A Melodia das Águas
20 A chama dos filhos da terra
Notas iniciais
A penumbra demorava-se sobre frias paredes, transpassando-as tenuamente para ofuscar dezenas de rostos a orlar o ritual. Em roupas negras que lhe caíam, desde os ombros, por sobre os pés, a matriarca ergueu as mãos ao entoar longa e bela oração.
Como em resposta ao cessar dos dizeres, o cântico progressivamente espalhou-se, até sua vibração ser uníssona. Em meio à multidão, também cantava a mulher do mar, pronunciando palavras que desconhecia, ressonando notas que jamais escutara. O movimento de seus lábios lhe era totalmente alheio.
Pôde vislumbrar um fio de luz, espontâneo, engrandecer-se até tomar-lhe conta da consciência. O fogo da terra era alaranjado. Quando a quietação se refez, todos os vultos desapareceram do salão, rumo ao confinamento de seus aposentos.
Mas ela se reteve. Com os braços pendendo ao lado do corpo, os pés rejeitando qualquer movimento. A chama a atraía, a fascinava, a seduzia.
Desviou o olhar no mesmo instante que Melina, parada a uma curta distância de si. Desde quando estivera ali, não conseguiria dizer. O puxativo calor que as atingia parecia arraigar-se no íntimo, quando lábios tocaram-se pela primeira vez. Cachos ruivos e castanhos misturaram-se sobre o chão. Em seus semblantes, a união de duas deusas.
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