A Missão
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Acordei com muito mau-humor, o dia que eu abominei desde pequena havia chegado. Seria hoje!
Hoje eu descobriria para qual região do país seria mandada e qual função deveria exercer. Esse seria meu último dia junto com meus pais. Amanhã partiria para um lugar desconhecido, com pessoas desconhecidas, para fazer sei lá o quê.
Mas é assim que acontece com todos quando chegam aos seus 18 anos. Exatamente no dia do seu aniversário são comunicados sobre suas novas obrigações. É como se nessa idade o governo te considerasse adulto e lhe arranjasse uma vida nova, para que você aprenda a se virar sozinho e possa servir ao governo da maneira mais conveniente possível.
Ninguém sabe quando tudo isso começou, alguns dizem que foi após uma grave doença que matou quase a humanidade toda, outros dizem que isso vem desde muito antes, como resposta ao problema da falta de participação dos jovens na sociedade. Enfim, as opiniões divergem e ninguém se preocupa muito em descobrir exatamente como foi.
Completo meus 18 anos hoje. E não consigo ficar feliz com isso. Ser considerada adulta não é uma boa coisa para mim, nem para a maioria dos jovens que conheço. Na verdade todos preferimos continuar sendo crianças, a ter que assumir as novas obrigações.
Esse é sempre o aniversário menos feliz e menos esperado por toda a população. Nenhum pai quer que seu filho complete logo a maior idade e seja tirado de seu convívio, sem escolha alguma.
Quando encontrei meus pais na cozinha esta manhã, tentei me animar um pouco, seria o último dia com eles, e eu deveria aproveitar. Eles me deram abraços de feliz aniversário e um lindo colar com uma foto de nós três juntos, tirada há alguns meses atrás, passeando no parque:
–É um pequeno pedaço de nós para ir junto contigo. Quando estiver se sentindo triste e sozinha, pegue o colar e lembre-se que não importa a distância, sempre estaremos com você, dentro do seu coração. – disse minha mãe, colocando a joia em meu pescoço.
Me despedi rapidamente deles, não querendo me deixar abater pelo sentimento de tristeza que já me invadia, e fui para meu último dia na escola.
Tentava pensar em coisas alegres, em brincadeiras engraçadas para fazer com meus amigos, quando percebi que havia a sombra de alguém muito perto de mim. Virei-me rapidamente, mas não encontrei nada, nem ninguém. "Deve ser coisa da minha cabeça", pensei, "Fruto de todo o estresse e o nervosismo para saber para que serei designada". E dei de ombros, acreditando que aquilo não havia sido real.
Na escola tava tudo indo as mil maravilhas, quase todos se lembraram do meu aniversário, mas ninguém comentou sobre amanha (ainda bem!). Meus amigos estavam mais divertidos do que nunca, e eu logo comecei a rir, esquecendo de tudo que estava me deixando nervosa e triste.
Após o intervalo, estava na aula de matemática, fazendo uns exercícios que a professora havia pedido, quando começou uma música no alto-falante da sala. Já sabíamos o que aquilo significava e todos paramos o que estávamos fazendo para escutar o anúncio da diretora:
– Solicito em meu escritório a presença das senhoritas Liss Deboch e Tatiele Cotton, chegou o dia de saberem quais serão suas designações.
Demorou um pouco para a minha ficha cair e eu entender que ela havia dito meu nome: Liss Deboch. Quando me dei conta que havia chegado a tão temida hora, levantei-me e comecei a sair da sala, enquanto todos os demais alunos olhavam para mim e alguns me enviavam sorrisos de apoio.
Enquanto caminhava para a sala da direção comecei pensar nas possibilidades: a melhor de todas era ser designada para trabalhar nas fábricas aqui na minha cidade (como o meu pai), onde eu teria minha própria casa, mas moraria perto das pessoas que gosto e poderia visitá-los. Também poderia ser mandada (como a minha mãe) para alguma cidade que ensinasse os adolescentes a serem professores. Ou então ser designada para trabalhar na agricultura. Argh! Odeio terra, mosquitos, matos...
As possibilidades eram infinitas, já que cada cidade tinha uma determinada escola onde ensinavam certas habilidades aos jovens que lhes eram enviados. Esses jovens passavam um tempo, seis meses ou mais, aprendendo sobre suas novas funções e quando eram considerados formados e prontos, dependendo da designação, ficavam na própria cidade trabalhando como os outros, ou eram enviados para locais que precisavam daquele tipo de mão-de-obra.
Normalmente eles escolhiam para onde cada um deveria ir conforme as suas características mais marcantes (tanto características físicas, quanto as de personalidade) e também conforme os seus gostos.
Eu já havia pensando nas minhas características e gostos antes, e não consegui nem imaginar para onde seria mandada. Nada em mim se destacava ou mesmo me favoreceria em alguma função específica.
Estava tão absorta em meus pensamentos que nem reparei que já estava em frente a porta da sala da diretora, só me dei conta disso quando a outra menina que fez 18 anos também hoje, a tal de Tatiele, chegou ao meu lado e foi abrindo a porta e entrando. Eu, então a segui.
–Olá senhoritas. – falou a diretora, uma mulher gorda e alta, como sempre com seus cabelos castanhos presos em um coque sem graça, e seus óculos no rosto, apertando a minha mão e a da outra menina. — Sentem-se.
Sentamos-nos nas cadeiras indicada por ela, e esperamos enquanto ela dava a volta e sentava-se em frente a nós, com sua mesa de trabalho nos dividindo.
– Antes de qualquer coisa, gostaria de lhes desejar parabéns por ter completado 18 anos hoje e começar essa nova fase em suas vidas. Eu diria que essa é a melhor fase, e que vocês devem aproveitá-la ao máximo. — Ela respirou e continuou -Chega de lero-lero, vamos ao que interessa. Quem quer saber sua designação primeiro? – Eu e a Tatiele olhamo-nos, mas nenhuma de nós disse nada – Tudo bem, então vou fazer por ordem alfabética.
Ah! Então seria eu a primeira. De certa forma isso seria bom, pois já descobriria de uma vez o que me aguardava. Mas pensando por outro lado, eu não estava tão curiosa assim e não me importaria em esperar para saber o resultado depois da outra garota.
A diretora ainda me olhava esperando minha aprovação para poder começar, fiz um sinal afirmativo com a cabeça e ela pegou o envelope com o meu resultado.
Não é a escola que simplesmente escolhe para onde seus alunos irão, isso é tarefa do governo. Eles têm pessoas encarregadas de descobrir um pouco sobre cada um e designar para a função que melhor se encaixa com o indivíduo. A escola apenas recebe o resultado e o divulga na data correta ao seu aluno.
– Bom, vamos ver... – ela abriu o meu envelope e começou a lê-lo apenas para si mesma. — Hum....Hum....- resmungava enquanto lia e analisava detalhadamente cada uma das palavras impressas — Não esperava um resultado desses para você, senhorita Liss, mas se é o que o governo quer....
Agora finalmente a curiosidade havia me invadido. Para o que eu teria sido designada? Que tipo de coisa a diretora imaginava para mim e para que tipo de coisa havia sido mandada? Não conseguia conter minha curiosidade.
– A senhora poderia me dizer de uma vez para onde eu vou, e deixar para comentar sobre a escolha depois? – falei irritada.
–Cadê sua educação, menina? – ela olhou seriamente para mim, claramente surpreendida e contrariada. Suas próximas palavras foram rápidas e indiferentes, como se estivesse apenas contando o filme que passaria de noite na TV — Espero que lá lhe ensinem isso, pois você vai para a capital. Fará parte do exército, e será treinada para proteger o país.
O quê? Não acreditei no que ouvi. Como assim eu vou pro exército? Devia haver alguma coisa errada! Não, não. Eu não poderia ter escutado corretamente. Eu protegendo o país!?
Tentei me lembrar do tipo de pessoas que vi sendo designadas para o exército. Foram muito poucas. Na maioria meninos e muito diferentes de mim.
Na verdade nada em mim me inclinava para essa escolha. Sou baixa e magra, não gosto de lutar e de nenhum tipo de atividade que envolva o corpo, também não sou dessas que mataria alguém a sangue frio, apenas pela proteção do governo.
– Deve haver algum engano. Isso não parece adequado para mim. Eu não consigo me imaginar no exército. – minha voz saiu fraca, como se eu estivesse choramingando e pedindo a sua compreensão. Mas não era isso que eu sentia. Eu sentia que tudo era uma brincadeira, ou mesmo um sonho e que logo me diriam o verdadeiro lugar para onde seria mandada.
– Também não acho que faça muito o seu estilo. Mas se o governo lhe indicou para essa função é para ela que você irá. Eles nunca erram e sabem o que fazem. — falou a diretora, colocando um ponto final.
Aff! Odeio quando as pessoas começam a agir assim. A elogiar o governo como se ele fosse um deus. A pessoa que nos governa é tão boa, que nunca mostra a cara para a população e são muito poucos os que sabem o seu nome. Ele (ou ela) só fica em seu escritoriozinho, mandando e desmandando em todos, decidindo a vida de cada um, como se fossem peças de um jogo, sem nunca aparecer para a população. Um baita de um tirano! Decide tudo por todos e sem deixar ninguém opinar, e as pessoas ainda acham que isso está bom e deixam-se ser governadas e mandadas. Se ele declarar que a amanha todos deverão se atirar de um precipício ou bater nas pessoas que mais amam, será isso que todos farão.
Passei a minha vida toda escutando todos, até mesmo meus pais, exultando o governo, colocando o cara que nos manda em um pedestal, acima de qualquer outra coisa. Nunca vi ninguém criticá-lo ou achar que ele não é assim tão bom quanto dizem. Ninguém além de eu mesma. Até já tentei falar sobre isso com meus pais e com meus amigos. Mas ninguém me da razão. Todos começam a me xingar quando toco nesse assunto e dizem que nunca mais devo falar uma coisa dessas, que o governo é maravilhoso, que nosso país é perfeito!
Mas não é bem isso que eu vejo. Já cansei de ver mendigos na rua pedindo esmolas. De ver crianças com fome e com poucas roupas no inverno. Já vi a enorme marginalidade que a pobreza faz. Entre outras coisas horríveis.
E enquanto tudo isso acontece, e pessoas morrem de fome, frio,ou por falta de investimentos na saúde, o governo faz o quê? Fica em seu canto, parado, vendo todos morrer. Sem se importar muito. Já que ele está bem. Tá tudo certo, ele não precisa se preocupar ou agir.
–Beleza! Posso ir agora?- perguntei tentando controlar a raiva que tomava conta de mim.
– Pode. Pegue aqui seu papel com todas as informações que precisa. – ela me alcançou a carta, soltando seu veneno em nas próximas palavras – Boa sorte em sua nova função Liss, espero que se dê bem lá, que tome jeito nessa vida e torne-se uma pessoa com o mínimo de educação e disciplina.
Saí da sala batendo a porta, sem olhar para qualquer uma das duas pessoas que estavam lá, demonstrando a minha irritação pela minha nova função e pelas palavras da diretora . Como ela poderia me dizer para me tornar alguém com o mínimo de educação e disciplina? Como se eu fosse um fosse um animal qualquer, sem nenhuma convivência social!
Fiquei algum tempo no pátio, tentando absorver as palavras da diretora: "...você vai para a capital. Fará parte do exército, e será treinada para proteger o país."
Nunca, nem mesmo em sonho, me imaginei fazendo parte do exército. Essa era uma hipótese que eu nunca havia cogitado e deve ser isso que me fez ficar tão chocada. Mas o que eu esperava? Qualquer que fosse minha designação eu não iria gostar. Preferia continuar no conforto da casa dos meus pais, na minha cidade, onde eu já conhecia quase tudo e tinha vários amigos.
Só que, infelizmente, não é assim que a vida funciona. Não podemos ter tudo que queremos, e às vezes é preciso fazer coisas novas, diferentes, sair da zona de conforto. Essa vai ser uma nova fase em minha vida, e ela me ajudará a crescer, me tornar madura. E como um professor meu sempre disse: crescer dói.
É isso! Não adianta de nada ficar chorando e reclamando feito uma menina mimada. Está na hora de crescer, de viver independentemente. Vou aproveitar o resto do dia que me resta com meus amigos e familiares, saboreando ao máximo cada momento e a partir de amanha será uma nova vida, onde deverei tentar esquecer do que deixei pra trás, me importando apenas com o que acontecer no presente. Darei o melhor de mim, e não importa minhas limitações físicas como altura e peso, me tornarei uma das melhores soldados do exército.
Fale com o autor