A Marca da Corça
2 Capítulo Um: A Carta de Alice
Notas iniciais
Capítulo 1: A Carta de Alice
“Querida Lílian,
Lamento que não tenhamos comparecido ao funeral de Tiago e Harry. Eu e Frank não temos palavras para descrever nossa tristeza, mas agradecemos pelo seu aviso e estamos tentando proteger Neville o máximo que podemos. Já não nos importamos mais com nós mesmos, nossa meta é manter o nosso pequeno a salvo.
Eu não faço ideia do que você está enfrentando. Não acho que eu consiga. Toda vez que olho para meu pequeno Neville, sinto uma explosão de amor que nunca senti antes. Eu daria tudo por ele, como sei que você daria tudo pelo Harry. Eu realmente sinto muito que não possamos estar juntas neste momento, mas conheço a mulher forte que você é e sei que vai passar por isso.
Por enquanto, peço que tenha cautela e se proteja. Frank e eu comentamos o tempo inteiro como Tiago vai nos fazer falta. Infelizmente conhecemos muito pouco de Harry, mas ele sempre será lembrado.
Não posso dizer o que estamos fazendo para nos proteger, mas vai dar tudo certo. Este homem vai cair, eu tenho muita fé nisso. Espero que possamos nos encontrar em breve.
Com amor,
Alice”.
Lílian derramou uma lágrima ao ler a carta e a dobrou com carinho. Tinha chegado momentos antes dela sair, o que deixou a viúva de Tiago mais comovida. Uma semana havia se passado desde que seu marido e filho foram enterrados e ela ainda parecia sentir a presença de ambos naquela casa.
Como já planejado, Lílian arrumou suas coisas e deixou a residência antiga para trás – o devia ter feito bem antes, mas o apego às coisas materiais ainda estava lhe prendendo ali. Com ela estava morando Finn, o pequeno gato siamês que criavam, e Remo e Sirius costumavam estar sempre dividindo a responsabilidade pela sua segurança. Naquela tarde em específico, Almofadinhas não estava.
A hora de partir tinha chegado. Assim que deixou a casa para trás, Lílian deu de cara com Remo Lupin do lado de fora. Ele, que trajava mais uma de suas capas cinzentas, a esperava com uma expressão pálida.
— Está pronta? – Perguntou o rapaz, fitando a mulher com seus olhos cor de âmbar. Às vezes ela esquecia de como ele era alto, bem mais alto que os amigos.
Lupin tinha cabelos castanhos que já estavam por assumir cores grisalhas. Parecia já bem mais velho do que realmente era. A cara de cansado nunca lhe abandonara desde que a maldição da licantropia lhe foi passada.
— Sim. – Lílian respondeu, colocando seu braço sobre o de Remo.
Os dois viram o mundo ao seu redor desaparecer. Como Lílian já tinha experiência em aparatação, o procedimento não lhe causou nenhum mal-estar. Em questão de segundos eles estavam diante do antigo prédio de Lupin, em Londres.
Remo e Lílian trocaram poucas palavras neste percurso. Os olhares do rapaz, lobisomem nas luas cheias, eram sempre repletos de dó e Lílian não estava em seu melhor estado de puxar assunto.
Quando adentraram o elevador, pressionaram o botão dezoito – muito embora para os trouxas o edifício fosse constituído por apenas dezessete andares. Somente os bruxos viam aquele botão a mais e apenas eles podiam acessar o andar.
Quando chegaram ao pavimento, composto por dois apartamentos, Lílian se perguntou quem morava no outro, mas guardou para si. Remo a guiou e abriu a porta da sua primeira casa, onde Sirius dava voltas esperando ansiosamente pela chegada dos dois.
— Lily... – arfou ele, em alivio, quando a viu. A abraçou com força e beijou sua testa, tentando parecer protetor de alguma forma. – Vocês demoraram. Eu estava preocupado. Vieram voando?
O apartamento parecia pequeno, mas tinha uma decoração um pouco antiquada e uns móveis que precisavam urgentemente ser trocados – incluindo o sofá e as poltronas da sala de estar. O branco mofado das paredes já dava um aspecto antigo para o local, mas as fotos de Remo criança ainda estavam bem preservadas. Lílian não chegou a conhecer Lyall e Hope Lupin, os pais de Remo. Tinham aquele apartamento desde que se casaram, já que passavam as férias na capital britânica, mas nunca moraram ali de fato.
— Estava me despedindo daquele lar e das lembranças. – Disse Lílian, deixando o gato que mantinha sob seu braço escapar para chão da casa. – E sim, aparatamos.
— Mas e sua varinha? – Indagou ele. – Não me diga que consegue aparatar sem uma.
Sirius Black parecia ter envelhecido um pouco mais naquele período, embora não tivesse perdido o seu charme. Seus cabelos castanho-escuros cacheados caídos sobre os ombros, entretanto, precisavam ser hidratados urgentemente – não que esta fosse uma prioridade de quem vivia momentos tensos como aquele.
— Ainda não. – Lílian disse, sacando uma varinha de mogno com vinte e oito centímetros de dentro do sobretudo que vestia. A agitou e a porta do apartamento, que ainda estava aberta, se fechou bruscamente. – Usei a de Tiago.
— Ela lhe obedece?
— Não muito. – Ela se sentou no sofá, deslizando a mão pelos cabelos ruivos e lisos. – Pensei em ir ao Olivaras comprar uma nova, mas mudei de ideia.
— Não deve ficar se arriscando por aí, Lílian. – Remo disse, se sentando ao lado da amiga.
— Honestamente, Aluado, eu não me incomodaria de ser morta. – Ela resmungou. – Infelizmente, isso engloba muito mais do que eu.
As palavras de Lílian transmitiam dor. Para Sirius e Remo, que sempre viam Lílian com uma esperança e um sorriso no rosto, era desestimulante ter que encará–la naquele estado sem ter muito o que falar para diminuir seu sofrimento.
— Lily, não é bem assim. – O mais alto se sentou ao lado da amiga, aparentando certo receio em abraçá–la. – Você perdeu seu esposo, nós perdemos nosso melhor amigo, – ele olhou para Sirius – e a perda de Harry...
— Vocês não sabem como é. – Lílian o interrompeu de forma grosseira. – Vocês não fazem ideia do que é ver o seu filho de apenas um ano morto. De vê-lo ser assassinado em sua frente e ser inútil. E, sem varinha, não pude nem tentar ajudar o meu pequeno. Eu entendo que vocês tinham grande apego pelo meu filho, mas vocês não fazem ideia do que é a dor de uma mãe que vivencia uma cena como esta.
Nenhum dos dois homens jamais a vira falar daquela forma. A serenidade de Lílian e sua busca pelo que é certo, sempre, nunca a permitiram demonstrar qualquer descontrole – por menor que fosse.
— Desculpe. – Pediu Remo, um pouco sem jeito. – Você tem razão.
— Nós não queremos julgar o que é dor ou não para você. – Sirius disse, se sentando na poltrona ao lado do sofá deles. – Só queremos te mostrar que você ainda está aqui. Desejamos que você viva, Lílian, porque querendo ou não você sobreviveu àquela noite.
A moça então acabou deixando escapar um riso forçado com o qual os marotos não contavam.
— Por piedade.
— Como assim? – Os dois homens coraram.
Até então, Lílian não tinha contado nada para ninguém sobre Snape. Todos já tinham deduzido que Pedro era o responsável por revelar o segredo para Lord Voldemort, mas ninguém sabia da interferência decisiva de Severo naquele acontecimento.
— Voldemort...
— Não diga o nome. – Pediu Remo.
— Desculpe, Remo, mas este é o nome dele e eu não tenho medo. – Lílian se posicionou.
O dono da casa ainda estranhava que lhe chamassem pelo seu nome. Por mais que ela nem gostasse do apelido “Aluado” no início, acabou se acostumando em utilizá-lo.
— Continue. – Pediu Sirius.
— Antes de ir embora, Voldemort me deixou viva como uma “retribuição de favor” a Severo Snape. – Lílian pronunciou o nome com desprezo, para surpresa dos amigos. – Foi Severo quem contou a Voldemort sobre a profecia. Foi Severo quem denunciou para Voldemort a responsabilidade que meu filho podia carregar. Junto com Pedro, foram os responsáveis pela morte de meu marido e de meu filho.
Sirius se levantou da poltrona com a mão fechada, tentando expressar sua raiva de alguma forma. Deu um soco na parede, irritado, enquanto Lupin massageava as têmporas. Costumava ser sempre o mais racional dos quatro marotos.
— Aquele filho da... – Sirius ia falando, mas foi interrompido.
— Almofadinhas. – Remo o parou. – Como ele sabia?
— Eu não faço ideia.
— Deveríamos ter deixado que você acabasse com ele quando foi à casa dos gritos. – Sirius falou, olhando diretamente para Lupin. – O erro de Tiago foi querer salvá-lo. Aquele ranhoso asqueroso... Como pôde ter sido amiga dele um dia, Lílian?
— Vocês também não eram as melhores pessoas do mundo. – Argumentou ela.
— Nós nunca matamos ninguém. – Continuou Remo. – Nem colaboramos para isso, direta ou indiretamente.
— Como pudemos permitir que isto acontecesse? – Sirius estava inconformado. – Não consigo me conformar, de verdade!
— Não adianta ficar pensando no que poderíamos ou não poderíamos ter feito, ambos estão mortos e já não há nada que possamos fazer para trazê-los a vida.
Inconformado, Sirius voltou para a poltrona e ficou de cabeça baixa. Parecia furioso, uma fúria que Lílian sentiu quando soube a verdade. Enquanto Remo parecia mais sereno, a mulher se colocou de pé e foi até a janela. Assistiu, do alto, a cidade de Londres em movimento. Como era linda. Como a inspirava. Quantas vezes ela não pensou em levar Harry para fazer um passeio na capital? Lhe doía que isso jamais fosse passar de um sonho.
— Pedro e Snape irão pagar. – Lílian falou, observando seu reflexo na janela.
— Lílian? – Remo se surpreendeu.
— Eles temque pagar. – Arfou Sirius. – E nós iremos dar um jeito nisso.
— Voldemort não me quer aqui. – Lílian continuou, cruzando os braços.
Remo e Sirius se entreolharam outra vez.
— Como assim ele não lhe quer aqui? – Indagou o herdeiro da fortuna dos Black.
— Não quer. – Lílian explicou, respirando fundo e girando a varinha de seu marido entre os dedos da mão direita. – Não me considera como bruxa, logo acha que não devo permanecer vivendo entre os “puros-sangues”. E disse que, caso eu fique, irá matar minha irmã, meu cunhado e meu sobrinho.
— Deixe que matem. – Sirius falou sem pensar, o que irritou Lílian.
O irmão de Regulo Black sabia bem que Petúnia e Lílian já não se davam, o que se acentuou ainda mais com os episódios recentes desde que a ruiva foi embora da casa dos Evans, aos dezoito anos. Por vezes ouviu a amiga reclamar de como a irmã mais velha a tratava mal, e alguns outros relatos o fizeram tomar raiva da mulher sem nem ao menos conhecê-la.
— Perdão. – Pediu o animago.
— Eu não posso permitir que isso continue. — Lílian relevou a fala do amigo. – Por enquanto, eu devo me unir à Petúnia e proteger minha família.
— Mas Lílian, nós iremos proteger você! – Remo se levantou.
Lílian costumava amar as tardes mais ensolaradas. Sempre foram responsáveis por elevar seu humor – mas, naquele momento, nada seria capaz. Estava decidida a se unir à Petúnia, independente disso ser bom para ela ou não. Permitir que mais pessoas de sua família morressem estava fora de cogitação.
— Nós três sabemos que somos minoria absurda e nossas chances são mínimas. – Disse ela, encarando os dois rapazes.
— Dumbledore tem um plano. – Remo tentou usar da fonte mais provável de proteção.
— Não, não tem. – Lílian guardou a varinha em seu bolso. – Dumbledore está velho! Não é mais o mesmo bruxo de quarenta anos atrás que derrotou Grindewald. Voldemort cresce cada dia mais e agora...
— Ele vai tentar destruir o filho dos Longbottom. – Sirius disse, sem jeito.
— Onde estão Frank e Alice? – Questionou Lupin.
— Nós não sabemos. – Lílian disse. – Hoje recebi uma carta de Alice que mexeu comigo. Imagino, diante da minha situação, o desespero que a atinge. Não sei quais os planos que a ordem tem para eles agora, mas também não posso ajudar muito. Pelo menos tentei avisar instantaneamente que Voldemort iria até ela, o que lhe deu tempo para fugir.
— Pobre Neville. – Sirius, que ainda parecia irritado, agora andava de um lado para o outro da sala, demonstrando impaciência. – Mas ele vai ficar bem. O que ainda está me matando por dentro é saber deste envolvimento de Snape. Achei que Pedro era nosso calo, mas Snape?
— E você sabe que não podemos subestimá-lo. – A voz de Remo tinha se tornado bem grave em relação aos demais e ao que era. Lílian se perguntava se ele tinha começado a fumar, mas isso não fazia nem um pouco o seu estilo.
— Eu não tenho medo de Severo Snape! – Retrucou o Black.
— Severo Snape é um dos bruxos mais talentosos que conhecemos, não seja tolo em não reconhecer algo tão óbvio como isto! – Lupin perdeu um pouco da paciência que sempre reinava enquanto falava. – E o pior é que não temos provas contra ele.
— Do que adiantariam? – O animago continuou retrucando. – O ministério tem sido tão falho em capturar comensais. Se fossem um pouco eficientes a Ordem nem precisaria existir!
Lílian concordava com Sirius naquele ponto. As falhas do ministério e a sua inferioridade em relação aos seguidores de Voldemort eram coisas inaceitáveis.
— O que faremos com Rabicho? – Perguntou Sirius.
— O nome dele é Pedro Pettigrew. – Rebateu Lílian. – E nós iremos fazê-lo pagar pelo que fez.
— Gente, cautela. – Pediu Remo.
— Nada de cautela. – A raiva de Sirius era algo que deixava Lílian mais animada naquele momento. Pelo menos outra pessoa parecia sentir algo semelhante ao que ela vinha sentindo nos últimos oito dias. – Nós iremos sim capturar os dois e dar a eles o que eles merecem.
— Somente por enquanto, eu irei me retirar. – A viúva de Tiago agora teve a luz que entrava pela janela aumentando o brilho do verde de seus olhos. Uma visão linda. – Não precisam se preocupar, de verdade. Ele não vai me matar. Se quisesse, o teria feito.
— Por enquanto, eu irei caçar os dois. E não vou descansar até que a justiça seja feita. – Sirius disse, um pouco mais manso. Pegou a mão direita de Lílian e completou: – Eu prometo.
As expressões de Remo, por outro lado, só demonstravam preocupação. Lílian o conhecia e sabia que a vingança não era algo com o que sua personalidade compactuava, mas ele jamais se recusaria a fazer justiça pela morte de um de seus melhores amigos que foi brutalmente assassinado por uma traição daquele que consideravam como um deles. Por mais que ele disfarçasse, também tinha certo ódio dentro de si.
— Aluado, eu vou ficar bem. – Lílian soltou a mão de Sirius e segurou a mão de Remo. – Agradeço de coração por ter preparado o apartamento para mim, mas hoje eu tenho outro destino.
— Onde é mesmo? – Abordou o proprietário.
— Em Little Whinning. – Respondeu Lílian, prontamente. – Surrey.
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