A Missão

79 Capítulo 55


Três dias se passaram e Júlio ainda permanecia em coma. Eu ia vê-lo todos os dias de manhã, antes de começar com minhas obrigações e de noite, depois de terminá-las.

Danilo sempre estava lá na clínica quando eu ia. Por mais que eu insistisse para que ele fosse para casa e descansasse um pouco ele se recusava. Queria estar por perto quando o irmão acordasse. Eu faria o mesmo se pudesse. Mas não podia. Tinha meus deveres a cumprir. Mas mesmo assim passava o dia inteiro com Júlio na cabeça.

Por mais que eu tentasse me concentrar nas papeladas e nas decisões, uma parte de mim sempre continuava pensando nele. Se ele já havia acordado ou se poderia nunca mais acordar.

Certa tarde um soldado bateu à porta do meu escritório contando que Júlio havia acordado do coma. Sem pensar duas vezes larguei tudo que estava fazendo e sai correndo para a clínica médica. Chegando lá encontrei Danilo e Khaless esperando na ala médica:

– Júlio acordou? — perguntei afobada.

– Sim. Um médico está lá o examinando. — Danilo me olhou. Eu via em seus olhos uma mistura de felicidade e alívio.

Tivemos que esperar mais alguns minutos até o médico liberar Júlio para que pudéssemos entrar.

– Podemos entrar todos juntos? — perguntei ao médico que estava dentro do quarto. Era um homem já grisalho e com pouco cabelo, altura média e rosto simpático.

– Podem. Ele ainda está sobre efeito medicação e está um pouco lento. Mas tenham paciência. Também ainda não sabe sobre a perda dos movimentos das pernas.

– Ok.

Entramos no quarto. Minha mão suava um pouco de nervosismo. Danilo foi o primeiro que se aproximou de Júlio, se ajoelhando ao seu lado e conversando baixinho com ele. Me mantiVE perto da porta, deixando o máximo de privacidade aos dois. Quando Danilo saiu, fiz sinal para que Khaless se aproximasse. Eu queria ser a última.

Ela não demorou muito. Falou umas poucas palavras com Júlio e saiu, provavelmente para me deixar me aproximar. Quando ela saiu, os olhos dele já encontraram com os meus, e eu tive que me controlar para ir devagar até onde ele estava.

– Oi. — eu disse me abaixando perto dele e sorrindo. Ele me sorriu de volta, mesmo com aquela máscara de oxigênio em seu rosto.

Eu não sabia o que falar, não estava tão à vontade assim. Eram tantas coisas ao mesmo tempo.

– Senti sua falta. — eu disse. Provavelmente estava com a paixão estampada em meu rosto novamente.

Ele não disse nada. Apenas retribuiu meu olhar e começou a acariciar o meu rosto.

– Eu te amo. — eu lhe disse.

– Eu também – ele respondeu baixo. Era a primeira vez que eu ouvia sua voz novamente. Era ainda melhor do que eu me lembrava.

– Como você está? — perguntei. Talvez estivesse tão anestesiado quanto eu, quando acordei no hospital.

– Melhor com você aqui. Mas ainda me sinto estranho. — ele respondeu, calmamente e baixo.

–É normal. Logo você vai ficar bem de novo. — nossos olhos se encaravam, criando uma ligação exclusivamente nossa. Uma ligação que era capaz de expressar tudo que sentíamos, sem palavra alguma.

Eu queria poder abraçá-lo. Beijá-lo. Mas me satisfazia já poder vê-lo e poder conversar com ele. O resto esperaria mais um tempo.

– Doutor? Eu não estou sentindo minhas pernas. Isso é normal? — Júlio perguntou um pouco mais alto, quando paramos de conversar, olhando para as outras pessoas no quarto.

Todos temíamos aquela hora. Seria a hora da verdade. Eu queria não ter que precisar ver o sofrimento nos olhos dele quando soubesse. Mas aquilo precisava ser dito. Quanto mais cedo melhor.

Me agachei em frente a sua cama e tomei coragem. Eu daria aquela notícia a ele.

– Sim. — Júlio me olhou espantado. Provavelmente estava estranhando eu estar respondendo aquela pergunta – O tiro que você levou atingiu sua coluna e afetou alguns dos seus movimentos.

Demorou um tempo até ele entender o que aquilo significava:

– Liss, você está me dizendo que eu estou paralítico? — tudo que eu não queria estava acontecendo. Eu estava encarando toda aquela tristeza, aquela angústia em seus olhos.

Não consegui responder. Quem era eu para confirmar ou não aquilo? Não entendia nada de termos médicos. Felizmente o doutor que estava cuidando de Júlio assumiu dali para a frente:

– Ainda não podemos dizer nada com precisão. Precisamos lhe fazer alguns exames e esperar para ver como sua lesão vai reagir. Você teve uma lesão medular, na vértebra L2 e provavelmente ficará sem o movimento das pernas. Não sabemos se permanentemente ou por um período de tempo. O que aconteceu foi que a bala comprimiu a sua medula e destruiu as células nervosas que enviavam informações ao cérebro. Agora os membros inferiores não tem mais uma conexão com sua mente. — o médico olhou para todos nós, esperando que disséssemos alguma coisa. Como todos não sabíamos o que falar ele prosseguiu — Em alguns raríssimos casos as células acabam se recuperando e o paciente começa a voltar a sentir as pernas e a movimentá-las um pouco. E em alguns outros um tratamento com células-tronco cria novas células que substituem as antigas e causa uma grande melhora no paciente.

Júlio só escutava as palavras do médico com a cabeça baixa, como se não conseguisse acreditar que aquilo estava acontecendo com ele.

– E o que vocês farão daqui pra frente? — perguntei.

– Primeiro vamos descobrir a intensidade da lesão em Júlio e quais seus aspectos, depois disso ele fará, diariamente, seções de fisioterapia. E após um tempo, um ou dois meses, poderemos começar com o tratamento de células-tronco, se ele quiser.

– E porque ele não iria querer? — Danilo agora estava se aproximando e participando da conversa também.

– O tratamento pode ser um pouco complicado. Iremos retirar as células-tronco da sua própria medula óssea e no início as injetaremos com uma agulha nas regiões lesionadas. Isso será feito de tempo em tempo, até que consigamos um bom resultado. Mas se percebermos que esse tratamento não está fazendo efeito teremos que aplicar as células em uma cirurgia. O que é muito mais complicado.

– Ok. Faça o que tem que ser feito doutor. — eu confirmei. Meu Júlio precisava fazer o que fosse preciso para superar aquilo.

– Preciso fazer alguns exames nele. Seria melhor se não se importassem em esperar lá fora.

– Claro. — saímos do quarto, deixando paciente e médico sozinhos.

Depois de um certo tempo o médico saiu e veio em nossa direção para contar o que havia descoberto:

– Ele perdeu os movimentos e a sensibilidade da metade das coxas para baixo em ambos os lados. Mas felizmente sua bexiga e intestino não foram atingidos. Suas necessidades fisiológicas continuarão normais. Daqui pra frente terá que fazer fisioterapia, para tentar uma leve melhora e para manter a musculatura dos membros.

– E quando Júlio poderá ir para casa? — Danilo olhou sério pro médico.

– Não tão cedo. Ele terá que ficar mais um tempo aqui se adaptando. E terá o acompanhamento de fisioterapeutas e psicólogos.

– Tudo bem. Podemos vê-lo novamente? — Danilo não parecia muito contente em saber que o irmão permaneceria por um tempo na clínica.

– Creio que não. Júlio pediu para ficar um tempo sozinho. Ele precisa aceitar sua nova condição.

Danilo pareceu decepcionado, mas não reclamou. Era justo que Júlio levasse um tempo até assimilar aquilo. Ele ficaria triste no início, mas conseguiria superar.

O médico foi embora, e Khaless também. Sobrando apenas eu e Danilo na ala de UTI.

– Você deveria ir pra casa, tomar um banho, comer alguma coisa e descansar- Eu disse. Danilo parecia péssimo.- Enquanto Júlio fica sozinho. Depois você pode voltar e visitar ele. Enquanto isso eu fico aqui para qualquer coisa que for preciso.

– Eu to bem assim.

– Vai de uma vez Danilo. Não precisamos de mais alguém doente e internado.

Convenci ele e finalmente ele foi para o quartel descansar. E eu fiquei lá sozinha, sentada em um banco esperando até que Júlio quisesse companhia de novo. Queria entrar de uma vez e poder conversar com ele. Lhe dar o meu apoio, dizer que estávamos juntos nessa.

Mais tarde Danilo ainda não havia voltado quando uma enfermeira apareceu para dar os remédios de Júlio. Eu vi que ela iria entrar lá dentro e a chamei:

– A senhora poderia fazer um favor para mim? Se Júlio estiver acordado diga a ele que a Liss está aqui fora esperando para poder conversar com ele.

– Sim, governante. — a mulher respondeu.

– Obrigada.

Ela entrou no quarto dele e uns minutos depois apareceu de volta:

– Ele disse que é para a senhorita entrar. — anunciou ela, e foi embora da ala de UTI.

Dei uma batidinha na porta e entrei, meio envergonhada e receosa por ter pedido para falar com ele. Mas fazer o quê? Não conseguia ficar lá fora sentada esperando, como se nada estivesse acontecendo, enquanto eu sabia que ele estava péssimo ali dentro, a alguns metros de mim.

Não podia deixar ele sozinho, sofrendo. Eu havia dito que iriamos enfrentar isso junto.

– Oi. — eu disse meio sem jeito. Ele não me respondeu, apenas ficou me olhando. Me aproximei dele e puxei uma cadeira para poder sentar em sua frente – Posso ficar aqui com você?

– Pode. — ele concordou. Mas não tenho certeza se ele queria que eu ficasse lá mesmo.

– Júlio, eu posso imaginar como você está se sentindo. E por favor, me deixe ajudar. Quero enfrentar isso junto contigo. Você não está sozinho. — ele me olhou com ternura – Não fique triste. É só mais um obstáculo em sua vida. E eu e você, juntos, vamos superá-lo.

– Não é tão simples. — reclamou ele.

– É claro que é.

– Liss, você não entende. Eu não posso mais ser um soldado. Como vou participar das coisas sem poder andar? Não posso mais nem lutar. E o pior de tudo isso, é que eu não posso mais te proteger. Nem a você, nem a ninguém. Agora eu vou ficar de fora de tudo. Não poderei fazer mais nada.

– Chega, Júlio, por favor. — cortei. — Primeiro que eu não preciso de proteção nenhuma. E segundo que mesmo que precisasse você daria um jeito de me proteger de cadeira de rodas ou não. Existem muitas coisas que você ainda pode fazer. E você não é um simples soldado. Você é o sargento, o governante. Então enquanto não puder andar, use as outras coisas que você tem. Seu cérebro, por exemplo. — eu estava um pouco irritada. Tentei me acalmar. Aquilo não era culpa dele, qualquer um reagiria da mesma maneira ou pior.

– Mas meu cérebro não será o suficiente. Eu preciso do movimento das minhas pernas. Preciso conseguir andar, correr, lutar... Só assim sou uma pessoa completa.

– Você que dizer que uma deficiênciazinha faz com que alguém seja pior que os outros? Que seja menos completo? Isso é infantilidade. Uma deficiência é apenas um obstáculo. Um degrau a mais que algumas pessoas têm que superar. Só isso. — falei, sem me controlar. Dizendo tudo que pensava.

Ele desviou o olhar do meu, um pouco aborrecido e não falou mais nada.

Ficamos algum tempo em silêncio. De repente uma lembrança apareceu na minha cabeça. Eu conseguia me lembrar dos mínimos detalhes daquela cena:

– Você se lembra daquele primeiro dia, enquanto você me apresentava o quartel? — perguntei a ele, que relutantemente voltou o olhar para mim – Eu lhe disse que me sentia tão diferente dos outros soldados. E lembra o que você me disse? — ele fez que não com a cabeça. — Pois eu me lembro. E muito bem. Suas palavras foram exatamente essas: "Não deixe o que parecem ser limitações suas lhe impedirem, pois às vezes isso pode ser uma vantagem.". Você entendeu? — olhei para ele, que voltou a desviar o olhar.

Respirei fundo, me controlando e pensando no que dizer:

–Você mesmo sempre soube que não podemos deixar nada nos abalar. Temos que seguir em frente, não importa o que aconteça. E fazer de tudo para usar nossos obstáculos a nosso favor. Eles são os que nos fazem mais fortes. Eles sãos os que nos ensinam o verdadeiro significado da vida.

Júlio não conseguiu mais se manter sem me encarar. Ele me olhou de novo, parecendo triste e cansado. Eu via todo o sofrimento em seus olhos, que pareciam mais escuros do que o normal, a sua luta interior.

– Eu sei como você pode usar sua deficiência a seu favor. — prossegui, tentando animá-lo — Sei de uma maneira que você vai poder proteger muita gente e que será muito útil.

– E qual é? — perguntou ele apático e indiferente. Provavelmente não acreditava que aquilo fosse possível.

– Assuma o governo até a eleição dos novos governantes. Guie o país, o proteja. Você será muito melhor do que eu nessa função.

Ele pensou por um instante, olhando fundo nos meus olhos. Por fim disse:

– Não, Liss. Você é melhor governante do que qualquer um. Você conhece as necessidades do povo, tem mais experiência. Fique você com esse cargo.

– Eu não quero. Por favor, precisamos de alguém de confiança no comando. E os únicos somos eu e você. Isso vai fazer bem para todos nós, sem contar que é a forma perfeita de você proteger todo mundo, por enquanto...

– Não sei, não. Mas se é o que você quer, tudo bem.

Fechei os olhos e respirei fundo. Era o que eu queria. Mas não era para ele aceitar aquilo apenas para satisfazer as minhas vontades:

– Você ganhou uma nova chance de viver. Não jogue fora – eu disse – Esse seu estado é temporário. Você vai voltar a andar. Poderemos treinar lutas de novo. Mas enquanto isso, faça tudo valer a pena. Aproveite cada oportunidade, cada dia. Por favor, Júlio. Não faça isso por mim. Faça por você mesmo. E pelo povo. — eu implorava.

– Ok. Ok, Liss. — Júlio pareceu um pouco menos relutante. Acho que eu consegui convencê-lo. — Eu não posso te prometer nada. Mas eu vou tentar. Vou tentar superar isso e ser um bom governante.

– Você não vai tentar. Você vai conseguir – corrigi – Nós vamos conseguir. Nós dois juntos. Vamos mudar esse país e vamos ser muito felizes. Eu não vou sair do seu lado. Não importa o que aconteça.

Pela primeira vez desde que recebera a notícia de sua deficiência eu vi uma chama de esperanças em seus olhos:

– Você é boa demais para mim. Eu não mereço tanto.

– Claro que merece. Você é uma pessoa muito especial, Júlio. Você se importa com todo mundo. Você tem um bom coração. Você é um vencedor, um guerreiro. E vai ficar para a história de Tazur. Em menos de um ano no governo, você vai ser considerado o melhor governante que nosso país já teve. Também vai ser o responsável por implementar uma forma de governo muito mais justa. Seu nome, Júlio César Anthoni, vai ser lembrado sempre por ter sido o cara que mudou para melhor Tazur.

Ele olhou para mim, com um leve sorriso. Já parecendo melhor do que antes:

– Eu não quero ser lembrado. Não quero fazer história. Eu quero é ver todos bem e felizes. Quero te ter ao meu lado e ser tão boa quanto você.

– Isso você já tem. Você é ainda melhor do que eu e vou ficar contigo para sempre — me aproximei mais dele, olhando fundo nos seus olhos e sorrindo, tocando seu rosto. Minha respiração estava ofegante, meu batimento cardíaco acelerado. — Eu te amo

– Eu também. — ele prendeu meu rosto em suas mãos – Você é a minha vida. Minha razão de viver. Obrigado por não desistir de mim.

– Eu nunca faria isso. — tentei falar. Ele me deixava completamente atordoada. Sem palavras. Confusa. — Nós vamos ser muito feliz juntos, e vamos mudar para melhor nosso país.

– Tenho certeza que sim. — ele respondeu baixo, e com seu braços me puxou para mais perto. Fazendo com que eu deitasse em seu peito e me protegendo com seus braços. Exatamente como sempre fez.

Notas finais
Comentários? Dúvidas? Esse foi o último capítulo da história. Só falta ser postado o Epílogo que postarei amanha à noite. Espero que tenham gostado.