A Melodia das Profundezas
1 Prólogo
A neve caía fria e intensa nos preâmbulos da noite, as sombras, na penumbra, percorriam a relva coberta pela fina camada branca que ainda sobrevivia naquela noite, cujas temperaturas menos severas já apontavam o encerramento de mais um inverno intenso. Será que a população seria surpreendida por mais uma onda de frio inesperada? Finalmente poderiam comemorar a primavera?
Suspiros pesados, um fardo acima dos ombros, uma intensa e caótica imensidão dos pensamentos percorriam a humilde e célebre figura que adentrava a raiz do leve morro que subia, dando vida e volume para a não mais pequena cidade que ali repousava. Os passos pesados perfuravam o temível cemitério abaixo de todos, o olhar dormente da cidade já penetrava na esperança da figura.
As botas de couro rígido, as quais serviam para se proteger do frio, não mais aqueciam seus pés do mal que perpetuava a imensidão, ele sentia um intenso medo dentro de si, seus dedos cravados em cima do objeto frio e corroído dentro de suas mangas, ele andava sem rumo, arrepios por cada poro em seu corpo.
—Por favor... Pare... — Ele mesmo não seguia suas ordens, ele tinha uma voz que implorava perdão, uma voz manhosa de quem já havia encarado a morte frente a frente, mas sem coragem para manter esse contato direto, sabia que pereceria diante dos tormentos de seus pesadelos.
Um click soou ao longe, ele sabia que alguém viria ao seu encontro, poderia se sentir mais a salvo. Encarando o horizonte, os uivos de lobos percorriam pela noite que caíra e fazia trevas ao relento, sua espinha gelava a alma, seu olhar penetrava seu interior.
—Pare! — O grito ecoou na imensidão, ele perdia o rumo de sua voz, e o objeto congelava e queimava ainda mais a pele que o tocava, não conseguiu suportar e atirou no chão, o revólver já enferrujado pelo tempo e maresias das viagens em alto mar. — Já fiz tudo o que me mandou, não pode mais me obrigar a seguir seus passos.
A culpa e o pesar comiam seu cerne, os pesadelos não mais eram pensamentos, eram a sua realidade. Ele avançou e engatilhou, o metal gélido encostou em sua cabeça.
—Você não tem coragem. — Uma voz grave sibilou no ar. E assim veio o primeiro estouro, servindo para amedrontar as espécies que ali viviam. Pássaros levantavam voo, na imensidão, não viram que o corpo ainda tremia ajoelhado no limo endurecido. — Você é fraco, não suporta ao menos atirar a própria vida aos porcos, para mostrar o seu valor.
Ele sentia o sibilar aproximar-se de seus ouvidos.
—Você me prometeu... Ninguém se machucaria...
—Mas eu não quebrei minha promessa. — E o metal ainda queimava sua pele. — Venha cá, eu lhe ajudarei com isso. — E o segundo estouro ecoou pelos ares.
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