Notas iniciais
Boa leitura!

Ren

Entrei no meu quarto depois de muito tempo. O impressionante é que não tem uma partícula de poeira sequer. Desde que fui capturado, eu só dormia em feno, ou no chão mesmo. Muitas vezes em noite chuvosa, ou sol muito quente. Muitas vezes me esqueci que, por debaixo da pele do tigre, existia um homem. No canto do quarto tinha uma escrivaninha, onde eu escrevia meus poemas, lia meu livros, ou refletia sobre tudo.

Adentrei e como tigre mesmo me deitei na cama, e por estar confortável demais, acabei caindo no sono. Naquela noite tive um sonho.

Eu estava correndo na selva, de alguma coisa, estava chovendo e relampeando muito. Não sabia porque eu estava correndo, mais sabia que estava sendo seguido, e que precisava fugir do meu perseguidor. Depois de uns dez minutos correndo, parei e olhei para trás, não havia mais nada, atrás de mim não tinha mais chuva, relâmpago ou mesmo alguém me seguindo. Quando voltei a olhar para frente, estava lokesh de cara comigo. Ele estava sorrindo, um sorriso que não chegava ao seus olhos. Ficamos assim, nos encarando por segundos. Até que ele quebrou o silêncio, dizendo:

— Logo, logo vamos nos encontrar novamente meu tigre de estimação. Dessa vez não vou falhar — disse firme.

Quando eu ia lhe responder, senti algo me puxando para trás, conforme eu ia me afastando, a imagem de Lokesh ia sumindo de vista. De repente eu acordei, com um pulo. Eu estava como tigre, mais senti um calor inundar minha alma. O que foi aquilo? Durante de séculos, nunca tive um sonho desse jeito, ainda mais com Lokesh. Acabei ficando preocupado, pois agora não estava sozinho, Kelsey estava ao meu lado.

Eu tinha que contar isso ao Kadam, para ver o que ele achava. Assim, desci da cama, passei pela varanda e vi que Kelsey não estava no quarto, então desci, e ouvi eles conversando na cozinha. Assim que entrei, Kelsey estava se levantando da mesa, e por um breve momento minha preocupação desapareceu, ela estava com o vestido Sharara azul, que eu tinha pedido a Kadam para comprar para ela. Era a coisa mais linda que já vi. Ela me viu e então falou:

— Bom dia, Ren — falou, animada, e então rodopiou para mostrar sua roupa. — Muito obrigada pelo vestido! É muito bonito, não é? Nilima escolheu muito bem.

Era lindo mesmo, ainda mais nela. Apreciei por um instante, mais então me lembrei do pesadelo e que precisava contar a Kadam, dei uma breve olhada para ele, me virei e saí. Quando ouvi Kelsey disse, um pouco decepcionada:

— O que deu nele?

Ouvi Kadam falar alguma coisa e assim veio atrás de mim.

Caminhei até meu quarto, entrei e deixei Kadam entrar também. Assim que ele fechou a porta me transformei em homem e disse:

— Kadam, tive um pesadelo essa noite. Era com Lokesh, e estou preocupado — disse depressa.

Kadam me olhou por um instante e então disse:

— Pesadelo? Com Lokesh? Pode me explicar como foi? — pediu

Lhe contei cada detalhe do pesadelo o mais rápido possível, pois queria poupar mais tempo para Kelsey. Terminei o relato dizendo:

— O que você acha que significa? — então me transformei em tigre para ouvir.
Kadam disse:

— Olha, Ren, não sei o que dizer. Será que não foi somente um sonho? — resmunguei em resposta, não pode ser somente um sonho. — Está bem. Talvez você esteja muito sobrecarregado com essa ansiedade de quebrar a maldição que está tendo sonhos. Vamos fazer um acordo? — Ele me olhou. — Continue agindo normal, como estava antes. Ai se caso você tiver um sonho como este de novo ai a gente conversa sobre, tudo bem? — pediu

Talvez possa ser só um sonho mesmo. Grunhi em resposta, concordando com o acordo dele. Então disse que ia até o banco hoje a tarde para buscar o selo do Império Mujulaain, que teríamos que usar na caverna Kanheri, falou sobre separar uma mochila com tudo que precisaríamos na busca. Depois sorriu e se retirou. Fiquei um tempo ali refletindo sobre o sonho, mas então decidi esquecer.

Me transformei em homem rapidamente, peguei minha agenda, e escrevi numa folha rascunhos de tudo que Phet nos disse; sobre Kelsey ser protegida de Durga, ir a caverna Kanheri e tudo mais. Após isso, voltei a forma de tigre e fui caminhar atrás da casa.

Quando já estava terminando a tarde, resolvi subir a varanda para admirar o Pôr-do-sol, assim que subi, farejei o cheiro de Kelsey, e sabia que estava por perto, então me transformei em homem e fiquei lá, admirando o pôr do sol.
Segundos depois ouvir Kelsey atrás de mim dizer:

— Oi, Ren — disse tímida.

Me virei e examinei a sua aparência. Agora posso admirar melhor e por mais tempo. Passei meus olhos de em cima em baixo. Quanto mais lhe olhava mais meu sorriso abria. Quando voltei meus olhos para seu rosto, ela estava vermelho vivo, ela estava envergonhada, e por mim, eu amei vê-la assim por mim.

Suspirei e disse:

— Sundari. Eu estava aqui pensando que nada poderia ser mais lindo que este pôr do sol, mas estava enganado. Você aí parada à luz do sol poente, com o cabelo e a pele reluzindo, é quase mais do que um homem pode... apreciar plenamente.

Ela envergonhada tentou mudar de assunto:

— O que significa "sundari"?

— Significa "mais linda" — respondi com um sorriso.

Ela tornou a enrubescer, o que me fez rir mais ainda. Amava ver ela assim por minha causa. Me sentia privilegiado. Peguei sua mão, passei por debaixo de meu braço e a levei para as cadeiras do pátio. Dessa vez, quis me sentar ao seu lado, para poder continuar segurando sua mão, amo tocar nela. Assim que nos acomodamos ela falou:

— Espero que você não se aborreça — falou timidamente -, mas hoje dei uma explorada na casa, inclusive no seu quarto.

— Não me aborreço. Certamente achou o meu quarto o menos interessante — disse um pouco envergonhado, mas ela não notou.

— Na verdade, fiquei curiosa com umas anotações que vi. São suas? — perguntou curiosa.

— Anotações? Ah, sim. Rabisquei algumas coisas para me ajudar a gravar as palavras de Phet. Ali só diz: siga a profecia de Durga, caverna de Kanheri, Kelsey é a protegida de Durga, esse tipo de coisa — respondo.

— Ah. Eu... também vi uma fita. É minha?. — perguntou

Essa pergunta me deixou sem jeito. Como irei explicar?

— Sim. Se a quiser de volta, pode pegar — respondi cauteloso.

— Pra que você a quer? — perguntou curiosa.

Fiquei tenso. Agora, eu estou envergonhado.

— Queria uma lembrança, uma prenda da garota que salvou a minha vida.

— Uma prenda? Como uma donzela que dá seu lenço a um cavalheiro de armadura brilhante? — perguntou me fazendo sorrir.

— Exatamente — concordei sorrindo

— Pena você não ter esperado que Cathleen ficasse um pouco mais velha. Ela vai ser muito bonita — disse

Por uns segundos fiquei confuso. Depois perplexo.

— Cathleen do circo? — sacudi a cabeça. — Você foi a escolhida, Kelsey. E, se eu tivesse a opção de escolher a garota que iria me salvar, ainda teria sido você — disse sem hesitar.

Mesmo que eu pudesse escolher, seria Kelsey. Por mil motivos.

— Por que? — perguntou.

— Por várias razões. Eu gostei de você. Você é interessante. Tinha a sensação de que via a pessoa através do pelo do tigre. Quando você falava, era como se estivesse dizendo exatamente as coisas que eu precisava ouvir. Você é inteligente. Adora poesia e é muito bonita — afirmei

Ela riu com essa afirmação, com certeza ela não se acha bonita, isso me irritou. Ela é a coisa mais linda que já vi na vida. Mesmo assim, ela pareceu lisonjeada.

— Muito bem, Príncipe Encantado, pode guardar sua lembrança — hesitou um pouco, então disse. — Sabe, uso essas fitas em memória da minha mãe. Ela costumava escovar meu cabelo e trançar fitas nele enquanto conversávamos.

Sabia que havia algo importante para ela usar essas fitas coloridas. Sorri e disse:

— Então ela significa ainda mais para mim.

Deixei o momento passar, pensativo.

Então, expliquei o que vamos fazer amanhã. Lhe disse que vamos para a caverna, e, que teríamos que esperar até a noite, para podermos entrar e procurar a profecia de Durga. Disse para ela usar suas novas botas de caminhada, para não machucar seus pés. Lhe expliquei que terá que dirigir até Mumbai, mesmo sabendo que ela não gosta de dirigir aqui.

Depois dela me repreender de dormir o tempo todo, toquei o rosto dela e a virei para mim.

— Rajkumari, quero lhe dizer obrigado. Obrigado por ficar e me ajudar. Você não sabe quanto isso significa para mim.

— De nada — sussurrou. — E o que significa "Rajkumari"? — perguntou.

Lancei um sorriso para ela e mudei de assunto. Não quero falar o significa para ela agora.

— Quer saber mais sobre o Selo?

— Quero, o que é? — concordou

Expliquei que o Selo era uma pedra retangular esculpida, com cerca de dois dedos de espessura. Era um símbolo de deveres da família real. O Selo do Império tem quatro palavras esculpidas, uma em cada face: Viveka (Sabedoria), Jagarana (Vigilância), Vira (Bravura) e Anukampa (Compaixão).

Lembrei de quando e como meus pais usavam o Selo, sempre pensando no povo. Orgulho de como reinaram. Kelsey se levantou e foi até a balaustrada perto da piscina e ficou olhando as estrelas.

— Não consigo imaginar a sua vida antigamente. É tão diferente de tudo o que eu conheço — disse distraída.

— Tem razão Kelsey — concordei

— Pode me chamar de Kells — disse

Sorri e me levantei também. Me aproximei dela e disse:

— Você está certa, Kells. É diferente. Tenho muito a aprender com você. Mas talvez possa lhe ensinar algumas coisas também. Por exemplo, a sua echarpe... Posso? — ofereci

Retirei o xale que caía sobre seus ombros e o estendi à sua frente. Procurei explicar como se usa corretamente, e várias formas de usar. Enrolei o xale em torno do meu próprio corpo para lhe mostrar, quando me virei para ela, começou a rir.

— E como você sabe a moda atual? — perguntou

— Eu sei muitas. Você ficaria surpresa — soltei a echarpe novamente e enrolei a de outra maneira, explicando — Você também pode dobrá-la sobre o cabelo, o que é apropriado num encontro com pessoas mais velhas, pois isso demonstra respeito.

Nesse momento, lembrei de Yesubai, minha noiva que me traiu, ela usava sempre echarpe desse jeito. Respiro fundo. Não quero me lembrar dela.

Ela zombou.

— Obrigada por me mostrar como demonstrar o devido respeito, madame. E permita-me dizer que fica encantadora de seda.

Acho graça de seu comentário, e fico agradecido por ela me fazer esquecer minhas lembranças doloridas do passado.

Continuo demonstrando várias outras formas de usar o xale, ela acha graça a cada forma que lhe mostro.

Mas nosso momento foi interrompido quando senti o tremor percorrer meus braços. O tigre queria tomar sua forma. Esperei um segundo até o tremor passar e conclui:

— Meu estilo favorito, porém, é como você usou hoje mais cedo, jogada solta sobre os dois braços. Assim, vejo o efeito completo de seu lindo cabelo descendo pelas costas.

O cabelo dela me encantava. Adorava olha-lo e toca-lo. Em um impulso repentino, enrolei o xale em torno de seu ombro e a puxei delicadamente para perto de mim. Estendi a mão, peguei um cacho de seu cabelo e enrolei nos meus dedos.

— Esta vida é muito diferente da que eu conheço. Tantas coisas mudaram... — soltei o xale, mais continuei segurando seu cabelo, querendo nunca mais soltá-lo. — Mas algumas são muito, muito melhores.

Inclusive as pessoas. Kelsey aqui, com seu próprio estilo, seu próprio jeito, me encanta. Larguei seu cabelo e corri o dedo pelo seu rosto, sentindo sua pele quente e vermelha. A conduzir de volta ao quarto e me despedir.

— Boa noite, Kelsey. Teremos um dia cheio amanhã.

Dei meia volta, o tigre tomou sua forma, e desci em direção ao meu quarto. Assim que cheguei, olhei para a fita verde de Kelsey e desejei nunca mais me afastar dela, nunca mais.

Notas finais
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