A Marota
62 Capítulo 60
Hoje era sexta e noite de lua cheia. Eu, com certeza, não ficaria de fora dessa e os ajudaria, eles querendo ou não. Lily havia trocado de lugar com Marlene e estava a manhã toda no meu pé. Nós encontramos algumas vezes com Rodolfo e eu até achei que ele estava nos seguindo, mas não comentei nada com Lily.
Na aula de poções, eu me sentei ao lado de Marlene e apoiei o cotovelo na mesa, pondo o lado do rosto em minha mão e olhando pra ela enquanto ouvia o professor falar algo ao fundo. Marlene era bem bonita.. Os cabelos negros realçavam sua pele pálida e os olhos igualmente escuros lhe davam um ar mais sombrio.. Ela não parecia ter medo de nada. As vezes eu me perguntava se ela não tinha andado demais com os marotos, era bastante parecida com Sirius. Brincalhona e divertida, chegava a ser irritante.
Ela parecia focada na aula, mas me notou e olhou pra mim, imitando minha posição. Eu ri e me ajeitei, abrindo meu livro de poções na pagina que o professor havia pedido. Ele falava sobre a felix felicis, ou a sorte líquida. Seis meses pra ficar pronta e eu já comecei a pensar que não teria paciência nenhuma pra fazer essa poção. Eu não me imaginava fazendo a poção polissuco que demorava um mês, imagine seis.
Quando a aula acabou, Lily, Lene, Jessy e eu saímos da sala juntas em direção a aula de defesa contra as artes das trevas. No caminho do terceiro, nós, ou eu, acabamos esbarrando em alguém e eu deixei os livros que segurava caírem. Eu suspirei e me abaixei, pegando os dois livros e me levantando, dando de cara com Régulo. Ele sorria levemente e eu revirei os olhos, querendo bater nele. Sabia que ele tinha me visto.
— Engraçadinho.. — comentei, ajeitando a alça da bolsa sobre meu ombro.
— Eu sou, né? Foi a convivência. — ele me disse e eu balancei a cabeça.
— Jane.. Temos aula agora. — Lily disse, olhando receosa para Régulo, assim como Jessy e Lene.
— Tudo bem, meninas, esse aqui não morde mais. — comentei, vendo o Black revirar os olhos.
— Está confundindo os Black's.. Cachorro é o Sirius. — ele disse e eu ri, tendo que concordar com ele.
Eu olhei para minhas amigas e elas pareciam, ainda assim, desconfortáveis. Talvez porque elas não soubessem que foi Régulo quem me ajudou a fugir.
— Bem, nos falamos outra hora, Black.. Temos defesa contra as suas artes agora. — eu brinquei e ela riu, bagunçando meus cabelos antes de nos dar passagem.
— Ah, seu cabelo ficou bem legal. — Régulo disse antes que pudessemos ir.
— Valeu! — eu sorri pra ele e puxei Marlene pelo braço para irmos junto das meninas para a sala de defesa contra as artes das trevas.
Nós entramos na sala e eu me sentei entre Jessy e Lene, já que Lily se sentou ao lado de Remo. O professor ainda não tinha chegado e, como esperado, elas me encheram de perguntas sobre Régulo no corredor.
— Você virou amiga do Régulo agora? — Marlene perguntou, cerrando os olhos para mim e eu ergui uma das sombrancelhas pra ela.
— Eu nunca o tinha visto daquele jeito. — Jessy disse e eu sorri, lembrando que o garoto estava muito melhor que antes.
— Ele não é tão mau quanto parece. — dei de ombros, observando o professor entrar na sala e dar bom dia com seu habitual sorriso.
— Tem certeza? Não acha que ele pode estar fingindo? — Lene sussurrou quando eu molhei a pena e comecei a escrever o que o professor havia colocado na lousa.
— Depois do que ele fez por mim, eu confio quase totalmente nele. — sorri pra ela, tirando os olhos do pergaminho por breves segundos.
— O que ele fez por você? — Jessy me olhou confusa e eu mordi o lábio, tentando me conter.
— Depois eu falo.. — sussurrei e voltei a prestar atenção na aula.
A aula seguiu e eu gostei bastante dessa aula, foi mais teórica mas legal. Quando saímos da sala, alguém agarrou meu braço e me puxou. Na defensiva, eu puxei minha varinha e apontei pra pessoa, acabando por a deixar apontada bem a seu peito. A pessoa era mais alta e a varinha ficou bem encostada em seu peito já que estávamos perto demais.
— Rápida.. Mas sem muita estratégia. — ele disse e eu sorri, abaixando a varinha e olhando pra cima.
— Aula de duelos.. — comentei quando ele me puxou pro canto da parede.
Ele segurou meu rosto, olhando pros lados e deixando um beijo rápido em meus lábios. Disfarçando, ele se encostou ao meu lado na parede e cruzou os braços.
— James pediu pra que eu viesse te chamar pois precisamos de uma reunião marota. — ele disse e eu assenti, olhando pra ele.
— Por que? — perguntei, olhando ele que me mostrou a pontinha de um pergaminho e eu sorri.
Apenas assenti novamente, segurando sua mão e deixando que ele me levasse para onde os outros meninos estavam. Fomos direto para a torre astronomia, encontrando James, Remo e Pedro que comiam frutas... E muitos doces. Eles se levantaram quando nos viram e Sirius fechou a porta, tirando o mapa do maroto do bolso.
— Temos que falar sobre hoje a noite. — James disse, olhando para cada um de nós presentes ali.
— Ah, agora decidiram me por no plano? — eu perguntei, cruzando os braços e olhando pra ele com as sombrancelhas erguidas.
— Pode tirar o coelhinho da chuva, a senhorita não vai com a gente. — ele me respondeu e eu revirei os olhos.
— E por que não? — eu achei intrigante eles poderem ir e eu não.
— Porque da ultima vez que você saiu do castelo na lua cheia, resultou na bela cicatriz na sua perna. — Sirius bagunçou meu cabelo e eu resmunguei, o empurrando sem muita força.
— E o que eu vim fazer aqui então? — questionei, tentando evitar revirar os olhos para eles.
— Existe um certo ser chamado Severo Snape, ou ranhoso, que anda bisbilhotando a gente nas ultimas luas cheias. Precisamos que fique com o mapa do maroto e o impeça de sair caso ele vá bisbilhotar novamente. — James me disse e Sirius me entregou o mapa.
— Tudo bem, eu posso fazer isso. — dei de ombros, guardando o mapa na minha bolsa e olhando pra eles. — Mais alguma coisa? Ordens pra eu não sair do castelo?
— Ah, é, tinha me esquecido.. Não saia do castelo. — James disse e eu bufei, me virando pra sair mas Sirius estava na frente da porta.
— O que você quer também? — eu choraminguei, voltando a cruzar os braços para o maroto a minha frente.
— Me encontra na ponte depois do jantar, okay? Leva a varinha. — ele me disse, passando o polegar pela minha bochecha brevemente.
Eu apenas assenti e ele me deixou passar. Olhando uma última vez pra eles, eu sai dali e desci as escadas da torre em direção ao sétimo andar. Era hora do almoço mas eu não queria almoçar.. Mas, bem, eu tinha amigas mandonas e chatas, acabei encontrando com Marlene no caminho para a sala comunal. Ela me obrigou a descer com ela e nós fomos direto para o salão principal. Na mesa da Grifinória, ela enfiou um pedaço de empadão na minha boca.
Ela me olhou e sorriu, pondo suco de abobora em dois copos e pondo um na minha frente. Eu lhe lancei uma carranca mas ela não se abalou, me indicando o empadão. Me lamentando, eu comecei a comer e ela pareceu satisfeita, sorrindo grande pra mim e apertando minha bochecha dolorosamente.
— Insuportável. — eu comentei e ela sorriu, voltando a comer.
A tarde passou mais devagar do que eu esperava e o nervosismo me tomou. Lily insistia em querer sair a noite e eu insistia em querer bater nela por conta disso. Ela não podia, Remo estaria lá fora transformado esperando uma vítima pra que ele pudesse enfiar as unhas ou os dentes, mesmo que fosse sem querer.
Lene também tentava convence-la de estudar com ela mas a ruiva era insistente mesmo. Na hora do jantar, eu me sentei ao lado de Lily e segurei sua mão quando ela ameaçou pegar o suco de abóbora.
— Lily, por favor, eu to pedindo.. Confia em mim dessa vez. — eu pedi, lhe mostrando meus olhinhos pidões que pareciam não funcionar com ela.
— Eu tenho um compromisso.. Fora do castelo. Não tem nada demais, nós sempre saímos. — ela me disse e eu bufei.
— Mas hoje é lua cheia. — eu lembrei o óbvio e ela riu, soltando sua mão e se servindo de suco.
— Nada demais. — repetiu e eu choraminguei.
Durante o jantar e depois também, eu continuei a falar sobre isso mas ela me ignorou. No meio do caminho para o sétimo andar, eu disse a elas para irem na frente e mudei meu rumo, esperando elas sumirem no retrato da mulher gorda e descendo as escadas novamente. Eu tirei o mapa do bolso e me escondi atrás de uma armadura, falando as palavras e logo ele se revelou pra mim.
No pergaminho, eu pude ver o nome de Filch mas ele estava em sua sala. Eu sorri e procurei por Sirius, encontrando ele na ponte e eu soube que estava atrasada. Fechei o mapa e o enfiei no bolso, praticamente correndo escada abaixo para o nível térreo. Fora do castelo, passei pelo jardim e cheguei a ponte, parando um pouco pra respirar fundo.
Pouco mais a frente, eu vi Sirius que parecia impaciente a olhar para o horizonte, vezes para a esquerda e vezes para a direita. Eu caminhei até ele, parando atrás do mesmo e o cutucando na cintura. Ele se virou e sorriu, guardando a varinha na bolso.
— Está atrasada. — ele me disse e eu concordei.
— Tive que ir com as meninas até o sétimo andar, tentando convencer Lilian a não sair hoje. — revirei os olhos, gesticulando com as mãos.
— Ela quer sair?! Você conseguiu impedir ela? — ele me perguntou, me olhando preocupado.
Eu apenas balancei a cabeça negando e Sirius suspirou, bagunçando os cabelos com as mãos. Ele pareceu pensar por um momento, parecendo frustrado.
— Certo.. Lily prefere estudar a noite, talvez ela não saia. — ele concluiu e eu tive que concordar.
— Bem.. Então, eu fico onde? — perguntei, me referindo a vigiar Snape.
Sirius olhou em volta e se abaixou, pegando algo que não estava ali mas agora estava. Era uma capa e eu olhei pra ele confusa.
— É a capa da invisibilidade de James.. Você vem comigo mas vai ficar debaixo dela o tempo inteiro, okay? Vai ficar perto da floresta, com o mapa e a varinha na mão. — ele me disse tudo rápido, passando a capa por meu corpo.
Eu olhei pra baixo e deixei uma exclamação alta escapar. Metade do meu corpo tinha sumido, apenas minhas pernas e um pedacinho da minha blusa eram vistos e eu olhei para Sirius que sorria.
— Faça perguntas depois, okay? Agora se cubra e vamos. — ele me disse e eu apenas assenti.
Vestindo a capa totalmente em meu corpo e tapando a cabeça, eu segui ele pela ponte até o outro lado. Descemos o gramado em direção ao salgueiro lutador, encontrando James, Remo e Pedro ali. Eles não podiam me ver e Sirius sorriu como se nada tivesse acontecido e como se eu não estivesse ali.
— Você demorou, a lua já vai nascer! — James reclamou e os outros concondaram.
— Desculpem, eu acabei encontrando uma corvina.. Vocês sabem, não resisti. — o Black se desculpou e eu revirei os olhos.
— Certo, vamos logo. — Remo pediu, puxando sua varinha.
Sirius me olhou rapidamente e eu os segui novamente em direção a floresta. Antes que pudessemos entrar, Sirius parou perto de uma das árvores e coçou a cabeça, pigarreando para os outros que pararam e o olharam.
— Vão na frente, eu já alcanço vocês. — ele disse e os outros assentiram.
James o olhou meio desconfiado mas foi com Remo e Pedro, deixando apenas Sirius e eu ali. Ele se virou e suspirou. Eu tirei a capa da cabeça e ele mirou os olhos no lugar certo, me puxando para trás daquela árvore. Me colocou contra ela e segurou meu rosto, pondo meu cabelo pra trás.
— Não saia daqui, okay? Não tire a capa e fique de olho no mapa. Caso a gente se aproxime muito, você corre na direção contrária. — ele dizia e eu apenas assentia, olhando pra ele com um leve sorriso. — Tome cuidado... Por favor.
Ele me olhou por um momento e trouxe seus lábios aos meus, me dando um beijo lento mas que mostrava toda a sua preocupação. Não demoramos muito ali e ele segurou minha mão, a beijando e se afastando. Nossas mãos apenas se soltaram quando ele não viu jeito de me levar junto, se virando e correndo para dentro da floresta.
Suspirando, eu peguei a varinha e o mapa, acendendo a ponta e procurando por Snape. Ele estava nas masmorras, não parecia que iria sair de lá. Lily estava no sétimo andar e eu sorri satisfeita, procurando pelos marotos. Eles estavam no meio da floresta, pareciam agitados e eu senti a preocupação me tomar também. Olhando pra cima, eu vi a lua... Cheia e brilhante.
— Merlin, que eles fiquem bem.. — eu sussurrei, escorregando até o chão e me sentando ali.
O tempo passou e eu fiquei observando o tempo inteiro o mapa, monitorando onde quem ia. Por um momento, meus olhos focaram no nome "Brendan Jordan" e eu o observei por um bom tempo. Ele estava nas masmorras, as pegadas andavam para um lado e logo depois para o outro, parecia meio inquieto ou até nervoso. Quando ele parou, eu pigarreei e decidi procurar pelos marotos novamente, os vendo ainda na floresta.
Mais alguns minutos se passaram e eu bocejei, sentindo meus olhos pesarem. Quando meus olhos abriram novamente, eu senti que tinha caído no sono por breves minutos. Coçando os olhos, eu olhei o mapa novamente e me ajeitei, vendo o nome "Lilian Evans" caminhando pelo jardim em direção a ponte. Ela atravessou e eu a observei, apenas me levantando quando minha mente me chamou de volta pra terra.
— Não, não, não! — eu murmurei, vendo que ela descia o gramado em direção a pouco a frente onde eu estava.
Eu tirei a capa e a deixei ao pé da árvore, enfiando o mapa no bolso e correndo em direção a ruiva tapada. Quando a avistei, ela caminhava lentamente como se estivesse tudo bem.. Mas não estava!
Ela olhou na minha direção e parou, sorrindo do jeito que me irritava profundamente.. Era como se ela dissesse: "Eu disse que sairia e saí". Eu parei a sua frente e respirei, antes de começar a puxa-la em direção a ponte de volta.
— Jane! Me solta! — ela pediu, relutando contra as minhas investidas de puxar o seu braço.
— Você não devia ter saído! Droga, eu te avisei, Lilian! — eu alterei minha voz, o coração batendo a mil.
— É?! E você virou a minha mãe pra dizer o que eu posso ou não posso fazer? Quebrar regras? Você, o seu irmão e os amiguinhos dele quebram todas e eu não falo nada! — ela usou o mesmo tom e eu bufei.
— Não é isso! — eu disse, passando as mãos pelos cabelos nervosamente.
Meu olhar parou atrás dela e eu deixei meus ombros caírem junto com as minhas mãos. Remo estava parado bem ali a orla da floresta, mas não o nosso amigo.. E sim o pesadelo dele de todas as luas cheias.
— Então o que é? — a ruiva questionou e eu umedeci os lábios antes de lhe responder.
— Lobisomem.
Ela se virou e enxergou o que eu via.. Remo, ou o lobisomem, olhava na nossa direção e eu senti todo o meu corpo ficar tenso. Sem esperar, nós sobressaltamos quando ele uivou pra lua, nos olhando novamente antes de começar a vir na nossa direção.
— Corre, Lilian! — eu gritei, agarrando a mão da Evans e a puxando pra correr comigo.
Eu sabia que era inútil naquele momento, mas tinhamos que tentar. Eu não morreria ali e nem deixaria a minha melhor amiga morrer. Porque era isso que aconteceria caso Remo nos alcançasse, seriamos presas fáceis.
Eu tentei voltar pro salgueiro lutador. Eu sabia que tinha uma passagem e, talvez, se entrassemos ele não tivesse chances de vir atrás de nós. Da outra vez que eu vi, James e Sirius forçaram ele a entrar pela passagem.. Talvez não tivesse consciência para passar sozinho. Mas meus planos nem sempre davam certo.
Chegamos perto demais e, inesperadamente, um dos galhos daquela árvore maligna veio na nossa direção, nos acertando em cheio. Nós duas voamos a alguns metros, minhas costas bateram dolorosamente em uma rocha e meu corpo escorregou, indo para o chão. Eu gemi, sentindo minha visão turva e uma dor quase insuportável em quase todo o corpo.
Tentando ignorar esse fato, meus olhos procuraram pela garota ruiva, a achando caída pouco mais para o lado. Tentei me levantar mas ainda doía muito.. Por isso, dei um jeito de me arrastar o mais rápido possível, ainda mais ao ver Remo indo na direção dela, já preparado para dar o mesmo bote que eu havia ganhado. Procurei minha varinha mas ela, provavelmente, tinha voado longe quando eu bati na rocha.
Desesperada, meu grito cortou o ar e, de forma que nem eu mesma entendi, eu consegui me levantar e ser mais rápida que Remo, me colocando na frente de uma ruiva inconsciente. A dor me atingiu em cheio e eu gritei novamente, sentindo logo o sangue escorrer pelos lados do meu corpo. Meu corpo cedeu e eu caí de joelho, as lágrimas de dor caindo sem nem mesmo eu perceber.
Aquela cena me levou a noite em que descobri sobre eles.. Suas garras ensanguentadas foram ao ar novamente, mas dessa vez eu não fechei os olhos. Tentei achar os de Remo, aqueles lindos olhos castanhos que me acalmavam tanto e que sempre me faziam acreditar em suas palavras. Quando se encontraram, ele parou.. As garras ainda suspensas no ar mas ele não as trouxe em minha direção novamente.
Antes que ele tivesse a chance de as abaixar, um vulto negro passou diante de meus olhos e levou o lobisomem consigo. Era Sirius.. O lobo tentou lutar contra o enorme cão negro, mas logo James apareceu e eles ampararam, ou obrigaram Remo a ir em direção ao salgueiro. O mesmo ficou imóvel de repente e eles entraram pela passagem, desaparecendo.
Tudo ficou silencioso e eu deixei meu corpo cair sobre a grama.. Eu quase não sentia mais dor, ou talvez estivesse abalada demais pra isso. Meus olhos continuavam embaçados, mas eram das lágrimas.. Ou eu achava que eram, até uma cabeleira vermelha aparecer diante deles. Seus lábios se mexiam, mas eu demorei a ouvir sua voz doce.
— Jane! Jane, olha pra mim! Isso, fica olhando pra mim. Não dorme, por favor, não dorme. — ela pedia em tom desesperado e eu vi seus olhos verdes se encherem de água.
— E-está tudo bem, r-ruiva.. — eu disse, sorrindo levemente pra minha amiga.
Lily negou, olhando as próprias mãos sujas de sangue.
— Jane.. — ela tentou dizer mas sua voz falhou. — A culpa é minha, eu devia ter ouvido você!
Eu sorri novamente, gemendo quando ela tirou o próprio casaco e o pressionou sobre o meu ferimento. Minha mão tremia quando foi em direção ao seu rosto, secado uma lágrima que o havia manchado. Eu neguei, fechando os olhos por um momento.. Eles estavam cansados.
— Não, Jane, acorda! — a voz de Lily me fez os abrir e eu olhei seu rosto bagunçado.
— V-vai ficar t-tudo bem.. — eu garanti pra ela, sentindo uma gotinha cair sobre minha bochecha e sabia que vinha dos olhos alheios.
Minha visão escureceu e eu sorri uma última vez pra ela, antes de meus sentidos falharem novamente. Por um momento, eu senti e soube que ela me chamava e me balançava.. Mas eu não vi e nem ouvi mais nada.
Fale com o autor