A Missão

49 Capítulo 32


Acordei zonza, sem conseguir enxergar direito. Era como nas vezes que acordava depois do exercício da câmera de gás. Sem conseguir pensar claramente, com todo o corpo doendo e o mundo ao meu redor girando.

Mexi minhas pernas, e meus braços, para checar se estavam normais e felizmente eles estavam inteiros. Olhei pra onde estava. Júlio tinha conseguido pousar o avião. Não perfeitamente, mas o suficiente para que permanecêssemos vivos.

Bem, eu estava viva e ele tinha que estar também. Não era possível que não estivesse. Olhei para ele no banco a minha frente e chamei seu nome, nenhuma resposta. Me desesperei e soltei meu cinto tentando sair dos escombros o mais rápido possível. Os vidros da janela do avião haviam se quebrado, assim como a carcaça que havia entortado em várias partes. Era uma grande sorte o avião não ter pegado fogo e explodido também. Mas isso ainda podia acontecer, tinha que ver se Júlio ainda estava vivo e tirá-lo dali.

Consegui sair do meu lugar e fui para o lado dele, que estava tombado no banco, mas com o cinto. Sua cabeça era puro sangue, resultado de um ferimento enorme na testa. Coloquei meus dedos em seu pescoço para sentir os batimentos, ele ainda estava vivo. Foi um alívio.

O certo era não mexê-lo. Ele poderia ter alguma fratura na coluna e mexê-lo poderia piorar ainda mais. Mas eu não tinha escolha. O avião podia explodir a qualquer momento. Tinha que tirá-lo dali.

Soltei o cinto e tentei acordá-lo, chamando seu nome e batendo em seu corpo, mas nada adiantou. Eu não era forte o suficiente para erguê-lo. Minha única alternativa era arrastá-lo. Como todos os vidros haviam se quebrado, subi no bico do avião e usei o máximo da minha força para puxá-lo para cima. Em seguida desci da capota do avião. Meus pés não encontraram um chão firme e me dei conta do porque não havíamos morrido: Júlio havia conseguido pousar o avião na água. Por isso o impacto não tinha sido capaz de despedaçar o avião e nos fazer morrer, talvez isso, também, tivesse evitado que o avião pegasse fogo.

Fiquei feliz por estar em um rio. É mais fácil carregar alguém na água do que em solo firme. A margem não era muito longe, uns 5 metros do avião. Voltei para cima do bico do avião e empurrei Júlio pra baixo, caindo na água. Me joguei em seguida e agarrei o seu corpo que já estava afundando. Então comecei a nadar. Com um braço eu o segurava e com o outro eu dava braçadas.

O treinamento no quartel havia me preparado para situações como aquela. O próprio Júlio havia ensinado nas aulas de primeiros socorros, a carregar alguém que tinha se afogado, e a situação era parecida. Também tínhamos treinado natação, o que tornou possível que eu nadasse e o carregasse até a margem.

Quando alcançamos o chão firme, carregá-lo ficou mais difícil. Ele devia ter o dobro do meu peso. Não conseguiria erguê-lo. A única maneira foi pegá-lo pelos braços e arrastá-lo pelo chão. Aquilo iria machucá-lo um pouco mais, mas era a única opção.

Encostei Júlio sentado num tronco de árvore, e sentei ao seu lado. Recuperando as forças. Logo que me senti um pouco melhor, olhei para ele, tentando ver o que podia fazer.

Verifiquei sua pulsação e continuava normal. Era um alívio. Ele estava vivo e ficaria bem. Daqui a pouco acordaria. Ele tinha salvado nós dois, tinha que acordar logo e bem. Seu corte no rosto, perto da sobrancelha não parava de verter sangue. Era um corte fundo e seria preciso alguns pontos. Mas não tínhamos nada ali disponível, e eu precisava estancar o sangue.

Pensei em cortar um pedaço da minha farda, mas me lembrei que Júlio havia trazido uma mochila. Quem sabe o que poderia haver dentro dela? Talvez alguma coisa que ajudasse a tratar o ferimento. Eu tinha que buscar e ver.

Deixei Júlio na floresta e voltei para o rio, agora nadando com mais facilidade. Entrei no avião e encontrei a mochila. Peguei-a e coloquei nos ombros, voltando para onde estava Júlio.

Abrindo a mochila encontrei principalmente comida e água, tinha alguns panos também enrolados nos potes de comida, além de papel e caneta, dois cadernos e uma câmera fotográfica. Peguei um dos panos, e pressionei contra a testa de Júlio, para estancar o sangramento.

Depois de um tempo não estava saindo tanto sangue. Molhei outro pano na água do rio, para economizar a que tínhamos para beber, e comecei a passar em seu rosto, limpando todo o sangue que estava coagulado ali. Enquanto limpava, não pude deixar de reparar em como Júlio parecia tão diferente de como eu costumava o ver. Parecia até outra pessoa. Não tinha mais a expressão séria, os olhos negros. Era um menino relaxado dormindo. Muito parecido com Danilo. As expressões de seu rosto estavam relaxadas e tranquilas, e ele parecia muito mais novo. Quantos anos Júlio devia ter? Ele já era sargento, mas seu rosto aparentava que ele era jovem. Na casa dos 20 anos talvez.

Passava o pano, reparando bem em cada traço de seu rosto, tocando delicadamente, enquanto tirava todo o sangue e deixava o rosto dele limpo e bonito novamente. Foi quando de repente ele abriu os olhos. Levei um susto e parei de limpá-lo. Fiquei parada com o rosto em sua frente e acabei sendo a primeira coisa que ele viu. Ele ficou fitando meus olhos por alguns instantes, e eu hipnotizada e feliz por vê-lo acordar, também permaneci ali, o encarando e com o pano em seu rosto. Por fim me afastei e deixei-o perceber onde estávamos.

– Liss... — Júlio tentou começar a se levantar. Sua voz era mais fraca que o comum, aquilo era o mais frágil que eu o vira até hoje. Fiquei preocupada com que estivesse gravemente ferido.

– Shhhh.... — empurrei ele para trás, para que se sentasse de novo. Tentei soar calma e confortá-lo — Você conseguiu, pousou o avião e nos manteve vivos. Agora fique aí quietinho. Deve estar todo machucado.

Ele não disse nada e acatou minhas ordens. Sentou-se de novo. Quando encostou a cabeça na árvore, levou a mão rapidamente a ela, devia ter batido a cabeça com força também:

– Sua cabeça está machucada? — me aproximei mais dele.

– Um pouco dolorida. Só. Devo ter batido com força. — sua voz saiu um pouco mais forte dessa vez, mas ainda não o normal.

– Você tem um corte profundo na testa também, perto da sobrancelha. — eu disse e ele rapidamente colocou a mão na testa procurando o corte. — Tire a mão daí, vai começar a sangrar de novo. Ou você pode pegar uma infeção. Deixe eu terminar de limpar o seu rosto.

– Tudo bem — ele concordou e se recostou na árvore, parecendo cansado.

Me aproximei e fiquei bem de frente pra ele, com nossos rostos a centímetros, para poder enxergá-lo. Podia sentir sua respiração em meu rosto, enquanto passava o pano delicadamente nele. Eu olhava somente para a onde limpava, sem coragem de olhar diretamente para seus olhos, com nós dois tão próximos um do outro. Mesmo assim sentia que seus olhos estavam fitando os meus, atentamente, como se quisesse que eu o olhasse diretamente.

– E como você está? — ele perguntou baixo para mim.

– Estou bem. — lhe assegurei, e continuei.

Depois que o pano estava todo vermelho de sangue, fui até o rio e o enxaguei. Júlio continuava me observando, cada passo que eu dava. Me sentia um pouco constrangida com isso, mas tentei manter-me natural. Quando voltei ele continuou com a conversa:

– Se machucou? — ele parecia realmente preocupado. Seus olhos varreram todo o meu corpo em busca de algum ferimento.

– Não. Só bati a cabeça com força, como você, mas estou bem. Sem nenhum arranhão. — Ele arqueou as sobrancelhas e pegou meus braços, mostrando o que eu não havia visto ainda. Estava cheia de pequenos cortes. — Deve ter sido os pedaços de vidro que quebraram e saltaram.- expliquei- Meu rosto também tá arranhado?- os cacos de vidro deviam ter saltado por todo os lados quando o avião bateu no chão. Devia ter sido um caco de vidro maior que fez aquele corte em sua testa.

– Um pouco. — ele puxou o pano da minha mão — Com licença — Júlio segurou firme meu queixo, com sua mão quente e começou a passar o pano no meu rosto, como eu estava fazendo nele. Limpando meus pequenos cortes. Ele era delicado como eu, com a única diferença que ficava olhando pros meus olhos e não para meu sangue. Senti uma sensação estranha que não saberia descrever. Eu estava feliz por ele estar ali comigo e fiquei o olhando também. Não podia nem imaginar como seria se ele tivesse morrido. Era bom que estivesse ali vivo, com suas mãos quentes e seus olhos cheios de vida, cuidando de mim. Depois de um tempo ele terminou, então largou o pano, mas não soltou meu queixo. Ele deu uma olhada pro avião, caído a alguns metros e se deu conta — Como eu vim parar aqui?

– Eu acordei e te tirei do avião. — era a verdade.

– Mas... eu sou muito mais pesado que você. Como você conseguiu? — ele pareceu surpreso. Soltou meu queixo e permitiu que me afastasse um pouco.

Pensei em como eu havia conseguido tirá-lo de lá. As lembranças pareciam distantes em minha cabeça, como se tivesse acontecido a meses ou anos atrás. Não sei se teria sido capaz de fazer aquilo de novo, o jato de adrenalina tinha me ajudado.

– Usei toda a minha força pra te puxar de dentro do avião.- forcei minha mente para explicar — Depois a sorte foi estarmos na água, te joguei nela, e nadei com você. — Vi seus olhos admirados me olhando e tentei explicar — Lembra? Você ensinou isso nas aulas de primeiros socorros. — ele deu um leve sorriso e fez que sim com a cabeça — Aí, aqui na terra, tive que te arrastar. Isso pode ter te machucado um pouco, mas era única coisa que eu podia fazer. Desculpe.

Júlio continuava me olhando admirado, com um leve sorriso no rosto:

– Tudo bem, Liss. Você foi inacreditável. Obrigado.

Ele parecia muito mais gentil que normalmente. Não havia nenhum resquício da sua seriedade e arrogância típica. Será que a batida na cabeça o tinha afetado um pouco?

– Você consegue se levantar de pé e caminhar?- perguntei, e o ajudei a levantar.

Júlio ficou de pé, sem muitas dificuldades, mas quando foi caminhar, soltou um gemido de dor:

– Ai! — vendo que eu o olhava atentamente, apressou-se em explicar — Acho que torci o pé na queda. — ele sentou de novo.

– Deixe eu ver.- pedi, sentando-me ao lado dele.

– Não precisa. Não tem nada que você possa fazer. — ele tirou o calçado e deu uma olhada no pé, estava inchado, mas só. Ele estava certo, eu não podia fazer nada mesmo. — Nós temos que voltar para o quartel.

– Pera ai, você não vai conseguir caminhar com o pé desse jeito. Vamos ficar mais um pouco aqui. Você deve estar cansado e seu pé precisa melhorar. Temos um pouco de comida na sua mochila, vamos comer antes de mais nada.

– Não. Eu consigo. — porque ele tinha que ser tão teimoso? Não podia atender meu pedido e ficar parado mais uns minutos? Por mais que se achasse, ele não era o super-homem. Era um cara humano como qualquer outro e estava machucado.

– Júlio você sabe para qual lado é o quartel? — Ele pensou bem, olhou para todos os lados e percebeu o que eu queria dizer, estávamos perdidos. Nem ele sendo bom em tudo, saberia uma coisa dessas. — Vamos ficar aqui, nos recuperar e pensar como poderemos seguir caminho. Ok? — minha voz não deixava dúvidas de que ele não tinha outra escolha se não aceitar minha proposta.

– Tudo bem — ele concordou e voltou a sentar.

Peguei a mochila e sentei na frente dele, tirando todas as coisas de dentro.

– Pra que você trouxe essas coisas?- apontei pra tudo que eu havia tirado e que estava no chão.

– Não sabia quanto tempo íamos ficar no avião. Talvez o dia inteiro, dependo do tamanho da floresta. Por isso trouxe comida e água. — ele explicou — Esses papéis eram pra fazer anotações do que encontrássemos no fim da floresta e a câmera era para tirar foto.

Peguei um dos potes de comida, e um dos cantil de água e entreguei para ele. Peguei outros para mim e começamos a comer em silêncio. Quando havíamos acabado, resolvi passar para o próximo problema:

– Como vamos conseguir sair daqui?

Júlio pensou um pouco, olhou para o céu e depois pra mim com o rosto cansado:

–Eu tava pensando sobre isso... — começou — Mas não tive nenhuma ideia boa. Não tenho nem ideia para qual direção o quartel fica. Eu sei que andamos com o avião sempre a oeste, então se soubéssemos as direções, poderíamos seguir para leste.

– E não tem uma maneira de descobrirmos quais as direções? -soei esperançosa.

– Até tem. Mas não agora. O sol está bem em cima das nossas cabeças, sinal de que é meio-dia. Se esperarmos até o pôr-do-sol, saberemos a onde ele se põem, que é sempre a oeste. Então, é só seguirmos na direção contrária, para leste. E a noite também teremos a constelação do Cruzeiro do Sul nos apontando a direção correta. — o jeito como ele falou parecia que tudo aquilo era óbvio e simples, mas não a melhor escolha para ele. Júlio não estava, nem um pouco a fim de esperar até o sol se pôr.

– Me parece uma ideia boa. -argumentei — Pelo menos é a única que temos. Vamos esperar.

– Não sei se deveríamos esperar até o pôr-do-sol. Não é bom caminhar pela floresta de noite. — ele contra-argumentou, o tom autoritário estava querendo voltar.

– Que outra opção temos? — não ia deixar que ele fizesse o que queria. Ali ele não tava como sargento, eramos pessoas iguais e não podia me mandar. — Não sabemos para a onde ir e você está com o pé machucado. E ainda se ficarmos aqui perto do avião, quem sabe o quartel não perceba o que aconteceu e venha nos buscar.

– Acho muito difícil. — ele disse amargamente. — Você contou para alguém o que ia fazer hoje?

– Não.

– O único que sabe então, é o outro líder do grupo, e não acho que ele vá se importar ou sentir minha falta tão cedo. Estamos sozinhos nessa.

Eu queria ter esperanças de que alguém perceberia o que tinha acontecido e viesse nos resgatar. Mas sabia que ele tinha razão, estávamos sozinhos nessa.

– Ta. — tentei pensar na melhor opção — Mas vamos esperar até anoitecer e ponto. — minha irritação começou e minha voz saiu alta e brava. Júlio se espantou com minha atitude e olhou confuso para mim. Quando percebeu que eu falava sério, desistiu de insistir para que fossemos embora naquele instante e acabou concordando.

Permanecemos calados por um tempo. Fiquei relembrando tudo desde um pouco antes do acidente até ali. Eu tinha muitas perguntas para fazer para ele quando o avião começou a dar problemas. Agora estávamos ali sem fazer nada, esperando a noite chegar. Achei que era uma boa ideia voltar com elas.

– Júlio? — chamei. E fui me sentar mais perto dele, em sua frente.

– Sim? — ele estava olhando para o céu, com os olhos fixos e os pensamentos longe. Quando escutou seu nome, olhou rapidamente para mim.

– Antes do avião começar a cair eu tinha algumas perguntas que queria te fazer. Acho que é uma boa hora pra fazê-las. — olhei para ele e ele olhava para mim, esperando as perguntas. Tentei começar com uma pergunta mais fácil — Porque naquele bilhete você assinou como JC?

Ele riu da grande pergunta que eu queria fazer, mas respondeu com paciência:

– É as iniciais do meu nome: Júlio César Anthoni. Que mais você quer saber?

– Não sabia que seu nome era Júlio César. — não sei porque eu estava impressionada com aquilo. Havia tantas coisas que eu não sabia sobre ele.

– Eu não gosto muito de Júlio César, então sempre me apresento como Júlio. — ele continuava calmo e olhando pra mim.

– Júlio César é tão bonito. — pensei alto — É um nome forte e de personalidade. O nome de um antigo imperador. Acho que combina contigo. — sorri pra ele, com minhas conclusões pensadas em voz alta. Por que ele tinha aquele efeito sobre mim? Sempre que eu estava com ele, acabava dizendo coisas bobas, sem pensar direito.

– Obrigado — ele agradeceu com um sorriso torto e lindo.

Pensei na próxima pergunta. Já tinha visto que ele não estava brabo comigo, então podia começar a perguntar o que realmente me interessava:

– Sobre a missão que você falou. — comecei, tentando achar as palavras certas — Eu fiquei pensando... — ele me olhava esperando a continuação e eu revirava meu cérebro em busca de como dizer aquilo — Você teria alguma coisa a ver com terem me chamado pra ser guarda pessoal de Margareth? Tipo, você mexeu alguns pauzinhos pra eu ser a escolhida, pra poder ajudar vocês?

– Não. Na verdade sabíamos que eles estavam procurando alguém com o seu perfil para trabalhar no palácio, mas achamos que era em um cargo menor. Até tentamos interferir nisso, fazendo com que você fosse a escolhida. Já que tínhamos a intenção de lhe convidar para participar da Missão. Mas nunca imaginamos que você seria chamada para ser a guarda pessoal de Margareth. Isso foi mérito seu. — ele se mexeu, sentando melhor — A governante realmente gostou de você. — Ele deu de ombros. Eu não tinha o que dizer com aquilo, ainda parecia estranho para mim Margareth ter me escolhido para ser sua guarda. — Mas depois que soubemos, não pudemos deixar de comemorar. É uma oportunidade perfeita. Tudo está conspirando a nosso favor. — concluiu Júlio, todo empolgado.

– Ta, mas e porquê eu? Isso que eu não entendo. — disse desesperada, aquilo já estava me cansando e me deixando maluca sem conseguir uma resposta boa o suficiente.

– Por que quisemos você no nosso grupo ou por que Margareth te escolheu? — ele tentava me compreender, mas essa era uma tarefa difícil. Nem eu conseguia.

– Os dois. — baixei a cabeça. Meu estado tava péssimo, queria saber muito sobre isso. Entender tudo. Mas esse assunto, por algum motivo, me chateava.

– Sobre Margareth ter te escolhido já falamos sobre isso. Ela queria uma menina jovem, bonita e que tivesse ido bem no treinamento. Você preencheu todos esses requisitos e deve tê-la conquistado de algum outro jeito também. — eu levantei a cabeça para olhar para ele que parecia preocupado comigo, inclinado para poder ver meu rosto que estava abaixado. Ele pareceu sem jeito de ter sido pego daquele jeito e logo recobrou a compostura e prosseguiu — E o motivo de querer você em nosso grupo é um pouco mais complicado. É uma história longa, mas temos tempo se quiser ouvir.

Fiz que sim com cabeça e sentei cruzando as pernas, enquanto esperava ele começar.

– Eu e o Cadeado, é assim que eu chamo o outro líder, nos conhecemos a mais de um ano no quartel e acabamos nos tornando amigos. Nossas opiniões divergem em muitas coisas, mas acabamos encontrando uma coisa em comum: nós dois não achamos certo o modo como o governo age. Depois de muitas conversas sobre isso, de como seria a melhor maneira de governar um país, acabamos chegando a conclusão que deveríamos fazer alguma coisa. Não podíamos ficar quietos, vendo os governantes agindo daquele jeito. — na hora me identifiquei com os dois. Foi o mesmo motivo que me fez participar do grupo deles, querer mudar o país. — Começamos a pensar sobre isso e fazer alguns planos. Concluímos que precisávamos de pessoas para nos ajudar nessa tarefa. E essas pessoas deveriam ser de vários lugares de Tazur, e diferentes entre sim. Porque quando assumirmos o governo, teremos todas as parcelas da sociedade representadas dentro de nosso grupo, e poderemos ver as necessidades de cada uma e melhorá-las. — Júlio não olhava mais pra mim, estava perdido em suas lembranças e tinha aquela chama revolucionária no olhar — Então eu e Cadeado começamos a usar as influências que temos para procurar pessoas diferentes entre si e que sejam a favor de uma nova forma de governo. Explicamos pra elas quem somos e o que fazemos e perguntamos se nos apoiariam. Exatamente como eu fiz com você quando te contei. Essas pessoas iram no ajudar a completar a missão e depois governar Tazur da melhor forma possível.

Era a primeira vez que ele me mencionava na história toda, mas aquilo não respondia a minha pergunta. Eu queria saber porque tinha sido chamada.

– Algumas pessoas que iam fazer 18 anos, nós dávamos um jeito de serem designadas para o quartel. Assim ficariam mais perto de nós, poderíamos conversar melhor, e também mais perto do governo. Foi isso o que aconteceu com você quando a escolhemos. Fizemos com que fosse mandada para o quartel, para que pudesse fazer parte da Missão com mais facilidade — Júlio levantou a cabeça e me olhou nos olhos.

As palavras dele ficaram suspensas no ar, enquanto eu tentava entender. Eles tinham dado um jeito de eu ser designada para o quartel. Eu estava surpresa com aquilo. Desde antes da minha designação ele já achavam que eu faria parte do grupo deles e ajudaria a derrubar o governo. Mas como eles sabiam que eu ia concordar com eles? Como poderiam ter tanta certeza?

Outra coisa me passou pela cabeça. No começo eu não me sentia adequada ao quartel, achava que tinha ocorrido algum engano nisso. Aí estava a resposta. De certa forma era um engano sim. Tinham manipulado a minha designação e me feito vir para o quartel por interesses específicos. Essa não era pra ser minha designação original.

Tudo aquilo que eu tinha passado ali dentro, todos os treinamentos, os sofrimentos, as torturas, o sentimento de ser diferente de todos. Era tudo culpa de Júlio e do seu colega. Eles tinham me feito entrar ali.

– Liss, você está bem? — Júlio tava preocupado comigo, depois de tudo que tinha me feito passar, isso era irônico. Ele veio vindo para o meu lado, mas eu não queria ele perto de mim. Ele tinha mudado a minha vida inteira!

– Eu só quero ficar um pouco sozinha. — falei pra ele e sai, sentando- me bem longe dele e de frente pro rio.

Tentava colocar minha cabeça em ordem. Qual teria sido minha designação se ninguém tivesse interferido? Será que eu estaria em minha cidade? Com meus pais? Ou onde mais eu poderia estar agora? Fazendo o que?

Não era pra mim estar aqui. Presa em uma floresta, depois de um acidente de avião. Não era pra mim ser a guarda pessoa de um dos governantes. Não era nem pra mim conhecê-los e saber as barbaridades que fazem.

Se tudo tivesse sido como era pra ser, eu estaria numa boa, sem esse sentimento de nojo pelo meu país e por quem me governa. Nunca saberia de nada.

Mas e aí o que adiantaria? Aquilo continuaria acontecendo comigo sabendo ou não. E agora eu sabia e tinha a oportunidade de mudar. Podia lutar por um país melhor.

Tinha ganho essa possibilidade. Talvez não tivesse sido tão ruim assim ter vindo pro quartel. Pensei nos amigos que fiz, nas coisas que aprendi, nos momentos felizes que vivi. É! Quem sabe se não era esse mesmo o meu destino. Pode ser que fosse pra Júlio mudar minha designação e tudo acontecer como aconteceu e eu estar aqui hoje.

Não podia ficar brava com ele. Júlio tinha me dado uma chance. Uma grande chance, de fazer minha vida valer a pena e lutar pelo resto da humanidade.

Levantei do meu lugar e sentei mais perto dele. Ele apenas me olhava com o rosto triste. E eu não estava a fim de conversar ainda. Então permanecemos calados até o sol começar a descer.

Notas finais
Bom, espero que tenham gostado e que algumas coisas tenham sido esclarecidas. Próximo capítulo é o que muita gente estava esperando, e garanto que irão gostar do que vai acontecer.