A Missão
31 Capítulo 20
Júlio me deu um leve empurrãozinho quando eu passei pela porta e em seguida passou a minha frente, me guiando para o local onde eu teria que ir.
Resolvi arriscar e tentar descobrir se minhas conclusões estavam certas.
– É uma coisa muito ruim, não é? — falei em tom baixo, mas o suficiente para que ouvisse. Ele não respondeu, apenas continuou andando um passo a minha frente. Acelerei meus passos e o segurei pelo braço, fazendo com que olhasse para mim e me respondesse — Esse vai ser o pior exercício que já enfrentamos até hoje. Estou certa, não estou?
– Sim, está. — foi o que ele simplesmente respondeu, desviando seu olhar do meu e seguindo o caminho.
– Imaginei isso. — falei simplesmente, dei um suspiro e segui em frente, eu enfrentaria esse exercício como qualquer outro. Não poderia ser tão horrível assim.
Entramos em um corredor longo e sem saída, sinal que nosso destino estava perto. Júlio diminuiu o ritmo dos seus passos e começou a andar lado a lado comigo.
– Não sei como lhe descrever a prova que você irá enfrentar. É melhor que veja com os próprios olhos e tire as suas conclusões. É uma prova nada fácil, exige muito de todos e não tem uma maneira certa de superá-la. Mas tentando ver pelo lado bom, é a prova mais difícil que irão enfrentar aqui, depois que passar por ela, tudo fica mais fácil.
– Certo — concordei. Ele me assustava cada vez mais. Eu não podia pensar muito agora, tinha que manter a cabeça no lugar.
Ele parou em frente a última porta do corredor e colocou a mão na maçaneta. Antes de abri-la, porém, olhou para mim:
– Liss, não importa o que aconteça aqui dentro, não diga nada sobre sua família para Alexandre. Nada mesmo. A segurança deles depende de você manter a boca fechada.
Era impossível controlar meu coração e minhas emoções. Como assim eu não poderia dizer nada sobre minha família? Eles estavam correndo perigo? E porque Alexandre teria interesse neles?
Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, Júlio abriu a porta e fez sinal para que eu entrasse.
Entrei e me deparei com uma sala pouquíssimo iluminada, com algumas macas metálicas no meio da sala, um tanque cheio de água em um canto e outros equipamentos que não consegui distinguir o que eram. A impressão que aquela sala passava era macabra, digna de um filme de terror.
Fiquei perto da porta, olhando aterrorizada para tudo e tentando entender. Mas antes que eu pudesse chegar a qualquer conclusão, Júlio veio para perto de mim e pediu que eu sentasse em uma daquelas macas.
Eu sentei e vi que Alexandre estava por lá também, perto do canto onde tinha o tanque cheio de água. Ele digitava algumas coisas em um computador.
Júlio foi até uma mesa pegou alguma coisa, que não pude ver o que era e veio para onde eu estava:
– Estenda as mãos. — ordenou, com uma voz mortal, que chegou a me dar mais medo ainda.
Estendi as mãos e ele as prendeu em uma espécie de algema de metal. Aquilo não fazia sentido, olhei para ele tentando entender o porque de prender minhas mãos, mas ele não reparou. Estava olhando para outro lugar.
– O que é isso? — perguntei.
– Fique quieta. E faça somente o que eu disser, sem perguntas. — sua voz foi bem hostil comigo. O que estava acontecendo ali? Me senti apavorada. Havia alguma coisa errada. Depois me lembrei que eu devia confiar em Julio, ele tinha sido meu professor e já me havia me ajudado bastante também. Ele sabia o que fazia. E nunca havia me decepcionado. Resolvi escutá-lo mais uma vez e fiquei quieta, fazendo o que ele mandava.
Ele prendeu meus braços para trás e algemou meus pés também. Depois disso veio com uma venda e tapou meus olhos. Já havia concluído que a tarefa seria eu conseguir me soltar, quando senti que alguém me empurrava para frente.
Como eu estava com os pés presos, não conseguia andar, então fui pulando, enquanto a pessoa continuava me empurrando. Em certo momento fui empurrada forte demais e não conseguindo manter o equilíbrio, cai de lado no chão.
A pessoa, me puxou agressivamente do chão, e fez com que eu levantasse e prosseguisse andando. Não podia ser Júlio quem fazia aquilo. Ele era rude, mas não capaz de agir daquele jeito.
– O que está acontecendo? — gritei apavorada, na esperança que alguém me dissesse.
– Cale a boca pirralha. — reconheci a voz de Alexandre — Se você não ficar bem quietinha e comportada eu te mato.
Não, não, ele não iria me matar mesmo. Ou iria? Era Alexandre? Eu tinha certeza? Poderia estar confundindo a sua voz. Tudo isso fazia parte do exercício? E onde estava Júlio?
Alexandre me empurrou para o chão, dessa vez para que eu caísse mesmo, e não pude impedir que isso acontecesse. O lado direito do meu quadril e o meu braço bateram com força em alguma coisa dura. A onda de dor, me fez pensar se eu não estava sangrando.
– Vou te perguntar uma coisa e quero que você me responda. — gritou Alexandre com uma voz raivosa. — Qual o nome de seus pais?
Meu tombo no chão e a dor latejante em meu braço e quadril fizeram com que a adrenalina me atingisse e eu conseguisse pensar claramente de novo. Júlio tinha dito para mim não dizer, de jeito nenhum, nada sobre minha família. Era a segurança deles que estava em jogo.
Como fiquei quieta, apenas tentando escutar os sons a minha volta, tentando uma maneira de fugir daquilo, Alexandre me ergueu pelos cabelos, fazendo com que eu gritasse de dor.
– Não vai dizer? Tudo bem então.
Então ele apertou firme o topo da minha cabeça, empurrando-a para baixo. Quando percebi estava sendo submersa em água. Prendi a respiração logo que entendi o que estava acontecendo.
Mas ele segurou minha cabeça lá em baixo e eu não era mais capaz de continuar sem respirar. Meus pulmões automaticamente buscaram o ar, mas só encontraram a água, que entrou pelo meu nariz e o fez queimar. Eu soltei o resto de ar que tinha guardado e senti as bolhas subindo até a superfície.
Eu precisava de ar, precisava respirar. Estava me afogando e a sensação não era nada boa.
Alexandre puxou minha cabeça para cima, agarrando meus cabelos e tirou a venda em meus olhos. Encontrei o ar novamente e respirei rápido e pesadamente enquanto era obrigada a virar a cabeça apara encará-lo.
– Vou perguntar de novo: qual o nome de seus pais?
– Não vou dizer. — eu rugi entre os dentes. Minha voz e minhas palavras não saíram muito claras, mas ele entendeu, pois logo abaixou minha cabeça para a água novamente.
Forcei meu corpo a manter-se o mais parado possível, sem buscar o ar. Eu teria que aguentar. O problema é que eu era humana e por mais que quisesse, não conseguia me esquivar da busca pelo oxigênio por muito tempo.
Eu era forte. Ia resistir ao máximo possível. Não podia arriscar a vida dos meus pais. Eles estavam seguros por enquanto. Minha mãe deveria estar, nesse instante, fazendo o que mais gostava: dando aula em uma escola primária. E meu pai deveria estar conversando com seus colegas de serviço enquanto trabalhava na fábrica.
Eu já estava acostumada com o sofrimento, desde que vim para o quartel, não tinha feito outra coisa. Sempre indo até os meus limites e um pouco além. Era isso que continuaria fazendo. Se dependesse de mim, meus pais continuaram normalmente com suas vidas tranquilas, sem perigo algum.
Os pensamentos começaram a sumir, eu não era mais capaz de ficar sem respirar. Mas não podia me afogar e morrer sem lutar. Comecei a usar a força para me empurrar para cima, para conseguir tirar minha cabeça do tanque d'água. Isso foi inútil, Alexandre era muito mais forte do que eu. E meus braços e pernas estavam amarrados. O jeito era continuar forçando minha cabeça a se erguer.
Então eu consegui, minha cabeça saiu de dentro da água, mas não foi por mérito meu. Alexandre é quem havia a puxado, insistindo para que eu falasse sobre meus pais:
– Acho que você esqueceu o nome dos seus familiares. Então vamos para outra pergunta: no que eles trabalham?
Enquanto tossia, expulsando a água que estava entrando em meus pulmões tive a ideia de mentir. Mas logo descartei essa hipótese. A mentira sempre era ruim, e poderia trazer consequências muito piores depois.
– Em nada que seja da tua conta. — não sei como eu tive coragem de dizer essas palavras. Certo que elas não saíram com tanta raiva como deveriam, devido ao meu ataque de tosse e a minha garganta que ardia, mas as palavras haviam sido ditas.
–Ah é! Vamos ver se continua tão corajosa assim. — e me empurrou para o tanque de água de novo, fazendo com que meu nariz encostasse no fundo. Meu corpo inteiro estava submerso agora, só a ponta dos meus pés que não.
Automaticamente minha garganta se fechou, impossibilitando que a água entrasse, mas após uns instantes meu nariz quis buscar por ar e acabou sugando a água, fazendo com que eu me afogasse ainda mais.
Não havia mais jeito. Eu não ia revelar informação nenhuma. O jeito seria admitir que iria morrer e pronto. Talvez fosse mais fácil dessa maneira.
Parei de lutar e relaxei. Queria morrer e ponto. Rapidamente comecei a pensar cada vez mais devagar, o último pensamento que me lembro foi mais um desejo: "espero que vocês fiquem bem mãe e pai."
Só que aquilo não foi o fim. Meus pulmões novamente encontraram o ar e o meu corpo voltou a funcionar. Automaticamente eu cuspia a água que vinha até a minha garganta. Todo meu sistema respiratório ardia. Cada tragada de ar, era como se passasse um monte de espinhos pelo meu nariz e fossem até os meus pulmões ficando lá espetando.
– Vou perguntar pela última vez — Alexandre puxou forte meu cabelo, fazendo com que me virasse para ele e olhasse dentro dos seus olhos. Tive que trincar os dentes pra não gritar de dor. — Qual a profissão dos seus pais? — eu não queria morrer, mas também não queria revelar isso — Me diga se não é o seu fim.
O que meus pais iriam querer que eu fizesse? Com certeza preferiam que eu ficasse viva e não me preocupasse com eles. Mesmo com a minha morte, eles seriam capazes de descobrir o nome e a profissão dos meus pais. Se eu contasse agora e permanecesse viva, talvez tivesse a chance de protegê-los.
– Minha mãe... — eu ainda buscava o ar, que ardia muito ao entrar — minha mãe é professora e meu pai trabalha nas fábricas.
Alexandre deu um risinho contido e soltou meus cabelos molhados. Em seguida ele pegou alguma coisa em seu bolso. Achei que fosse um revólver para me atirar, mas era uma chave que ele usou para abrir minhas algemas.
– Pode ir — apontou com a cabeça para uma porta ao lado. Sem pensar duas vezes, guiada pelo instinto de sobrevivência, corri em direção a ela e girando a maçaneta me joguei para dentro.
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