Notas iniciais
Não é como se o dia tivesse demorado a nascer, mas ambos estavam tão cansados que a cabeça morena só foi olhar para a janela já era meio de tarde.
Sieghart suspirou cansado, como se seu corpo nada tivesse descansado desde o dia anterior, e depois voltou a descansar sua cabeça no travesseiro, abraçando a garotinha. Ela era algo como sua pelúcia ultimamente, não conseguia dormir sem abraça-la e essa conclusão o fez rir.
A ruiva acordou o sutil movimento do tórax do mais velho, a pequena baforada de ar que o riso silencioso que ele soltou. Remexeu-se um pouco e depois abriu seus grandes olhos vermelhos para encarar o dono daquele calmo sorriso.
-Bom dia, ruivinha. – Ele soltou-a, levemente, e depois se espreguiçou, fazendo alguns ossos estalarem com a ação. Alguns ferimentos arderam, também. A ruiva ficou, ainda sonolenta, a encarar o mais velho e se ajoelhou na cama, coçando os olhos para tentar expulsar o sono.
-Dia. – Resmungou, sonolenta. Sieghart pode reparar que ela estava, simplesmente, exausta. Ele empurrou-a gentilmente na cama novamente, fazendo-a enfiar o rosto no travesseiro e espalhar vermelho por toda a cama. Ele se ergueu. – Ai, por que fez isso? Idiota.
-Fica deitada aí. – Ela coçou a testa, meio emburrada, enquanto encarava-o trocar a blusa por uma outra qualquer. Ela pode reparar a tímida corrente prateada que brilhava no pescoço alvo. – Eu vou achar alguma coisa para a gente comer e arranjar roupas. – Assim, terminou de vestir-se. A ruiva continuava olhando encucada para o local – que agora a blusa tapava – onde tinha visto a corrente. – E não ouse deixar este quarto. Não abra a porta se não for para mim e...
-Não fale com estranhos. – Ela completou. Ele pareceu um pouco surpreso. – Você parece meu pai falando. – Resmungou e voltou a enfiar a cabeça no travesseiro e depois se cobriu. O moreno sorriu.
-Eu já volto.
Quando fechou a porta, Elesis ainda ficou um tempo olhando para a madeira e depois virou-se de costas e tentou dormir, ignorando aquela sensação. Ele disse que vai voltar. Sua mente lembrava e relembrava, repentinamente apenas um pensamento correu, a fazendo fechar os olhos com força e forçar-se a dormir.
Papai também prometeu voltar.
-
O imortal saiu do estaleiro e deixou que suas pernas o guiassem ao redor da cidade, procurando alguma coisa. Antes de tudo, tinha que arranjar dinheiro, depois disso poderia continuar para a base dos cavaleiros vermelhos.
Resmungou alguma coisa baixinho e chutou algumas pedras que haviam no caminho. Quando parou, meio chateado por não estar conseguindo arranjar um jeito de resolver a situação, sentiu uma mão segurar seu braço, com delicadeza. Virou-se para olhar quem lhe puxava e encontrou uma senhora, baixa.
-Então é você... – Sua voz vinha repleta de admiração, a senhora soltou o braço do guerreiro e vendo que o imortal continuava quieto, ela riu. – Não se lembra de mim, provavelmente. – Seu sorriso foi simplório e, apesar da idade avançada, todos os dentes ainda compunham o sorriso. – Fui eu quem forjou seu cordão, imortal.
Os olhos de Sieghart se arregalaram levemente. – Lannalaf. – Ele fez um pequeno gesto com a cabeça, a senhora sorriu com a mínima menção ao nome élfico. – Ou deveria dizer Filha da Lua? – A senhora riu, ele pode reparar toda a vivacidade por trás dos olhos claros da velha elfa. – O que a trás a essa cidade?
-Aconteceram sérios conflitos em Eryuell, guerreiro. Apesar das circunstâncias tive que deixar minha cidade, meu povo... Até mesmo minha imagem. – Ela sorriu triste.
-Eu não sabia que elfos envelheciam.
-Eles não envelhecem. Morrem todos jovens. – Ela sorriu. – Mas você conhece minha magia, eu não poderia ser reconhecida aqui fora. – Ela deu outro pesaroso suspiro. – Mas não é sobre isso que vim falar com você.
-Então, a que devo tamanha honra? – O imortal foi cortês, a senhora sorriu.
-Sempre galanteador, não Sieghart? – Ele não respondeu. Ela negou e então continuou, atingindo o assunto original de porque esperara o imortal deixar o estaleiro qual se abrigara. – Eu vi as chamas, imortal. – O moreno deu um sorriso triste. – Você sabe que está perdendo para seu yin, a sua fúria. Você está deixando espaço para que o descontrole afete seus poderes.
-Eu sei me cuidar. – Ele resmungou mal-humorado. – Foi apenas um tropeço.
-Para você pode ter sido apenas isso. E para a Highlander? Você acha que a espada sagrada cederá seus poderes àquele que perde para sua própria parte má? – A senhora ralhou com o imortal, Sieghart olhou para o lado, meio contrariado. –Você tem que trabalhar melhor esse seu lado Yang, imortal. Só assim você saberá controlar sua fúria.
-Controlar... A fúria? – Ele pausou meio perplexo. – É possível isso?
Ela riu. A risada da senhora continuava perfeita, um soprano suave como era comum entre os elfos. – A única coisa que posso lhe oferecer agora é isso, imortal. – Ela entregou-lhe uma pequena bolsa, do tamanho da palma do guerreiro. Ela estava abarrotada de moedas douradas. – Agora vá embora da cidade o quanto antes, o perigo não para de rondá-la. Neste momento, seu verdadeiro treino começa, afinal, você tem o que proteger.
-Eu... Agradeço. – Ele sorriu e fez uma mesura, para depois observá-la virar-se, para voltar aos seus afazeres. – Como poderei recompensá-la Lannalaf?
-Terá duas coisas que você ainda tem que fazer, imortal. – Ela virou-se para falar e encarou os olhos pratas dele. – Não negue o conselho de sua velha sacerdotisa élfica. – Ela pausou. Sieghart pode lembrar que todas as sacerdotisas de Eryuell tinham ligações com o futuro e por isso muitas das vezes podiam fazer “adivinhações”. – Proteja a garota e não pare nunca de mudar de lugar.
-Nunca? – Ele ainda resmungou. Ela sorriu.
-Quando você achar aquela que te remete a mim, poderá deixar sua peregrinação para trás. Aí você estará no local certo.
E o imortal ficou vendo a senhora se afastar, lentamente. Ele fechou a mão ao redor do saco de moedas, ali teria o suficiente para muito tempo sem preocupações e o imortal se pegou pensando há quanto tempo a senhora sabia que ele iria passar por aquela cidade.
Resolveu comprar a comida que prometera a ruiva, apesar de tudo. Aquela que te remete a mim, pensou. Por que essas mensagens do futuro não são simplesmente simples?
-
Quando voltou ao estaleiro não encontrou o homem que os tinha atendido atrás do balcão, estranhou. Em cima do balcão só residia o pano que ele usava para encerar a madeira suja com tanta dedicação. Subiu as escadas.
Entrou no quarto, encontrando a ruiva sentada na cama, olhando fixamente a porta. Elesis suspirou quando viu o moreno. Aliviando o aperto em seu peito.
-O que foi, ruivinha? Estava com tanta fome assim? – Ele riu. Elesis fez bico.
-O que você trouxe? – Ela fitou as sacolas compostas de vários suprimentos e a bolsa que ele agora trazia, para poder acumular as coisas para voltar a viajar. – Onde arranjou tudo isso?
-Encontrei uma velha amiga, por assim dizer. – Ele sorriu. – Vamos passar nossa última noite aqui ruivinha. Amanhã partiremos bem cedo.
-Já vamos partir de novo? – A garotinha comentou, remexendo algumas das bolsas que o imortal soltou no chão até encontrar um pão escuro e mordê-lo com vontade.
-Achei que quisesse encontrar seu pai. – Sieghart lembrou-a, a ruiva assentiu.
-Eu vou encontrar meu pai.
Ele não respondeu, algo dentro de si remexia-se em angústia toda vez que pensava em largar a ruiva na base dos cavaleiros vermelhos. Na verdade, todos os seus instintos estavam apitando para passar longe da base dos cavaleiros vermelhos.
-Então temos que partir o mais cedo possível, não concorda? – Ele se aproximou da garotinha, abaixando-se para fazer um breve carinho na cabeça ruiva. – Acredito que ele deve estar com tanta saudade quanto você.
Elesis olhou para cima, encontrando o pescoço do imortal. Subitamente tudo o que pretendia dizer – desde críticas à comentários – apagou-se da sua mente quando seus olhos encontraram a corrente prateada, delicada.
Sem pensar duas vezes segurou a corrente prateada e deslizou os dedos por sua extensão, deixando que o pingente – uma delicada asa prateada – pousasse sobre seus dedos. – O que é isso?
A curiosidade foi genuína. O imortal apenas se ergueu, meio incomodado. – Nada que você tenha que saber agora.
-Mas...
-Não é nada Elesis. – Ele resmungou e se afastou, pegando as sacolas e arrumando tudo para partir. A garotinha ficou quieta imediatamente. O moreno suspirou e começou a guardar as coisas. – Depois iremos ao mercado ver se vendem roupas para seu tamanho, ruivinha. – Desconversou, sorrindo.
Não, não queria a ruiva tocando seu colar ou pingente. Não queria aquela maldição para ela. Porém quando ouviu o fungo baixinho na garota, sentiu seu coração sendo estraçalhado. Deu uma rápida olhada por sobre o ombro e a viu chorando, encolhida, enquanto trocava-se.
Muito bem Sieghart. Grande e sábio imortal que você é, hein. Sua mente alfinetou.
-
Duas batidas na porta romperam o silêncio que se instaurara no quarto. Tanto o moreno quanto Elesis comiam silenciosos, em um clima pesado. Quando o barulho de madeira oca arrancou cada qual de seus pensamentos, Sieghart foi o primeiro a se levantar e andar até a porta, abrindo-a com cautela.
O gerente do estaleiro se despunha na frente deles, com um papel sujo e amarelado, nele uma única foto.
-Sieghart, você está sob a custódia do exército de Cazeaje!
Notas finais
Não me matem, por favor xD
Beijos, Teffy ~
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