Notas iniciais
Olá! Espero que gostem do conto, que será divido em duas ou três partes para o capítulo não ficar muito longa , e boa leitura! Obs: Se houver algum erro, me avisem, pois não tive tempo de revisar :)

Acordo com o barulho irritante do despertador e lentamente abro os olhos. A claridade da luz solar que invade meu quarto impede que eu veja que horas são. Minha visão está embaçada. Esfrego os olhos com as mãos e cerro as pálpebras. 8 horas da manhã, observo no visor do relógio digital sobre o criado mudo. Aperto o botão que desliga o alarme, fazendo meu dormitório voltar a ser um local silencioso. Estou atrasadíssima para a escola. Dou um pulo da cama e me dirijo rapidamente ao banheiro.

Perante ao espelho, fito meu próprio reflexo por um minuto. Não sou vaidosa e nem tenho uma beleza estonteante. Meu rosto é comum, fino e pálido, com sardas e bochechas levemente rosadas. Possuo cabelos loiros escuros e um pouco desgrenhados.

Tomo um banho rápido e visto uma blusa qualquer com um jeans velho. Calço o All-Star Chuck Taylor preto e olho o céu acinzentado através da janela. Percebo que vai chover e coloco meu casaco vermelho com capuz. Não espero meu cabelo secar para fazer uma trança que cai lateralmente sobre meu ombro direito.

Desço as escadas de dois em dois degraus com a mochila nas costas. Atravesso a sala de estar, a TV ligada num telejornal, encontrando minha mãe na cozinha em frente ao fogão preparando ovos com bacon. Sento em uma cadeira, pego um copo e me sirvo de uma jarra de suco de laranja gelado, dando um gole. Com a frigideira e a espátula em cada mão, mamãe põe o café da manhã em um prato para mim. Ela é bonita e magra, mas o tempo não é seu melhor amigo. Tem quarenta e seis anos e o semblante com algumas rugas. Os cabelos são curtos e castanhos, e os olhos azuis, como os meus.

– Bom dia, Emily – mamãe diz de forma monótona.

– Sabe que estou atrasada. Porque não me acordou? – pergunto.

– Você anda tão cansada ultimamente. Achei que merecesse um dia de folga. Além disso, hoje é sexta-feira, querida. Relaxe.

– Não quero ficar em casa — respondo. – Isso só piora as coisas.

– Olhe, eu sei que não está sendo fácil vivermos sem seu pai. Também sinto falta dele. Só que agora somos apenas nós duas.

Papai falecera há seis meses atrás. Fora encontrado morto, com garganta cortada, próximo do boteco que freqüentava. Assassinato, porém, nenhuma pista sobre o autor do crime. Confesso que ele tinha problemas com álcool, entretanto, não creio que a causa de sua morte seja uma briga de bar. Papai não tinha inimigos e todos de lá gostavam dele. Acredito que tenha sido vítima de um Serial Killer, pois após seu caso, houveram outros de pessoas achadas com o pescoço rasgado em regiões perto da reserva florestal da cidade de Rivers. Os moradores locais, assustados, nomearam o assassino em série de “O Lobo”, por atacar suas presas ao redor, ou até mesmo dentro da floresta.

De repente, percebo que a repórter do telejornal passando na televisão da sala está anunciando mais uma vítima que O Lobo fez. Uma garota com a mesma idade que eu: dezesseis anos. Mamãe, que percebe que não estou prestando atenção em suas palavras e sim na notícia, pega o controle sobre a bancada e pressiona o botão “On/Off”, apagando a tela da TV.

– Não te faz bem ficar vendo essas reportagens.

– Por quê? – indago indignada. – Por que o cara que matou essa gente provavelmente é o mesmo que matou meu pai? Por que sempre que você ouve falar no lobo, lembra dele por ser a primeira vítima?

Mamãe põe a mão sobre a boca enquanto lágrimas brotam de seus olhos e escorrem pela bochechas. Ela está trêmula e se apóia numa cadeira antes de se sentar. Sinto-me mal ao perceber que fui dura demais. Mamãe só está tentando fazer o seu melhor desde que papai se foi. Parecer forte o tempo todo, pelo menos até agora. E eu, estou confusa. Não sei o que sinto. Talvez um misto de medo, tristeza e raiva. Preciso colaborar para seguirmos em frente.

– Me desculpe – peço perdão á ela, que enxuga o rosto úmido.

– Não, você está certa. Eu é que sou fraca e não consigo suportar o que aconteceu.

– Mamãe...

– Acho melhor você ir para a escola.

– Tem certeza?

– Sim. Apenas gostaria que me fizesse um favor.

Concordo como uma forma de me redimir pelo jeito grosseiro que a tratei, e mamãe me entrega um saco de papel pardo com remédios dentro. Dou uma checada. Antidepressivos. É para minha avó por parte de pai. Ela não conseguiu lidar com o falecimento dele tão bem quanto eu ou minha mãe. E eu a compreendo, afinal, deve ser muito difícil perder um filho. Agora, todo mês temos que levar medicamentos para vovó, que não tem condição financeira de comprá-los sempre.

Levanto-me e agarro as chaves do carro sobre a mesinha de pino na sala.

– Até mais – me despeço abrindo a porta.

– Emily, por favor, vá pela cidade – o pedido de mamãe soava quase como se ela estivesse implorando, temendo pelo pior. – Não pegue a estrada que vai pela reserva.

Assinto com a cabeça e saio de casa com rapidez. Entro na antiga picape azul que pertencia ao meu pai, encaixo a chave na ignição e giro. O automóvel liga. Sinto-me agradecida pelo ronco do motor ser barulhento o suficiente para ocultar meus pensamentos e me fazer esquece-los por um tempo. Mas logo me acostumo com o rugido metálico do veículo e volto a pensar na última coisa que minha mãe disse antes de eu partir. Sei que prometi á ela que iria pela cidade. Contudo, estou atrasada, e apesar de quase ninguém passar pela rodovia da floresta desde o início dos homicídios, é o caminho mais rápido e perto á chegar à casa de minha avó.

Aliás, a paisagem também é muito mais bela. Na velocidade que estou, o verde das árvores passa diante dos meus olhos feito um borrão. Abaixo o vidro da janela e sinto o vento gelado golpear meu rosto. Estou distraída quando subitamente avisto um homem no meio da estrada a alguns metros à frente. Seu braço direito está estendido para o lado e punho fechado com somente o polegar erguido, fazendo um sinal de carona. Há uma moto, possivelmente dele, parada no acostamento.

Sem tempo de frear, giro com todas as minhas forças o volante para a esquerda no intuito de não o atropelar. O carro sai da estrada e perco o controle. A picape desce um barranco enquanto tento retornar ao comando. Entretanto, não consigo enxergar nada além de galhos e mato presos no pára-brisa. De repente, sinto um baque violento que faz meu corpo ir e voltar pro banco graças ao cinto de segurança. Essa lata-velha deve ter batido em algum tronco de árvore, deduzo.

Minha testa dói. Ponho a mão sobre a área dolorida e tiro. Há sangue em meus dedos. Percebo pelo retrovisor que tenho um pequeno corte acima da sobrancelha direita. Acho que me feri durante a colisão. Giro a chave na ignição diversas vezes, mas o carro não liga. Penso em telefonar para minha mãe e puxo o celular do bolso. Sem sinal, vejo no minúsculo painel do aparelho. O desespero toma conta de mim.

Pego a mochila, abro a porta do veículo e saio cambaleando. Estou tonta, tudo ao redor rodopia. A dianteira completamente estraçalhada e uma fumaça esbranquiçada vinda do capô explicam o motivo da picape não funcionar. Encosto as costas em uma árvore e desabo no chão coberto por folhas secas. O que mais de pior pode acontecer? Praguejo, perguntando a mim mesma. Em seguida, ouço o som de passos que a cada instante ficam mais audíveis.

É possível escutar os gravetos sendo partidos sob os pés de alguém desajeitado, que nunca andou numa floresta antes. Estou nervosa, meu coração martela furiosamente, pois a pessoa que se aproxima poderá ser minha salvação ou a que tirará minha vida. Será que é O Lobo? Bom, mesmo o indivíduo mostrando a face, continuarei sem saber se ele é o psicopata das redondezas, porque nenhum jornal revelou sua aparência. Só terei conhecimento de que o sujeito caminhando em minha direção é o assassino quando minha garganta for cortada.

A breve idéia de correr me passa pela mente, contudo, não tenho forças para realizar tal ato. Além do mais, um Serial Killer não seria tão descuidado desse jeito. Com todo esse barulho qualquer um já poderia ter se assustado e estar longe daqui. O Lobo, assim como o animal, provavelmente age de forma rápida e silenciosa.

Então, o homem da estrada aparece entre os arbustos. Ele é alto e tem o rosto quadrado. Seus cabelos são castanhos, penteados com gel para trás, e os olhos de cor desconhecida estão por trás de um óculos escuro de aviador. Também cultiva uma barba um pouco grande e possui estilo de motoqueiro: Usa uma jaqueta de couro preta, jeans rasgado, botas de militar e luvas sem dedos.

– Você está bem? – o rapaz pergunta, observando o estado em que eu e o carro ficamos, enquanto chega perto de mim. Ele pára no momento em que recuo, abraçando minhas pernas, apavorada. – Acalme-se, ok? Eu só vim para ajudar. Sou Adam. Minha moto ficou sem gasolina. Tentei ligar por socorro, mas aqui não tem sinal. O jeito foi esperar por uma carona, só que ninguém, a não ser você, passou naquela estrada.

Fico com a leve impressão de que ele não é perigoso. Se quisesse me matar, já teria feito. Adam pergunta qual é o meu nome. Demoro alguns segundos para dizer que me chamo Emily, porque ainda estou decidindo se confio nele. Resolvo dar esse crédito ao motoqueiro. Ele parece tão ferrado quanto eu. Minutos depois estamos conversando.

– Você está muito ferida? – Adam pergunta e percebo que está se referindo ao machucado em minha testa causado pela batida.

– Oh, não – respondo. – Foi apenas um pequeno corte.

– De toda maneira, sinto muito por ter causado o acidente – ele se desculpa.

– E eu sinto muito por acabar com as chances de te dar uma carona.

Se esse imprevisto não tivesse acontecido, eu poderia ter sido a carona perfeita á Adam. Com um bagageiro disponível para colocar sua moto, minha picape seria bastante útil em levar o dono e sua máquina até uma oficina mecânica mais próxima. Pensando melhor, se não houvesse o incidente, eu não pararia. Acho que passaria direto, com medo dele ser o Lobo esperando por mais uma presa.

– Acho melhor buscarmos por ajuda – diz ele, interrompendo minhas reflexões. – Você consegue se levantar? – Balanço a cabeça positivamente. A tontura deve ter passado. Fico de pé e nenhum sinal de vertigem. Ótimo, posso andar. – É melhor subirmos para a estrada e aguardarmos alguém passar.

– Se fizermos isso, vamos esperar até amanhã. É raro virem por aquela rodovia.

– Como você sabe? Mora na região? – Adam me interroga e faço o mesmo.

– Sim, e você?

– Não, só estou de passagem. Mas, por que ninguém vem por aqui?

– É uma longa história – digo.

– Gosto de longas histórias.

Não sei o que dá em mim – pois não sou de ficar me abrindo com estranhos –, mas conto á ele sobre tudo, desde a morte de meu pai até o porquê de não haver sequer uma alma viva para lhe dar carona na estrada da reserva. E o motivo disso tem um nome: O Lobo.

– Por isso eu estava amedrontada quando me encontrou – explico.

– Mas, se há um psicopata cortador de gargantas à espreita, por que você veio por aqui? – ele indaga, intrigado.

– Tinha de entregar remédios para minha avó e esse era o caminho mais perto, pois eu estava atrasada para a escola. Só que agora não vou a lugar nenhum. Além do mais, gosto da natureza, respirar ar puro.

– E o que você aconselha fazermos? – me pergunta, sem palpites.

– A cidade não fica muito longe. Talvez caminhando nessa direção cheguemos lá em uma hora – aponto com o polegar por cima do ombro para uma passagem atrás de mim.

Sem questionar, começamos uma trilha. Adam vai à frente. De repente, noto o desenho de um lobo costurado nas costas de sua jaqueta. Espero ser uma coincidência bastante infeliz...

Notas finais
Bom, se gostaram e querem a próxima parte, comentem, por favor (isso é muito importante e alimenta o escritor a continuar). Até mais!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.