A Mente De Um Herói
1 Colossus
Às vezes a vida parecia apenas muito... Gozadora. Ela parecia olhar por cima daquelas pequenas criaturas- pequenas e numerosas. Bilhões. Detentoras de sua graça. Detentoras do dom de viver. – e ria. Ela ria ruidosamente. Parecia se divertir com o rumo que cada um levava, em especial alguns, que com poderes – ora berrados como maldição, ora nomeados de dom, de bênção – um tanto quanto peculiares, pareciam perdidos. Mas isso não era verdade. Eles só estavam mais perdidos que a maioria.
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Rússia.
Mikhail, meu irmão.
Aquela guerra. Três meses. E eu perdi. Perdi a noção do que estava acontecendo comigo. Perdi meu protetor. Aquela promessa ficou suspensa no ar. “Vou cuidar de você, Piotr. Vou cuidar de você, meu irmãozinho. Não importa a distancia.” Será que não importava mesmo? Por que ele não voltou então? Por que meu irmão foi tirado de mim quando mais precisava dele? Quando eu mais sentia medo. Quando eu me sentia um monstro. Quando eu apenas queria meu irmão para me dizer o que estava havendo comigo. Só queria que ele fizesse como quando eu adoecia. Queria que ele bagunçasse meu cabelo. Dissesse que era perfeitamente normal. Me sorrisse e me prometesse que eu ficaria bem em poucas semanas. Mesmo que fosse mentira. Só queria meu irmão mais velho, tão mais corajoso que eu, me dizendo que não tinha medo do que estava acontecendo comigo.
Só me senti atordoado. Desesperado. Aquelas placas pareciam surgir sem permissão. Cobrindo minha pele. Me formando uma armadura. Me transformando numa arma. Mas nunca me vi machucando pessoas. Nunca quis machucar ninguém. A última coisa que queria era participar de uma guerra. Uma guerra me tirou meu irmão. E tirou, provavelmente o irmão – não só o irmão, mas o pai, o filho, o amigo – de muitos outros mais. Eu não queria tirar o irmão de ninguém. Mikhail disse-me que queria fazer um mundo melhor para mim. Mais seguro. Porque eu não era capaz de fazer isso. Não com vidas numa mesa. Não brincando de roleta-russa, com a arma apontada para outra pessoa.
Mas talvez, Mikhail tenha de fato cuidado de mim- mesmo depois de parecer ter me abandonado, naqueles campos congelados pelo inferno russo – Mikhail me deixou uma família. Um amigo que ele salvara. Que me concedeu espaço na família. Que me concedeu em pouco tempo uma irmãzinha. Uma criança que merecia o mesmo que eu. Que merecia ter um irmão espetacular, que cuidasse dela. Merecia Mikhail. Mas eu jurei –assim como Mikhail jurou – cuidar dela. Protegê-la. E eu tive a chance, então, de tentar ser a melhor coisa que eu já conheci. De ser como meu irmão mais velho.
Com o tempo, o poder parecia ter sido controlado. Eu brincava com minha irmã. A protegia. Mas chegou uma hora, que aparentemente não podia fazer mais fazer aquilo. A polícia secreta me procurava. Minha nova família corria perigo. Eu deveria ser uma arma. De um jeito ou de outro. Fosse pela Rússia. Fosse pelos x-men. Eu podia cair novamente. Me desesperar novamente. Mas olhei para a minha irmã, ainda tão nova. Eu não podia ser covarde. Agora eu era o Mikhail de alguém. Agora eu era o protetor. Agora não me adiantava mais só amar minha família. Eu deveria protege-la. Por isso parti. Parti com Xavier. Parti para lutar ao lado de quem queria igualdade para os mutantes. Quem sabe assim, um dia, eu voltasse. Voltasse para minha irmã. Para a minha família. Não oferecesse mais perigo. Olhei para o céu, antes de partir. Me guie, Mikhail. Me guie porque preciso de você, meu irmão. Mesmo coberto de ferro. Mesmo tão longe da Rússia. Porque Mikhail e minha família me fazem lutar. Lutar para proteger o que eles eram. O que Mikhail fora. E o que me ensinaram.
Mikhail me ensinou mais que todos. Me ensinou que amar não era ficar parado. Me ensinou a proteger. A cuidar. A me arriscar. Mikhail me ensinou o que era ser um herói. E até hoje, sinto isso quando penso no passado. Eu não sou o herói da família. Mikhail é. E sempre será. Ao que cabe a mim, Mikhail será o herói da família, enquanto eu ainda puder elevar meus olhos e ver o mesmo céu azul que via na Rússia. Ou talvez até algum tempo mais. Até uma eternidade.
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