Niira era uma jovem de 26 anos negra, esguia, de quadris largos. Cientista, viaja no tempo para criar dimensões alternativas de espaço-tempo para que os colegas de sua época — 4821 — estudem o Efeito Borboleta e suas consequências no Universo — como buracos negros e buracos de minhoca; os principais portais fora do planeta. Missão: encontrar um professor de futebol que está tentando criar um buraco negro com um amigo cientista e impedi-los.

Ambos criaram acidentalmente a linha temporal alternativa em que o experimento dá errado devido a um curto-circuito na máquina — e o buraco negro destrói o planeta. Agora, Niira deverá evitar isso para que não ocorra novamente, roubando a máquina; ou matando os responsáveis.

Ao contrário do que aconteceria com qualquer indivíduo sem a devida tecnologia, onde apenas mais linhas alternativas seriam criadas — sua realidade não mudaria por esta questão — quando um viajante do tempo interfere, tudo muda. Isso é possível graças à roupa, que consegue direcionar seu poder para todas as linhas que encontra: um perigo nas mãos erradas.

Viajantes do tempo não são criados: eles nascem prontos. A roupa apenas serve como filtro expansor do poder que eles já têm. Alguns param o tempo, outros o aceleram e o reduzem, o preveem ou o evitam. O traje permite que expandam esse poder e viajem, pois só viajantes nascidos não são afetados pelas consequências de uma viagem temporal, como envelhecimento precoce — começa a viagem com 20 anos e volta com 75! — e doenças degenerativas.

No ano de 4821, o foco não é viver em estufas confortáveis com uma engenharia leve e bonita, em sua maioria, voadora ou flutuante como vemos em muitos filmes. Nesta época, pós Guerra Galática — onde três espécies de alienígenas de nossa Via Láctea enfrentaram-se por interesses até então desconhecidos; e isso incluía os dominantes pela espécie humana, que perderam — o foco principal é inclusão com a natureza, criando cidades inteiras de barro, sem prédios — as cidades inteiras são na vertical! — que crescem junto de florestas, riachos, cachoeiras, vulcões. Criaturas magníficas, reluzentes, brilhantes e coloridas foram introduzidas por estes novos governantes e a guerra extinguida. Logo, voltando quase 3000, não é difícil evitar o choque cultural.

Reptilianos eram cruéis, Niira sabia. Afinal, haviam alternativas, outros meios para aqueles fins — o motivo da espécie humana sofrer com miséria, fome, não receber tratamento médico e ser enganado por bandeiras simpáticas, instigando a população mundial a acreditar que a falha é do governo, separadamente; tudo aquilo havia solução, não havia necessidade. Era como criar cães para comer — você precisa comer, mas não precisa acabar com a qualidade de vida dos animais no processo.

Niira estava flutuando, observando a neblina de poluição, a falta de árvores, o asfalto que não permitia que a Terra, como planeta e ser vivo que é, absorvesse os nutrientes e a água — graças à sua roupa, feita de um material tão resistente quanto ferro, dura por fora como aço e confortável por dentro como um casaco fofo, com temperatura regulável em uma pequena tela localizada embaixo do antebraço direito da roupa, protegida por uma tampinha elétrica que, ao toque, recolhe-se mostrando sua humilde telinha de configurações de temperatura interna. Sua roupa, lindamente desenhada, possuía um capacete, um purificador de ar, controlador de atmosfera, de temperatura e solas SkyOver 4.0 Plus — um modelo específico de flutuação de sua época.

A jovem estava parada acima da Escola Drummond, escola colegial daquela pequena cidade nos Estados Unidos. Não era fácil vê-la: o sol estava a seu favor e as nuvens baixas de poluição também. Então ela ficou ali, esperando seu alvo sair — ela conseguia identificá-lo através da tela digital de seu capacete, que possuía o ajuste de zoom, aumento de volume — ou a opção "mute" — e o GPSL que nada mais era que um identificador e acompanhador via satélite — e funcionava com a existência de qualquer satélite disponível na época — de pessoas em tempo real. Ele faria o trabalho de identificar Louis Sherman e acompanhá-lo até sua casa; quando Niira agiria.

E assim fizera.

Parou o tempo quando o capitão do time de futebol entrou em casa; com a porta aberta, ela conseguira esgueirar-se para dentro. Analisara a casa toda com ajuda de sua tecnologia, mas, para sua surpresa, a máquina não estava onde a cartilha informara. Algo dera errado, seus chefes nunca falharam em pesquisas temporais antes. Entrara em contato com a Central do Tempo — uma grande torre do relógio onde Agentes do Tempo trabalham em tempo integral.

Enquanto Niira tentava uma explicação lógica para aquilo, a porta fechara. Ela ficara muda, parada, enquanto a agente ao contato chamava-a inutilmente; sua espinha e estômago congelaram, seus batimentos cardíacos aceleraram, ela sentia como se suas veias fossem explodir e o coração saltar fora do peito. O tempo estava parado. Era uma armadilha.

Louis parara encostado ao batente da porta. Cabeça inclinada, uma sobrancelha erguida. Niira não tinha para onde fugir — a menos que abortasse a missão.

— Se está pensando em voltar — O capitão adiantara-se — não tem como. Ele era um temporista, como ela. Niira não estava prestando totalmente a atenção no que o capitão dizia. Estava buscando um jeito de fugir dali.

"Poderia dar um choque nele, mas isso exigiria contato direto com a minha roupa e pode ser que ele quebre algo — e não conseguirei voltar", pensava Niira, inquieta.

Louis suspirara, parecia cansado.

— É que enquanto você não estava vendo, eu meio que peguei algo emprestado. — Ele era jovem, forte e grande, mas parecia maior conforme aproximava-se de Niira. Louis parara à sua frente e sorrira. Niira sentia que todo o calor e força do seu corpo haviam fugido e se escondido no minguinho do pé. Ela era a culpada pelo gerador de buracos negros destrutivos funcionar e sair do controle por um curto-circuito. Precisava entrar em contato com a central e abortar a missão em todas as linhas temporais, mas não com ele ali. E precisava dar um jeito de fugir e destruir o gerador.

— Sabe — Louis não parecia ter problemas com monólogos; sentou-se à mesa. — é que eu não trabalho sozinho, quer dizer, você deve saber, claro. Mas pegar esse lindinho enquanto você passava por mim pela porta foi tão fácil que quase deu pena.

Louis mostrava a ela um dos energizadores reservas de seu traje, do tamanho de uma moeda de cinco centavos. Seria difícil notar sua ausência em uma pseudo armadura do século XXIX. Ela engolira em seco, ele não havia percebido para que o traje servia.

Potencializar seus poderes.

Poderes diferentes dos dele.

Iria dar seu jeito e consertar a situação, mas ele era muito maior e fisicamente mais forte que ela — e uma aproximação poderia causar mais danos.

— Ah, e sobre você não conseguir fugir, isso é porque eu posso ter "acidentalmente" — falava enquanto sorria maldosamente — arrancado um fio da fonte. Pois é.

Niira sentia que ia desmaiar. Como ele sabia da fonte do traje?

"Preciso de um resgate", pensava inerte naquela cozinha minúscula.

Então, subitamente, como uma gazela que não demonstra sinais, ela simplesmente ativara suas solas e fora voando o mais rápido que pôde janela afora, deixando o tempo voltar ao normal, soltando-o.

"Se eu conseguir resgate, provavelmente ficarei afastada de missões mais complexas, porém se não pedir serei engolida com o buraco negro que nascerá", Niira escondera-se afastada da cidade, onde ninguém pudesse vê-la. Decidira ligar para a central — mas não para chamar por resgate.

— Olá, NK634.215.32! — A voz feminina de sua correspondente digital era um alívio, quase como um abraço de mãe em tempos obscuros; "NK" era o codenome de Niira, suas iniciais, enquanto o número era o código da missão. Era o "alô" da Central.

— Netuno, houve uma falha. O objeto também é temporista. Foi... — ela ia dizer "uma armadilha", mas não sabia até onde devia ir — foi descoberto que eu agiria. O gerador não está onde nos foi informado.

— Ok, atualizarei os arquivos e informarei a equipe imediatamente. Só um instante.

Omitir que era uma armadilha fazia Niira se perguntar se não havia interferência interna e direta de sua época. Louis dissera que não trabalhava sozinho. Ele sabia o local da fonte do traje e o que remover para o gerador.

— Niira?

— Sim?

— A informação é de que está no local de trabalho do objeto e não é muito grande. Vou mandar um mapa e a imagem que Sol conseguiu. — Sol era o computador-Deus da Central.

— Ok, irei procurar o gerador imediatamente! Obrigada.

E desligou.

"Procurar imediatamente" não foi bem o que acontecera. Niira voara até a escola sim, recebera o mapa em holograma e a imagem digital do gerador e ficara ali, em uma árvore, pensando em um plano de fuga antes.

Talvez fosse melhor chamar a equipe de resgate para caso tudo desse errado, mesmo; a verdade é que Niira não tinha certeza do que fazer. Mas se tudo der certo, a central classificaria como um Laranja.33 — alarme falso! Ou seja, um trote. E podem querer afastá-la para acompanhamento psicológico; muitos com o tempo entram em pânico e pedem socorro sem motivo, destruindo facilmente a missão, porque mexer com o tempo pode influenciar seu psicológico e sua consciência.

Respirou fundo e foi.

A localização atualizada e informada gerada por Sol era no ginásio: no vestiário.

Com ajuda do mapa, Niira conseguira chegar até ele rapidamente.

Verificara a hora.

23:37

Não teria problemas até as 6:00.

"Hora de trabalhar", pensou.

Niira ouvira passos e decidira esconder-se. Parecia que Louis — e seu amigo que Niira reconhecera imediatamente — ficava durante as noites fazendo a ronda, protegendo seu precioso; e provavelmente fazendo testes. A jovem saíra exasperada da escola e sentara-se em um banco de uma praça, sem perspectiva.

Não demorou para que um homem sentara-se ao seu lado — com todos os outros bancos vagos. Usava chapéu, sobretudo e luvas. Um homem bonito, Niira notara. E ela não era muito perceptiva quando tratava-se de beleza alheia, na verdade, achava outras pessoas feias.

— Amaciando a fantasia de Halloween? — perguntara o desconhecido, tirando o jornal de baixo do braço e apoiando-o em seu colo.

Niira não sabia o que era Halloween, para ser boa no que fazia não era necessário ter qualificações históricas sobre a época em que iria trabalhar.

— Não é uma fantasia. — respondera por fim.

O homem soltara uma exclamação, ainda olhava para a praça à sua frente. Niira começara a tocar um joelho no outro com movimentos de vai-e-vem com as pernas, como uma criança tímida.

— É algum tipo de uniforme ou você é um robô?

Ele não percebera, mas Niira sorrira através do capacete.

— Posso ser um robô por hoje.

Então o homem a olhara.

— Por que não tira esse capacete?

— Por que está falando comigo?

— Não é sempre que vemos um robô sentado em uma praça pela madrugada.

— Mas é sempre que sai pela madrugada?

Ele sorrira e Niira arrepiara-se. Nunca havia falado com um estranho antes; não dessa forma.

— Quem é você? — ela perguntara, baixinho.

— Se você é um robô, por hoje vou ser uma babosa.

Transbordava perspicácia. Ela fora treinada para não confiar nas pessoas e não sabia o que pensar daquele ser involuído.

— Como se chama?

— Hanz.

— Niira.

— Não sabia que robôs tinham nome.

— Alguns têm.

— E o que mais você tem?

Niira ficara uns segundos em silêncio. Virara a cabeça para ele, que retribuíra o olhar. Ela decidira brincar com a verdade. Afinal, o que teria a perder?

— Tenho a missão do século XLIX de destruir um artefato criado por Louis Sherman que irá criar um buraco negro e destruirá o planeta.

— Ou seja, você é uma heroína.

— Sou uma Agente do Tempo, é um trabalho. Nem sempre inclui salvamentos.

— E você não tira o capacete por que no século XLIX as pessoas são mais parecidas com peixes e morrem sem H²O? — ele basicamente chamara seu capacete de aquário.

A jovem suspirara e abrira o capacete, mostrando um rosto delicado, jovem, corado, lábios carnudos e um contexto muito bonito.

— Antes de mais nada, posso matá-lo se eu quiser. — dissera Niira, na defensiva; a jovem tinha o hábito de falar coisas à parte da conversa, seus pensamentos iam além e era difícil para os outros acompanhar sua linha de raciocínio.

Hanz sorrira e sussurrara:

— E eu já matei.

Ele não estava brincando; ou mentindo. Niira sentia cada poro gritar que não. Então levantou-se e saíra voando, deixando o assassino para trás naquela noite fria.

No dia seguinte Niira entrara em contato com a central para, finalmente, planejar algo. Foi repassada em vídeo para uma reunião e explicara toda a situação, em detalhes: inclusive quem era o amigo de Louis Sherman. Doutor Joel Fritz, físico, médico, P.h.D. em pontos temporais, tem status, prestígio, reconhecimento, seguidores e até mesmo alguns fãs no meio científico. Mas ele queria mais.

Encaminharam para que fosse cumprida a ordem de sua procura, reclusão, cassação de todos seus arquétipos científicos e seu título P.h.D. imediatamente.

Recomendaram a Niira fazer nada até ele ser retido, mas ela estava ali, no mesmo espaço-tempo que ele, no mesmo mundo, país, estado, cidade, bairro e prédio. Ela mesma poderia prendê-lo, se tivesse ajuda.

De mãos atadas, porém, às 22hs dirigira-se novamente à praça da noite passada. Sentara-se no mesmo banco. Precisava pensar.

"Pelo menos", consolava-se, "eu não perco tempo dormindo, já que não preciso disso".

Hanz estava percorrendo o mesmo caminho que na madrugada anterior, quando percebera Niira sentada no mesmo banco. Olhara à sua volta e suspirara.

Sentara-se a seu lado novamente.

— Você vem sempre aqui?

— Quantas vezes você foi punido?

Hanz franzira o cenho. Parecia que a menina tinha o hábito de perguntar coisas aleatórias.

— Punido?

— Por assassinato.

— Nenhuma.

A jovem abrira a tela do capacete e encarara-o, como se isso bastasse para demonstrar a incrível surpresa súbita que sentira. Hanz inclinara a cabeça sem entender.

— Então você é um criminoso que merece ser denunciado.

— Será?

— Tenho contatos.

Hanz olhara para o nada à sua frente, enquanto franzia o cenho, cansado.

— Certo.

— Você não está preocupado?

— Eu teria que falhar para me preocupar, e suspeito que um robô não é levado muito a sério por aqui. Sabe, eles ainda derrubam coisas e caem para o lado.

Não havia resposta para isso. Era parte de seu estatuto como Agente do Tempo não influenciar em nada que não fosse necessário.

— Você passa por essa praça toda a noite? — perguntara Hanz, apoiando-se em seus joelhos com os cotovelos e olhando-a.

— Você passa?

— Tem uma cafeteria. Depois do trabalho chego em casa, tomo um banho...

— ...Mata. — interrompera Niira.

— ...como alguma coisa e venho para cá. Entre 1 e 2 horas da manhã eu volto. Matar pode estar incluso, por vezes. Mas, quem sabe eu não te ajude a se livrar do tal professor de futebol?

Niira, que estava com a face franzida pelo frio, sentira o sangue subir. Relaxou-se e focou toda sua atenção em Hanz.

— Professor?

— Eu fiz minha lição de casa. — ele ajeitara-se no banco. — Devíamos tomar um café amanhã. Imagino que você não tenha outra roupa por agora. — Niira continuara encarando-o, em silêncio. Ele continuara — Compre algo e me encontre às 22hs.

Hanz tirara do bolso um cartão de uma cafeteria com um cartão de crédito acompanhado de uma senha anotada. Assim que a jovem pegara as coisas, Hanz levantara-se, tirara o chapéu para cumprimentá-la brevemente, desejara-a uma boa noite e partira. Niira perguntara-se se ele não queria matá-la; quais as chances de um estranho ter acreditado em sua história? Quais as chances de um estranho conversar com sua próxima vítima?

"Se bem que eu voei na frente dele. Estúpida!", pensara, fechando os olhos com força. "Se ele é um assassino e me quer sem meu traje, provavelmente ele quer fazer mal a mim, preciso de um plano B", continuara, sentada naquele banco úmido. Ficaria ali até quando?

Estava em xeque com Louis Sherman de qualquer jeito. Levantara-se, guardara as coisas em um bolso secreto de sua vestimenta, fechara a tela e fora conhecer a cidade a pé. Enquanto isso, resolvera ver um outro problema.

— Netuno!

— Olá, NK634.215.32!

— Como eu faço para adquirir roupas novas nessa época?

— Roupas novas? — fora uma pergunta retórica. — Pesquisarei os costumes de aquisição do século XXI. Por favor, aguarde.

Niira aguardara, em uma ponte, num parque aleatório.

Netuno passara todos os tipos de compras possíveis, moedas dos EUA, explicara-lhe um pouco sobre capitalismo, mão de obra e trabalhar para receber, Revolução Industrial e lojas de roupas, moda, tamanhos, tecidos. A jovem fez quase um mini-curso com Netuno.

— Obrigada, Netuno. Desligo.

— Mas...

Netuno era uma inteligência artificial, um avatar. Ela estava prestes a ter a primeira dúvida?

— Sim?

— É um encontro?

— Encontro?

— Encontros românticos não são tão comuns no século XXI após aplicativos usados para estes fins terem sido criados para aparelhos de contato à distância e caracterizam um encontro romântico sair com alguém, a sós, em um local público, para lanchar ou tomar algo com possibilidade de coito. — Netuno parecia uma Wikipédia.

— Coito?!

— Sinônimo de...

— Eu sei o que é!

— Perdão.

— Não é um encontro.

— Certo. Precisa de algo mais?

Niira pensara por um momento.

— Que armas usam aqui? — Netuno passara informações sobre armas de fogo e armas brancas. — E o que eu posso usar, sem o traje, para que em caso de tiro eu possa sobreviver?

— Defesa ou ataque, NK?

— Ambos.

— Enviarei-lhe por impressão holográfica, boa sorte.

— Obrigada, desligo.

Pela manhã, quando as lojas abriram, Niira fora sem traje — mas com sua roupa de época bem diferente; nos seios sua roupa de tecido justinho possuía um tipo de base como proteção, uma capa reforçada e arredondada em cada seio, as mangas era compridas e possuíam um tecido diferenciado para as articulações; sua calça preta de cintura alta, por cima da camisa, possuía uma pequena bolsinha acoplada à lateral da cintura, com os mesmos detalhes para as articulações que sua camisa, enquanto sua bota parecia ser de metal, apesar de leve, mais confortável e arejada que as nossas — até a loja. O traje que veste encolhe em uma pequena bolota do tamanho de uma bola de gude, dessa forma ela pôde guardá-lo em sua bolsinha na cintura, junto do cartão, senha e todo o resto.

Achara as roupas do século XXI desconfortáveis, esquisitas, incômodas e nada úteis. Conseguira, com ajuda da vendedora, levar algo básico e mais normal.

Quando adentrara a cafeteria, Hanz já estava lá: com seus ombros largos cobertos por seu sobretudo — o chapéu deixado de lado, no banco fofo da cafeteria. Lia um jornal, concentrado, enquanto tomava seu expresso. Niira se pegara pensando que idade ele deveria ter; chutara ela uns 38. Não possuía barba ou desajeitos, parecia um homem de classe. Mas era só um assassino. Um assassino. Um predador urbano.

"Onde eu estou com a cabeça?", perguntara-se enquanto aproximava-se da mesa dele.

Ele baixara o jornal e sorrira.

— Boa noite.

— Que idade você tem?

Ele interrompeu o ato de chamar a garçonete. Ficara genuinamente surpreso com essa pergunta. Ninguém interessa-se por sua idade já tem um bom tempo.

— 42. — E chamara a garçonete. — Antes que ela chegue — a garçonete estava recolhendo algumas louças. Hanz olhara para Niira. — o que você vai querer, robô?

Niira dera de ombros. Como era nutrida artificialmente por seu traje durante as missões não pensara muito em comida.

— O que você está tomando é café preto? — ela também havia feito sua lição de casa.

— É.

A garçonete chegara.

— O que vai ser? — perguntara a sorridente moça.

— Eu vou querer outro cafézinho. — respondera Hanz.

Os dois olharam para Niira.

— Ah, eu...

— Quer o menu? — a menina oferecera, inclinando a lista de coisas à venda para Niira.

— Sim, sim, obrigada!

— Ok, volto daqui há pouco, então.

Hanz dobrara o jornal ao meio e deixara-o embaixo de seu chapéu.

Os dois permaneceram em silêncio por um tempo.

— Qual o seu problema com o professor, mesmo? Algo sobre um buraco negro?

— É. Ele dá aulas na...

— Escola Drummond, eu sei.

— O que você não sabe, é que ele é um temporista como eu.

— Temporista?

— Ele controla o tempo. Não sei em qual aspecto exatamente porque as pessoas são diferentes, mas ele pode se locomover com o tempo parado. E a outra informação é que a pessoa que está ajudando-o é da Central do Tempo, um grande cientista, na verdade.

— Então, basicamente, você quer que eu acredite que um cientista louco e seu servo retardado estão querendo conquistar mais poder e vão estragar o mundo todo?

— Falando assim parece idiota.

— E é. — O segundo cafézinho da rodada de Hanz chegara e com isso, uma garçonete esperando o pedido de Niira, que contentou-se em experimentar um capuccino. — Mas eu não pergunto as razões. Você quer o fim de alguém e eu estou disponível para isso.

Niira não tinha certeza se tinha entendido e franziu o cenho. Ele parecia um estar acostumado a fazer mais e perguntar menos.

— Vou tentar confiar em você. — e lhe devolveu seu cartão e senha, que no fim das contas, eram dele.

Conversaram a noite toda. Hanz era simpático e — parecia — profissional. Talvez matasse por ego, talvez por dinheiro, ou quem sabe por loucura; todas as opções também era uma opção. Niira não queria saber, não ia envolver-se; era somente o necessário.

Combinaram que ele iria chegar até o cientista, capturá-lo e matá-lo, enquanto ela lidava com o temporista. Niira estaria sem seu traje e Louis não a reconheceria.

Marcaram um encontro em frente ao colégio enquanto esperavam os alunos dispersarem e o colégio fechar para invadi-lo; curiosamente, Drummond não tinha aulas noturnas.

Mais curiosamente ainda, Niira não estava preocupada se um ou ambos criadores do gerador morreriam. Não lhe parecia um problema moral, falta de humanidade ou empatia. Para ela era simples: a morte de uns compensa a vida de bilhões. Porém, ter um parceiro assassino, aceitá-lo e não se preocupar não seria imoral? Não seria mais preocupante?

Não para Niira. Ela só queria voltar para casa.

Hanz explicara que era melhor que não fossem vistos juntos. Caso identificassem que era um homem e uma mulher — duas pessoas — os invasores, não haveriam testemunhas para identificar já que estavam agindo separados. No movimento dos jovens saindo era fácil dispersar-se: ele com o jornal, como de costume, fumando como se esperasse por alguém e Niira entrando no colégio e inventando um filho para matricular à secretaria, como combinado.

Não demorou para que Niira saísse, desse a volta pelo quarteirão, parasse para comer um sorvete — não existem casquinhas no futuro — e voltasse, já com a rua deserta, entrando pelos fundos: abrira a grade da ventilação com uma chave de fenda que Hanz entregara e ela e mostrara como deveria usar mais cedo. Não se preocupara com digitais, afinal, ela sumiria dali em breve.

Hanz porém, arrombara a porta; delicadamente. Destrancou-a e, na primeira oportunidade, esgueirou-se para dentro — não havia sistema de segurança, era uma escola pública.

Assim que invadiram, esconderam-se separadamente e esperaram.

Como esperado, Louis e Fritz estavam lá. Rondando. Não demorou para que Hanz encontrasse Fritz, na lancheria, e o capturasse. Usara um pano embebido em sonífero para que o velho desmaiasse. Escondera-o e administrara uma bela dose de ar na veia, causando um infarto. Despejara o corpo no corredor.

Niira, quando encontrara com Louis, fora abordada sutilmente pelo mesmo.

— Moça! O que você faz aqui?

— Oi?

— Você não pode estar na escola a uma hora dessas. Como você entrou?

— Ah, a porta estava aberta. — inventara.

— Aberta?

— Pensei em entrar para avisar que talvez o trinco esteja estragado.

— Ok, obrigado, irei averiguar. Agora, por favor, retire-se.

— Posso usar o banheiro antes?

— Não acho uma...

— Urgências de mulher.

— Ah. — Louis ficara sem reação por um breve momento — Tudo bem... fica para aquele lado.

— Obrigada. — é claro que ela sabia que era o mesmo lado do ginásio. Havia estudado o mapa antes.

Separaram-se.

Se ela parasse o tempo, ele perceberia. Então decidira apenas seguir até o vestiário, normalmente.

Quando encontrara o gerador, pequeno e nada perigoso, quase fofo, guardou-o na bolsa que levava. Retirara-se como se nada tivesse acontecido e encontrara-se com Hanz do lado de fora.

Ela comunicaria a morte de Fritz à Central.

— Logo comunicarei a morte dele e pedirei para alguém me buscar. Explicarei que meu traje pifou, levarei o gerador e destruirei em casa, sozinha.

— Ou você pode ficar por aqui um tempo.

Niira olhara bem para o assassino não tão psicopata.

— Não posso.

Ficaram um tempo, em silêncio, parados se olhando durante aquela cálida noite.

Dessa forma despediram-se amigavelmente.

— Obrigada, Hanz.

— De nada.

— Espero que te peguem por matar pessoas um dia.

— Bom, você me pegou.

Niira sorrira, apesar de não entender bem o que aquilo significava. Não em sua totalidade.

A jovem fora para a praça das outras noites para esperar seu resgate e voltar para casa com mais uma missão cumprida em seu currículo, enquanto Hanz seguira para sua casa e velha rotina.

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