A Missão
62 Capítulo 41
Notas iniciais
Dois dias depois da viagem até Meric, Júlio me pediu para que eu fosse com ele conversar com Thomas. Ele iria contar tudo que eu havia descoberto e disse que seria bom se eu pudesse estar junto e o ajudasse com mais alguns detalhes. Concordei e combinamos de nos encontrar no mesmo lugar que ocorreu a outra reunião.
Quando cheguei encontrei apenas Júlio lá:
– Olá! — eu disse pra ele
– Boa noite, Liss – ele abriu aquele seu sorriso perfeito, que me derretia inteira – Obrigado por ter vindo.
– De nada. Não podia deixar você e Thomas sozinhos. Me disseram que vocês brigam quase sempre.
– É verdade. — ele admitiu, parecendo cansado e chateado com aquele fato – Mas você também já brigou com ele algumas vezes.
– Sinceramente, eu não gosto nem um pouco dele. — dei de ombros — É um idiota, egoísta e arrogante. Ainda não entendo como você pode ter o escolhido pra te ajudar na missão.
Júlio se aproximou um pouco mais de mim, e explicou, como se já tivesse dito aquilo milhares de vezes:
– Eu não escolhi. Não desse jeito. Você sabe que nos conhecemos, nos tornamos amigos, e como partilhamos os mesmos ideais, resolvemos fazer alguma coisa para mudar o governo. Nós temos as nossas diferenças, mas quando se trata da missão, ambos queremos o melhor para ela. Certo, que ele gosta de ideias mais radicais, e faz qualquer coisa para alcançar os objetivos, mas ele é um cara legal, no fundo.
– No fundo, bem no fundo mesmo, só se for – constatei, rindo um pouco.
Ouvimos alguns barulhos e ficamos quietos. Logo a porta do alçapão abriu e Thomas entrou. Ele nos viu juntos e não pode deixar de fazer algum comentário idiota:
– Olha quem temos aqui. Meu casal preferido! Vejo que estão levando esse plano a sério mesmo. Não se desgrudam mais.
– Pensei que Liss poderia me ajudar a contar tudo o que ela descobriu. — Júlio falou calmamente, ignorando o comentário dele.
Júlio começou a narrar tudo o que eu tinha lhe contado. Os horários dos governantes, como e quem eram seus guardas pessoais, as melhores entradas e saídas do palácio, o lugar das câmeras, entre outras coisas. Eu o ajudava com algumas coisas, mas a maioria do tempo foi ele quem falou.
Encerrado o repasse de informações, eles decidiram que a missão seria feita no próximo dia de descanso e que deveriam começar a avisar os outros.
Antes de irmos embora Thomas falou:
– Eu andei pensando, e tem uma coisa que não decidimos.
– Nem sabia que você pensava! — não pude deixar escapar aquela. Ele me irritava tanto e fazia tantos comentários maldosos sobre mim que eu tinha que dar o troco uma hora ou outra.
Júlio me olhou com cara feia, me mandando ficar quieta, mas Thomas me ignorou, como se eu nem existisse:
– Precisamos ver como vamos fazer depois que os governantes abrirem mão do poder.
– É verdade. Não pensamos sobre isso – Júlio admitiu.
– Eles não podem só abrir mão do poder. Acho justo que passem ele para outra pessoa. Se não, alguém pode contestar aquilo, e sem uma ordem assinada de quem é o governante, as coisas podem se complicar. E aí a pessoa escolhida pra ser o novo governante, poderá assinar e mudar a forma de governo, para a que queremos. — nunca havia visto Thomas tão sério e concentrado no assunto.
– Certo. É isso mesmo. Mas para quem deverá ser passado esse poder? Tem que ser alguém de confiança, e que tenhamos certeza que depois vai assinar a nova forma de governo.
– Eu não vejo problema em assumir por uns dias. — é claro que ele não via. Não gostei daquilo, Thomas era muito ambicioso. Seria muito fácil para ele, permanecer no poder depois.
Tentei alertar Júlio, e dar uma ideia melhor:
– Se vocês vão fazer com que os governantes assinem um papel passando o poder pra somente uma pessoa, isso já mudará a forma de governar. Então porque já não fazem eles assinar o modelo de governo que vocês querem?
Thomas não gostou da minha intromissão. Ele me olhou como se quisesse pular em meu pescoço.
– Cale a boca, e não se meta. — disse ele. — Ainda não temos tudo decidido sobre a nova forma de governo. E não podemos fazer com que eles assinem isso, podemos querer mudar alguma coisa depois. O mais certo é dar o poder a uma pessoa.
Júlio passava a mão no rosto, pensando. Ele parecia ter entendido meu alerta.
– É muito arriscado colocarmos somente uma pessoa no poder. Vamos manter como está. Três pessoas. Cada um dos governantes assina a desistência do governo e passa seu cargo a alguém — ele disse por fim. Sua ideia era melhor que a de Thomas.
– Isso é uma boa – concordei. Sabia que não deveria me meter, mas não conseguia me manter calada – Vocês dois assumem o poder, já que são os líderes do grupo, e escolhem mais alguém. É simples.
– E quem deveríamos escolher, por acaso? Você? — Thomas continuava me olhando com ódio.
– Não, eu não. Escolham outra pessoa. — eu não queria me meter naquilo. A recém tinha entrado para o grupo e não era competente o suficiente. Tinham muitas outras pessoas mais adequadas do que eu.
– E porque não a Liss? — Júlio encarou Thomas. — Eu acho ela uma boa escolha. Ela é confiável, está junto conosco nessa e tem nos ajudado bastante.
Thomas riu, uma risada forçada e sem a mínima graça:
– Não deixe seu amor te influenciar, sargento. Você tá cego, não consegue ver mais nada. Não podemos colocar essa garotinha pra governar um país durante alguns dias. Ela ainda é uma pirralha imatura, que só quer tirar proveito da situação.
Aquele comentário dizia tantas coisas, que nem fui capaz de processar tudo. Guardei tudo na cabeça para pensar mais tarde, e me foquei em ignorar as palavras de Thomas, e não me exaltar.
Mas o clima já estava esquentando. Júlio já estava completamente irritado. Thomas também. Eu parecia a mais calma ali, e eu já estava com bastante raiva.
Achei que cabia a mim tentar amenizar a situação:
– Não é a hora de você dizer o que pensa sobre mim, Thomas. — respirei fundo para não gritar as palavras e manter um tom razoável. — Eu não quero governar esse país. Escolham outra pessoa – insisti – Mas não precisa ser agora, vocês tem alguns dias pra pensar.
Os dois estavam frente a frente, se medindo com o olhar. Mas minhas palavras pareciam ter controlado um pouco a situação. Thomas e Júlio acabaram concordando com a minha ideia.
Para encerrar só tinham uma última coisa para discutir, e eu esperava que fosse um tópico mais tranquilo. Não sei se aguentariam mais uma divergência sem começarem uma briga.
– E o que faremos com os governantes depois que eles assinarem os papéis? — Júlio perguntou.
– Matamos. — Thomas falou simplesmente. Aquilo me chocou. Como ele sugeria matar pessoas assim, tão facilmente?
– Não. Não vamos matar! — Júlio voltou a se alterar – Por mais que o que eles fazem esteja errado, não é o suficiente para matá-los. Não somos monstros! — Júlio gritou – Se fizermos isso vamos estar nos igualando a eles. — Ele estava com os punhos cerrados, e olhava pro chão, respirando fundo. Travava uma batalha interior tentando se acalmar e voltar a razão – Vamos prendê-los por um tempo e depois os soltamos. Eles não poderão fazer mais nada.
– Você acha que eles não tem simpatizantes? — foi a vez de Thomas ficar raivoso e gritar — Se deixarmos eles vivos as pessoas vão se unir para libertá-los ou depois que os soltarmos, eles mesmo vão juntar um exército para nos tirar do governo. Você é tão idiota assim para perceber?
– Você que é um idiota sem coração! — revidou Júlio. — Eu não vou matar ninguém! Queremos um país melhor, e não vamos conseguir isso se já começarmos desse jeito!
– Temos que mostrar quem está no poder! Vamos matá-los e ponto. Ou será que o grande e maravilhoso sargento Anthoni, na verdade não passa de um covarde, brincando de ser rebelde?
Vi que Júlio não iria se controlar mais. Ele estava a ponto de agredir fisicamente Thomas. Fui para a frente de Júlio e o segurei pela cintura, tentando sem sucesso o empurrar para longe. Mas pelo menos comigo na frente dele, Júlio pensou duas vezes antes de bater em Thomas.
– Eu não sou um covarde! Covarde é quem tem medo que antigos governantes derrubem o seu governo! — Júlio gritava para Thomas, enquanto eu tentava o empurrar. Mas ele era grande e pesado de mais. Eu quase ficava surda com seus gritos tão perto de mim. Nunca tinha visto Júlio alterado daquele jeito, ele parecia outra pessoa. Estava completamente fora de si. — Você é um coração de pedra, Thomas! Não entende as pessoas, e o que elas sentem! Não é capaz nem de amar alguém de verdade!
– Júlio! Júlio! — eu gritava, olhando para ele, tentando chamar sua atenção e fazê-lo parar com aquela discussão . — Júlio, pare. Olhe pra mim! Pare com isso!
– Saia da minha frente, Liss. Não quero te machucar. — ele rugiu entredentes. Mas eu não sai. Ele não iria me machucar e nem fazer besteira nenhuma comigo ali.
– Você não sabe o que diz! — continuou gritando Thomas. — Não fale nada, sem me conhecer de verdade! Eu sou capaz de amar sim! E não vou continuar com essa merda de discussão com você. — ele se virou de costas e começou a sair. Quando tinha chegado no alçapão se virou de costas – Você se tornou um babaca, idiota depois que se apaixonou por essa pirralha! Não é mais o mesmo cara que eu conhecia. Aquele que se importava acima de tudo com a missão, e não com ela!
Thomas saiu, e nos deixou lá. Fiquei na frente de Júlio o segurando por mais algum tempo, para evitar que ele saísse correndo atrás de Thomas. Quando imaginei que Thomas já estivesse a uma boa distância soltei Júlio.
– Se acalme, por favor. — pedi – Não vá fazer nenhuma besteira.
Me doía muito vê-lo daquele jeito. Os dentes trincados, os punhos contraídos, o olhar de raiva e ódio.
Sem pensar muito, me aproximei de novo dele, e o abracei. Aquilo foi o suficiente para trazê-lo à razão. Depois de alguns segundos, ele me abraçou de volta e enterrou sua cabeça em meus cabelos.
Ficamos assim por alguns minutos, até que eu senti que sua respiração estava em um ritmo normal novamente. O soltei e perguntei:
– Você está bem?
Ele respirou fundo e fechando os olhos passou as mãos pelo rosto.
– Estou. Desculpe por isso.
– Não é pra mim que você tem que pedir desculpa. É pra Thomas.
– Mas ele me provocou, você viu. — Júlio estava querendo voltar a ficar nervoso.
– Os dois agiram errado. E os dois têm que se desculpar. Mas não hoje. Agora você precisa esfriar a cabeça.
O levei para seu dormitório e o fiz me prometer que não faria nada o resto daquela noite e que permaneceria no quarto. Depois que ele me prometeu, segui para o meu dormitório.
Encontrei somente Danilo lá, sem nenhum sinal de Eric.
– Cade o Eric? — perguntei.
– Recebeu uma ligação e saiu uns segundos antes de você chegar.
– Que bom.
Não queria dar uma de fofoqueira, mas compartilhei com Danilo tudo que havia acontecido naquela noite entre Júlio e Thomas. Eu estava assustada com aquilo, tinha medo que eles brigassem mais, ou que toda a missão fosse por água abaixo. Mas Danilo me assegurou que nada disso iria acontecer. Eles estavam acostumados a brigar e amanha estariam se falando normalmente.
Tentei acreditar nele, e fui dormir.
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