A Megera Sem Coração
1 Final
Notas iniciais
Quando o relógio deu meia-noite, Manuel ouviu três batidas na porta da frente da casa: Toc... Toc... Toc...
Levantou-se para atender. Quando abriu, surpreendeu-se ao ver uma estranha figura. Sem dúvida, o que mais chamou a atenção do rapaz foi o manto escuro e maltrapilho que ela usava. As únicas partes à vista eram o queixo, branco feito cera, e a boca, vermelha e carnuda. Tratava-se, sem dúvida, de uma mulher – uma bela mulher, quem sabe.
Manuel, depois de avaliar a pessoa com os olhos, falou com uma voz sedutora:
— Posso ajudar em alguma coisa, doçura?
— Você é o homem de bom coração que procuro? — disse uma voz, abafada, vinda de dentro do manto.
— Oh yeah, baby! Eu sou seu homem de bom coração. Costumo abrigar pessoas carentes todo o tempo... se é que você me entende — respondeu Manuel, sem disfarçar a piscadela.
Ele então abriu mais a porta, desajeitadamente e esperou que a mulher entrasse. Ela não o fez.
— Você precisa me convidar para entrar — falou.
Manuel abriu um largo sorriso e disse:
— Gostaria de entrar, my lady?
De dentro do manto, ecoaram altas gargalhadas. A estranha figura, com uma incrível força, agarrou os braços de Manuel e o prendeu contra a parede.
— Oh, então você quer do jeito selvagem, é? Não se preocupe, doçura, eu tenho um chicote guardado no sótão que estou louco para usar. Auuuuu.
— Eu quero o seu coração...
— Ah, ele já é todo seu, gatinha!
Ela deu um suspiro, impaciente. Manuel continuou falando:
— Que tal nós irmos para um lugar mais privado... Como, hum, não sei... meu quarto?
A mulher abriu a boca, revelando dentes afiados como os de uma piranha e rugiu de forma grotesca.
— Ok, ok. Estou sendo muito apressado? É que faz tanto tempo que eu não saio com mulheres. Da última vez... ela partiu meu coração...
— Coração!
A menção à palavra fez com que a estranha figura se enfurecesse de um modo para o qual Manuel não estava preparado.
Foi então que ela revelou sua mão, com enormes e afiadas unhas e a pele esverdeada. E, para completar, colocou sua língua, estranhamente igual à de uma cobra, para fora da boca.
De forma brusca e agressiva, ela enfiou aquelas garras no peito de Manuel, que arregalou os olhos e começou a se debater de dor, tentando, desesperadamente, livrar-se da outra mão posicionada em seu pescoço, estrangulando-o.
O sangue jorrava por todos os lados: no chão, nas paredes alvas, na camisola branca...
Agora, a morte era mais que certa para Manuel.
Surpreendentemente, a mulher fez um longo rasgo no peito do rapaz e de lá, entre suas garras sujas de sangue, um coração humano que ainda batia se revelou.
Após conseguir o que queria, a figura do manto preto jogou o corpo do rapaz de lado. Abriu seu próprio peito e ali depositou triunfalmente aquele pobre coração ensanguentado.
As sinistras gargalhadas se contrapunham à respiração ofegante e aos gritos de pavor do rapaz.
— Meu serviço está acabado — ela disse.
E finalmente tirou o capuz preto para revelar seu rosto e a transformação que nele estava ocorrendo. A pele extremamente branca adquiriu o tom rosa claro, os olhos vermelhos agora tinham uma cor castanha e os cabelos louros cresciam onde antes havia apenas pele.
Os dentes afiados, a língua de cobra e as garras desapareceram como se nunca tivessem feito parte daquele corpo. O corpo de uma verdadeira humana, se moldava.
Sem olhar para trás sequer uma vez, a mulher saiu pela porta da frente e desapareceu na noite fria e escura; deixando para trás seu manto preto, jogado sobre o chão, ao lado de um Manuel muito confuso e assustado, porém ainda vivo.
Com grande dificuldade, ele falou em voz alta para si mesmo:
— Ela roubou meu coração!
***
Meia noite. Em um lugar qualquer.
Ding dong
Uma mulher morena de meia idade abre a porta. A estranha figura de manto preto indaga:
— Você tem um bom coração?
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