Notas iniciais
Boa Leitura!

Ren

Entrei um pouco na barraca, e Kelsey se mexia descontroladamente embaixo da colcha. Estava preocupado, ela nunca teve um pesadelo assim. Ajoelhei perto dela, já na forma de homem e tentei acordá-la. Mas ela não respondia. Enquanto se remexia gritava:

— Ren? Onde você está? — gritava, diversas vezes.

Que tipo de sonho ela deve estar tendo comigo? Tenho que acordá-la. Ela continuava:

— Ren, volte! Preciso de você.

Precisa de mim? Enquanto refletia sobre essa frase eu a sacudia tentando acordá-la. Mas ela não acordava parecia que estava em um transe.

— Ren. Por favor, não me deixe — pediu.

Ela começou a chorar, e nesse instante um raio atingiu uma arvore lá fora, ela gemeu alto. Kells... Meus olhos estavam ficando marejados.

— Ren, por favor volte. Não me deixe, por favor.

Ela esta desesperada e, mais lágrimas descem pelo seu rosto. Mas o que é isso? Eu a sacudia mais forte. Uma lágrima cai de meus olhos e eu a seco rapidamente. Ela se sacode, e grita:

— Não! Não pode ser!

Deitei ao seu lado e a abracei com toda a força que podia. Fiquei assim, com ela nos meus braços por segundos. Até que ela parou de se mexer, gemeu e abriu os olhos, cheios de lágrimas. Ela olhou ao redor, para fora da barraca, viu a chuva e a árvore que o raio atingiu. Então seus olhos se voltaram até pararem nos meus.

— Ren? — perguntou baixinho ainda com lágrimas descendo.

Enxuguei suas lágrimas com os dedos. Estava assustada, dava para ver em seus olhos.

— Shh, Kelsey. Eu estou aqui. Não vou deixá-la, priya. Mein yaha hoon. (Tradução: Nunca irei permitir)

Ela agradecida, estendeu os braços e envolveu meu pescoço, se aninhando a mim. Deitei mais para perto dela e a abracei com mais força. Vê-la nos meus braços aflita, me fez ver como ela era frágil. Fiquei acariciando seu cabelo.

— Quietinha agora. Mein aapka raksha karunga. (Tradução: Não se mexa meu amor) Eu estou aqui. Não vou deixar nada acontecer com você, priyatama — sussurrei.

Ficamos assim pelos minutos seguintes, a tranquilizava com palavras hindús, ficava acariciando seu cabelo e suas costas. Ela ficou quieta e pensativa, e me abraçou com muita força. Parecia que tinha medo de eu ir embora. O jeito desse abraço dela me fez refletir sobre algo: Kelsey me amava. De alguma forma que não conseguia entender, mas ela me amava, ela precisava de mim. E eu com certeza a amava e também precisava dela. Isso esclarecia e ao mesmo tempo me deixava mais confuso. Ela me abraçou com mais força, e ficamos assim. Até que meu tempo se esgotou.

— Obrigada por estar aqui — sussurrou em meu ouvido. — Fico feliz por você fazer parte da minha vida. Por favor, fique na barraca comigo. Não há razão para você dormir lá fora na chuva — pediu.

Ela beijou meu rosto e voltou a se deitar, cobrindo com a colcha. Me transformei em tigre e deitei ao seu lado, o mais perto possível. Ela passou o braço ao redor do meu pescoço e se agarrou ao meu pelo. Assim adormeceu, dessa vez sem mais sonhos.

Na manhã seguinte, acordei bem cedo e fiquei lá fora, pensando sobre o sonho de Kelsey. Ela precisa de mim, ela precisa de mim... fiquei repetindo isso na minha mente várias vezes. Talvez eu pudesse tentar de novo... ou não. Melhor não. A primeira tentativa foi falha. Como ela disse... fui antiquado demais. Passado um tempo, ouço kelsey acordar, eu já tinha assumido a forma humana. Ela saiu da barraca, se espreguiçou e disse:

— Nada de banho hoje — disse olhando para a cachoeira que agora caía arrastando pedras e troncos de árvores, por causa da tempestade.

— Não tem importância. Vamos ao encontro de Kadam. É hora de retomar nossa jornada — falei.

— Mas e quanto a Kishan? Você não conseguiu convence-lo a ir conosco? — perguntou.

Tinha me esquecido de falar com ele. Com certeza ele percebeu o real motivo da nossa vinda à cachoeira, não era burro. Se quisesse realmente nos ajudar, já teria.

— Kishan deixou sua ideia clara. Quer ficar aqui, e eu não vou implorá-lo que venha — falei um pouco nervoso.

— Mas, Ren...

— Está decidido — disse interrompendo-a

Me aproximei dela e puxei sua trança. Sorri para ela e beijei sua testa. Pelo menos isso eu tenho permissão...

— Venha, Kells. Vamos arrumar tudo — disse calmamente.

Ela levou só alguns minutos para desmontar a barraca e guardar as coisas na mochila. Assim partimos em direção ao Sr. Kadam. Kelsey observou as borboletas alçarem voo em nosso caminho. Depois de alguns minutos de caminhada, chegamos à beirada da estrada, fora da selva. Eu ia na frente, e ela logo atrás. Para passar o tempo, Kells começou a falar sobre o que ela e Kishan conversaram naquela noite. Ele disse sobre nossa antiga vida no palácio e lutas. Ela contou que ele trouxe uma sacola com comida na boca para ela comer. Pelo menos para isso posso confiar nele. Eu pedi e ele cumpriu a promessa. De repente, ela fala que viu a nossa caçada. Me transformei em homem.

— Você viu o que? — perguntei agarrando seus braços.

— Vi..a... caçada. Pensei que você soubesse. Kishan não lhe falou? — explicou.

Rangi os dentes. Não posso acreditar no que eu acabara de ouvir. . Por isso Kells teve pesadelos. Meu irmão não deveria ter feito aquilo.

— Não, não falou.

Ela desviou de mim e subiu em uma pedra.

— Ah, mas não importa. Consegui voltar — disse.

Aquilo fora o estopim. Ela andara em uma floresta à noite, sozinha sem proteção alguma. Não posso acreditar que Kishan deixou isso acontecer. Agarrei seu cotovelo e a puxei para baixo, para ficar de frente para mim.

— Kelsey, você não só está dizendo que assistiu a caçada, como também voltou sozinha para o acampamento? — falei, tentando manter a calma.

Eu estava além da fúria. Com todos esses perigos existentes na selva Kishan não podia permitir que Kelsey saísse sozinha.

— É.. — disse trêmula.

— Da próxima vez que eu ver o Kishan eu vou matá-lo — disse com raiva. — Não posso nem imaginar as coisas que poderia ter acontecido com você. Você nunca mais vai sair do meu lado — digo.

Pego sua mão, e sigo andando rápido. Ela perguntou se não conversei com Kishan depois de minha caçada, eu expliquei que saí antes dele, e que ele ficou mais tempo perto da comida. Ela disse que devíamos voltar para dizer a ele que tínhamos ido embora. Eu ri ruidosamente, e disse que seria bem feito, sem um cheiro para rastrear. E seria mesmo, ele merece isso. E seria pouco. Quando ela disse que eu não teria conseguido sem a ajuda dele, franzi a testa e não disse nada. Ótimo. Ela assistiu e viu que eu fui fraco e não consegui sozinho. Kishan claramente iria torcer os pensamentos de Kelsey para ele. Ela parou e me perguntou:

— O que aconteceu com você á 300 anos?

Kishan deve ter contado que não caço desde então. Eu não disse nada, ainda com a testa franzida. Ela me cutucou e sorriu, me encorajando. Não posso resistir, suavizei o rosto e comecei a explicar. Disse a ela que a muito tempo atrás, eu me mantinha o mais longe possível de Kishan, pois não nos dávamos bem juntos. Para ele era fácil caçar, pois era negro, agora para mim, tigre branco, a noite é muito mais fácil as pessoas verem. Eu vivia fazendo aparições em vilarejos e fazendas, para caçar bezerros. Eles mandaram pessoas para me capturarem, e assim fui vendido de circo em circo. Até parar naquele em que conheci Kelsey. Expliquei como entrei em contado com Kadam, no circo, para ele me buscar. Disse sobre ter ido até Matt e inventado uma desculpa, e ligar para Kadam.
Depois de fazer minha explicação, me transformei em tigre e continuamos caminhado. Depois de um tempo, parei e fiquei olhando para a selva. Kishan estava ali, podia sentir o cheiro de seu pelo sarnento. Eu queria mesmo vê-lo, para confrontá-lo. Quando seu pelo emergiu de dentro da mata, Kelsey disse:

— Kishan! Você mudou de ideia! Vai vir conosco?

Ele se transformou em homem.

— Não, Kelsey, não mudei de ideia. Mais fico feliz de encontrá-la em segurança — disse olhando para mim.

Não perdi tempo. Assumi a forma humana. E empurrei seu ombro. Isso seria uma mera amostra grátis do que eu queria fazer realmente com ele.

— Por que você não me disse que ela estava lá? Ela viu a caçada, e você a deixou sozinha e desprotegida! — disse gritando.

Ela rugiu e empurrou meu peito.

— Você foi embora, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Se isso faz você se sentir melhor, passei a noite toda procurando por ela. Vocês arrumaram tudo e partiram sem me dizer nada — falou de uma forma que eu conhecia muito bem: estava me chamando para briga. E eu estava mais do que disposto a aceitar.

Kelsey se pôs entre nós.

— Por favor, acalmem-se. Ren, eu concordei com Kishan que acompanha-lo seria mais prudente e ele cuidou bem de mim. Fui eu quem resolvi assistir à caçada e fui eu quem escolhi voltar sozinha para o acampamento. Portanto se vai ficar com raiva de alguém, fiquei com raiva de mim.

Ela virou-se para Kishan.

— Sinto muito ter feito você me procurar a noite toda no meio de uma tempestade. Não me dei conta de que a chuva iria apagar meu rastro. Peço desculpas.

Kishan sorriu e beijou a mão dela. O que me estressou ainda mais.

— Desculpas aceitas. Então, o que achou? — perguntou.

— Da chuva ou da caçada? — perguntou Kelsey, confusa. — Ah foi... — disse tentando encontrar as palavras.

— Ela teve pesadelos — digo áspero.

Ela fez uma careta e concordou.

— Bom, pelo menos meu irmão está bem alimentado. Provavelmente semanas se passariam antes que ele matasse uma presa sozinho — disse irônico

— Eu estava indo bem sem você — digo baixo.

— Não, você não ia conseguir pegar nenhuma tartaruga manca sem mim — falou.

Toda paciência tem limites. E Kishan já esgotara as minhas. Antes de pensar, lhe dei um soco no rosto. Afastei Kelsey para o lado, e lhe dei outro. Ele se afastou, sorriu e disse:

— Tente de novo irmão — disse.

Peguei Kells pela mão e andei o mais depressa possível. Tinha que afastar ela dele. Não queria que ela passasse por tudo o que passou de novo quando brigamos. Kishan passou por nós como um raio negro, se pôs entre nós. Já na forma humana disse:

— Esperem, tenho algo para dar á Kelsey.

Franzi a testa. Mas Kells colocou a mão em meu ombro e pediu para deixar ela conversar com ele. Por ela, eu deixo. Por ela. Me afastei, e Kishan lhe entregou o medalhão. Dizendo que não tem certeza se pode funcionar com ela, mas que teria esperança disso.

— Vou sentir saudades, Kelsey. Venha me visitar — pediu.

Kelsey o abraçou brevemente e ofereceu o rosto para ele lhe dar um beijo na bochecha. Mas desviou no último segundo e lhe roubou um beijo. Não ia conseguir aguentar, se Kelsey não estivesse realmente ali eu já teria sangue de Kishan nas mãos.

— Seu trapaceiro! — exclamou Kelsey rindo e lhe dando um soco no braço.

Kishan olhou para mim, ele sabia que eu estava além da fúria. Em outros momentos teria vindo para cima de mim, mas saiu correndo em direção a selva, gargalhando. Pensei por uns segundos o que fazia ele agir desta forma.
Resolvi esquecer Kishan. Fui até Kelsey, peguei o medalhão e o esfreguei. Pelo menos conseguimos que ele o entregasse a ela. Ela pôs a mão em meu braço e me olhou interrogamente, achando que ainda estou zangado. Sorri para ela, peguei sua trança e esfreguei os fios em meus dedos. Então a beijei profundamente em sua testa. Me transformei em tigre e assim seguimos a procura de Kadam. Depois de uns trinta minutos caminhando, atravessamos a pista e encontramos o acampamento do Sr. Kadam. Assim que viu ela, Kelsey correu e o abraçou. Deitei ao lado de uma árvore, na sombra e assim fiquei. Lembrando do meu tempo com ela na selva. Era tudo tão mais simples. Eu poderia ter esperado, ela não estava preparada. Fui burro.

Notas finais
AH! Obrigada pelos comentários, não pensei que ganharia tantos! COMENTA AÍ O QUE ACHOU! Se não comentar não tem próximo capítulo. Até a próxima (ou não).