A Mente de Augusto

2 A Confirmação


Acordei... Estava em minha cama, como mais um dia qualquer. Não podia deixar de notar o silêncio que estava. Provavelmente meus pais e minha irmã deveriam ter saído. Levantei e fui ao banheiro. Assim que olhei para o espelho, eu vi a face de um monstro! Não era eu! Gritei e corri de volta pra minha cama. Eu me lembrara de tudo que havia acontecido na floresta!

- Mas, como eu estou na minha casa? Foi tudo um sonho?

Eu estava suando, e ouvia claramente os batimentos do meu coração.

- O que foi que aconteceu?

Subitamente a imagem do cervo me veio à cabeça. Eu o matara! A sangue frio! Mas o que mais me preocupava era, como? Como eu havia feito aquilo?

Ouvi na minha mente uma voz que dizia:

- Meu deus, ele está com uma febre terrível.

Eu acordara outra vez! Dessa vez eu estava em uma casa desconhecida. Deitado em uma velha cama de madeira escura. Haviam quadros com paisagens lindas nas paredes, e uma senhora de cabelos castanhos segurava um pano molhado sobre minha testa, enquanto um senhor, já de muita idade, ligava para alguém, dizendo:

- Filho! Venha pra casa agora! Encontramos um rapaz caído perto de nossa casa, e ele está passando muito mal!

Eu desmaiara outra vez.

Acordei com um sujeito dizendo:

- Olá! Você não morreu por muito pouco. Acho que não era sua hora. Você pegou uma infecção gravíssima por conta das feridas nas suas costas, e vai ficar com uma tremenda dor de barriga por ter ingerido água contaminada.

Eu suspirara por estar bem, mas ao mesmo tempo fiquei em choque, pois isso significava que tudo aquilo tinha realmente acontecido!

Eu queria fugir, correr pra o mais longe possível. Mas não podia fazer isso, tinha que encarar os fatos.

Eu perguntei a ele:

- Onde eu estou? Posso ligar pra casa?

Ele respondeu:

- Você está em uma reserva florestal. Meus pais moram aqui, e cuidam pra ninguém se perder próximo a essa região.

Eu disse:

- Posso ligar pra casa? Meus pais devem estar preocupados, já estou aqui a muitos dias.

Ele respondeu:

- Claro que pode. O telefone está na sala. Assim que melhorar você pode ir.

Eu sentia que esse rapaz era uma boa pessoa. As expressões faciais, os gestos, o tom de voz, tudo me dizia que ele estava mesmo me dizendo a verdade.

Finalmente eu liguei pra casa. Meu pai atendeu, e eu pude ouvir o tom de desespero e ao mesmo tempo de alegria quando ele ouviu a minha voz. Eu estava desaparecido a nove dias.

O momento em que eu corria atrás do cervo não saída da minha cabeça. Eu precisava saber o que estava acontecendo comigo. Saí de dentro daquela casa, e antes de voltar pra minha, resolvi testar aquilo que acontecera.

Parei, respirei fundo, e me concentrei ao máximo no som que as folhas faziam. Eu notei que conseguia ouvir sons muito distantes, e no meio da minha concentração eu ouvi, alto, e claro:

- Temos que chamar a polícia! E se esse rapaz for um fugitivo ou algo do gênero?

- Fugitivo? Olha só pra ele! Ele é só um garoto que se perdeu na floresta.

Eu não sabia de onde essas palavras vinham. Comecei a procurar, e lá na casa, bem distante, na sacada do quarto onde eu estava, eu vi o rapaz que cuidara de mim, e a senhora que havia posto o pano molhado em minha testa.

Fiquei estupefato! Como eu poderia estar ouvindo aquilo! Era impossível!

Nesse instante ouvi o latido de um cão que estava próximo a mim.

Meus ouvidos doeram como nunca! Era como se fosse um latido super sônico.

Achei aquilo super estranho, mas ao mesmo tempo, incrível! Eu tinha uma super audição? Ou era coisa da minha cabeça?

Voltei pra casa. Abracei meus pais e minha irmã. Minha vida voltou ao normal.

Fui pra faculdade, é o meu primeiro ano de engenharia. Meus professores perguntaram o que havia acontecido, e eu disse que não sabia ao certo. Fiquei famoso por ser o cara que sumiu por 9 dias e não sabe o que aconteceu.

Eu falo com quase todo mundo da minha sala, mas não posso negar que algumas pessoas me agradam muito mais do que outras. Em especial, havia uma garota, chamada Amanda. Eu não sei o porquê, mas, ela me agradava em todos os sentidos. Ela tinha o cabelo preto, liso, um rosto magnífico e um corpo invejado por muitas outras garotas. Mas sempre fui um babaca, e nunca tive coragem de falar o que eu acho dela.

Durante a aula, eu percebi que, minha “super audição” havia sumido. Não importava o quanto eu me concentrasse, eu não conseguia fazê-la voltar. Então eu deixei pra lá. Mas durante a minha concentração, notei que outra coisa estranha havia surgido em mim. Eu não era mais capaz de ouvir a distância o que as pessoas falavam, mas eu era capaz de ouvir o que elas pensavam!

Eu olhei pra um rapaz com cara de entediado, e imediatamente eu podia ouvir a consciência dele dizendo em voz alta:

- Que aula chata! Devia ter faltado hoje.

Olhei pra uma garota que parecia prestar atenção na aula, e ouvi:

- Porque eu não entendo o que esse professor fala? Será que sou tão burra assim?

Olhei pra Amanda com a maior curiosidade, e não ouvi nada! Ela era “imune”, eu não podia ouvir o pensamento dela. Achei aquilo o fim do mundo! A única pessoa que eu queria realmente ouvir o que pensava, eu não podia!

No dia seguinte, o professor sorteou duplas pra um trabalho sobre estruturas. E pra minha sorte ou azar, a Amanda foi a minha dupla. Eu sabia que era uma ótima oportunidade pra me aproximar dela, mas eu não queria criar nenhum tipo de expectativa.

Ela sentou ao meu lado, e eu não podia evitar, eu queria olhar pra ela, e eu olhei. E ela olhou pra mim no mesmo instante. Foi tão constrangedor que eu não sabia onde enfiar a cara. Não sei se foi pela minha atitude ridícula, mas ela riu.

O sinal bateu, e eu suspirei aliviado. Se eu ficasse mais dois minutos ao lado dela, eu teria um ataque.

Fui pra casa. No caminho eu via pessoas na rua, e só de olhá-las eu sabia de coisas que não deveria saber, como por exemplo, o nome delas, alguns de seus medos e angústias, etc. Eu estava com medo de mim mesmo. Será que eu virei algum tipo de aberração? Meu dia foi difícil. Tomei um banho e fui direto pra cama. Estava muito assustado, mas confesso que estava adorando ter esse “dom”.