A Maldição do Meio Sangue
3 Uma Presa no Escuro
Notas iniciais
A Maldição Do Meio Sangue
Capítulo 3 -> Uma Presa no Escuro
O ponteiro do relógio avançava com o "tic toc", o giz se chocava com o quadro e as pontas das canetas se arrastavam nas folhas em branco dos cadernos. Cada segundo parecia uma eternidade dentro daquela orquestra do tédio. As palavras do professor se misturavam com os outros sons e passavam despercebidos pela mente de Rika.
Seus pensamentos estavam distantes dali, no segundo andar, para ser exato. Ela não conseguia conter o nervosismo e de vez em quando batucava com sua caneta na mesa. Yuki com certeza corria perigo, mas saber quando ele viria era difícil. Sua mente cogitava em pedir para ir ao banheiro, só para checar a sala de Yuki, porém ela não agia.
A turma estava silenciosa, mais silenciosa do que o normal. Rika estava tão imersa em seus pensamentos que nem percebeu quando o professor parou de falar. Em meio aos seus conflitos internos ela decidiu dar um passo à frente e agir. Ela levantou seu braço e disse:
— Professor! Posso ir ao…
Assim que seus olhos fitaram a classe ela se espantou… Todos ali estavam desacordados, até mesmo o professor. Aquilo era suspeito, mas não havia tempo de desconfiar de nada, ela abriu sua bolsa e puxou uma katana junto com uma pistola e deixou a sala.
[….]
No andar de cima, uma figura misteriosa caminhava pelo corredor. A silhueta aparentava ser a de um homem alto, ele trajava uma espécie de colete armadura preto de um material desconhecido e placas do mesmo em suas pernas. Sua cabeça era coberta por um capacete vermelho tecnológico que possuía dois pequenos cilindros de algum tipo de soro em sua base.
Yuki estava na frente da porta de sua sala, seus sentidos estavam confusos, ele não conseguia distinguir a imagem daquela pessoa desconhecida, mas sabia que tinha que se afastar dela. Ele tomou a direção oposta, almejando chegar na outra escadaria no fim do corredor. Yuki cambaleava e se arrastava pela parede, era como se ele fosse desmaiar à qualquer segundo.
O som dos passos daquela figura se intensificavam na mente de Yuki a ponto de se assemelharem a um trovão estridente. De repente, todo o som foi cortado por uma única sensação... Yuki nem percebeu quando aconteceu… O único sinal foi a imensa dor nas costas e o impacto que o jogou no chão... A dor percorria pelo seu corpo e fazia seus pelos se arrepiarem... Deitado no chão ele enxergava sua mão esquerda, que tremia incontrolavelmente, sangue escorria por baixo dela, tingindo as faixas enroladas nela de vermelho.
Aquela sensação… Todos os sentimentos anteriores foram substituídos pela dor. Uma estaca de metal estava presa em suas costas, ele conseguia sentir ela lá, aquele incômodo doloroso. O pé daquela figura estranha entrava em seu campo de visão, ele estava parado bem em sua frente. A figura agachou e agarrou o braço direito de Yuki com força, o levantando do chão.
O desconhecido arremessou Yuki contra a parede com força, ele agarrou seu braço direito novamente e encostou uma arma em seu antebraço. Yuki recuperou seus sentidos naquela hora. Justo no pior momento ele estava consciente do que estava acontecendo, seu coração se encheu de medo.
— Ei! Quem é voc… AAARRRRGGGGGGHHH!!!!! — Yuki gritou de dor.
A figura disparou uma espécie de estaca de metal no antebraço de Yuki, o atravessando e o prendendo na parede. Ele mal conseguia se recuperar da dor quando a figura disparou novamente na palma de sua mão.
— AAAAAEEEERRRGHHH!!!!
Yuki respirava ofegante e seu coração acelerava como se fosse saltar de seu peito. Sua visão estava começando a se distorcer novamente com a dor.
— MERDA, MERDA, MERDA!!! SOCORRO!!! — Yuki gritava em desespero.
A figura socou seu rosto com força, quebrando seu nariz.
— Não grite, isso é irritante! Todos estão desacordados nesse momento, gritar não vai trazer nada bom para você. — A voz da figura era abafada pelo capacete.
— Desacordados!? O que você fez? —Yuki perguntou.
— Eu plantei uma bomba de gás sonífero nos dutos de ventilação, agora todos estão apagados e não retornarão tão cedo. Isso me faz pensar, como você resistiu ao gás?
— "Droga!! E agora!?" — Pensou Yuki.
Seus dentes rangiam de medo e desespero, seu corpo inteiro estava tremendo. No fundo de sua mente ele se recordava das inúmeras vezes que aquela garota tentou o advertir e ele não deu ouvidos. Era tarde demais para se arrepender.
— Huh? — O homem reparou nos caninos afiados de Yuki. — Seus dentes… Então foi por isso!
— Isso o quê? — Perguntou Yuki.
— Ninguém me avisou que você era um vampiro! Eu podia ter te abordado de outra maneira, mas agora não importa. De qualquer maneira, isso deixa o meu trabalho mais fácil.
Um vampiro? Yuki não sabia como reagir, talvez era por isso que ele estava se sentindo estranho durante a aula. No entanto, não havia tempo para pensar nisso naquele momento. Ele olhou para as estacas em seu braço e tentou movimentar o seu esquerdo para retirá-las, porém o desconhecido pisou em sua mão antes que ele pudesse alcançá-lo.
— Não pense nisso, eu não vou ter que pregar sua outra mão, vou? — Ele disse apontando a arma para o braço esquerdo de Yuki.
— O que você quer de mim?! — Yuki perguntou nervoso.
— Humpf… Eu não quero nada de você, mas existem outras pessoas que querem. — Ele guardou sua arma.
— Outras pessoas? Do que você tá falando?
— Eu não queria perder tempo explicando como as coisas funcionam para você, mas basicamente meu nome é 17, eu recebi ordens para capturar você vivo, então tente se confortar com a ideia de que eu não vou te matar, ou pelo menos tentar.
Yuki observou a figura de perto, ele percebeu que em seu capacete haviam informações em letras pequenas e o número "17" estampados, como informações de alguma fabricadora. Ele se abaixou e agarrou o braço esquerdo de Yuki.
— Ei! O que você tá fazendo? — Yuki perguntou com medo.
Ele puxou uma faca de seu colete ponta e rasgou a faixa de seu braço… Os olhos de Yuki se arregaralam… Ele não conseguia acreditar no que via… Seu braço estava com uma aparência demoníaca, unhas afiadas, dedos esguios, pelos e pele vermelha… Por baixo de sua pele, uma estranha corrente dourada podia ser vista, ela brilhava intensamente como se exercesse alguma força sobre o braço...
— Não… Não pode ser… — Disse Yuki gaguejando.
— Então foi isso o que eles fizeram para te manter vivo… Interessante… Parece que os anjos também estão interessados. — Disse 17.
— Meu braço... Ele… Ele não estava assim!!
— Parece que eles fizerem você se esquecer, mas que merda não é? Voltando ao que interessa, você se importa em suportar mais alguns tiros? Eu não sei se atiro na sua coluna ou em seus tendões, você não vai morrer mesmo.
A visão de Yuki estava pulsando como o seu coração, a adrenalina estava correndo pelo seu corpo. Era como estar dentro do pior dos pesadelos e nunca acordar, uma sensação horrível de desespero.
— Tenta não se debater muito, eu não quero gastar balas acertando os lugares errados, o que seria mais doloroso para você. — Disse 17 apontando uma pistola para Yuki.
— N-Não… Não… P-Por favor… — Yuki tremia de medo.
Seu coração se enchia de medo, tudo que ele pôde fazer foi fechar seus olhos e aguardar seu destino… No entanto, o corpo do assassino não se movia… Yuki abriu seus olhos, 17 estava com o dedo no gatilho, mas não disparava. Sua mão começou a tremer enquanto se mexia lentamente para cima, posicionando a arma contra seu capacete.
— Merda... — Disse 17.
Ele disparou contra si mesmo e imediatamente caiu no chão. Seu corpo estava imóvel, ele havia se matado? No fundo do corredor, uma pessoa se aproximava… Era Rika, ela estava com uma katana em suas mãos.
— Yuki! — Rika correu até ele.
Rika se agachou próximo a ele e examinou suas feridas.
— Meu Deus! Você está bem? — Perguntou.
— Foi você que fez isso? — Perguntou Yuki.
— Eu não tenho tempo pra explicar, vou te tirar daí.
— Opa! Pera aí!
— Eu vou tirar o das suas costas primeiro, isso vai doer!
Rika puxou a estaca de metal das costas de Yuki.
— AGHH! Vai com calma!! — Exclamou Yuki.
— Me desculpe, mas esse é o único jeito! — Rika puxou o de seu antebraço. — Só mais um!
Rika se preparava para puxar a outra estaca quando de repente o som de um disparo pôde ser ouvido e Rika foi jogada pra o chão. No canto de seu olho Yuki percebeu que 17 estava com sua pistola em mãos e seu cano fumegava.
— Não me subestime garotinha. — Disse 17 se levantando.
Ele inclinou a cabeça e deu um tapa em seu capacete, a bala que estava alojada nele caiu no chão.
— Você acha que isso ia penetrar meu capacete? Péssimo movimento. — Disse 17.
Rika estava se recuperando no chão, seu quadril estava sangrando.
— Ngh… Vai precisar… — A bala foi cuspida para fora de seu ferimento. — De muito mais que isso pra me derrubar.
— Ah! Você é uma vampira também? Isso está ficando cada vez mais interessante. — Disse 17. — Eu já cuido de você, não saia daí! — Ele apontou para Yuki.
Rika correu para cima de 17 e usou sua katana para desferir um golpe no peito de seu oponente, mas a katana foi repelida pelo colete.
— O quê? — Disse Rika surpresa.
— Patético! — Disse 17.
Ele apontou sua arma, mas antes que atirasse, Rika segurou seu braço e apontou para outra direção, o fazendo errar. Rika olhou para seu oponente e percebeu que a área de suas axilas não estava protegida, e então tentou um golpe com sua katana. 17 imediatamente repeliu o ataque usando a parte protegida de seu antebraço e segurou a mão de Rika.
Os dois forçavam para tentar quebrar a defesa um do outro, mas suas chances estavam equilibradas. Com um movimento surpresa, 17 deu uma cabeçada no rosto de Rika, fazendo com que ela o largasse. Ele imediatamente disparou contra Rika e acertou seu ombro. Ela despencou para trás, seus cabelos balançavam com o movimento, cobrindo parte de seu corpo. Rika usou isso para sua vantagem, antes que caísse no chão, em um movimento decisivo ela sacou sua pistola e atirou contra 17.
Ele conseguiu apenas perceber o som do disparo, a bala já estava se aproximando, ela acertaria em um dos cilindros em seu capacete. 17 curvou seu corpo para trás.
— Hgh… Muito astuto, mas mesmo assim você falhou. — Disse 17 com seu punho fechado.
A bala havia atingido a palma de sua mão onde não havia proteção. Com aquele movimento rápido e instintivo ele havia conseguido parar uma bala! Ele com certeza não era humano. Yuki observava a luta, era surreal. Ele não conseguia imaginar como Rika partia para cima daquela figura intimidadora sem nenhum medo, mesmo após ser atingida.
— Acabou! — Disse 17 sacando outra pistola.
Ele começou a disparar freneticamente na direção de Rika.
— Droga! — Disse Rika se levantando.
Rika se jogou para a parede das janelas onde havia sombra, um dos tiros atingiu seu pé, mas ela ignorou a dor enquanto corria em direção à 17. Yuki percebeu que o corpo dela não estava mais sendo atingido pelas balas enquanto estava dentro da sombra, e que ao se movimentar ela deixava um rastro como uma fumaça.
Ela se impulsionou seu pé na parede e saltou em 17, o empurrando e fazendo com que ele largasse as armas. Antes que ele pudesse pegá-las do chão, Rika cortou a palma de sua mão ferida com a katana, fazendo-o gritar de dor.
— Sua putinha! — Disse 17 avançando contra Rika.
Ele desferiu um poderoso soco em seu nariz e logo em seguida deu uma joelhada em seu abdômen. Rika tentou reerguer sua espada, mas 17 chutou sua mão, arremessando a katana pra longe. Ele desferiu mais socos e a derrubou no chão.
Aquilo não estava indo bem, Yuki sabia que devia fazer alguma coisa, mas a estaca ainda estava presa em sua mão. Ele tentava retirar com sua mão esquerda, mas doía só dele tocar nela. 17 ficou por cima de Rika e começou a socar seu rosto incessantemente. Yuki não podia ficar parado, ele tinha que ajudá-la. Ele tentava retirar a estaca repetidamente, mas a dor o impedia de ir mais longe.
— Merda… Merda!!!! — Gritou Yuki.
Ele não aguentava mais ver aquela garota sofrer em seu lugar, seu corpo se encheu de determinação, ele precisava sair dali, custe o que custar. Ele percebeu que não havia como tirar a estaca, então ele tentou tirar sua mão dali mesmo com a estaca enfiada.
— RRRGGGGHHH!!!! — Yuki forçava sua mão.
A dor aumentava a cada segundo, sua mão tremia sem parar e sangue jorrava de sua ferida. Yuki respirou fundo e puxou sua mão de uma vez, adrenalina corria em suas veias.
O rosto de Rika estava seriamente ferido. 17 se levantou e pegou sua pistola, apontando-a para a garota.
— Adeus. — Disse 17.
Rika não conseguia mover um músculo, ela estava acabada. O dedo de 17 já estava prestes a pressionar o gatilho quando Yuki apareceu de surpresa e o derrubou com uma investida. Os dois rolaram no chão, Yuki demorava para se recuperar por causa da dor de sua ferida, enquanto 17 já estava de pé.
— Eu disse pra você ficar parado! —Disse 17 furioso.
Ele sacou a arma de estacas e disparou acertando a coxa de Yuki.
— AAAARRRGGGHHH!!! — Yuki berrou de dor.
Yuki respirava ofegante, a estaca estava atravessada em sua coxa, ele não podia se mover. 17 virou de costas e começou a andar na direção de Rika. Yuki sabia que se ele chegasse até ela seria o fim…
"NÃO"… Essa palavra ecoou em sua cabeça, Yuki não deixaria que ela morresse ali… A chama de determinação queimou mais forte em seu corpo, e ignorando toda a dor ele puxou a estaca presa em sua coxa de uma vez... Ele não sentia nada além da adrenalina do momento. Yuki correu até 17 empunhando a estaca e, com um golpe surpresa, apunhalou a parte desprotegida de sua axila com ela.
— AAAARRRGGGHHH!!!! FILHO DA PUTA!!! — 17 Gritava de dor.
Yuki então virou 17 em sua direção e desferiu um poderoso soco com seu braço esquerdo. A força foi tanta que rachou seu capacete. Yuki não sabia de onde vinha aquela força, mas sabia que não podia parar de bater.
— NÃO FODE!!! — 17 agarrou a mão direita de Yuki onde a estaca estava presa e a torceu com facilidade, fazendo com que ele parasse de socar por causa da dor.
— AGHH!!! — Yuki gritou de dor.
17 deu um soco no rosto de Yuki e o pegou pela gola. Ele então o arremessou para as escadas que davam para aquele andar, mas antes que caísse, Yuki foi capaz de puxar seu pé, fazendo os dois rolarem escada abaixo. Yuki se chocou contra a parede, machucando suas costas, 17 estava se preparando para sacar sua pistola.
Ele estava encurralado, não havia como fugir daquela situação… Yuki olhou ao seu redor desesperadamente e percebeu que a estaca havia soltado de sua mão e estava no chão bem em sua frente. Ele tinha como atacar, mas onde? Yuki então se lembrou do momento em que Rika atirou contra 17, ele havia sacrificado a palma de sua mão para se defender da bala, mas o capacete com certeza o absorveria. Então por quê? Por que ele tentaria defender o tiro?… A resposta era clara! Os cilindros! Eles eram provavelmente um ponto frágil. Aquela era sua única chance, a sua única aposta!
Yuki se levantou do chão rapidamente e avançou até a estaca de metal, a pegando do chão. 17 percebeu o movimento e então mirou sua arma, mas Yuki já estava bem próximo... A estaca de metal se aproximava do rosto de 17 e o seu dedo já pressionava o gatilho... A estaca atingiu o capacete com força, estilhaçando sua lateral e o cilindro do lado esquerdo juntos... O vermelho dos fragmentos do capacete era arremessado no ar, assim como o sangue que espirrava da ferida de Yuki.
O tiro havia acertado o pulmão de Yuki, que estava se contorcendo no chão. 17 recuava e se debatia freneticamente tentando respirar. Ele encostou nas escadas e soltou um último suspiro… Seu corpo ficou imóvel no chão, um líquido vermelho viscoso escorria do cilindro e de dentro do seu capacete. Yuki estava se contorcendo de dor no chão, suas feridas não paravam de sangrar. Sua visão estava fixada no chão até que Rika surgiu em sua frente, ela estava completamente recuperada de suas feridas.
— Se acalme Yuki. — Disse Rika puxando um frasco com um líquido vermelho de seu bolso. — Beba isso.
Yuki não entendeu muito bem, mas pegou o frasco e bebeu o líquido do mesmo jeito. Ele sentiu algo estranho, aquela sede de antes estava saciada e sentia seu corpo totalmente descansado. Suas pupilas emanavam um brilho vermelho e as feridas estava se curando rapidamente, até que não estavam mais lá, nem cicatrizes. Sua respiração estava se estabilizando. Rika suspirou aliviada.
— Ufa! Ainda bem que funcionou! — Ela disse.
— O que foi isso? — Perguntou Yuki.
— Eu te explico depois, por hora eu devo agradecer, você me salvou.
— Hã… Eu…
Yuki sentiu algo gelado em sua mão, era a mão de Rika que estava entrelaçada com as suas. Os dois perceberam e recuaram suas mãos, Rika estava corada.
— Er… P-Pegue suas coisas! Nós precisamos sair daqui! — Disse Rika.
Yuki voltou para sua sala e pegou sua bolsa, os dois então saíram do colégio, deixando toda aquela bagunça para trás.
[20 minutos depois]
Os dois estavam sentados em uma mesa de uma cafeteria, Rika saboreava um café gelado enquanto Yuki olhava para seu braço esquerdo, que ele havia enfaixado novamente.
— Eu não consigo acreditar que eles aceitaram essa desculpa esfarrapada… — Disse Yuki.
— O quê? A que as nossas roupas estavam assim por que estávamos fantasiados para um evento de cosplay de zumbis? Foi ótima não foi? — Disse Rika.
— Eu acabei de dizer o contrário... E aliás, por que eu que tive que pagar o seu café?!
— Foi por não ter acreditado em mim, seu tolinho!
Após algum tempo, Rika havia contado tudo sobre o que havia acontecido para Yuki. Sobre a noite passada, os demônios e os anjos, e ele se lembrou instantaneamente.
— Então foi por isso que Luther me pediu para que eu me tornasse um anjo… Merda, eu nem acredito que eu me esqueci disso tudo! — Disse Yuki.
— Não é culpa sua, aliás, é sim! Um pouquinho… Os anjos apagam as memórias daqueles que presenciaram esse tipo de encontro pelo visto, eu acho que é pra que a pessoa não fique paranóica ou coisa do tipo. Mas no seu caso isso foi ruim, muito ruim. — Disse Rika.
— Uma pergunta, meu braço estava normal quando eu acordei, então por que ele ficou assim do nada?
— Deve ser algum tipo de selo, ele deve alterar a aparência do seu braço de tempo em tempo sabe, pra que você consiga viver com ele.
— Não... Eu não acho que só a aparência basta.
— O que você quer dizer com isso?
— Esse braço estava muito forte, digo, uma força fora do normal. O capacete conseguiu parar uma bala à queima roupa, mas eu o quebrei com um soco.
— Deve ter alguma coisa haver com o sangue de demônio preso nele, ele deve estar amplificando a sua força. Essa reação é muito estranha.
— Sangue de demônio... Deve ser por isso que aquele cara veio até mim, isso deve me marcar de alguma maneira.
— Agora você entende o verdadeiro risco da situação.
— Sim... Enquanto o meu braço estiver assim eu serei um alvo, isso significa que os demônios podem me caçar a qualquer hora.
— E consequentemente todos ao seu redor estarão correndo perigo também, você teve muita sorte de eu não ter te abandonado. O que seria de você se eu não estivesse lá?
— Tem razão... Obrigado, Rika.
— Por outro lado… Você também me ajudou… Obrigado por isso também...
— Agora que eu me lembrei! O que foi aquilo que você fez contra aquele cara?
— Aquilo o quê?
— Como assim "aquilo o quê"? Você fez o cara atirar na própria cabeça e fez os tiros dele passarem por você.
— Ah! Isso! Esse é o meu trunfo.
— Trunfo?
— Trunfo são habilidades que essas armas dão aos anjos depois que elas são banhadas por sangue de demônio, a minha katana permite que eu controle os movimentos das pessoas pelas suas sombras e eu também posso ficar inaveljavel dentro delas.
— Então por que você não controlou a sombra dele até o fim da luta?
— É porque eu tenho um limite... Esse poder só funciona 100% caso eu enfie a lâmina da katana em uma sombra perfeita do meu alvo, caso o contrário, o controle só se mantém por alguns segundos, além de que isso cansa pra caramba!
— Então as sua katana tem esse poder? Caramba.
— A sua arma também vai despertar um poder se você derramar sangue de demônio nela, deixe eu vê-la!
— Aqui em público?
— Nossas armas não são visíveis para humanos comuns, vamos me mostre!
Yuki abriu a sua bolsa e olhou para a lâmina...
— Ei, tem como trocar essas armas — Perguntou Yuki.
— Não, quando um anjo recebe sua arma, ela fica para sempre com ele, até se você tentar jogar fora. — Disse Rika. — Mas por que a pergunta?
— Então nós temos um problema…
— O que foi?
— Você me deu uma espada quebrada!!! — Yuki mostrou a lâmina para Rika.
O cabo da espada era negro e tinha detalhes cravados em sua superfície parecidos com uma vinha cheia de espinhos. A lâmina era muito curta, menor que uma faca e em sua ponta havia uma abertura, que revelava que era oca por dentro. Rika cuspiu o café e ficou sem palavras.
— Ai não! Sério? Que merda! Eu nem percebi! Por isso que ela era tão pequena! Ai, ai, ai! — Disse Rika.
— Como eu vou me defender com uma espada quebrada?! — Exclamou Yuki.
— Não foi minha intenção! Eu nem notei!
— Como você não notou?! Ela claramente está quebrada! Não precisa de uma placa escrito "interditado" em cima dela pra perceber isso!
Os dois continuaram discutindo sobre a lâmina quebrada por alguns minutos. Depois daquilo tudo, a polícia foi chamada na escola, que acabou tendo que ser fechada por uma semana. Estranhamente, não havia nenhum sinal de luta no corredor, sem sangue, sem marcas de tiro e, principalmente, o corpo de 17 não estava mais lá... Aquilo foi apenas o começo, Yuki não fazia ideia do que o aguardava, mas ele sabia de uma coisa… Nessa situação, ele era uma presa no meio da escuridão... E os olhos famintos de seus predadores o rodeavam, podendo atacar à qualquer momento…
Qualquer erro daria brecha para um ataque... De agora em diante não há como descansar…
Continua...
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