A Mariposa

1 Capítulo Único


A criança loira terminava de raspar a cobertura do bolo de chocolate delicioso. Lembrava, quase em delírios suaves, da voz doce dos pais insistindo para que não provasse o bolo. Aquela cobertura de chocolate em especial, disseram os pais, não era para crianças. Todavia, fora deliciosa. Havia, ao fim, um gosto de algo diferente, entretanto, ainda delicioso.

Um barulho incomodou a garotinha. Intenso, alto, parecia o revoar de algo enorme. A visão periférica acusou algo voando pela lateral, depois subindo. Os pequenos olhos detectaram a criatura: Uma mariposa.

O inseto, contudo, possuía características perturbadoras. Além de ser muito maior que o comum, mais ou menos um metro, carregava olhos grandes e humanos.

A mandíbula mexeu, primeiro lentamente, depois ressonando um som harmonicamente. Estava falando.

“Este bolo. Não é para você” A besta tinha uma voz dupla, que alternava tons de grave e agudo. Os olhos castanhos eram inalteráveis.

“Mas estava gostoso. Muito gostoso. Só não como mais para não dar dor de barriga” disse Dalila, sem titubear, com a sinceridade e coragem tipicamente infantis.

“Não podia. Ele não foi feito por seu papai e sua mamãe. Foi feito por um homem mal, muito mal. Um homem que torna visíveis coisas como eu” argumentou a Mariposa.

“Como você? O que há de especial com você?”

“Do lugar de onde venho, pessoas gemem todas as noites, chorando por auxílio enquanto sentem uma agonia infinita que as queima até os ossos.

Lá, eu persigo e devoro todos os que tentam fugir, todos os que mentem para si mesmos e todos os que desdenham da cautela” O Ser completou o pensamento com a voz aguda, sem alternar para a grave.

Um sentimento terrível perpassava a mente da menininha. Por descumprir as ordens de papai e mamãe estaria condenada a sofrer naquele lugar terrível descrito pelo monstro? Além daquela aberração em forma de Mariposa, o que mais haveria lá? Em vez de imaginar, a garota chorava, tentando espantar as horrendas expectativas.

“Por favor, desculpe, desculpe, desculpe, desculpe...” O fluxo de pedidos de desculpa só se entrecortava por soluços.

“Devia parar de chorar como uma criança. Você procurou isso desde tão cedo. Esse bolo, afinal, foi apenas a gota que transbordou o copo.”

“Co...Como… Assim?” gaguejou Dalila, resfolegando antes de continuar. “Des… Desde… Desde tão cedo? Só tenho oito anos!”

“Oh sim. E mariposas gigantes falantes existem.”

A pupila da jovem se contraiu. Saiu da mesa lentamente, virando-se para o espelho da sala. A imagem estava borrada, precisou caminhar até mais perto.

O reflexo era estranho, mostrava uma mulher com seus vinte e poucos anos, magra, débil, cheia de olheiras, lábios queimados, cabelos ressecados e um braço repleto de furos de agulhas. A sala não era o local aquecido e familiar, mas um galpão sujo, frio e repleto de mobília destruída.

Chocada, Dalila olhou as mãos. Mãos de uma criança.

Olhou para o espelho. Ali havia uma mulher destruída.

“Heroína” Começou a voz dupla do monstro que agora flutuava ao lado da mulher-garota.

“Capaz de distorcer memórias que constroem a realidade quando consumida via oral. Aquele bolo de chocolate, estava repleto disso.”

“Eu sou uma viciada decadente?” respondeu aos prantos, sem tirar os olhos do espelho.

“Não, é uma viciada morrendo de overdose. Tendo alucinações confortáveis para morrer em paz, do único momento da sua vida que valeu a pena: a infância.”

“E você é o que exatamente? A morte? O diabo?”

“Eu lhe disse que do lugar de onde venho, pessoas gemem todas as noites, chorando por auxílio enquanto sentem uma agonia infinita que queima até os ossos.

Lá, eu persigo e devoro todos os que tentam fugir, todos os que mentem para si mesmos e todos que desdenham da cautela.

Sou a culpa. O arrependimento. E o único sentimento que vai te acompanhar até o seu último segundo de vida” Terminando sua fala, o Ser macabro cresceu, cobria todas as luzes do local.

Aos poucos, a visão da adicta era tomada por um breu doentio. O ego ia desaparecendo aos poucos, a respiração cada vez mais fraca, a realidade se tornando menos certa e o corpo paralisado e anestesiado. As entranhas vibravam enquanto sentia sinapses de memórias terríveis a tocando.

Matou seu filho de quatro anos de idade, espancando-o. Agrediu os pais. Roubou um inocente. Prostituiu-se. Como tudo começou?

Não vislumbrava o começo da própria vida, ou qualquer coisa boa.

Só havia o corpo da Mariposa. Só havia Culpa.

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