A Mesma História, Um Começo Diferente
12 Décimo Segundo
Notas iniciais
Sim, estava mais do que na hora de se unir a Grand Chase, não suportava mais ficar escondido observando a ruiva. Não aguentava estar longe, quando o que mais queria era estar lá ao lado dela, afinal de contas, ela era sua responsabilidade! Não havia deixado de pensar dessa maneira, mesmo depois de ter se convencido do contrário, principalmente ao ver que ela se tornou muito próxima daquele azulzinho descarado.
Certo, isso era seu ciúme falando. Já tinha superado a etapa de aceitar que tinha um ciúme e possessividade descarados pela ruivinha, então só faria por onde para estar perto.
Respirou fundo e se aproximou da clareira onde o grupo havia montado acampamento, fazendo propositais ruídos para que fosse notado. O primeiro a virar-se foi o elfo, estendendo um machado em sua direção. – Quem é você, forasteiro?
-Acalme aí, orelhas pontudas, estou do mesmo lado que vocês. – Ele pausou então sorriu, erguendo as mãos e abrindo uma visão de seu corpo, antes escondido pela capa, revelando a espada, mas a deixando fora de alcance. O ruivo pareceu relaxar um pouco, bem como os outros integrantes que, só agora reparara, também haviam sacado suas armas.
-E seu nome, forasteiro? – A loira perguntou, abaixando o arco quando reparou na falta de ameaça que ele proporcionava, ele também abaixou os braços e o arcano deu um passo à frente, o analisando de perto.
-Não era você quem estava viajando com a senhorita Elesis? – Perguntou, fitando-o de cima a baixo. O moreno não gostou da analise, mas não fez nada além de empertigar-se ainda mais.
O moreno assentiu. – Sou Hart e sim, eu estava viajando com a ruivinha.
-Hart? Ela falou que seu nome era Sieghart. – O arcano ergueu uma sobrancelha, encarando-o ainda desconfiado. Sua mão estava apoiada sobre a empunhadura de seu gládio embainhado. Havia presenciado a forma que tratara a garota e aquilo o incomodava mais que o normal, daí a inimizade explícita, além de tê-la ouvido falar tão incomodada sobre ele. Como uma pessoa poderia destratar de tal maneira uma garota que gosta de si?
-Relaxa aí pirralho, – O moreno deu de ombros, por outro lado sentiu-se ameaçado, o que aquela ruiva tinha na cabeça para falar seu nome assim? Mesmo depois de tantas instruções. Sabia que o garoto era um canabanense, pior ainda, um Erudon! Já não gostava da família por alguns motivos claros, mas deixando isso de lado, continuou. – meus pais tinham um péssimo senso de humor, meu nome é Sieg, sobrenome Hart. – Mentiu, vendo, finalmente, o outro relaxar.
-E o que pretende conosco, senhor Hart?
-Como disse, estou do mesmo lado que vocês, além do fato que quero manter minha pupila a rédeas curtas.
-Pupila? – O lutador perguntou meio com raiva, pois fora outro que não aprovara o que o gladiador havia feito, mas foi o suficiente para ouvir a voz da ruiva vindo da mata.
-Sieghart? O que faz aqui?
-Olá ruivinha, sentiu minha falta?
Elesis ainda não tinha conseguido reagir muito bem à volta do moreno. Quer dizer, lá estava ele, como se nada tivesse acontecido, implicante e sarcástico como sempre. Ela sabia, sim, que discutira feio com o moreno, por diversos motivos, na verdade... A noite mal dormida dele, a frustração dela por não conseguir respostas sobre a Grand Chase, além da presença do grupo no lugar, e ela sabia que ele havia os reconhecido. Sabia também que havia visto a técnica dele naquele momento, as chamas negras inesquecíveis, assim como estava se sentindo observada há um tempo, mas também estava se sentindo responsável por estar sozinha. Sozinha como nunca estivera antes.
Mas nunca revelaria que sentiu tanta falta assim do moreno. Ok, talvez um pouco. No primeiro momento ela ficou completamente parada, olhando-o de longe para tentar assimilar se era mesmo o moreno parado ali, olhando-a com um sorriso de canto.
Aquele sorriso de canto que ela só via direcionado para si.
Os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos cinza que tanto ela se viu alvo. A capa maltrapilha, porém limpíssima, que ele sempre carregava para viajar, os braços estendidos esperando por um abraço seu. A ruiva não pode conter um sorriso, antes de se jogar naquele carinho, abraçando-o com força e escondendo as lágrimas na capa dele. Tinha aquele cheiro almiscarado conhecido, aquele aroma inebriante que estava pregado em todas as coisas dele.
Sieghart sorriu sabendo que essa era a prova que ele precisava, ela sentiu tanta falta sua quanto ele dela. Apertou-a entre seus braços e não a soltou até senti-la mexer-se. Quando finalmente se afastou para olhar a ruiva, foi recebido por um soco no estômago, fazendo-o soltar todo o ar de seus pulmões de uma só vez, curvando o corpo.
-Ai, ruiva... – Murmurou, respirando fundo antes de colocar as mãos na parte dolorida e fitar a expressão raivosa dela. – Pra que tanta violência?
-Você é idiota por algum acaso? – Grunhiu, com raiva, olhando para o homem mais alto. – Nunca mais ouse sumir assim, velhote!
Ele sorriu, enquanto os outros membros da Grand Chase permaneciam pasmos com aquela cena. De relance pode ver que o azulado ainda o fitava desconfiado e dignou a ele o sorriso mais sarcástico que havia em seu repertório, o fazendo franzir o cenho. A ruiva era dele, O senhor rabo-de-cavalo que ousasse tocar nela para ver o que aconteceria com suas mãozinhas.
A troca de olhares só durou alguns poucos segundos, pois a loira intrometeu-se, observando o moreno ajustar a postura depois do soco inesperado, ainda acariciando o local, em busca do alívio para a dor.
-Então quer dizer que você gostaria de unir-se ao nosso grupo, Sieg? – A elfa pronunciou-se solícita e o moreno parou para reparar melhor naquela quem falava. Permaneceu um bom tempo somente calado a fitando.
-Eu conheço-a de algum lugar, loira? – Murmurou finalmente, ainda a analisando. Lire negou silenciosa. – Bom, de qualquer maneira, sim, planejo me juntar a esse grupinho de vocês.
-"Grupinho"? – O lutador murmurou meio bravo, sentindo-se ofendido. – Nós somos a Grand Chase, a única esperança da humanidade nesse momento!
O imortal suspirou. – Muito pretenciosos, não acha? – Murmurou jocoso. A ruiva lhe deu um cutucão, conhecendo a personalidade daquela figura a frente de todos. Ele soltou um murmúrio incomodado e depois sorriu o mais amável que conseguiu. – Sim, planejo me juntar à causa de proteger a humanidade no grupinho de vocês. – Finalizou, recebendo mais um franzir de cenho do arcano, mas agora ele já não estava mais se incomodando.
Lire suspirou, analisando aquele homem moreno. Aparentemente ele tentava medir forças com o arcano do grupo, além de ter certeza que o reconhecia de algum lugar, o que ela não sabia é que essa dúvida era dividida por todos do grupo, e aquilo a incomodou. – Bom, como eu disse para a Elesis, ao primeiro momento, teremos que efetuar um teste de admissão.
-Pode mandar, eu faço qualquer coisa. – Sorriu de canto.
-Isso é comum entre os dois? – Murmurou o elfo para a maga, fazendo-a rir da frase também dita pela ruiva. Acabou que a arqueira apenas assentiu para o moreno, indecisa se aquilo era algum tipo de piada ou pura coincidência, fazendo-o sorrir para ela.
Ronan, então, pronunciou-se. – Se posso sugerir senhorita Lire, eu poderia duelar com o Sieg – Seu tom era levemente sarcástico ao pronunciar o nome do moreno, fazendo-o franzir o cenho, como se desconfiasse de alguma coisa. – se me derrotar, entrará para a Grand Chase, assim podemos colocar nossas técnicas como espadachins em confronto.
Antes que Lire pudesse ou não pronunciar algo, o imortal encrespou levemente os lábios e respondeu-o. – Desconfio que não possamos colocar nossos talentos como "espadachins" a prova, pois suponho que, pelo gládio, você seja um guerreiro mago. Eu sou um gladiador, pirralho. – Ser confundido com um mero espadachim acabava com o ânimo do imortal.
Um mero espadachim, onde já se viu! O moreno apertou os lábios, tentando silenciar sua mente. Sieghart, isso passa dos limites! Como ele pode nos confundir com um simples espadachim!
Ronan fechou a expressão no mesmo momento, descansando a mão sobre a empunhadura de sua arma, o moreno o fitou de igual, esticando os ombros de maneira altiva, atentado pela voz em sua mente. Jin e Ryan, automaticamente, enfiaram-se no meio dos dois canabanenses.
-Arme-se então gladiador. – Silvou. – Ninguém fala dessa maneira com um Erudon.
Sieghart sorriu de canto. – Não só falo como também chuto traseiros de almofadinhas Erudon, responsáveis por servir Cazeaje cegamente por tanto tempo. – Soltou o que tanto o incomodava de uma vez só, fazendo a ruiva arregalar os olhos levemente, por trás do imortal. E não somente isso, fez a sua preciosa “ruivinha” confiar nele, mesmo que tenha servido à Cazeaje por tanto tempo. Arme e Lire permaneciam quietas, todos no grupo sabiam daquilo, exceto a única canabanense.
Ronan avançou em Sieghart, forçando Jin a pará-lo enquanto Ryan só fitava o moreno que não tinha índole nenhuma de avançar, afinal estava mais ocupado tentando controlar sua mente. – Você não sabe de uma vírgula do que diz escória. Não sabe a histór-...
-Acredite em mim, eu sei! – Grunhiu de volta no mesmo tom, descontando sua raiva por não conseguir calar sua mente nele, o arcano remexeu-se no agarre do lutador tentando soltar-se. – Sei e desprezo gente como você. Os Erudon são a "classe nobre" – Satirizou. – de Canaban, um bando de riquinhos que compraram armas brilhantes e dizem saber batalhar. Não me surpreende nada que tenham sido enganados por aquela bruxa.
Ronan praticamente rugiu para o moreno, que tinha o braço sendo, agora, puxado pela ruiva, que nunca vira Sieghart agir daquela maneira e se mantinha estarrecida. Mas compreendeu e compartilhou do sentimento dele quando entendeu o que o Erudon uma vez fora, ainda mais depois do que ela mesma havia dito sobre Cazeaje a ele.
-Arme-se gladiador! Vamos duelar!
Lire, que abraçava uma assustada Arme que nunca tinha visto o nobre arcano agir daquela maneira, finalmente interviu. – Eu não vou deixá-los confrontar-se sem motivo assim.
-Não é sem motivo. – Sieghart esclareceu. – Isso já é um caso de honra, loirinha, apesar de que o nosso amigo aqui não tenha nenhuma. – O moreno falou, segurando a empunhadura da highlander. – Eu, sinceramente, tenho um receio quanto a Erudons e, se não me engano, nosso Ronron aqui foi um dos maiores responsáveis pela guerra entre Serdin e Canaban. – Esse ultimo comentário fez a maga soltar um muxoxo enraivecido, o moreno supôs que ela era serdinesa.
-Eu sou fiel a minha rainha. Independente de suas ordens!
-Então se arme cavaleiro e eu vou estraçalhar essa sua honra inútil!
Nenhum deles sabia como havia chegado naquele ponto, nem mesmo os que discutiam. Sieghart tinha uma desconfiança que era seu ciúme falando alto, mas mesmo assim não quis dar o braço a torcer, afinal de contas era tudo verdade, Ronan era mesmo um dos culpados pela guerra e seguidor de Cazeaje. Ele não confiava nesse tipo de gente. Sem perceber, acabou ouvindo o outro em sua mente e cedendo a um embate com o arcano.
Sem contar, claro, a rivalidade entre a Guarda Real de Canaban e a Ordem Vermelha, que apesar de terem o mesmo ideal, nunca se suportaram, até o cessar da guerra.
Sieghart era do tempo antigo, ele ainda guardava remorsos. Os dois garotos que se entrepuseram aos guerreiros se afastaram, vendo que o duelo realmente aconteceria. A ruiva afastou-se também enquanto o arcano sacava seu gládio, apontando-o para o imortal e este sacava a highlander, deixando-a na sua posição habitual de batalha.
-Pela honra de Canaban, gladiadorzinho. – Grunhiu o homem e o mais velho sorriu de canto. Chutaria o traseiro dele sem nem ao menos usar sua magia, primeiro porque ele não mereceria tanto esforço e segundo porque evitaria usar suas chamas e deixar que a maga e o próprio canabanense soubessem quem ele verdadeiramente era.
-Quem é você para falar da honra da minha Canaban, moleque? – Grunhiu e com o braço livre fez um sinal de descaso, mantendo um olhar de puro asco pelo outro. – Prepare-se para perder.
O portador do gládio foi o primeiro a mover-se, investindo contra o outro com habilidade e agilidade, Sieghart desviou de seu ataque frontal, girando sobre o próprio eixo, e forçou uma quebra de defesa, dedicando-lhe um poderoso chute entre o braço estendido e a cintura. Ronan curvou o corpo, evitando o golpe, e aproveitando-se da continuidade que o ataque do adversário necessitava, cortou com o gládio horizontalmente. Por pouco o imortal desviou e sorriu de canto. O garotinho realmente sabia lutar.
Até quando vai me esconder, Siegzinho? Encrespou os lábios, não era hora de esse seu outro eu aparecer. Ora vamos... Você sabe que podemos acabar com ele em um único ataque. Ele balançou a cabeça, tentando livrar-se da voz incomoda em sua mente.
O arcano, sem entender direito a súbita desatenção do outro, voltou a investir com ataques diretos do gládio, vez ou outra conjurando magias azuladas de suporte. O moreno arquejou, desviando dos golpes como pode, mesmo que ainda atormentado por sua mente, e acabou interceptando um último ataque com a highlander, medindo forças com o outro.
Pelo canto de olho pode reparar nas facetas tensas dos membros do grupo, bem como a expressão inconformada da ruiva, provavelmente se perguntado por que ele era bem mais rígido durante os treinos do que em combate com um simples qualquer.
Assim, deixou a espada vir em sua direção, relaxando os músculos apenas o suficiente para empurrar Ronan, fazendo-o girar o corpo, desequilibrado. Investiu contra ele, estocando com a espada, por pouco sendo evitado pelo outro, e, ao mesmo tempo em que recolhia seu braço, socou o rosto do arcano, o fazendo ir de encontro a sua espada e cortar-se, depois caindo e deixado com que poeira levantasse.
O Erudon permaneceu sentado, sentindo o machucado sangrar em sua face direita, enquanto Sieghart procurava sua sanidade e tentava calar a boca de sua mente. – Em nome da rainha! O que diabos foi isso?
-O que? – Murmurou o moreno sem entender o motivo da pergunta, só agora reparara o quanto ficou ofegante com um simples confronto.
-Um soco? Um chute? – Ele parecia bravíssimo. – Que tipo de etiqueta de batalha você tem?
-Eu disse que era um gladiador, não um almofadinha espadachim. – Esclareceu. – E também o vi conjurar suas magias durante o "duelo" – Satirizou, pois para ele aquilo não poderia ter sido considerado um, guardando a highlander. – nem por isso estou tendo ataques de pelanca de um mal perdedor.
A ruiva suspirou, tocando o braço do moreno antes que ele continuasse com aquela briga, teoricamente, sem motivo. – Já chega Sieg, você já ganhou. – Ela pausou e deu a entender que teria mais a falar, porém manteve-se quieta.
Ao mesmo tempo, Ryan estendia a mão para o canabanense, que recolhia com fúria seu gládio do chão. – Não posso considerar uma derrota ter sido derrubado por um soco durante uma luta de espadas.
-Espada e gládio. – O elfo corrigiu meio encabulado de erguer a voz. Ronan apenas suspirou, não querendo descontar sua raiva no amigo enxerido.
O arcano, quando voltou o olhar para seu adversário, somente o viu partir, sendo carregado pela ruiva, adiante pela mata.
-Só eu acho que alguém vai cortar um dobrado com a personalidade forte da novata? – Ouviu o lutador comentar ao acaso, para a líder, causando risadas divertidas na maga e no elfo. O mais velho ali só conseguiu soltar um riso fraco, incomodado com a presença forte do, então dito, gladiador.
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-Você está louco, Sieghart? – Ela grunhiu e o moreno suspirou, tentado a responder que sim. Sua mente riu de si. – Pra que essa discussão sem sentido com o Ronan?
-Ele é um Erudon. Não suporto Erudons. – Esclareceu. Esse em específico porque ficou pertinho de certo alguém, né Sieggy? Sua mente alfinetou e ele levou a mão até sua testa, respirando fundo.
-Por causa de Cazeaje? – A ruiva perguntou brava. – Quero dizer, eu também fiquei brava quando entendi o motivo, mas nem por isso parti para um duelo!
-Não é só por isso.
-Então pelo que é Sieghart?
O moreno suspirou, pensando em como explicar. Fugir não adiantaria nada, assim como não mentiria pra ela. Uma hora ou outra ela vai saber sobre nós. Cantarolou o outro, mas o imortal apenas espremeu o lábio e depois soltou um bufo de ar, procurando as palavras.
-Você sabe que é meu trabalho derrotar Cazeaje. Só pelo fato dele ter a ajudado eu deveria aniquilá-lo. – Rendeu-se. – E esse nem é o pior dos motivos.
-Assim como as pessoas naquele barco? Elas também não sabiam! – A ruiva passou uma mão nos cabelos, visivelmente nervosa. O imortal seguiu o movimento com os olhos. – É por isso que você não ajudou aquelas pessoas no vilarejo, Sieghart? Você é tão covarde assim?
Ele sentiu-se ofendido. – Não ajudei àquele vilarejo porque eles nos traíram primeiro. Além do que eu tinha uma garotinha indefesa para proteger e cuidar, até chegarmos à base vermelha! – Sua voz elevou-se um tom e a ruiva encolheu, sabendo ter passado dos limites. – Quanto ao barco, aquelas pessoas não sabiam que era Cazeaje ali. Eu mesmo teria que me executar se fosse seguir pelo seu raciocínio!
A ruiva mordeu o lábio inferior. – O Ronan poderia não saber também!
-Por que insiste em protegê-lo, ruiva? – Grunhiu o moreno inconformado. Já pensou que ela pode gostar dele, Sieggy? Seu olhar raivoso a fez tremer por um instante. – Você não entende?
-Entender? Entender o que? – Ela perguntou tão raivosa quanto. Subitamente ele mordeu a língua e negou, cruzando os braços e tentando acalmar-se. – O que é? O que eu deveria saber?
Novamente ele negou. Você nunca foi covarde, Sieghart, parece que está sendo agora. E uma maldosa risada. Fechou os olhos por instantes, tentando acalmar seu cérebro, coração e respiração. Enfim suspirou fundo e fixou seu olhar na ruiva.
-Não é nada ruivinha, deixa. – Pausou. Ela ficou a encarar-lhe, ainda cheia de raiva. – Eu me excedi.
Ela soltou um suspiro sofrido, segurando o bolo que se formou em sua garganta. Aparentemente, para ele, ela não era mais que uma criança. A eterna ruivinha. – É isso então? Vai dar o assunto por findado? – Ele somente suspirou, sem respondê-la. – Sabe, se você me contasse, ficaria mais fácil de eu compreender.
O moreno ergueu os olhos para ela. – O problema, ruiva, é que eu gosto de você muito mais do que eu me permitia. Muito além do que eu deveria. Por isso eu voltei e pretendi me unir a Grand Chase. – E retirou-se silencioso de volta ao acampamento do grupo, deixando-a para trás em sua estupefação.
Elesis com certeza não esperava por isso. De jeito maneira. Era por isso que não soube como responder àquilo. Não soube ao certo qual seria a reação prudente a ter ali. Nunca vira tanta dor em palavras. Tanta amargura em um olhar. Tanto sofrimento em uma expressão.
Ele a amava. Não foi dito com todas as letras, mas ela supunha. E ela também sabia o quão mais velho ele deveria ser. O quão difícil seria uma reação, mas ela estava disposta. Só que antes de qualquer decisão sua, ele já havia se fechado para esse amor. Por isso a dor, a amargura e o sofrimento.
Sozinha, então, Elesis se permitiu chorar algumas lágrimas, tampando o rosto com as mãos para abafar os soluços. Ele estava sendo forte pelos dois sem precisar, ainda assim, a ruiva não sabia o que fazer para convencê-lo do contrário.
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-Genial Sieghart, simplesmente genial. – Murmurou para si mesmo, em uma fúria incontida. Tamanha foi sua estupidez que nem mesmo seu alter ego viera o perturbar em sua profunda agonia. Quando alcançou o acampamento novamente, todos voltaram os olhos preocupados em sua direção e o moreno armou o sorriso mais sincero que conseguiu, sem sucesso.
-Onde está a senhorita Elesis? – O arcano perguntou, enquanto fazia um curativo no corte lavado.
-Bem, acredito. Ela disse querer ficar sozinha um pouco. – Mentiu. O outro simplesmente deu de ombros, bravo demais para fingir uma compreensão inexistente. A loira suspirou e bateu a poeira de sua saia depois de se erguer do entorno da fogueira.
-Bom, não tenho como dizer que você não passou no teste, Sieg. – Ela explicou. – Apesar de não ter sido convencida por sua conduta. – O imortal estranhamente só suspirou. – Não sei se posso aceitar seu ingresso à Grande Caçada.
-Não aceite então. – Seu tom foi desanimado e sem sua petulância natural. Isso fez até mesmo a loira estranhar. – Devo seguir com vocês até Cazeaje, na verdade, nada além. Tenho minhas próprias obrigações depois. – Ela assentiu, subitamente sem fala ao vê-lo tão... Sem vida. Tão diferente do jovem arrogante que surgira misteriosamente da mata.
Ele resumiu-se a escalar uma árvore ao redor da clareira e esticar-se em um dos galhos, enrolado em sua própria capa, e aparentando adormecer.
Ryan virou para o lutador, comentando baixinho. – Que ser estranho.
Jin concordou. – Mas acho que já o vi em algum lugar... Quero dizer, além daquele dia na pousada.
Ronan apenas suspirou e lançou um olhar bravo para os dois. – Ele pode ouvir vocês, imbecis. – Murmurou e depois deu por findado o assunto, cada um voltando aos seus afazeres. Aquele estilo de luta era bem semelhante ao estilo ensinado pela Ordem Vermelha, claro que a falta de etiqueta de combate era a única coisa que se diversificava, mas ainda assim existia algo de misterioso ao redor do moreno.
O mesmo moreno que tinha os olhos cinza pesados sobre a mata, tentando encontrar uma sonolência inexistente. Soltou um suspiro baixinho, puxando a capa e acomodando-se melhor. Teria que partir. Teria que deixa-la, agora por um motivo claro. Ele não deveria ter falado aquilo.
Meus parabéns Sieghart, você realmente consegue estragar tudo aquilo qual você coloca as mãos.
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O dia seguinte raiou e o imortal estava de pé logo cedo. Não, não tinha visto a ruiva voltar para o acampamento noite passada, mas pode ver a barraca dela fechada, então supôs que estava tudo bem, afinal de contas.
Quando desceu da árvore e dirigiu-se ao riacho para lavar o rosto, topou com o arcano e engoliu o próprio orgulho, abaixando-se ao lado do Erudon, em silêncio, tomando um tanto de água entre as mãos. Quando percebeu que ele ia erguer-se, pigarreou, limpando a garganta.
-Falta de educação minha. – Murmurou com a voz rouca pelo sono. – Bom dia.
Ronan ergueu uma sobrancelha pela súbita mudança dele. – Bom dia. – Respondeu de volta e permaneceu olhando-o um tempo. – Tenho a sensação que o conheço de algum lugar.
Sieghart ergueu-se, para fita-lo e percebeu que tinha quase a mesma altura que o outro. – Tenho uma fisionomia bem comum. – Essa resposta fez o outro rir, sem saber ao certo se era pela mentira descarada ou simplesmente simpatizando com o outro. – Acho que te devo desculpas por ontem, me excedi. – Resmungou. – Não deveria chama-lo de almofadinha Erudon.
Dessa vez o outro não pode conter uma gargalhada. – Por tantas coisas que você fez ontem comigo, está mais preocupado em ter me chamado dessa maneira?
-Vamos começar novamente, que tal? – O moreno ignorou-o e estendeu a mão. – Sou Sieghart.
-Ronan. Ronan Erudon. – Respondeu, devolvendo o aperto de mão de maneira rígida. O imortal sorriu e depois o arcano o acompanhou. – Posso só fazer uma única pergunta?
-Você já a fez, cavaleiro. – Respondeu, rindo, e assim que soltou as mãos abaixou-se para tomar um gole de água fresca. Sua garganta arranhava. – Mas pode perguntar outra, se quiser, só não garanto a resposta.
-Pelas coisas que você disse e a Elesis também, posso supor que você é canabanense. – Não foi uma pergunta, o moreno percebeu, portanto manteve-se quieto. – Devo acreditar que você pertenceu à Ordem Vermelha, não é? Pelos métodos de luta.
O outro voltou a se erguer, secando o rosto molhado com a beirada de sua capa, depois fitando o azulado longamente. – Tecnicamente. – Respondeu meio incerto.
-Compreendo. – Ele resmungou perdido em pensamentos. – Última pergunta, então: Há algum motivo que me leve a crer que você está tentando esconder quem você verdadeiramente é?
Sieghart engoliu em seco. Era muito mais difícil enganar um canabanense do que uma simples garotinha aos arredores de uma cidade. Pela reação, Ronan sorriu de canto.
-Fica tranquilo, não vou contar seu segredinho. – Ele murmurou e acenou, voltando-se para o acampamento. – Afinal, lendas tem realmente uma maneira estranha de agir.
Quando ele já estava longe, Sieghart só pode bater na própria testa. – Que merda. – Murmurou baixíssimo. Deveria ter ficado quieto, brigado com o arcano, pelo menos assim ele não teria certeza de uma coisa que poderia trazer consequências terríveis. Sua mente riu. E agora, Sieggy, será que o Ronron vai ficar quietinho?
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O Sol já estava alto no céu quando o grupo iniciou uma marcha lenta em direção leste. Lire havia dado direções claras de onde estava o castelo da bruxa. Alguns dias de viagem ao leste, depois seguiriam ao norte, embrenhando-se nas cordilheiras.
Elesis não pode deixar de pensar que tipo de lugar infernal seria morar no meio de montanhas, mas deixou o pensamento de lado rapidamente, sentindo o suor descer pegajoso por sua testa. O dia estava bem quente e mesmo estando dentro das frescas florestas de Ellia, o clima úmido fazia seu corpo transpirar três vezes mais.
Porém o clima entre os integrantes do grupo era muito mais sério do que aquilo. Eles viajavam envoltos em um silêncio pesado; Sieghart estava distante, havia resgatado sua bolsa de viagem de algum lugar no meio da mata e a carregava em um mau-humor perceptível. Ronan ia ao outro extremo do grupo, apesar de que ela pode repara que a postura deste, em relação ao primeiro, mudara drasticamente de raivoso para respeitoso.
Jin e Ryan tentavam animar o grupo com esporádicas piadas, qual não tinha nenhuma resposta nunca, então, depois de um tempo, resumiram-se ao silêncio que todo o resto estava.
Lire guiava-os com perfeição – nada além do esperado de um elfo conhecedor da natureza, ainda que não fosse uma druidisa – e Arme a seguia, de tempos em tempos reclamando sobre o quão pesado era sua bolsa e o quanto suas pequenas pernas não aguentavam aquelas longas caminhadas. Acabou que depois de um tempo, o Erudon ofereceu-se para carregar sua bolsa, muito cortês, e ela rapidamente aceitou.
Quanto a ela? Bom, a ruiva seguia atrás do grupo, chutando algumas pedrinhas no percurso. Estava tensa quanto ao moreno, ainda não sabia como agir perto dele. Ao mesmo tempo podia sentir toda a desconfiança que a Grand Chase tinha sobre ele, claramente não sendo dividido com ela, que tinha uma confiança cega no moreno de pose altiva.
Mas ela não pode deixar de passar a noite pensativa, relembrando as palavras ditas ao entorno da fogueira naquela tarde. Uma lenda. Seria possível mesmo Sieghart ser uma lenda? O guerreiro imortal que tanto todos idolatravam? Ela desviou os olhos para o moreno, encarando o meio de suas costas, em busca de respostas dentro de sua própria mente.
É verdade que ela nunca reparou em um traço de envelhecimento do moreno, e estava com ele há mais de cinco anos. Assim como se lembrava, perfeitamente, do trauma que tivera com o Dragão-Enguia, às margens do Mar de Patusei. Mas... Então por que ele nunca comentara nada a respeito?
O que mais ele tinha a esconder de si?
Quando deu por si, o Sol já se escondia no horizonte e os integrantes montavam acampamento. Tinha que tomar coragem para enfrentar o olhar inquisidor do moreno. Ela tinha que saber a verdade.
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Passaram-se quatro dias. Quatro longos dias de caminhadas abaixo da sombra acolhedora das copas das árvores, que, porém, também eram responsáveis pelo abafamento e umidade, causas que faziam os chasers caminharem mais devagar e dar longas pausas para recuperar o fôlego.
Com o passar dos dias, a tensão entre os integrantes foi diminuindo, até mesmo Sieghart, que se mantinha distante de todos, aceitou entrar em algumas brincadeiras do lutador e do elfo. Todos ali estavam viajando em uma harmonia estável. A que dava para suportar, apesar de não ser lá grandes coisas.
Quando anoiteceu já estavam todos com suas barracas montadas e sentados ao redor das chamas da fogueira, trocando histórias e comendo a refeição preparada pelo druida, coisa que automaticamente fez o moreno torcer o nariz, sendo a ruiva a única que reparara. Isso causou uma crise de risos na mais nova e um sorriso amável do moreno para ela.
O único depois da discussão.
Aquilo a fez repensar todos os fatos e, finalmente, tomar coragem para conversar com o moreno. A única coisa que a trouxe de volta foi a voz da loira, centrada, que começava a relatar os planos.
-Então, Chasers, se mantermos esse ritmo de caminhada chegaremos ao castelo da bruxa amanhã pelo meio da tarde. – Esclareceu a arqueira, fazendo todos os outros ficarem em silêncio, prestando atenção nela, a única exceção era o moreno que cutucava sem interesse algum a comida asquerosa produzida pelo elfo. – Estejam preparados. – Foi a única coisa que conseguiu murmurar no fim das contas.
As facetas tornaram-se tensas, conforme o único barulho audível era o crepitar baixo da fogueira. O imortal sentiu-se incomodado com aquilo. Sim, ele estava habituado a ter baixas em batalhas. Mas nem por isso a sensação passou.
Estava preocupado com o bem estar da ruiva. Não poderia, de jeito maneira, perde-la. Por exato esse motivo que pretendia deixa-la em Canaban antes de partir encontro à bruxa. Aí que entrava esses jovens guerreiros: Ela havia se apegado a eles... Por que não deixa-la com eles de vez?
Sieghart sabia que hora ou outra teria que partir. Em algum momento teria que deixa-la. E esse momento estava se aproximando vertiginosamente, para seu total desassossego. Suspirou profundamente: estava decidido.
Partiria ainda essa noite.
Largou o prato no chão com extrema cautela e se ergueu, silenciosamente, usando de pretexto de toda aquela situação, para eles, tensa, afastando-se do grupo em direção a um antigo celeiro, proveniente das ruínas próximas. De uma vila que já deixara de existir.
Não sabia exatamente o porquê de ir, necessariamente, para lá. Só deixou que suas pernas o guiassem. Assim, abriu a porta de tinta descascada e enfurnou-se, destemido, no local. Era velho, cheirava a mofo, tinha longos buracos em seu telhado e a tinta se foi, junto à glória de outrora. Mas ainda assim era um local de beleza peculiar. Era antiquado. Velho. Obsoleto. Mas mantinha-se inabalável em suas estruturas.
Assim como ele.
Estamos depressivos hoje, não? Sua mente alfinetou e, tudo o que o moreno fez, foi concordar. Triste porque seremos só nós outra vez? – Sim, só nós dois.
Parou em meio ao celeiro, olhando para o céu estrelado através do furo no teto, se assim poderia chamar aquela estrutura qual só restara a madeira podre e mofada e algumas poucas telhas. Mas foi tirado de seu devaneio pelo rangido na porta, obrigando-o a olhar para trás.
Elesis passou a mão por algumas teias de aranha, livrando seu caminho delas. Olhou então para o imortal. – Sieg, preciso falar com você.
Ele soltou um suspiro tenso. – Não é uma boa hora.
-Atualmente nunca é uma boa hora falar com você. – Ela murmurou. – O que há, velhote?
O moreno ficou dividido se deveria contar ou não, acabou decidindo pela primeira opção. – Estou de partida. – Soltou de uma vez só, a fazendo arregalar os olhos, embasbacada. – Estou indo derrotar Cazeaje, como é o esperado de mim, sozinho.
Ela tentou sorrir, procurando o traço de brincadeira em seu semblante. Ele permaneceu sério. – Você está brincando não é, Sieg? – Ela murmurou totalmente incerta. – Você me disse que me treinaria... Que faria tudo! Eu esperava poder chutar o traseiro daquela bruxa esquálida com você...
-Perigoso demais. Incerto demais. – Ele pausou e manteve o peso do olhar sobre ela. – Além do mais não posso arriscar a sua segurança e a desse grupinho de pirralhos... Vocês não estão meramente prontos para enfrentar Cazeaje.
-Sieg, por favor, repense... Não vai. – Ela suplicou com a expressão carregada. Ver aquilo só o trouxe ainda mais tristeza.
Elesis estava linda sob aquele céu estrelado, porém sem luar. O corpo delgado estava semicoberto por sua armadura, por baixo dela apenas o short curto e a blusa larga. Na cintura a espada vermelha que ele dera de presente para ela uma vez. A espada que combinava com os longos fios ruivos, penteados em um rabo de cavalo elegante.
Talvez ela não fosse assim tão bonita aos olhos de todos. Talvez não passasse de mais uma adolescente em época de crescimento, qual fica levemente desajeitado. Talvez as concepções de beleza ao vestir uma armadura não fosse a mesma para outros.
Mas não para ele. Sieghart podia estar tenso. Podia, até mesmo, estar triste. Mas o olhar sobre a ruiva era sempre o mais doce. O mais sincero. Ele deu dois passos na direção dela, um sorriso triste surgindo em seus lábios, e estendeu os braços, a chamando para um abraço.
Sem esperar uma segunda oferta, atirou-se nos braços do gladiador, fazendo sua armadura retinir ao encontro da empunhadura da highlander. Ele abraçou-a forte e enfiou as narinas no cabelo ruivo dela, sentindo o nó que se formava em sua garganta e as lágrimas que lutavam para escapar de seus olhos.
-Eu tenho que partir ruivinha. – Murmurou muito baixo, o rouco de sua voz fazendo seu tórax vibrar levemente, causando na mais baixa uma sensação boa por instantes. – Talvez, um talvez bem longínquo, a gente volte a se encontrar.
Ela iniciou um choro silencioso, segurando sua blusa com força. – Por favor, Sieghart, não vai. – Repetiu, envolvendo o abdômen dele em um abraço. – Eu não posso ficar sem você, não vai.
Ele soltou um riso amargo. – Não seja egoísta ruivinha...
Eles permaneceram assim, em silêncio, por um longo período, até que ele se afastou delicadamente, se sentindo destroçado por deixa-la. Elesis ergueu o olhar, encarando profundamente os orbes prateados, deixando que as gotículas ficassem aparentes.
Aquilo tudo era demais para ele. Tê-la tão perto e ao mesmo tempo tão dócil à sua presença ia além dos limites que o imortal poderia aguentar. Em um só movimento abaixou-se e tomou-lhe os lábios em um beijo tão esperado.
Não era calmo e pacífico, como esperado pela ruiva, era justamente o contrário. O imortal era arredio, dominador, exigente, mas nem por isso deixava de ser extremamente passional, ia até além, era, também, sensual, desejoso.
Os lábios encontraram-se e separaram-se algumas vezes, assim como as línguas dançaram, entrelaçando-se por diversas vezes, mas assim como quem iniciou, quem finalizou o beijo também foi o moreno. Ofegante, com um peso sem igual na consciência.
A ruiva tinha o rosto corado e a respiração acelerada, a testa do moreno estava de encontro a sua e ele ainda não tinha aberto os olhos, mas sentia seus dedos acariciarem sua nuca, ao mesmo tempo em que ela fazia leves carinhos por toda a extensão das costas do rapaz.
-Sieg? – Chamou-o, incerta. – Você sabe o que eu sinto por você, não sabe? – Ele soltou um sorriso triste, sentindo que estava chegando à beira de tudo o que suportaria. Não aguentaria ter que partir depois de ouvir aquelas palavras.
-Sei, Elesis... Eu sei. – Murmurou de volta e abriu os olhos, fitando-a de perto. – E justamente por eu sentir o mesmo por você, se não mais, eu tenho que partir na frente. – Murmurou completamente devastado, depois se afastando lentamente. Deu dois passos para trás e ficou a olhá-la triste. – Não fique assim. Você vai seguir em frente com a sua vida, em pouco tempo nem se recordará de mim.
Mas você vai lembrar-se dela por toda a eternidade, não é mesmo Sieggy? O moreno se viu obrigado a concordar com sua mente.
-Eu faço qualquer coisa, Sieghart. – Ela resmungou o encarando. Em seus olhos o moreno pode identificar a determinação característica dela. – Qualquer coisa.
Ele sorriu triste. – Pois bem. – Pausou e tomou fôlego, sentindo-se culpado por enganá-la. – Se você me derrotar em uma batalha, ao ponto de eu não conseguir mais me erguer, eu ficarei. – Ela abriu um sorriso, já puxando sua espada. Ele manteve-se imóvel. – Eu também não me defenderei.
-Você está querendo me dar a vitória, Sieghart? – Ela perguntou, mas não obteve resposta. Então avançou contra ele, a espada em punho, vendo-o receber o golpe, sem nem ao menos tentar uma defesa e caindo no chão.
Não, estou querendo mostrar-lhe o tipo de aberração que sou.
O moreno apenas suspirou e voltou a se erguer, encravando os orbes prateados na ruiva, que voltou a atacar-lhe, e assim permaneceram por um longo tempo.
-
Ela se ergueu mais uma vez. O guerreiro, cansado, não conseguiu manter a cabeça erguida para vê-la se aproximando. Elesis voltou a caminhar pelas chamas, por mais que não quisesse admitir, lágrimas escorriam incessantes por seu rosto sujo de fuligem. Os olhos perderam-se na paisagem, tentando encontrar aquela mancha negra qual tanto amara.
Não. A mancha negra qual tanto ainda ama.
Era por isso que as lágrimas ainda corriam. Ela fechou os olhos com força e expulsou-as de suas íris, para apertar ainda mais o punho ao redor da empunhadura da espada vermelha. Aquela espada vermelha que lhe foi dada com tanto carinho. Quando reabriu os olhos, viu que o gladiador ainda não levantara, nem dava indícios de tal. Ela se aproximou dele, em passos rápidos pelas labaredas e só conseguiu dar-lhe um soco, fazendo seu corpo rolar mais alguns metros pelo chão quente. O moreno nada fez além de apoiar-se em seus braços e erguer a parte superior de seu corpo.
-POR QUE? – Ela gritou, com todas as forças de seu pulmão. Sua respiração foi tomada por convulsões do choro. Finalmente os orbes prateados cravaram-se na imagem da ruiva.
-Não seja escandalosa, criança. – Ele sorriu de lado. Um sorriso triste, mas ele fingia que estava tudo bem. A ruiva continuava a chorar, abraçada ao seu próprio corpo, tendo esporádicos espasmos do choro incessante. O gladiador se ergueu, não com dificuldade, porém lentamente. Passou as costas da mão em seus lábios e esfregou o sangue na pele pálida.
-Por que...? – Ela ainda estava raivosa, mas não ousava levantar o olhar para ele.
-Um dia você teria que crescer Elesis. – Ele resmungou, ela negou, balançando os fios chamuscados presos no rabo de cavalo que uma vez fora perfeito. Agora jazia baixo e descabelado.
-Não, nada de Elesis. – Sua garganta arranhava, as lágrimas escorriam livres. – Nada de crescer! – Ela gritou novamente. – Você disse que estaria comigo!
-Enquanto eu pudesse-...
-Você disse que estaria comigo. – Ela interrompeu-o e ficou a repetir as palavras, cada vez mais e mais baixo, até deixar-se cair de joelhos no chão. – Você disse.
-Elesis...
Ela não teve nem o intuito de olhá-lo. A ruiva continuou de joelhos no chão de terra e ficou a ver a chuva amansar, finalmente, as labaredas da luta entre os dois, porém totalmente unilateral. – Você mentiu. Disse que ficaria se eu te ganhasse. – Ela pausou e continuou a murmurar, cada vez mais e mais interrompida por soluços. – Mas mesmo que eu te derrubasse mil vezes, você levantaria mil e uma.
Ele permaneceu em silêncio. Um silêncio tão rígido que somente os estalos da madeira queimada eram ouvidos.
-Você é o imortal qual todo mundo fala a respeito. – Ela sussurrou. – Você é o imortal destinado a matar Cazeaje, e não pode perder tempo com uma garotinha... – Ela grunhiu, cuspindo as palavras. – Você é um imortal e é um mentiroso.
As palavras dela doeram. O moreno se encolheu com a menção delas e depois se jogou de joelhos na terra, passando os braços pelos ombros dela. Elesis ainda relutou, mas o gladiador a manteve firme entre seus braços, estreita em seu abraço. A ruiva podia ouvir as batidas do coração dele, aceleradas.
-Não ache que eu não estou sofrendo, Elesis. – Ele murmurou, com dificuldade. – Só de pensar em não poder sentir o seu cheiro toda manhã, faz meu coração parar de bater aos pouquinhos. – Ele estreitou ainda mais o abraço, mantendo-a firme de encontro ao seu peito. – Mas eu não posso arriscar leva-la junto comigo.
-Eu sei me proteger eu-...
-Sou eu quem não posso te perder, Elesis. Já será difícil demais te deixar, imagina vê-la morrer. – Ele interrompeu-a e manteve-se impassível. – Eu te amo.
E em uma fração de segundo ele tinha a liberado de seu abraço sufocador e afastou-se mais do que rapidamente para dentro da floresta meio queimada. Carregando apenas metade de seu existir, metade de sua alma. Metade de seu coração.
Ainda murmurou, para o vento impassível que soprava seus cabelos, quase em um acalento provocador. – Adeus, ruivinha.
Ele também pode ouvir, uma ultima vez a voz esganiçada de um ultimo grito agudo, desesperado. Tentando fazê-lo voltar, regressar seus passos e toma-la em seus braços e fugir de todos os seus compromissos.
Elesis ainda mantinha o cordão prateado entre os dedos, chorando copiosamente. – SIEGHAAART!
Ela não soube quanto tempo ficou lá, chorando, agarrada àquele cordão prateado, ajoelhada na terra batida e molhada. Estava encharcada e o frio a fazia tremer até os ossos, só voltou a pensar quando reparou no elfo, que a sacudia, tentando trazê-la de volta.
-ELESIS! – Ele gritava, preocupado, ao redor toda a Grand Chase tinha facetas tensas. – Elesis, o que houve? Novata, me responde!
Ela abaixou a cabeça, com um sorriso triste, e olhou para o cordão que escapava pelo punho fechado ao redor do pingente. – Ele se foi. – Murmurou. – Sieghart foi embora... Para sempre.
Ryan suspirou, percebendo que, ao menos, houvera respostas. Ele parou de sacudi-la, mas deixou as mãos apoiadas em seus ombros. – Não é tão grave assim, ele pode voltar. – Tentou sorrir.
A ruiva negou. – Vocês estavam certos. – Murmurou tão baixo que o ruivo se esforçou pra ouvir. – Ele é mesmo o Sieghart das lendas. E ele está indo derrotar Cazeaje sozinho, porque não quer deixar seu trabalho para outros. – Ela pausou, finalmente erguendo os olhos para o que ainda a segurava. Ele estranhou a determinação que surgiu neles. – O que ele não sabe é que não pode me manter presa em algum lugar.
Ergueu-se, ajeitando a armadura e pegando sua espada no chão. Ela fechou o cordão envolta de seu pescoço e deixou com que ele tocasse seu colo, por dentro da armadura. – Então Grand Chase, vamos deixar que um velhote dite as regras pra gente?
Os membros do grupo sorriram, meio sem saber o que a mantinha de pé. Ronan sabia que era a vontade de se mostrar importante para o imortal. A vontade de se mostrar necessária a ponto dele não querer deixa-la.
Ele deu dois passos a frente. – Eu concordo com a senhorita Elesis. Já estamos tão perto, vamos logo enfrentar essa bruxa. – Pausou. – Afinal, não queremos deixar toda a diversão para o Sieghart, não é mesmo?
-
O moreno já estava bem adiante da caçada, fitando a entrada para o castelo. O chão, então, treme sob seus pés e ele desvia o olhar, observando o longo basilisco que dormia na fenda ao redor da construção. Ele sabia que teria que passar por algum outro monstrinho de Cazeaje, mas ao olhar para aquele longo réptil ele sentiu-se minúsculo e sem vontade alguma de batalhar.
Estava triste. Estava cansado. Estava até mesmo magoado.
Deixar a ruiva tinha sido um sério ataque ao seu existir, mas o imortal manteve-se forte e assumiu sua pose altiva. Talvez estivesse destruído por dentro, mas ele tinha obrigações que já estava a muito evitando e enrolando.
O guerreiro sacou a highlander, observando a cabeça escamosa que se aproximava em busca de uma análise melhor de sua presa. Ele soltou uma risada grutal e deixou com que seus olhos vermelhos cravassem-se no outro.
Sieghart por um momento tinha esquecido que basiliscos eram inteligentes e até mesmo tinham desenvolvido a fala.
-Ora, ora... O que temos aqui? – Sua voz era tão grave que o humano podia sentir o tórax reverberar, mesmo que ele estivesse falando consideravelmente baixo, o basilisco remexia-se dentro do fosso ao redor do castelo, ocasionalmente ele conseguia enxergar a ponta da cauda do monstro. – Um humano, um humano sozinho. – Sua língua escapou por dentre seus dentes e lambeu os lábios escamosos, ele logo continuou. – O que pretende com Lady Cazeaje?
-Não. – Ele sorriu de canto, fitando o ser enorme. O basilisco voltou a observá-lo compenetrado, aproximando-se. – Eu não sou um simples humano. Eu sou o imortal que veio acabar com o reinado de terror de Cazeaje.
E finalizada a sentença, o gladiador nem ao menos esperou por uma resposta do escamoso, avançou em uma estocada com a highlander, rasgando o canto da boca do ser. Ele remexeu-se e a batida de suas patas fez o chão tremer, obrigando-o a flexionar as pernas em busca de estabilidade.
O basilisco afastou-se, mirando, agora, acertar o guerreiro com suas longas patas com garras, obrigando Sieghart a dar um salto para trás e depois uma investida contra sua pata, encravando a espada ali e mantendo o agarre firme, mesmo quando o protótipo de dragão ergueu seu membro e ficou balançando, tentando livrar-se dele.
Foi quando Sieghart viu.
Os olhos pratas encravaram-se na imagem da Grand Chase se aproximando, os olhos preocupados da sua ruiva sobre ele. Alguns já sacando suas armas e preparando-se para atacar, enquanto miseravelmente sua mente ria de si.
Sieghart, você soltou sua espada. Sieggy seu bobinho, não fique tão abismado com esses jovenzinhos.
-Ora cale a boca. – Grunhiu e quando sua atenção voltou à batalha, se viu caindo na direção da boca aberta do monstro. A última coisa que pode fazer antes de ser engolido foi murmurar, maldosamente. – Provocação Fatal.
No chão, os olhos vidrados fitavam o moreno ser engolido pela besta, enquanto ele lançava a highlander longe, com ódio. Lire sacou seu arco, puxando algumas flechas de sua aljava e dando as ordens. – Grand Cha-... – Parou no meio ao ver a fumaça saindo do basilisco, os olhos do monstro exibiam dor enquanto, todos ali tinham certeza, a última ação dele fora queimar o lagarto de dentro pra fora. E enquanto ele grunhia com dor e deixava a cabeça padecer no chão com força, Ryan ficou parado ao lado da elfa, enquanto a líder abaixava os olhos tristes para o chão.
Fora por pouco tempo, é verdade, mas ainda assim ele tinha sido um quase integrante da caçada. Ela voltou então os olhos para a ruiva, que ainda se mantinha chocada, olhando a cabeça fumegante do basilisco.
A fumaça ainda não parara de sair, mas os membros podiam ver algumas coisas serem regurgitadas e a maga teve que virar o rosto para não fazer o mesmo, quem a amparou foi o lutador, abraçando a maga que, agora, chorava.
Elesis era a última da fila. Ela estava parada ao lado da highlander que foi lançada ao seu lado e que vibrava tensa encravada no chão arenoso, seus olhos voltados para a lâmina, com medo de ver a cena. Ronan parou ao seu lado, depositando uma mão sobre seu ombro.
-Ele vai voltar, tenha fé. – O azulado murmurou à meia voz. A fumaça, aos poucos, parava de sair da boca do bicho. – Você sabe que...
-Ele é imortal? – Murmurou baixinho. – Eu sei. – Pausou e puxou a empunhadura da highlander, voltando-se para encará-lo. – Mas eu e você sabemos que ele não tem como ter resistido a isso, ele é imortal, mas foi engolido por um basilisco. Basiliscos são ácidos por dentro. – Pausou. – Ele me ensinou isso.
Ronan abaixou os olhos, compreendendo o que ela queria dizer, e a ruiva foi adiante, encravando a espada na frente da cabeçorra morta, seu corpo pendia sobre o fosso e agora ela podia ver toda a extensão grotesca dele. Ela engoliu em seco, murmurando baixo uma prece que aprendera ainda quando estava em Canaban. Soltou um sorriso triste. – Você nem me deu oportunidade de dizer que eu também te amo, não é mesmo, velhote? – Seus dedos correram pela corrente em seu pescoço e ela tomou fôlego, voltando o olhar, então, para o grupo. – Vamos prosseguir. Sieghart abriu o caminho, não vamos deixar com que seu esforço tenha sido em vão.
Lire pensou em reclamar sob o posto de líder, mas teve que concordar que ela estava certa. – Grand Chase, adiante. – Lire adiantou-se guiando os outros, Ronan ainda parou ao seu lado, solícito, mas a ruiva somente o ignorou, continuando seus passos, cabisbaixa. Cada vez mais sua raiva crescia por essa bruxa.
E conforme eles entravam no território de Cazeaje, aos pouco a cabeça do monstro pendia para dentro do fosso. Somente quando já estavam dentro das proteções do castelo, adiante pela ponte, é que ouviram o estrondo do cadáver com o fundo do fosso.
Talvez se eles tivessem ficado ali um pouco mais teriam visto os dedos e mãos machucados que rasgavam, aos poucos, a garganta do escamoso. Talvez também tivessem visto o ser machucado e acabado que se agarrava às rochas, escalando de volta para a segurança.
O mesmo ser moreno e machucado, com sua capa maltrapilha ainda mais destruída, que parou em frente à highlander e novamente a clamou sua.
Notas finais
Enfim, mereço reviews? Espero que gostem do capítulo.
Beijos, Teffy~
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