A Menina Que Escrevia Fanfics
4 Capítulo 3
Acordei cansada e não me pergunte o motivo do cansaço, porque nem eu mesma sei. Talvez fosse os estudos ou o fato de ter tido pesadelos sem nexo a noite inteira, sei lá... Já passavam-se das 9h quando sai do quarto e resolvi comer algo, para minha surpresa encontrei mamãe na cozinha.
– Não era para você estar no escritório, mãe? — eu quis saber, afinal, a Sra. Marri só falta em caso de doença.
– Sim, meu bem... Mas eu precisava fazer um exame, nada demais, mas tive que faltar, Charlie disse que não tinha problemas, então... — desatou a falar e pior, se embolava com as palavras. Das duas uma: ou ela está escondendo algo ou está nervosa. Isso me preocupou.
– Exame do que? Você está bem, mãe? — a questionei me escorando na pia e olhando séria para linda mulher a minha frente.
Não é porque Marri é minha mãe, mas ela é linda! Está no auge dos seus 35 anos, com a profissão que sempre sonhou (arquitetura) e com um marido que a ama! Muito diferente de quando estava com o meu pai, já que ambos nunca se amaram e só mantinham o relacionamento por causa de mim.
– Estou ótima, Helô! Foi só um exame de rotina, daqueles bem bobinhos... — explicou mamãe, mas continuei não acreditando, apesar de ela manter um sorriso enorme nos lábios.
– Assim espero, hein?! — rimos.
Fiquei conversando durante um tempo com Marri, fazia séculos que não éramos só nós duas dentro de casa, nem consigo lembrar a ultima vez em que tivemos um tempinho nosso. Mas não reclamo, sei que Charlie faz o máximo para não afetar no nosso convívio de mãe e filha, alias, foi sempre assim, desde que eles apenas namoravam há uns 5 anos atrás.
Não ter inspiração era a pior coisa do mundo. Há semanas que eu não conseguia bolar cenas decentes para a fanfic que eu escrevia, nada ficava bom ao meu ver e aquilo estava me irritando. Eu costumava ligar o notebook só para escrever, mas hoje em dia, só o uso para atualizar as redes sociais, manter contato com meus amigos de Paris e às vezes ler noticias ou estudar algum texto sobre a língua inglesa, na qual estou me aperfeiçoando graças a David, como já devo ter comentado.
Mas naquela tarde, eu estava sem nada para fazer e sem nenhuma vontade de teclar, nem com os meus amigos eu queria falar; era uma sensação que, não chegava ser ruim, mas incomodava. Talvez fosse tédio, ou ansiedade pelo fato de dali a 3 dias seria a primeira prova de universidade que eu faria valendo meus sonhos.
Resolvi colocar a playlist do celular para tocar no modo 'alto-falante' e logo as batidas eletrônicas de 'I Need Your Love' começaram a ecoar pelo quarto. Músicas costumavam me animar, mas pelo visto hoje seria diferente.
Decidi, após alguns minutos, ir tomar banho e sair para algum lugar, mesmo não sabendo a localidade de quase nada nesta cidade. Coloquei uma calça jeans com rasgos, uma regata fina na cor branca e por cima uma blusa de ombros caídos com a frase "You know i'm no good"*, e claro, o bom e velho all star.
Sai de casa somente com as chaves, meu celular e dinheiro. Andei por algumas ruas calmas da vizinhança, e em uma avenida movimentada, há umas cinco quadras de casa, avistei um Starbucks. Não que eu estivesse com fome, mas um cafézinho sempre cai bem!
Assim que adentrei o estabelecimento, notei a pouca quantidade de pessoas e pensei nos encontros com os meus amigos numa cafeteria calminha de Paris; bom, nenhum era chegado em café ou muffins, mas sempre iam para me fazer companhia. Tempo bom!
Após um longo suspiro de saudades, me encaminhei para uma mesa pequena, perto de grandes janelas que davam para a avenida. Diferente das cafeterias famosas de Paris, o Starbucks que eu me encontrava, em Londres, tinha atendentes que vinham anotar os pedidos, e comigo não foi diferente. Uma mocinha, de no máximo 16 anos, se aproximou com o avental verde musgo e seu bloco de notas, com capa da mesma cor.
– Boa tarde! Gostaria de olhar o cardápio? — perguntou simpaticamente, e neguei com a cabeça.
– Na verdade, só quero um cappuccino e um bolinho inglês! — sorri, e ela anotou e foi em direção ao balcão dos alimentos.
Não demorou muito e a garota estava de volta com o meu pedido. Dei uma de idiota e postei uma foto do meu cappuccino, que me lembrou uma pessoa em especial; escrevi como legenda simplesmente "Lembrei de você! hahahaha saudades @danny!". Chantilly me lembrava das idiotices com Daniel, um amigo muito especial, mas que não vêm ao caso, já que não estou afim de chorar rios em pleno Starbucks.
Enquanto 'saboreava' meu lanchinho, pude analisar todos a minha volta. Praticamente todos liam algo, ou revista, jornal ou livro. Me senti uma maníaca por livros quando vi uma mulher lendo 'Maktub' — Paulo Coelho — e quis rouba-lo para mim. Ei, qual é? Aquele escritor é ótimo, e aquela ruiva que o lia não parecia realmente estar apreciando a leitura, já que mexia no celular de dois em dois minutos. Ela sorriu ao ler algo no celular e então olhou para a porta, fiz o mesmo e pude ver um homem loiro entrar e acenar para a mulher, logo entrou um moreno carregando um celular em mãos, ambos conversavam e andavam em direção da mulher ruiva. E pode me chamar de tonta, porque só então fui ver que o moreno, na verdade, é David, meu vizinho. Apesar de curiosa, sou envergonhada, então desviei o olhar para rua assim que o loiro me olhou.
Vi meu reflexo no vidro, e tratei de tirar o sorrisinho babaca que eu mantinha no canto dos lábios. 'Qual é Heloise?! Seu vizinho não é o único ser em Londres, e ele não precisa vir falar com você, mesmo que tenha te visto! Até porque, uma linda mulher ruiva com peitos quase pulando de seu vestido o esperava, afinal.' Meu subconsciente gritou comigo e me senti ridícula. Eu não esperava que ele viesse falar comigo mes...
– Hey menina! — senti alguém tocar meu ombro e ao mesmo tempo ouvi sua voz. Virei-me para ter certeza, e sorri de imediato. Pelo que dava para perceber, só David Clark me chama de 'menina'.
– Oi escritor! — senti todo meu sangue ir parar nas bochechas, que idiotice esses meus pensamentos! Delete tudo, por favor.
– Você realmente gosta de café, né? — ele riu, e concordei dando de ombros — Posso sentar aqui? — apontou para cadeira vaga na mesa que eu estava.
– Claro. — sorri e olhei disfarçadamente para peituda ruiva, e percebi que ela olhava para nossa mesa.
– Um croissant de frios e um suco de uva. — ouvi Dave dizer para a atendente. — Que estranho ver você fora das nossas sacadas... — disse a mim e uma sobrancelha minha se ergueu, não entendi o que quis dizer e então continuou — Digo, já fazem semanas que conversamos e só nos vimos sempre no mesmo lugar, sei lá, é estranho. — pareceu admitir algo por fim e então rimos.
– Preciso concordar. — ri e tomei um pouco do meu cappuccino, quase terminando-o.
– Temos que marcar de sair por ai. — bebericou seu suco, recém posto na mesa pela garçonete — Estava pensando esses dias em alguns lugares que talvez você gostasse... — comentou e eu sorri.
– Quais por exemplo? — eu, curiosa como sou, quis saber logo.
– Preciso ver ainda se menores podem entrar... — David respondeu. Ei! Isso só soou malicioso para mim? Quase engasguei com o muffin e meus olhos por pouco não saltaram das orbitas.
– Para onde você quer me levar? — a pergunta saiu pausada, com uma Heloise com a expressão assustada perguntando. Imagine.
– Pubs. — desatou a rir e joguei bolinhas de guardanapo no idiota.
– Retardado! — exclamei rindo.
– Maliciosa! — foi a vez dele me insultar. Quis responder 'Não viu nada', mas achei vulgar demais, então apenas rolei os olhos.
Após alguns minutos de um silencio constrangedor, comigo perdida em pensamentos idiotas, meu celular vibrou e acendeu a luz da tela, indicando que alguém estava me ligando. 'Danny', era o que a tela afirmava, foi inevitável não sorrir.
– Não vai atender? — David perguntou e eu devia estar feito uma idiota olhando para o celular, só podia. Me levantei e avisei:
– Já volto. — sorri e caminhei para fora do estabelecimento.
Atendi:
– A-alô? — falei ou melhor, gaguejei.
– Oi, Helô! É o Danny! — como se eu não soubesse.
– E ai, Danny? Como você 'tá?
– Bem, quer dizer, com muitas saudades! E você? Vi que me marcou no Instagram. — ouvi sua risada e quis estar ao seu lado. Droga!
– Saudades também!
– Hm... E como está sendo a nova vida?
– Nada de novo, praticamente. Não conheci muita gente ainda e não sei bem o que fazer ou aonde ir. — suspirei.
– Que droga, gata! — fez uma pausa — O seu lugar no grupo ainda está guardado, todos sentem muito a sua falta!
– Ai Daniel! — exclamei sentindo meus olhos marejados — Eu preciso desligar. — mentira.
– Tudo bem, nos falamos.
– Sim... Tchau Danny.
– Tchau Helô. — desliguei.
Depois de um suspiro demorado e eu limpando a lágrima que teimou em cair, voltei para dentro da cafeteria. Para minha surpresa, David estava acompanhado.
– Desculpe. — falei para David balançando o celular, e ele assentiu.
– Helô, este é o Alexander! — Dave falou apontando para o amigo sentado onde eu estava. O rapaz loiro levantou-se e fui surpreendida com um beijo no rosto, tudo que fiz foi corresponde-lo e sorrir.
– É Heloise né? — Alexander perguntou — O Dave fala muito de você! — olhei para meu vizinho, que rolou os olhos me fazendo rir. Por algum motivo não explicado me senti especial em saber aquilo, mas delete isto que leu, obrigada.
– Espero que fale bem, então. — sorri e Alexander concordou.
– Falo sempre sobre uma pirralha metida a escritora. — meu vizinho falou segurando o riso, enquanto mexia no celular.
– Nossa! Feriu meu coração! — falei com muita ironia, com uma das mãos sob o peito. Na verdade, eu sabia que era brincadeira, então continuei — Vou nessa, até mais. — eu já estava pronta para me virar e seguir para o caixa e pagar minha conta, quando David protestou.
– Ei, fique um pouco mais com a gente! — pediu, agora olhando para mim.
– Hm, só mais... — eu ia responder para meu vizinho e no mesmo instante meu celular começou a tocar. Era minha mãe, desta vez. — Só um momento. — indiquei o meu celular que tocava, David assentiu.
Me afastei um pouco, indo para perto da porta onde não havia movimento e atendi:
– Oi mãe!
– Oi filha, onde você está? Cheguei em casa a pouco...
– 'Tô no Starbucks, aconteceu alguma coisa? — estranhei.
– Não, quer dizer, você estará aqui na hora do jantar? Preciso muito conversar com você e com o Charlie. — sua voz era feliz, apesar de ter me deixado preocupada.
– Hm, claro. Mas o que houve? Está tudo bem? — disparei as perguntas, um tanto afobada.
– Tudo ótimo, Helô! Não há com que se preocupar!
– Já estou indo pra casa, de qualquer maneira.
– Não precisa, meu bem! Já estou saindo mesmo, preciso comprar algumas coisas...
– Ok mãe, mas caso precise me liga, ouviu?
– Claro, claro... Se precisar, também ligue! — me vi assentindo, como se ela pudesse ver.
– Ok, até mais.
– Até! — desligou.
Minha mãe me ligar só para dizer que precisava falar comigo e com Charlie, era de fato, estranho. Mas por algum motivo, eu senti que era algo verdadeiramente bom, e que não era necessário preocupações, mas sabe, a ultima parte sempre me perturbava, já que a ultima vez que isso aconteceu resultou-se em separação.
Quando me dei conta, já estava de volta a mesa e sentada ao lado de David, enquanto ao fundo alguém falava algo e eu de tão absorta em pensamentos não fui capaz de distinguir o que ou quem seria.
– Hey, Heloise? Você está me ouvindo? — só então vi que era Dave, meu vizinho, que falava e me cutucava de leve.
– Oh, desculpa. — falei sentindo-me corar, e agora sim prestando a atenção — O que disse?
– Perguntei o que houve para você ficar tão quieta após as ligações... — Dave respondeu, escorando as costas na janela e olhando-me.
– Como você é discreto, né David? — Alexander semisserrou os olhos para o amigo, e o mesmo deu de ombros.
– Estou entre amigos. — David afirmou sorrindo vitorioso para Alexander, e não pude deixar de rir — Enfim, o que houve? Se quiser falar, claro.
– Nada demais. Primeiro foi um amigo, que disse que todos estão sentindo a minha falta e essas coisas, sabe? — eu falava mexendo em meus dedos, como se fossem a coisa mais legal, e por reflexo vi David assentir — E agora minha mãe dizendo que precisava falar comigo e com Charlie, meu padrasto, na hora do jantar. — sorri de leve, sem querer demonstrar tristeza.
– Hm, mas está tudo bem, certo? — David insistiu em saber.
– A ultima vez que minha mãe resolveu reunir a "família" em um jantar resultou em separação. — fiz aspas, e ri amargamente.
– Bebê! — meu vizinho, que mais parece uma criança riu e cutucou meu ombro.
– Falou o idoso de 30 anos que se acha um adolescente de 15. — alfinetei de volta, e olhei para frente, vendo que Alexander segurava o riso.
– Certo, agora você me magoou profundamente. — David falou em tom divertido, e o encarei rindo de sua posa: mão no coração, com a cabeça jogada pra trás.
– Vocês são sempre assim? — Alexander se manifestou risonho, fazendo alguns gestos com as mãos apontando para nós dois. Eu e David nos entreolhamos e rimos de alguma piada interna não identificada.
– Assim como? — por incrível que pareça, perguntamos juntos.
Alexander negou com a cabeça e riu, e quando pareceu que iria responder David o cortou dizendo:
– Se for nos chamar de idiota não perca seu tempo. — David disse para o amigo, e ambos riram — Apesar da Helô ter um nível de idiotice mais elevado pela idade e tal. — Senti meu queixo pender, e formar um 'O', o encarei incrédula. Ele teve a coragem de dizer isso? Mesmo?!
– Bem que você queria ter a minha idade, não é Senhor-Sem-Graça? — agora sim, cheguei ao x da questão. Dave me olhava pensativo, e quase pedi desculpas, só não o fiz porque David se pronunciou.
– Oh, claro! E você gostaria de ter a minha experiência de trinta, e ter lançado um romance antes dos 28 sem precisar de faculdade alguma, não é Senhorita-Só-Estudo-E-Bebo-Café? — David disparou de volta. E precisei de alguns bons segundos para que meu celebro processasse o que acabara de ouvir.
Como assim David Clark estava me dizendo àquelas coisas? Ele simplesmente não podia! Não só pelo fato de estarmos em um local público com seu amigo, mas também porque, sei lá, somos amigos (?), e amigos não jogam na cara do outro que é melhor que ele? Porque também, acima de tudo, existe um tal respeito que deve ser sempre usado? E não menos importante, não se revela a porra das coisas que você conta para qualquer merda de pessoa que seja! Não é como se não fosse a coisa mais óbvia do Planeta Terra.
Devo ter-lhe encarado alguns minutos até levantar, pegar minhas coisas e lhe dar as costas. Podia ser idiota, mas eu realmente estava ofendida e com raiva!
Marchei até o caixa, para fazer o pagamento e senti alguém pegar forte no meu braço, encarei um David com o cenho franzido.
– Qual foi, Heloise? — David perguntou de forma seca, segurando meu braço.
– A "Senhorita-Só-Estudo-E-Bebo-Café" precisa ir pra casa, por que afinal, ela só têm 17 anos e tem que estudar para alcançar seus sonhos! — respondi da melhor maneira rude que consegui e sorri ainda pior. Eu, sem dúvidas, estava no automatico para não perder o controle e mandar aquele homem à merda!
– Heloise, eu só estava brinc... — ignorei completamente o que David dizia, e me dirigi para moça que atendia no caixa de pagamento. Entreguei minha comanda de pedidos junto com vinte dólares, peguei o troco e dei o fora. Se quer saber, David não me barrou ou pediu que eu ficasse, e quem se importa mesmo? Ele era e continuara sendo SÓ o vizinho da casa ao lado.
–
"You know i'm no good"*: Segundo single do álbum Back To Black, da eterna princesa, Amy Winehouse. Na tradução literal, significa: "Você Sabe Que Eu Não Sou Boa".
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