeito de Danilo e Júlio virem pro dormitório e nós três conversaríamos sinceramente, daríamos um fim a toda aquela confusão e eu esclareceria tudo que sentia para eles.

O dia de serviço tava correndo normalmente, sem mais nenhuma conversa estranha com Margareth nem nada do tipo. Isso até escutarmos uma batida na porta de seu escritório e um guarda anunciar que o sargento Júlio Anthoni estava ali e havia dito que a governante queria falar com ele.

Margareth deu uma olhada pra mim como se dissesse: "acho bom que tenha me obedecido" e pediu que Júlio entrasse.

Ele entrou e antes de mais nada deu uma olhada em todo o escritório e seu olhos encontraram os meus. Ele rapidamente desviou o olhar e fez uma reverência a Margareth. Em seguida ela mandou que ele o sentasse. Foi o que fez e sem olhar mais nenhuma vez pra mim, apenas mantendo a atenção nela, falou:

– Soldado Liss disse que queria conversar comigo –Júlio parecia muito calmo, e sua voz soava como devia ser: firme e confiante. — Fiquei preocupado e vim o mais rápido que pude. Qual o problema excelentíssima? — era muito esperto da parte dele fingir que não sabia o que ela queria falar com ele, e tratá-la respeitosamente como a governante. Talvez isso a afastasse.

– Sargento... — Margareth deu uma longa olhada em Júlio, começando pelos seus olhos e descendo até os pés – fico surpreso que minha guarda não tenha lhe contado o motivo que pedi para que viesse. — me sentia estranha com eles falando de mim como se eu não estivesse ali, mas me mantive imóvel e tentando ficar invisível – Tenho uma maravilhosa oportunidade para lhe oferecer.

Júlio não demonstrou interesse algum. Ele era a perfeita calma e profissionalismo:

– Nem imagino que oportunidade tenha para oferecer para mim, vossa excelência.

– Percebi que você é um militar bonito, senhor Anthoni – minha raiva começou a aparecer – É jovem, forte e tem um corpo muito bom. — minha raiva aumentava ainda mais a medida que ela elogiava ele. — Você, assim como seu pai e seu irmão, tem uma beleza máscula, traços fortes, que chama a atenção das mulheres.

– Desculpe, eu agradeço pelos elogios, mas não entendo a onde a senhora quer chegar. — Júlio permanecia calmo. Nenhuma reação. Percebia que isso estava frustrando cada vez mais Margareth.

– Me chame de Margareth ou de você. Temos quase a mesma idade – corrigiu ela. — A proposta que tenho para lhe fazer Júlio, é uma ótima oportunidade. Qualquer um daria sua vida para conseguir uma chance dessas. Na verdade não é bem uma proposta e sim um convite. Tenho certeza que aceitará. Te convido a jantar comigo hoje e passar o resto da noite aproveitando minha companhia. Garanto que será uma noite inesquecível.

Vadia! Puta! Cadela! Vagabunda! Eu queria pular no pescoço dela. Arrancar aqueles seus lindos cabelos dourados. E arranhar toda aquela sua pele de porcelana. Como ela podia fazer uma proposta daquelas para Júlio? Onde tinha conseguido tamanha cara-de-pau? E pior ainda porque usou a mesma tática de quando me chamou pra ser sua guarda pessoal: disse que era uma ótima oportunidade, que qualquer um queria estar no meu lugar e que tinha certeza que eu aceitaria. Me controlei em meu lugar, apertando minha mão e cravando as unhas em minha pele, para evitar de fazer qualquer bobagem.

Foi bom eu já ter contado para Júlio o que Margareth queria com ele. Assim ele já estava preparado e não teve nenhuma reação quando ela disse sua proposta. Se não soubesse era capaz de ter uma crise de riso como a de ontem. Sua expressão continuou a mesma, não mexendo um milímetro que fosse.

Antes de responder, Júlio deu uma olhada reprovadora para mim como quem dissesse: "Você fica quietinha ai, que eu resolvo isso." Por um momento senti um arrepio pensando que ele pudesse aceitar a proposta dela, mas ele negou com a maior educação do mundo:

– Desculpe Margareth. Acho que a senhorita está errada. Terei que recusar seu convite. Não me leve a mal, mas não posso aceitar uma coisa como essa. Não sou esse tipo de cara. Sou um militar e faço tudo para proteger meu país. Mas isso eu não posso fazer, vai contra meus princípios e minha honra. Sinto muito. Garanto que encontrará mesmo muitos outros para aproveitar sua companhia. Muitos melhor que eu. Mas não no quartel.

Por algum motivo me senti orgulhosa dele. Ele tinha sido perfeito: educado, calmo, sério, profissional e havia deixado muito claro que nenhum soldado se rebaixaria a um nível daqueles. Fiquei aliviada e relaxei minhas mãos.

Mas ao contrário de mim, Margareth não gostou da resposta dele. Minha opinião é que ela não estava acostumada a levar um "não". Não pude deixar de sorrir enquanto ela falava:

– Quem você pensa que é soldado? Dispensando a minha companhia. Isso sim é falta de honra. Você jurou me servir. E eu estava fazendo um favor a você. Mas vejo que é muito imbecil para aceitar. Tudo bem. Você quem sabe. Mas lhe garanto que não esquecerei disso tão cedo.

– Se for só isso que a excelentíssima queria conversar comigo, peço licença para me retirar. Tenho muitas coisas para fazer no quartel. — Júlio estava quase sorrindo também como eu.

– Vá. — foi a única coisa que Margareth disse. Júlio se levantou, fez uma reverência a ela e saiu.

Eu me recompus na minha máscara de indiferença e fiquei lá, alegremente vendo Margareth irritada o dia todo com o fora que havia levado.

A noite quando voltei, nem fui pra base de treinamento. Troquei de roupa e fui procurar Júlio para pedir que fosse a meu dormitório. Queria resolver de uma vez a questão com ele e Danilo.

Fiquei caminhando pelos corredores, eu sempre encontrava Júlio por lá. Depois de um bom tempo o encontrei. Ele estava andando para frente, de costas para mim. Acelerei meu passo, quase correndo e chamei sua atenção:

– Sargento?

Ele se virou e viu de quem se tratava:

– Olá, soldado. Algum problema? — seus olhos refletiram a preocupação. Ele varreu meu corpo procurando por alguma coisa e não encontrou nada.

– Não, nada. — respondi.

E nesse momento cruzou um outro soldado por lá, que gritou para nós enquanto passava:

– Então é verdade que o sargento tá dando uns pegas na novinha. — o soldado riu sozinho.

Júlio se irritou com o comentário, e foi indo em direção ao cara:

– Soldado. Um minutinho por favor.

O soldado parou e virou-se para trás. Estava arrependido do comentário infeliz que havia feito. Júlio ficou arrogante e autoritário enquanto dava uma bronca nele:

– Onde está seu respeito soldado? Ela é uma colega sua – ele apontou para mim – e eu sou seu superior. Não saia por aí falando o que não sabe. E fique avisado que a próxima vez que eu ver você ou qualquer outro amigo seu falando calúnias por ai, você ou eles serão punidos rigorosamente. Compreendido?

– S-sim... — o soldado gaguejou e prosseguiu seu caminho. Eu duvidava que aquele cara fosse falar mais qualquer coisa sobre mim e Júlio, ele tinha ficado apavorado. Na verdade até eu fiquei com um pouco de medo de Júlio, ele tinha sido pior que o Alexandre.

– Desculpe por isso – Júlio já estava de volta na minha frente, falando comigo. E por incrível que pareça já estava calmo.

– Não, tudo bem. — dei de ombros. Eu não tinha ligado para aquele comentário estúpido. Me impressionava Júlio ter se importado tanto.

– O que você queria mesmo? — ele perguntou.

– Queria te pedir para ir pro meu dormitório hoje, se fosse possível. — Júlio me olhou confuso e eu expliquei – Queria conversar com você e com Danilo. Pra ver se conseguímos nos entender. Já sei que sua conversa com ele ontem não deu em nada.

– Certo. Vou lá daqui uma meia-hora.

– Ok. E Júlio sobre hoje de tarde... — queria elogiá-lo por sua resposta. Queria dizer que ele tinha ido muito bem.

Mas ele não me deixou terminar. Me interrompeu e foi saindo:

– Não vamos falar sobre isso soldado – o tom que usou foi até um pouco rude. — Com licença, nos encontramos daqui a pouco.

Fiquei no lugar vendo ele sair. Porque ele tinha me tratado daquele jeito? O que eu havia dito de errado?

Fui pro dormitório e só encontrei Eric lá. Falei pra ele que queria conversar com Júlio e Danilo e pedi se poderia sair quando os dois chegassem. Ele aceitou de bom grado.

Meia-hora depois alguém bateu na porta.

– Devo sair agora? — perguntou Eric.

– Não. Deve ser Júlio. Pode ficar até o Danilo chegar. — falei indo abrir a porta.

E era mesmo o Júlio. Nos sentamos no sofá, cada um em um, e ficamos calados esperando Danilo vir pro quarto. Existia um clima estranho entre nós dois. E nenhum conseguia puxar conversa ou olhar pro outro, apenas ficamos quietos e parados olhando para um lugar qualquer. E Eric num canto só observando. Em vez de me ajudar naquela situação, não. O traíra se mandou antes que Danilo voltasse.

Estávamos sozinhos, só eu e Júlio quando ele resolveu falar:

– Desculpe por ter sido grosso e não ter deixado você falar sobre essa tarde. Mas você precisa entender que não podemos falar coisas como aquela pelos corredores. Eles tem câmeras em todo lugar. E não duvido que Margareth não esteja nos vigiando para ver o que vamos comentar sobre aquilo.

– Eu não ia falar nada demais. Mas tudo bem. Não tinha pensado nas câmeras – o desculpei.

– Você pode falar agora se quiser. — ele sugeriu.

– Eu só queria lhe dizer que você foi muito bem. Sua resposta foi perfeita. Aposto que ela não está acostumada a ouvir um não. Ficou se mordendo de raiva a tarde toda.

– Obrigado. Eu disse o que tinha que ser dito. E quanto a ficar com raiva, ela não foi a única, não é? — ele olhou pra mim. Um pequeninho sorriso tímido em seus lábios.

Ele estava se referindo a mim. O quanto ele havia percebido da minha reação? Ele nem tinha me olhado muito. Apenas um pequeno olhar de advertência.

– É. Desculpe – concordei. — É que era muito cara-de-pau dela, se oferecer daquele jeito. E ainda mais te tratar como um objeto que queria possuir. Você sabe que ela iria te usar e jogar fora, não sabe?

– Eu sei. E nunca me passou pela cabeça aceitar a proposta dela. Mas a questão aqui, é que você precisa se controlar melhor. Eu percebi muito bem seu estado...

Fui salva pelo gongo. Danilo entrou e Júlio parou com o sermão para mim. Ele olhou para nós dois sentados no sofá e fez cara de nojo, me aprecei em explicar:

– Danilo, chamei Júlio aqui para conversar. Nós três precisamos esclarecer as coisas. Não dá pra continuar assim...

– Não temos o que conversar. Já entendi que vocês dois têm um caso, e já disse que não tem problema. Podem continuar....- ele parecia realmente triste. Um coração partido. Mas não estava raivoso como ontem. Era um sinal bom.

– Esse é o ponto Danilo. — falei, me levantando de pé. Respirei fundo para me acalmar – Nós não temos um caso. Você poderia sentar e me escutar um pouco?

A contragosto, Danilo concordou e sentou, no mesmo sofá que Júlio, mas deixando um espaço grande entre eles. Continuei de pé em frente a eles e comecei minha explicação:

– Danilo, você é o meu melhor amigo. Sinto que tenha confundido as coisas entre nós, mas para mim é isso. Somos apenas amigos, e gostaria de continuar sendo. Você é muito importante pra mim, muito especial e não queria que ficasse bravo comigo ou com seu irmão Júlio. — fiz uma pausa. O jeito que eu estava levando a conversa dava a entender que eu e Júlio tínhamos um relacionamento sim – Eu e Júlio não temos nada um com o outro. Nós nos beijamos sim na floresta, mas foi no calor do momento. Estávamos sozinhos, próximos um ao outro, e com os nervos a flor da pele. Não conseguimos controlar. E também nem fazíamos ideia do que você sente por mim. Se soubéssemos, aquilo nunca haveria acontecido.

– Eu lhe perguntei uma vez. – me interrompeu Júlio, se dirigindo também para Danilo. – E você disse que não sentia nada por Liss, nada além de amizade. E eu acreditei em você. Como poderia imaginar que você estava mentindo? Mas me sinto mal por não ter suspeitado. Queria que entendesse meu lado. Você é meu irmão eu nunca faria isso com você se soubesse.

– Tá eu errei também. Eu admito. Mas você Liss, deveria ter me contado depois que eu tentei te beijar. Tinha que ter dito que você tinha beijado o Júlio.

– Eu sempre gostei de sinceridade. Mas se eu dissesse naquele momento para você que eu e Júlio havíamos nos beijado, como você reagiria? Do mesmo jeito que esta agindo agora. Tentei evitar que você sofresse.

– Não importa mais. Já passou – Danilo parecia ter entendido o nosso lado. Ele era um cara legal. Não ia negar a razão.

– É o que eu acho também. — falei – Vamos esquecer isso. Vocês não tem ideia o quanto me faz mal ver vocês dois desse jeito. Sempre admirei a amizade de vocês, o companheirismo, nunca tinha visto irmãos assim. E agora me sinto culpada por isso ter acabado. Queria que entendessem que eu gosto muito dos dois. Vocês são meus amigos, e eu me importo muito com vocês. Mas não conseguiria ter nada romântico com nenhum dos dois. Só quero as suas amizades. E queria que vocês se acertassem também. Nós precisamos estar juntos e unidos, como uma grande família. Não consigo ver vocês dois separados...

– Não se culpe Liss. Isso não é culpa sua – Júlio estava tenso com toda aquela conversa sobre sentimentos e tal. Ele não estava muito acostumado a se abrir com os outros. — Foi um grande mal entendido. — Júlio levantou de pé e foi para perto de Danilo, ele parecia frágil de mais. O mais frágil de nós três naquele momento. – Me desculpe Danilo. Por tudo.

Danilo se levantou também e olhou nos olhos do irmão pra responder:

–Você não tem do que se desculpar, Júlio. Eu que fui um babaca.

–A paixão enlouquece as pessoas. Eu entendo – Júlio comentou soando reflexivo e estranho para ele.

Os dois irmão se abraçaram em um longo e apertado abraço, batendo nas costas um do outro. Fiquei assistindo feliz. As coisas estavam resolvidas. Era um problema a menos para nós.

Eu poderia dormir sossegada essa noite. Sem esse peso na consciência.