A Melodia das Águas
26 Que passa pela cabeça da sereia?
Notas iniciais
Auxíliada pela pérola em seu pescoço, seguiu o homem-estátua por trilhas, as quais se abriam entre as árvores, cujo percurso só era óbvio para aqueles que dominavam a habilidade de percebê-lo. A ardência em pontos do seu corpo escorria com as gotas de sangue a pingar-lhe pelas mãos e pernas.
Ainda que a altura daquele ser não fosse muito maior que a sua cintura, a voz, a murmurar canções desconhecidas, ribombava tenor. Passos imperturbados cruzavam com indícios de armadilhas, ossos com sinais de trepanação, antigas ferramentas deixadas de lado pelo pavor.
Um forte clarão irritou-lhe os olhos. Por entre a abertura no teto arbóreo, o raiar do dia divisava perfeitamente as trevas daquilo que agora não mais o era. Suspirou. Já poderia novamente guardar o colar, então segurou-o entre os dedos, a fim de retirá-lo.
“Que passa pela cabeça da sereia”?
As verbas fizeram-na cessar o movimento, confusa.
“É só isto que falas”? Esperou por uma bronca, mas ouviu uma risada grave. Finalmente pôde notar a dessemelhança daquela figura com uma estátua, senão apenas com um homem pequeno. “Procuro a Floresta de Boarin”.
Um sorriso travesso espalhou-se pelo rosto de seu interlocutor.
“Estás a pisar nela, grande guardiã da chama”.
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