A Missão
7 Capitulo 5
Eu ainda não podia acreditar no que aquele professorzinho/instrutor havia dito! Só porque eu não consegui terminar uma série impossível de exercícios em meu primeiro dia de treinamento ficaria sem almoço?! Argh! Que idiota!
O pior de tudo é que eu não havia nem tomado café e depois de tantos exercícios já estava morrendo de fome e não tinha certeza se aguentaria até a janta sem comer alguma coisa. Mas não quis demonstrar a minha fraqueza para ele, muito menos para a turma. Então engoli em seco suas palavras, fiz a cara mais indiferente que pude e respondi, tentando parecer durona e dando um sorriso de provocação:
–Sem problemas.
Alexandre deu de ombros e saiu, dirigindo-se ao inicio da sala, onde ficava sua mesa de professor. Quando chegou lá, avisou a turma que estava na hora da aula de história e todos, inclusive eu, se dirigiram aos seus lugares e sentaram-se.
Quando todos estavam devidamente acomodados em suas carteiras ele levantou de pé e olhando pra mim com um sorrisinho irônico anunciou:
– Acho que a nossa nova colega sabe bastante coisa. Que tal vir aqui na frente e compartilhar tudo que você sabe sobre a história de como nosso país foi criado?
Aposto que ele achou que iria me ferrar mais uma vez na frente de todos, mas dessa vez ele estava errado: eu sabia de cor e sorteado a história de Tazur. História era a matéria que a minha mãe lecionava e sempre fez questão de me ensinar tudo. Além do mais essa era uma das minhas matérias preferidas na escola.
Me dirigi para a frente da turma de cabeça erguida e quando cheguei lá comecei a contar tudo que sabia, variando meu olhar do professor aos alunos:
– No ano de 2042 surgiu uma doença, ninguém sabe de onde, que infectou rapidamente grande parte da população mundial. Essa doença matava os infectados em menos de uma semana e não demonstrava nenhum sintoma. As pessoas apenas morriam e pronto. Diziam que ela se espalhava pelo ar, mas ninguém nunca teve certeza. Aí nossos perfeitisssímos governantes, percebendo que a situação tornava-se muito grave e grande parte da população já havia morrido, resolveram escolher algumas pessoas, que eles consideravam serem as "melhores" para isolar do resto do mundo. Foi isso que fizeram e assim surgiu Tazur. — eu resumi bem brevemente a história, pois não tava a fim de ficar lá na frente dando uma aula pra eles. Também não estava gostando nada do olhar que Alexandre me lançava: ele me olhava dos pés à cabeça, me analisando detalhadamente, enquanto eu falava.
–Pode sentar-se senhorita Deboch. — ele falou, tomando o meu lugar em frente a sala.
Pela sua expressão não pude distinguir se minha explicação tinha sido boa o suficiente ou não, mas, pelo menos, ele não falou nada para me contradizer, o que quer dizer que talvez eu não tenha ido tão mal assim.
Ele continuou a aula sobre a criação do país, contando com mais detalhes o que eu havia relatado. Coisas que apenas um professor lembraria-se de acrescentar:
– A doença que surgiu no ano de 2042 pode ter sido criada intencionalmente por cientistas para conseguir vender novos medicamentos. Porque como todos sabemos, naquela época tudo girava em torno do dinheiro. A busca era pelo lucro e quase todas as sociedades existentes eram capitalistas. Como ninguém pode ter certeza de nada, surgiu outra hipótese que também pode ser verídica: a de que cientistas buscavam a cura para o câncer, quando sem intenção, acabaram criando essa doença que fugiu do controle e se espalhou exponencialmente. Mais da metade da população já havia morrido e toda a população sobrevivente estava em pânico.
Ele fez uma pausa, bebeu um pouco de água de sua garrafinha e prosseguiu:
– Foi então que os líderes dos países da época que faziam parte do G20, os 20 países mais desenvolvidos economicamente do mundo, se reuniram e concordaram que se continuassem sem tomar nenhuma atitude, toda a humanidade seria extinta. Decidiram que deviam isolar algumas pessoas para garantir que elas sobrevivessem. Portanto desmataram o meio da floresta, conhecida na época como Floresta Amazônica, e escolheram pessoas com características diferentes e de vários lugares do planeta, que colocaram na área central dessa floresta. Os demais humanos que não foram isolados acabaram morrendo e nós somos os únicos sobreviventes do mundo. Devemos agradecer sempre aos nossos ancestrais por eles terem sido os melhores e conseguido a vaga para permanecer vivos e também por terem sido organizados e habilidosos o suficiente para criar a sociedade e o país que vivemos hoje, cinco gerações depois do ocorrido.
Nesse instante parei de prestar atenção. Detesto quando começam com esse lenga-lenga de exaltação do governo, do país e tal. Como parei de pensar na história do país, outra coisa me voltou com tudo: a fome. Eu não estava acostumada a ficar sem comer por um longo tempo, e nesse instante minha barriga já roncava de fome. Mas ninguém percebia, pois a voz do professor era mais alta e todos prestavam atenção no que ele dizia.
Passei o restante da aula, que para mim pareceu infinito, tentando afastar pensamentos sobre comidas que eu gostava. Quando finalmente Alexandre disse que estava na hora da nossa próxima aula, quase nem acreditei.
Seria aula do lado de fora, mais uma aula física. Deveríamos nadar, correr e pedalar por duas horas. Fiquei agradecida por minha mãe ter me colocado em uma aula de natação quando eu tinha meus oito anos de idade, se não seria mais um fiasco para minha coleção.
O instrutor ainda era o Alexandre (porque ele tinha que dar todas as matérias? Não existia mais ninguém capacitado o suficiente?) e ele disse que poderíamos começar pela atividade que quiséssemos, mas que deveríamos fazer todas.
A maioria dos meus colegas saiu conversando em direção à pista de ciclismo onde deveriam pedalar em um circuito com uns 50 metros, variando entre declives, subidas, curvas e muita pouca pista plana.
Como ainda não conhecia eles e não me sentia muito a fim de me enturmar decidi começar pelo que eu achava o mais difícil: a corrida. Enquanto me dirigia à pista de atletismo pude sentir os olhares de Alexandre que estava sentado em uma cadeira me observando.
Não me deixei intimidar e comecei o melhor possível, tentando ser rápida. Logo que completei a primeira volta em menos de 3 minutos, percebi que minha estratégia estava errada e que eu não conseguiria fazer muito tempo se continuasse nessa velocidade. Resolvi diminuir o ritmo e dar uma olhadinha em Alexandre, que graças a Deus, estava observando os que estavam nadando na piscina.
Quando achei que já tivesse feito um bom tempo de corrida e que não aguentaria mais, mudei de exercício e fui para as bicicletas, decidindo deixar a natação, que seria mais fácil, por último.
Nos últimos instantes das duas horas de exercícios eu jurava que iria desmaiar. Era muito esforço físico para quem não tava acostumada e minha glicose deveria estar baixa pelas horas sem comer. Me sentia tonta, tudo parecia estar girando e eu me sentia fraca, fazendo um enorme esforço para continuar mexendo os músculos.
Quase usei meus últimos resquícios de energia para pular de alegria quando Alexandre anunciou que era a hora do almoço. Eu não havia me esquecido que não haveria almoço para mim, mas isso significava algum tempo de folga e descanso.
Alexandre saiu primeiro que todos e nem falou nada para mim sobre meu castigo. Ou ele havia esquecido ou ele estava me testando para ver se eu ia desobedecer suas ordens e iria ir comer, assim ele poderia me dar um castigo ainda pior. O que foi mesmo que Júlio tinha dito? Ah sim: "Aqui temos regras muito específicas e se você sair da linha pagará sério por seu ato. Também não se esqueça que valorizamos soldados disciplinados, obedientes e dedicados e é assim que você deverá se tornar se quiser se dar bem aqui." Por mais que eu odiasse aquele outro soldado rude e arrogante ele havia me dado uma boa dica de como agir aqui dentro e eu não iria desperdiçá-la.
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