A Missão
25 Capítulo 16
Notas iniciais
Havia chegado o tão temido dia, hoje a tarde teríamos o primeiro treinamento com a câmera de gás. Durante o almoço todos pareciam preocupados:
– Dani, você sabe se tem alguma técnica para conseguir suportar o gás? — Eric parecia o mais assustado de nós todos. Ele estava suando e suas mãos tremendo, sem contar a cara de apavorado.
– Que eu saiba não. Pelo menos o Julio nunca me falou nada. — Danilo também não parecia tão bem como os outros dias. Ele não tinha feito nenhuma piadinha ainda, enquanto almoçávamos, e tinha uma ruguinha de preocupação entre suas sobrancelhas.
– Acho que deve ser pura sorte — A Carol não havia conseguido comer nada, seu prato de macarrão ainda estava intocado. E ela olhava para frente, viajando até o mundo da lua.
– O que acontece se não resistirmos? — eu perguntei. Essa questão estava me tirando o sono a dias. Teríamos que conseguir ficar bem na câmera de gás de qualquer jeito? E se falhássemos? Como ninguém sabia a resposta, fiz mais uma das perguntas que me atormentava — Vocês acham que o gás pode ser venenoso?
Eric me olhou com os olhos arregalados, começando a tremer mais do que antes. Eu não deveria ter feito essa pergunta. Ela só deixaria meus colegas ainda mais nervosos. Olhei para o Danilo, em busca de uma resposta, mas ele apenas disse:
– Não sei. Pode ser que sim, pode ser que não.
– O que aconteceu com o Julio quando ele fez esse treinamento? — eu tentei buscar mais informações, para já estar preparada para a prova.
– Ele não me contou, e eu nunca me lembrei de perguntar. -
Eric olhou para o Danilo, decepcionado por ele não saber nada.
Após o almoço fomos para a sala de aula, onde Julio nos diria como funcionaria todo o exercício. Todos os alunos haviam voltado cedo do refeitório e ao contrário dos outros dias a sala permanecia em um silêncio assustador. Ninguém queria conversar.
Júlio percebendo o ânimo da turma foi para a frente da sala de aula e tentou nos acalmar:
– Soldados, eu entendo que vocês estejam nervosos. Esse é um dos treinamentos mais importantes aqui no quartel. Mas não precisam se preocupar. Todos estarão seguros. E passaremos a semana inteira indo treinar na câmera de gás, todas as tardes. Quem não conseguir hoje terá mais chance nos próximos dias.
Houve um leve ruído de desespero na sala. Provavelmente era por sabermos que esse exercício não seria apenas hoje.
– O exercício vai funcionar da seguinte maneira — prosseguiu Julio, ignorando a turma — Todos vocês serão colocados em uma sala fechada, sem janelas e sem nada que faça o ar sair. Começaremos a liberar o gás e vocês terão que conseguir se manter acordados por 10 minutos. Após esse tempo iremos abrir a porta e o exercício estará cumprido.
– E esse gás é venenoso? — foi o Danilo quem perguntou. Ele devia ter se lembrado de quando eu fiz essa pergunta mais cedo.
– Isso eu não posso dizer. Ele é um gás e terá algum efeito. Vocês tem que se manter acordados e não querer descobrir que efeito é esse.
– E qual é a melhor maneira de ficar acordado? — quem perguntou dessa vez foi o John, um outro colega grandalhão e um dos melhores da turma.
– A melhor maneira é usando toda a força de vontade que vocês tem. Nada além disso adiantará muito. Nenhum exercício de respiração, nem nada deste tipo fará efeito. Apenas mantenham-se focados em continuar acordado e tentem esquecer o gás. Também nada de se desesperarem lá dentro. Mantenham a calma. Esse é mais um exercício mental do que físico. Mais alguma dúvida? -Ninguém disse nada e Julio entendeu isso como um não — Certo, então me sigam.
Todos fomos andando quietos atrás dele e paramos abruptamente quando ele parou e abriu a porta de uma sala. Todos nos olhamos apavorados. Ninguém queria ser o primeiro a entrar.
– Vamos, soldados. — incentivou Julio — Coragem!
Danilo e John engoliram o medo e entraram para a sala, eu rapidamente dei um jeito de fazer o mesmo e os segui. Quando passei por Julio na porta, ele deu uma batidinha no meu ombro enquanto falava:
– Isso. Viu, seus colegas já entraram. Vamos lá também. O gás ainda não está ligado, entrem.
Todos os outros vagarosamente começaram a andar em direção a entrada da sala também. Ela era pequena, mas capaz de abrigar todos nós com um certo espaço. Não havia nada nela além das paredes, sem nenhuma janela, como Júlio havia dito. Todos adentraram e se encostaram na parede, olhando em direção a porta. Julio entrou e ficou logo na entrada, certificando que todos nós estávamos lá dentro.
– Agora, vou sair e trancar a porta. Ligarei o gás e marcarei aqui no meu relógio os dez minutos. Quando eu abrir a porta vocês poderão sair. — ele começou a andar para trás, mas sem se virar, ainda nos encarando — Boa sorte e sem pânico. — ele passou pela porta e começou a fechá-la, mas antes de trancá-la totalmente deu uma última olhada pra nós — Coragem!
A porta enfim se fechou e ficamos lá um olhando para o outro, todos com medo. Muitos pareciam a ponto de começar a gritar ou chorar, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Eu tentei manter uma aparência de calma, por mais que estivesse com o coração batendo forte e a boca seca.
Júlio havia dito que era para nos mantermos calmos e usar nossa força de vontade para resistir. Era um treinamento mais psicológico do que físico. Então nesse eu tinha chance.
Sentei-me no chão, espichando as pernas, se era para me manter tranquila, eu iria ficar lá sentada imaginando que estivesse em qualquer outro lugar. Logo que sentei, Carol e Danilo vieram para o meu lado, e me imitaram, sentando cada um deles ao meu lado.
De repente o ar começou a ficar mais pesado e um vapor começou a ocupar o recinto. Estiquei minha mão para Carol e ela a pegou, apertando o máximo que podia. Fiz o mesmo com a outra mão, alcançando-a para Danilo, que me olhou dando um sorriso motivador e tentando esconder seu próprio medo. Eu sorri de volta e comecei a me concentrar, enquanto sentia que meu nariz começava a queimar com um cheiro ácido e indescritível.
Fechei rapidamente os olhos e me desliguei de tudo ao meu redor. Não queria ver o que meus outros colegas estavam fazendo, não queria ver eles surtando ou não aguentando o gás. Apenas comecei a me lembrar de casa, de como era o meu quarto, de como sentia saudades dele. Tentei não pensar muito em minha família e em meus amigos, pois isso poderia piorar tudo. Me concentrei apenas em coisas fúteis, coisas que não me importariam tanto.
Lembrei do parque perto de casa que eu ia com frequência, do ar fresco e do canto dos pássaros, aquela melodia era tão boa, tão doce, nada me acalmava mais que aquilo. Parecia que fazia anos desde que eu fui lá pela última vez, era muito bom poder passar a tarde lendo, embaixo de uma árvore. Tudo era tão tranquilo...
Senti a mão de Carol afrouxando o aperto da minha, abri os olhos a tempo de vê-la tombando de lado no chão. Então olhei para o resto da sala e percebi que metade dos colegas já haviam desmaiado. Minha determinação falhou e eu voltei a perceber o gás, agora além de queimando meu nariz, fazendo minha garganta arder, minha cabeça doer e minha vista ficar embaçada. Os pensamentos também começaram a ficar embaralhados, meu raciocínio estava muito lento, e eu percebi que seria a próxima a desmaiar se não desse um jeito de manter o foco.
Vagarosamente dei uma olhada para Danilo, que ainda permanecia acordado e com os olhos abertos, concentrado em algum ponto na frente. Ele percebeu que eu estava o olhando e se virou para mim, seus olhos escuros parecendo amedrontados e ao mesmo tempo focados. Eu dei um aperto na mão dele, querendo lhe dizer que estávamos juntos nessa e iríamos conseguir. Ele retribuiu o aperto e eu voltei a me concentrar.
Mas agora não conseguia mais pensar em casa e em nada. O ar pesado aumentava cada vez mais e meus pulmões lutavam contra ele, procurando o pouco de ar puro ainda existente. Minha respiração ficou cada vez mais ofegante.... era um esforço enorme cada inspirar e expirar. E pensar em alguma coisa era ainda pior. Eu não conseguia me lembrar de mais nada, de onde eu estava, o que estava fazendo. Muito menos de como aguentar firme àquilo.
Um barulho chamou o pouco de atenção que eu ainda tinha. Reuni toda a minha força para conseguir olhar para o lado, com os meus olhos querendo manter-se fechados a cada piscada que eu dava. No chão estava Danilo. Nem percebi quando ele soltara a minha mão. Só via que ele estava lá agora caído, com os olhos fechados e a respiração também ofegante.
O mundo ao meu redor, girava e girava. Eu queria descansar, queria desistir e me entregar. Mas não, eu não podia. Por algum motivo eu estava naquela sala e precisava me manter acordada. Com os olhos entre-abertos, quase fechados, e o meu corpo se chacoalhando para frente e para trás querendo cair, eu coloquei a mão na garganta que queimava muito. A dor era muito forte e eu forçava a respiração só pela boca. Eu tinha que continuar acordada. Eu tinha!
Com grande esforço olhei para todos na sala, eles estavam caídos. Todos desmaiados. Mas eu não. Eu não podia. Tinha que ficar acordada. Eu tinha! Aiiii! Tudo doía! "Ai meus pulmões! Não posso desistir." Eu pensava. Coragem! Alguém havia dito isso mas eu não me lembrava mais quem. Aguenta! Eu precisava aguentar. Não podia....
E não aguentei mais, meu corpo tombou para frente e meus olhos se fecharam. Eu era incapaz de abri-los novamente ou de pensar qualquer coisa. O jeito foi desistir e deixar a escuridão me pegar...
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