“Deus nunca nos dá uma cruz maior do que podemos carregar.” Incrível como algumas pessoas, apesar de todas as provações que aparentam encontrar pelo caminho, agarram-se nessa idéia. Nessa esperança. Ou ao menos, parecem se agarrar numa força maior. Uma força que rege os dias. A vida. E que guarda grande felicidade, se não para a própria pessoa, para quem a mesma ama. E só por isso, a vida já parece valer a pena. Por mais injusta que ela pudesse ser ou parecer. ------------------------------------------------------------------------------------------------------

Uma bênção. Era assim que minha mãe me chamava, apesar de, algumas vezes eu me perguntar se ela dizia isso para mim, ou para o reflexo dela mesma em meus olhos, nos quais, contra todas as dificuldades, eu me esforçava para manter um brilho vívido e tranquilo. Devia ser isso que ela via. A bênção que ela representava. A grande bênção da minha vida. Deus era, afinal, muito bom comigo. Não importa o que me digam. Ou como me chamem. Mesmo chamado de demônio. Talvez eu realmente pareça um. Mas mesmo assim...mesmo assim, Deus não me abandonara. Minha própria mãe biológica parecia não ter vontade ou meios de não me abandonar. Mas Deus, ainda sim, permaneceu ao meu lado. E foi então que eu encontrei. Uma cigana. Uma mulher que mal podia manter a ela mesma ou aos próprios filhos. Uma mulher que me acolheu. Minha verdadeira mãe. A que escolheu me amar.

Szardos. Ainda me lembro do som desse sobrenome em alemão. Sobrenome que me fora cedido. Sobrenome que fiz questão de apagar do meu nome. Apagar para que ele não pudesse ser rastreado. Para que nenhum mal que pudesse me acometer chegasse até minha mãe. Para que eu pudesse, depois daquele período numa jaula de circo, finalmente proteger quem me protegeu. Zelar sua segurança. Mesmo de tão longe. Mesmo sendo tão difícil. Mesmo tendo que fingir que esqueci. Algumas vezes penso que nem mesmo o professor poderia me fazer esquecer. Mas isso não me interessa. Eu não me importo de lembrar.

Passei muitos anos. Senti muita dor. Lembro daquele chicote que vibrava no ar, mesmo na frente do público. Me lembrando que eu não era um ser humano, de que eu não era indispensável, que eu não era nada- ou tentando me convencer disso. Porém, tive minhas bênçãos – bênçãos que não blasfemo, dizendo que foram pouca, e muito menos dizendo que foram pequenas. Foram grandes bênçãos. Bênçãos lindas, vivas, sorridentes. Milagres que me faziam ver que eu podia ser humano – e que mais ainda, que eles mereciam ser salvos. Milagres que, em sua beleza eterna e espiritual não viram um demônio, um monstro ou qualquer coisa do tipo em mim. Eles viram um filho de Deus.

Eu devo realmente ser um. Devo ser filho de Deus, e Deus deve ser um pai extremamente presente. Ele não me mima. Não me abre caminhos. Não muda o meu ser, porque assim poderia ser mais fácil. Ele me sorri e me afaga com grandes milagres. Com a minha mãe, com um padre, com irmãos. E mesmo quando deixei a Alemanha –que apesar de tão grande, já parecia pequena para tantas pessoas que sorriam e abraçavam, sem dor ou vergonha, uma criança como eu que parecia destinado a ser chutado pela vida – Deus me cedeu mais milagres. Me cedeu uma casa. Uma família. Uma chance de proteger minha outra família, mesmo isso significando me afastar. Deus não me mimava. Mas na sua bondade enorme, nunca me deixou na completa escuridão. Sempre pareceu criar uma luz com a estrela mais brilhante, e apontar para mim, apenas mais de seus tantos filhos. E ele me guiou. Com muitas estrelas brilhantes. E assim foi até o meu fim. Até o meu último sorriso. Sorriso que eu exibia, mesmo na maior dor. Porque quando sua vida é cercada de milagres, se deve sorrir. Sorrir para mostrar a cada um deles, quão grato você é. E eu sei que era, e fui, até meu último momento, imensamente grato. Grato a todos eles.