A Missão
47 Capítulo 30
Passei o dia, enquanto devia estar prestando atenção ao redor para garantir a segurança de Margareth, refletindo sobre a conversa com Júlio.
Ele era um dos melhores militares que eu conhecia, muito inteligente, habilidoso e forte. Se ele achava que podia derrubar o governo, devia ter tudo muito bem pensado. Provavelmente a ideia daria certo.
Mas a dúvida era, queria eu participar de tudo isso?
Se eu aceitasse me tornaria uma espiã, quebraria o juramento de proteger o governo que eu havia feito na minha formatura. Não sei se queria isso.
Além do mais os governantes eram ruins, mas não faziam nada que fosse prejudicar tanto assim a vida das pessoas. Pelo menos era isso que eu achava, até a reunião que presenciei hoje.
Estavam na sala de reuniões somente os três governantes e seus respectivos guardas pessoais. Era discutido o tanto de verba que deveriam gastar em cada lugar:
– Odeio essas reuniões – reclamou Golt, o irmão gêmeo de Margareth. Ele tinha o cabelo loiro penteado para trás com várias camadas de gel e uma cara de tédio que era sempre permanente nele.
– Vamos terminar rapidamente com isso – Milton ordenou. Era a primeira vez que eu o via pessoalmente. Ele parecia ter uns 40 anos, mas já tinha o cabelo grisalho e curto. Sua voz era grossa e mais autoritária que a de qualquer outro. Era o tipo de cara que não deveríamos brincar e que causava medo apenas com um olhar.
– Vamos. — concordou Margareth, com sua voz doce, mas jeito arrogante. — Temos dois milhões de reais para ser partilhado entre todos os setores do nosso país. Fui informada que tem escassez de um certo remédio em todos os hospitais de Tazur. Não recordo-me que remédio é esse ou qual a sua função. Entretanto disseram-me que pessoas estão falecendo com a falta dele. — ela continuou narrando vários problemas que precisavam de dinheiros para serem solucionados, problemas na saúde, como aquele, na educação, greves em fábricas, etc – E por último existe um asilo em Fimu que precisa de uma reforma urgente. Está prestes a desabar e matar todos os anciões que moram lá.
– Deixe que desabe então. — Milton falou sério, olhando para os outros.
– Porque? — indagou Golt.
– Gastar dinheiro nisso seria um desperdício, podemos deixar como está. O prédio então cairá, matará os velhos e economizaremos o dinheiro dos seus remédios. — Aquele Milton era pior que os outros dois. Não se importava nem um pouco com as vidas perdidas, com o sofrimento dos idosos e das famílias. Tive que me segurar para manter meu posto.
– Gostei da ideia. — Golt riu pela primeira vez.
–Ok. — Margareth fez uma anotação e prosseguiu. Pelo jeito ela era uma espécie de líder entre eles, a que organizava tudo. — Possuímos um outro problema. A rede We solicita mais 500 mil reais para manter sua programação. — Essa era uma rede de TV famosa, que toda população do país assistia.
– Dê os 500 mil. — Margareth podia ser a espécie de líder, mas a palavra final era de Milton.
– É isso, dê. Eles tão fazendo um bom trabalho. — Golt sempre concordava – Vocês viram os novos comerciais deles? Aqueles que dizem que você não é um verdadeiro cidadão de Tazur se não tiver a nossa nova bandeira pendurada na parede da sala. Eu vi, todos foram comprar suas bandeiras o mais rápido possível. Os estoques acabaram rapidamente.
– Muito bom – Margareth fez sua cara esnobe, com um sorriso e o nariz empinado. — Eu sou da opinião, de juntamente com o dinheiro enviar-lhes um pedido para que divulguem um novo automóvel da moda e também criem um novo programa que exalte as qualidades do governo.
– Sim, aprovado. — a palavra final de Milton.
Eles passaram o resto da tarde discutindo esse tipo de coisa. Negligenciavam as verdadeiras necessidades e investiam dinheiros em coisas fúteis. Minha raiva subia cada vez mais, como podiam fazer bem para o povo assim, se privilegiavam seus próprios interesses e descartavam os do povo?
Por fim dividiram toda a verba, a maioria para interesses pessoais, como um grande banquete no palácio para dali a um mês, uma renovada no guarda-roupa de Margareth, contratação de duas novas prostitutas exclusivas para Milton, entre outras coisas.
Coisas como merenda escolar e investimentos em saúde ficaram em segundo plano e receberam muito pouco investimento.
Quando pude voltar para o quartel, havia tomado uma decisão. Depois de ter visto tudo aquilo, aquele pouco caso que eles faziam da população, aquele sangue-frio em concordar em deixar que velhinhos indefesos morressem, eu tinha decidido. Entraria para o grupo de Júlio e Danilo e iria ajuda-los no que fosse preciso a derrubar aqueles três tiranos e fazer um país melhor.
Não podia deixar que crianças vivessem num mundo como aquele. Nós somos os últimos representantes da Terra, deveríamos cuidar melhor uns dos outros. Talvez não tenha sido um erro tão grande assim terem me designado para o quartel. Quem fez essa escolha acabou me dando a opção de mudar o futuro do meu país e do resto da humanidade.
Avisei Danilo logo que cheguei e ele ficou feliz em eu ter aceitado e disse que tinha certeza que eu ia fazer a escolha certa. Hoje decidi trocar de roupa para ir treinar, coloquei minha farda antiga para evitar olhares indesejados e prendi os cabelos. Fiquei exatamente como antes da formatura e isso de certa forma foi reconfortante.
Na base de treinamento procurei um lugar afastado de todos e fiquei lá treinando. Mas uns minutos depois, Thomas fez questão de ir treinar do meu lado. Logo que chegou já foi comentando:
– Cadê a soldado Liss vagabunda? Desistiu de mostrar os peitos para todo o quartel? — ele disse rindo.
Já tinha uma resposta na ponta da língua para dar, mas me lembrei da confusão do dia anterior e me segurei, o ignorando. Ele continuou fazendo comentários idiotas, mas não cai no joguinho dele e o ignorei. Depois de um tempo ele se cansou e foi embora.
No outro dia, estava voltando para o dormitório quando entrei em um corredor em que Júlio estava vindo. Ele rapidamente me viu também e deixou cair um papel no chão. Achei aquilo estranho, não havia entendido se o papel tinha caído sem que ele visse ou se foi de propósito. Mas quando ele passou por mim, eu entendi. Ele me cumprimentou:
– Liss. — com um aceno de cabeça.
– Oi. — eu disse.
Em seguida ele seguiu o caminho, mas antes disso me deu uma piscadinha com um olho. O gesto me lembrou muito o Danilo, que tinha o costume de fazer aquilo. Ele também fez um leve movimento com a cabeça em direção ao papel que havia deixado cair. Foi aí que eu entendi. Confirmei com a cabeça para ele e continuamos andando, em direções opostas.
Foi tudo muito discreto, ninguém que estivesse no corredor ou vigiando das câmeras poderia ter percebido isso.
Quando eu cheguei ao local que o papel estava me ajoelhei no chão, e comecei a amarrar o cadarço do meu calçado. Antes de levantar coloquei a mão em cima do papel e o peguei. Após isso fui pro meu quarto como se nada tivesse acontecido.
No quarto, rapidamente abri o papel. Era um bilhete. A primeira frase era: "fale com o Danilo" o restante era uma combinação de letras escritas em um padrão que não formavam palavra alguma e eu não conseguia entender.
Danilo não estava no quarto, então fui tomar um banho antes de procurá-lo para desvendar aquilo. Quando sai do chuveiro, Danilo estava lá, lendo uma revista sobre carros.
– Danilo? — chamei.
Ele olhou rapidamente pra mim:
– O que foi Liss?
– Nada. É que recebi esse bilhete de Júlio e não consegui entender. — alcancei o bilhete pra ele.
–Ah! — ele olhou rapidamente – Está criptografado, pra ninguém além de quem sabe entender.
–É mas esse é o problema. Eu não entendi.
– Eu sei. Mas a regra de descriptografia é fácil. Júlio me falou hoje cedo. Para cada letra dessas você conta quatro letras antes dela e anota, aí irão formar uma palavra. Por exemplo quando tem a letra P, você conta O-3, N-2, e M-1 e o L-0. Portanto a letra que o P está representando é a L. Entendeu?
– É acho que sim. — peguei o bilhete de volta – Vou ir lá tentar desvendar isso. Qualquer coisa peço sua ajuda de novo.
– Isso. — ele concordou. — E a propósito você tá muito cheirosa.
– Urgh!
Fui pra minha cama e comecei a usar o método que Danilo me disse. Por fim o bilhete ficou assim:
"L.
Lembra quando no dia do acampamento você perguntou como poderíamos ter certeza que não existia mais ninguém vivendo no planeta? Bom aquilo ficou em minha cabeça, e como primeira parte da M. resolvi pegar um avião no dia de folga e ir até a fronteira da Floresta Amazônica para tentar descobrir alguma coisa.
Se quiser te convido a ir comigo, já que você foi quem pensou nisso. Não se sinta obrigada, vá somente se quiser e aí me encontre onde te ajudei antes do raiar do sol.
J.C."
Percebi que ele tentou não dar nenhuma referência que pudesse nos entregar. Meu nome tinha sido abreviado como L, M significava a missão. Eu deveria encontrá-lo na base de treinamento dos soldados iniciantes antes do amanhecer do dia de descanso. Não entendi as iniciais JC como assinatura, já que seu nome era Julio Anthoni.
Mas nem precisei pensar muito para decidir se iria ou não. A decisão foi fácil. Eu estava disposta a tudo para melhorar meu país.
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