A Missão
4 Capitulo 3
Acordei e após me arrumar rapidamente, peguei minhas coisas e meus pais me levaram até o aeroporto, onde teria alguém me esperando para me acompanhar até a capital e me orientar lá.
Segundo o que estava escrito na carta eu deveria chegar ao aeroporto as 08h00min, fazer o check-in e tudo mais o que é necessário, e encontrar meu acompanhante na entrada para o portão do voo.
E foi isso que eu fiz. Após tudo pronto, meus pais ficaram esperando comigo na entrada do voo, até que um jovem alto e forte, desses que tem as costas largas de tanto treino, bem estilo militar mesmo, e com os cabelos negros cortados rente a cabeça e a pele branca, começou a se aproximar de nós.
– Bom dia. Você é Liss Deboch? — falou ele olhando para mim. Não pude deixar de notar que seus olhos escuros eram profundos e de certa forma lhe davam um ar de inocência que não condizia com o resto de sua aparência, que parecia realmente mortal. Nos breves segundos em que reparei nele, não pude deixar de admirá-lo, ele era realmente lindo, parecia um galã de filme de ação.
Voltei a mim e parei de pensar bobagem. Ele era do exército, seria meu acompanhante e eu deveria respeitá-lo e não olhá-lo com esses olhos. Além disso apesar da educação nas palavras, seu jeito não parecia nem um pouco simpático.
– Sou. — foi a única coisa que conseguir responder.
Ele estendeu a mão:
– Prazer, meu nome é Julio Anthoni. Serei seu acompanhante durante a viagem e lhe ajudarei a se instalar quando chegarmos no quartel. — seu tom era sério e firme, igual ao seu aperto de mão.
Ele cumprimentou meus pais também, e disse que já poderiam ir para casa. Nós já deveríamos entrar no avião. Com isso meus pais me deram um longo abraço e depois um beijo, murmurando palavras de carinho.
Enquanto eu me afastava em direção a porta de entrada para o voo, minha mãe gritou:
–Nós te amamos, não se esqueça disso. E também não se esqueça do que te dissemos ontem, estaremos sempre com você.
Me lembrei do colar que havia ganhado de aniversário, ele ainda estava em meu pescoço e o apertei com a mão direita contra o peito, olhando para minha mãe e sorrindo:
– Eu também amo vocês.
Entramos na aeronave e nos sentamos nas cadeiras do meio do avião. Meu acompanhante não havia falado nada e sua expressão também continuava a mesma, não alterando nem mesmo um milímetro desde que se apresentou.
Ainda faltava alguns minutos para o avião levantar voo, então me permiti fechar os olhos e apertar novamente meu colar contra meu peito, lembrando-me da última visão dos meus pais, das palavras da minha mãe. A emoção estava tomando conta de mim, uma vontade de chorar me invadia.
–Recomponha-se soldado. Chega de bancar a filhinha de papai. Está na hora de crescer. Se quiser ser uma boa soldado deverá acostumar-se desde agora a deixar de lado seus sentimentos. — Demorei um pouco a entender que Julio falava comigo. Não estava acostumada ainda a ser chamada de soldado. E suas palavras foram tão duras que me fez voltar a realidade. Eu tinha dito para mim mesmo que a partir de hoje seria uma nova vida, que eu esqueceria o que já tinha passado e não me permitiria ficar sofrendo, e era isso que faria.
– Desculpe. Isso não acontecerá de novo.
– Espero que sim. — apesar de suas palavras ainda serem sérias e extremamente profissionais, pela primeira vez vi uma mudança em sua expressão, ela ficou, eu diria, um pouco mais doce? — Quando alguém entra para o quartel deve deixar de lado todos os laços emocionais com pessoas de fora. Elas não importam mais. Você não poderá ligar para ninguém e muito menos visitar alguém. Somente os altos cargos tem direito a isso. E esse não é seu caso.
Não conversamos mais durante o voo, que durou quase três horas. Eu tirava algumas sonecas de tempo em tempo, e todas as vezes que olhei na direção do meu acompanhante ele parecia igual. A mesma posição: sentado com as costas esticadas no encosto da poltrona e as pernas para baixo, o jeito mais comum e formal de se sentar. Seu olhar estava em algum lugar qualquer, provavelmente ele não estava observando nada. Estava mesmo era perdido em pensamentos. E assim continuou, quase uma estátua, nem mesmo sua expressão se alterando até que pousamos.
– Vamos, terá um carro nos esperando no estacionamento do aeroporto. — disse Julio depois de termos descido do avião e pegado nossas bagagens.
Enquanto andávamos em direção ao estacionamento, eu não conseguia parar de olhar para toda a estrutura do aeroporto. Era enorme e muito sofisticada. Eu nunca havia visto qualquer coisa parecida. E as pessoas, muitas pessoas, em todo o lugar, andavam de um lado para o outro, como se achassem aquilo natural e não sentissem o mínimo de medo em se perder no grande local.
De repente fiquei alguns passos para trás admirando uma enorme estátua que não fazia muito sentido para mim, e quando voltei a andar foquei o olhar em meu acompanhante e percebi uma coisa: ele tinha uma mala muito grande, parecida com a minha. Isso não fazia sentido, porque pelo que eu sabia o acompanhante apenas vinha buscar o aluno, chegando em um avião no mesmo dia ou no máximo um dia antes, e voltando no dia seguinte. Nada de vir um bom tempo antes, sendo preciso trazer tanta bagagem.
Acelerei meu passo e voltei para o lado de Julio para poder lhe perguntar:
– Você estava passando uma temporada lá em Crytur?- esse era o nome da minha cidade.
Ele virou-se para mim, olhando para meu rosto como estivesse se certificando que eu estava mesmo perguntando a ele e não a outra pessoa:
–Como? — seu rosto demonstrava, mesmo sendo minimamente perceptível, um pouco de confusão.
– É que percebi que você está com uma mala tão grande quanto a minha, e pelo que eu sei os acompanhantes, quando vão buscar os alunos, vão no máximo um dia antes. E se você tivesse ido apenas um dia antes não precisaria de uma bagagem dessas. — eu me sentia estranha, como se fosse uma criança falando bobagem na frente de algum adulto, tentando usar a lógica de como as coisas funcionam para explicar o porquê eu havia chegado àquela conclusão.
Depois de hesitar alguns instantes ele falou:
–Eu passei algum tempo em Crytur e agora que estou voltando à capital. Mas isso não é da sua conta. — suas palavras podem ter sido duras, mas eu percebi que mesmo depois de ele ter desviado o rosto e olhado para frente ao falar, que sua expressão não estava assim. Parecia a expressão mais perto de feliz que eu vi nele.
Não trocamos mais nenhuma palavra e ele continuou silencioso inclusive dentro do carro com o motorista. Pensei que ele talvez conhecesse o cara que veio nos buscar e os dois começassem algum papo, mas não foi o que aconteceu, e o clima quieto ficou meio estranho e talvez até tenso.
Chegando ao quartel pegamos nossas coisas e ele me levou direto à administração onde eu tive que assinar intermináveis papéis. Após algum tempo lá, foi possível, finalmente, que seguíssemos adiante e como esperado, eu comecei conhecendo toda a infraestrutura do local.
–Contamos com 3 bases de treinamento de cada tipo. Uma delas é para soldados como você, que ainda estão aprendendo. Outra é para soldados como eu, que devem treinar diariamente para não esquecerem o que aprenderam e manter sua forma física. E a terceira é para o alto escalão do exército. As bases de treinamento que você frequentará terão sempre um instrutor que vai lhe auxiliar no que for preciso. Também temos uma turma de jovens designados que começou a um mês atrás e você fará parte dela, seguindo sua rotina de treinos e aprendizagem e ficando alojada junto com eles. — Julio me explicava tudo isso de frente para mim, tendo que olhar para baixo, por eu ser baixinha. Parecia-me que ao mesmo tempo em que ele olhava para mim, ele não olhava. Era como se seus olhos estivessem parados em minha direção, mas ele não tivesse realmente prestando atenção no que enxergava.
Seguimos o meu tour e eu conheci as bases de treinamento, uma para treinamentos como lutas, exercícios físicos e essas coisas e a outra para treinamentos com armas, bombas, armadilhas e camuflagem. Em seguida conheci a área aberta do quartel, onde várias pessoas treinavam ao ar-livre. Reparei que a maioria dessas pessoas eram homens com o físico tão aperfeiçoado como o do meu acompanhante. As mulheres eram muito poucas e as que eu vi ou eram tão cheias de músculos como os homens e/ou pareciam realmente como eles, usando cabelos curtos e roupas masculinas e largas.
Não pude deixar de pensar que eu, pequena e magrela, com cabelos escuros, longos e lisos, que nunca saia de casa sem maquiagem e adorava estar arrumada e com roupas coloridas e justas, não me encaixaria muito bem no lugar e chamaria muita atenção por ser diferente.
– Senhorita Deboche, você escutou o que eu disse? — Julio me recriminava com olhar autoritário. Pelo visto enquanto eu pensava no estilo das pessoas aqui, havia perdido alguma explicação dele. Mas logo que ouvi suas palavras não voltei rapidamente a realidade, outra coisa me fez continuar pensando: não me parecia natural, muito menos legal, que ele me chamasse de senhorita e de meu sobrenome. Ele não parecia ter muito mais idade que eu. Na verdade se olhasse apenas seu rosto, eu diria que ele teria o que? 20 anos? Mas se fosse levar em conta o seu físico, aí sim parecia que ele tinha muito mais.
–Não, desculpe. Pode repetir? — falei humildemente, já esperando pelos xingamentos, que acabaram não vindo.
– Algum problema? — seu olhar varreu meu rosto, tentando identificar alguma coisa. De novo seu lado frio e sério parecia ter lhe deixado, uma expressão um pouco mais humana e gentil ocupou o lugar.
– Não. Eu só estava reparando nas pessoas aqui. Desculpe por me distrair.
Ele me analisou um pouco:
– E o que achou delas? — quando ele fez a pergunta parecia que era outra pessoa que estava na minha frente: alguém simpático, que estava se importando em como eu estava me sentindo nesse novo lugar e o que achava de tudo. Isso era estranho. Como uma pessoa pode mudar assim de uma hora para a outra? De um ser rude para um ser gentil? Ah! Acho que não tem como isso acontecer. Deve ser coisa da minha imaginação...
– Achei normal. Claro que não normal como qualquer outra pessoa da minha cidade, mas normal para o exército, como seria de imaginar. Se é que você me entende. — eu me sentia idiota de novo.
– Hum...
Como ele não expressou reação nenhuma, eu resolvi continuar minha explicação:
– É que na verdade, eu estava pensando mesmo era em mim. Eu sou tão diferente deles. Parece que vim de outro mundo. Não consigo entender isso.
–Não se preocupe, se você se dedicar logo, logo parecerá como eles. Não deixe o que parece ser limitações suas lhe impedirem, pois às vezes isso pode ser uma vantagem. — Isso não pode ser coisa da minha cabeça. De novo ele mudou e se tornou alguém sábio e compreensivo. Onde que eu poderia imaginar que aquele cara que me mandou deixar os sentimentos de lado, logo que me despedi de meus pais, poucas horas depois estaria me dando conselhos sobre como todos podemos vencer nossos obstáculos?
Continuamos nosso caminho e eu fiquei refletindo: "Será que todos aqui são assim como ele? Instáveis? Em um instante estando de um jeito e no instante seguinte completamente diferente?" Se a resposta for sim, acho que mais em um quesito eu serei diferente, pois vou tentar ao máximo não me tornar desse jeito. Continuar mantendo ao máximo a minha personalidade.
Ele me mostrou meu dormitório, onde tinham outras 12 camas com pertences por perto e roupas jogadas no quarto. Mas o lugar estava vazio, não havia nenhum colega meu, pois como Julio me explicara eles estavam em treino e ficavam nisso quase o dia todo.
Finalizamos nosso passeio de reconhecimento vendo de longe o palácio do governo, um prédio alto e grande onde a maioria dos governantes importantes morava e trabalhava. Depois fui levada por ele até o hospital, onde me deram almoço e me explicaram que deveria ficar lá fazendo alguns exames até o outro dia, quando começaria a treinar com os outros. Também me entregaram uma mochila com tudo que eu precisaria, incluindo roupas, curativos e vários pequenos livros que eu deveria ler.
Após isso Julio se retirou, dizendo que tinha alguns assuntos a tratar, que eu não precisaria mais dele hoje e que amanha cedinho voltaria para me levar ao meu primeiro dia de treinamento e me apresentar a turma.
Passei o resto da tarde fazendo exames de sangue, coração, e físicos em geral. Logo que anoiteceu me levaram a uma salinha onde eu deveria ficar lendo por um tempo os livros que estavam em minha mochila, para começar a entender o funcionamento do quartel. Aí pelas dez horas da noite, (eu imagino que fosse esse horário mais ou menos, já que não tinha relógio para poder ter certeza) me levaram a um outro laboratório onde havia uma espécie de cama. Fui conectada a alguns fios e informada que iria dormir aquela noite ali, para a realização de novos exames.
Mesmo não gostando muito da ideia de dormir com vários fios conectados a mim, não me opus ou falei qualquer coisa, apenas me ajeitei, fechei os olhos e antes que pudesse pensar em qualquer assunto, acabei dormindo de tão cansada que estava.
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