Joanna

—Ai! –Protestei enquanto uma criada amarrava o espartilho com força. –Eu não vou conseguir respirar!

—Joanna... –Mamãe olhou firmemente para mim. –Olhe os modos.

Revirei os olhos enquanto cerrava os punhos para tentar segurar a vontade de xingar a criada. Amelie estava passando pelo mesmo sufoco. Estava com os olhos fechados, enquanto outra criada a torturava.

—Onde está Alfina? –Perguntei.

—Preparando os vestidos. –Nossa mãe balançava um leque perto do rosto. –Eu já te respondi isso várias vezes.

Gemi como forma de protesto e revirei os olhos.

—Pronto. –A criada falou, enquanto finalmente se afastava de mim.

—Mamãe...

—Joanna, já chega. –A mulher se virou e foi até a porta.

—Aonde vai?

—Falar com seu pai. O baile vai começar daqui a o pouco tempo. Apressem-se.

A pesada porta de madeira foi fechada, enquanto Amelie e eu terminávamos de nos arrumar. Alfina entrou pouco tempo depois, com dois vestidos na mão.

—Aqui estão, senhoritas. –Ela sorria. –Os dois são lindos!

Calcei os sapatos, com um salto um pouco mais alto do que o de costume e me preparei para me vestir. Amelie ainda calçava os seus.

—Estão ansiosas, senhoritas? –A criada, que estava ajudando minha irmã, perguntou.

—Aqui tem bom vinho? –Também perguntei.

Todas as duas criadas do castelo se entreolharam. Uma assentiu, segundos depois.

—Ah, então estou ansiosa sim. –Respondi.

—Os príncipes são encantadores. –A de cabelo castanho falou.

—Ouvi dizer que são velhos. –Amelie comentou. –Príncipes de quarenta anos já deviam estar casados. Bem, pelo menos os da minha terra estão.

—Não se preocupem com a idade, eles são lindos e adoráveis.

Tentei sorrir falsamente para a mulher. Era uma coisa que nobres aprendiam com a vida. Precisávamos ter máscaras para esconder o que realmente pensávamos.

No momento, minha irmã e eu tínhamos que esconder o nojo e repulsa.

—Hora de se vestirem. –Alfina falou animada.

As criadas se animavam mais com o baile do que minha irmã e eu. Provavelmente se elas fossem a algum, perceberiam o quanto era chato, a menos que fizessem o que nós fazíamos. Nossos pais já tinham cansado de ouvir boatos de “mau comportamento” que suas filhas tinham.

Nós não éramos exemplos de educação. Não mesmo.

Mal percebi o tempo passando, quando as criadas pronunciaram que estávamos prontas. Meu vestido era exatamente do mesmo modelo que o outro, mas no lugar do tecido branco com detalhes vermelhos, havia uma estampa que se repetia por todo o vestido. Tinha algumas linhas brancas, amarelas e vermelhas, mas a maioria era escura, o que fazia o vestido parecer mais noturno.

O acessório de pescoço também era igual ao do outro vestido. A estampa escura permanecia e havia uma faixa grossa vermelha no meio.

O vestido de Amelie não era nada parecido com o vestido anterior que ela usara. Ele era completamente azul escuro e tinha manga curta. Na barra havia alguns babados e tinha um laço médio enfeitando a parte da barriga. Em algumas partes haviam pequenos detalhes em preto, como nos seios.

Havia também duas fitas, que saiam em direção ao pescoço. Estavam cruzadas, e isso trazia mais charme.

—Estão lindas! –Alfina estava com um sorriso radiante. –As senhoritas estão prontas para serem as mais belas do baile!

Sorrimos para as criadas e saímos do quarto. Os nossos sapatos faziam barulho enquanto caminhávamos pelo chão de pedra do castelo. As paredes eram frias e traziam escuridão pelos corredores.

Amelie olhava para trás em alguns momentos.

—Esse lugar é uma merda. –Ela cochichou. –Confesso que esperava um país mais bonito.

—Eu também. Falaram que Sherwille era lindo com paisagens exuberantes... –Soltei um suspiro. –Até agora, o que eu vi foi um mar gelado e aldeias pequenas.

—E ainda tem aquela maluca que tem olhar de uma alma do mal.

Ri, tentando me conter para não soltar uma gargalhada alta.

—Vou andar com um crucifixo em uma mão e a bíblia em outra. –Falei.

—Eu vou andar ao seu lado. –Amelie sorria também. –Estarei armada com uma faca banhada com água benta. Quero ver ela se aproximar de nós!

—Psiu!

Paramos imediatamente e olhamos para trás.

—Amyr, eu vou te matar se fizer isso de novo. –Revirei os olhos.

—Eu queria falar com vocês antes de estarmos cercados de pessoas. –Ele passou a mão pelos cabelos ruivos. –Como estão se sentindo? Ansiosas?

—Pra ficar bêbada e acabar na cama de alguém? Um pouco. –Olhei em volta. –As criadas falaram que o vinho é bom.

Amyr sorriu.

—E os príncipes? –Ele perguntou. –Como vão fugir deles?

—Fugimos dos nossos pais o tempo todo em bailes. Fugir deles vai ser fácil. –Amelie constatou. –Jo e eu somos experientes.

—Sei que são.

—Agora vamos falar um pouco sobre você. –Minha irmã ergueu uma sobrancelha. –Quando vai ver a boceta?

O nosso amigo corou um pouco.

—Mais tarde. –Amyr ergueu os olhos e viu um casal se aproximando pelos corredores. –Estão encantadoras. –Ele beijou minha mão. –Espero que tenham uma noite formidável, senhoritas. –Em seguida, a mão da minha irmã. –Se me derem licença, irei me retirar. Passem bem.

Amyr apressou o passo e cumprimentou o casal educadamente ao passar por eles. Quando estava longe da vista dos dois, deu uma piscadela para nós e seguiu pelos corredores.

—Senhoritas. –O rapaz do casal sorriu para nós e continuou caminhando pelos corredores com sua donzela.

Envolvi os braços no da minha irmã e fiz uma imitação silenciosa e ridícula do rapaz que passara por nós. Ela sorriu e nós continuamos caminhando até as escadas.

A música estava alta e ficava cada vez mais enquanto descíamos degrau por degrau. Havia uma quantidade enorme de pessoas conversando. Alguns rapazes olhavam enquanto descíamos as escadas delicadamente. Outros continuaram conversando segurando cálices de vinho na mão.

—Estou me sentindo exposta. –Minha irmã cochichou baixo o bastante para que só eu ouvisse.

—Também. Parece que estou nua. –Respirei fundo.

Continuamos descendo as escadas até chegarmos ao salão. Eu olhei para Amelie e ela olhou para mim. Sempre fazíamos isso antes de entrar oficialmente em uma festa.

—Horas das regras. –Me aproximei mais dela. –Não vamos sair do castelo...

—Porque estaremos bêbadas e, provavelmente, acordaremos sem saber onde estamos. –Minha irmã completou.

—Exato. –Confirmei. –Se o papai perguntar a uma de nós onde a outra está...

—Diremos que não sabemos. –Ela olhou ao redor. –Mesmo que não seja verdade.

—E a regra principal...

—Qualquer coisa vale para ter uma noite divertida. –Ela sorriu como sempre fazia nessa parte das regras. Amelie me abraçou. –Tenha uma boa noite, Jo.

—Sabe que eu desejo o mesmo pra você. –Retribuí o abraço. –Te vejo amanhã.

—Te vejo amanhã. –Ela repetiu.

Amelie e eu nos separamos. Fomos a direções contrárias, como sempre fazíamos. Depois de uma noite animada, sempre compartilhávamos as experiências uma com a outra.

Caminhei entre os outros convidados. Todos tinham conversas entediantes sobre negócios ou vendas. Eu não sabia se eles sabiam da fama das Montgomery. Boatos como aqueles sempre eram espalhados.

—Senhorita Joanna Montgomery. –Um rapaz falou alto o bastante para que eu me assustasse. –Soube que viria com sua família. É um prazer recebê-los. Sou o príncipe Francisco Orlando.

Olhei dos pés a cabeça. O homem realmente parecia ser muito mais velho que eu. Tinha cabelo ruivo penteado para trás. Também tinha uma barba baixa e um bigode ruivo. Estava vestido elegantemente. Os olhos eram pequenos e esverdeados e a sobrancelha grossa.

—É um prazer conhecê-lo, Alteza. –Fiz uma reverencia. –Seu castelo é encantador. Minha família e eu agradecemos pelo convite.

—Os boatos estavam certos. –Ele falou com um sorriso no rosto, o que fez ter um frio no estômago. O príncipe segurou minha mão e depositou um beijo. –É linda e encantadora.

—Agradeço o elogio, Alteza. –Dei um sorriso. –Preciso encontrar minha irmã. –Menti. –Com licença.

—Espero que nossos corpos se esbarrem mais vezes. –Um brilho estranho surgiu em seus olhos. –Os corredores do castelo já fizeram muitas coisas acontecerem. –Ele lambeu os lábios inferiores lentamente. –Em você, eu gostaria de ver mais do que um simples rosto bonito. –O príncipe olhou meu corpo. –Eu quero muito mais.

Engoli seco e respirei fundo.

—Com licença. –Repeti secamente.

Afastei-me do príncipe. As ações dele fizeram que um sentimento se repulsa tomassem conta do meu corpo. Parei no meio do salão por um momento. Respirei fundo.

—Preciso de vinho. –Cochichei para mim mesma.

Avancei entre os convidados até chegar numa mesa cheia de cálices e garrafas de vinho. Não havia nenhum garçom servindo. Provavelmente, o convidado poderia beber o quanto quisesse.

Peguei uma garrafa cheia e um cálice vazio. Continuei caminhando até uma varanda. Estava vazia. Fechei as cortinas para me isolar do resto das pessoas.

Enchi o cálice e dei três longos goles.

—Jo? –Uma pessoa abriu um pouco as cortinas. Era o Amyr. –Posso?

—Claro, entre. –Puxei o meu amigo para dentro da varanda. –Você não devia estar no seu encontro?

—Ela foi cumprimentar o príncipe e eu disse que ia dar um pulo na varanda. Vi você passar. –Ele olhou a vista. –O jardim do palácio é realmente lindo de todos os ângulos.

—Eu nem tinha percebido. –Falei. –Amyr, o príncipe é um idiota. Eu odeio aquele homem. –Dei mais um gole. –Ele me deixou constrangida.

—Deixou você constrangida? –Ele arqueou as sobrancelhas. –Uau, deve ter sido bem forte mesmo.

—Eu estou rezando para que Amelie não esbarre com um deles. –Olhei a lua cheia que brilhava. –Eu sei que ela sabe se virar muito bem, mas não quero que ela passe por isso.

—Se ele tentar algo... –Amyr começou a falar quando a cortina foi aberta. A mesma mulher que tinha um olhar demoníaco estava lá. Ela estava com dois cálices na mão. –Eu estava conversando com minha amiga enquanto você cumprimentava o príncipe. Vamos. –Ele pegou um cálice e estendeu o braço para a mulher. –Jo, se ele tentar algo, grite. Tenha uma noite agradável.

—Você também. –Tentei sorrir.

Franzi o cenho e continuei bebendo. Ela era uma mulher estranha. Provavelmente, uma das pessoas mais estranhas que eu já tinha visto.

Percebi a cortina abrindo novamente e olhei para ver quem era. Um homem belo estava parado, também olhando para mim.

—Desculpe, não sabia que tinha mais alguém aqui. –Ele tinha olhos castanhos escuros.

—Pode ficar aqui, se quiser. –Tentei sorrir. Pela primeira vez, de verdade. –Eu não me incomodo em dividir varandas.

Um grande sorriso iluminou no rosto dele.

—Vejo que gosta de vinho. –Ele olhou para a garrafa na minha mão. –Acho que já temos algo em comum. –O rapaz fechou a cortina e ficou ao meu lado. –Sou Carlos Dominic. E você, criatura adorável, quem é?

—Joanna Montgomery. –Respondi.

—Por que está aqui sozinha?

—Eu queria olhar a vista. –Menti. –Os jardins do castelo são bonitos.

—Gosta mais de jardins ou vinhedos? –Ele olhou para mim.

—Vinhedos. –Respondi, sorrindo.

—Eu vou buscar mais uma garrafa. –Ele foi até a cortina. –Não quero que falte vinho nas nossas conversas.

Carlos Dominic passou pelas cortinas e saiu da varanda. Eu ainda tinha um sorriso estampado no meu rosto. Continuei observando a vista, quando vi um rosto conhecido numa janela do castelo.

Amyr estava com os olhos fechados. Uma lágrima parecia descer pelo seu olho enquanto ele segurava a face esquerda.

—Amyr! –Gritei.

Meu amigo abriu os olhos lentamente. Quando me viu, ficaram arregalados. Ele desapareceu atrás das cortinas escuras atrás das janelas de vidro.

Continuei observando a janela atentamente, esperando por algum sinal do meu amigo. Nada.

De repente, senti duas mãos envolvendo minha cintura. Quando me virei, lá estava o príncipe Francisco Orlando, que puxava meu corpo para perto do dele.

—Olha quem está aqui. –Ele sorria. –Eu disse que nossos caminhos iam se cruzar. Finalmente, a sós. –Seus lábios encontraram os meus.

—Se afaste de mim! Você não tem o direito de fazer isso! –Afastei meu rosto e tentei empurrá-lo. –Eu vou gritar!

—Vai sim. –Ele puxou o meu acessório preso no pescoço. –Vai gritar de prazer no meu leito.

—Isso é errado! –Empurrei o peito dele. –Você tem quase quarenta anos!

—Idade não significa nada pra mim. –Ele agarrou meu rosto e enfiou a língua na minha boca.

O príncipe me apertou na parede beijou o meu pescoço, meus lábios, minhas clavículas. Chegou bem próximo dos meus seios. Meu corpo estava imóvel, mas eu continuava tentando afastá-lo.

Mais uma vez, ele enfiou a língua na minha boca e apertou o seu corpo com mais força sobre o meu. Ele apertou o seu corpo sobre o meu e continuou beijando.

As cortinas abriram e Carlos Dominic entrou na varanda com uma garrafa.

—Estou atrapalhando alguma coisa? –O rapaz franziu o cenho.

O príncipe se afastou de mim e passou a mão no cabelo para ajeitá-lo. Eu corri para perto de Carlos.

—Não o deixe chegar perto de mim. –Falei enquanto me recuperava do que havia acontecido. –Ele me forçou.

—Passe bem, Joanna. –O príncipe sorriu para mim e se afastou.

—Eu te odeio! –Tentei segurar o choro.

Francisco Orlando saiu da varanda. Carlos olhou para mim.

—Você está bem? –Ele pegou o meu acessório que estava jogado no chão.

—Sim, estou. –Respirei fundo. –Podemos sair daqui?

—Claro. –O rapaz tentou sorrir. –Para onde quer ir?

—Pode me mostrar seus aposentos, senhor Carlos Dominic?

Ele pareceu surpreso, mas assentiu com a cabeça. Pegamos os cálices e as garrafas de vinho e seguimos para o segundo andar do castelo. Os corredores estavam completamente vazios, exceto por algumas criadas que passavam.

O quarto de Carlos ficava distante do meu, mas era confortável e grande. Graças à luminosidade da janela, dava para ver uma grande cama coberta com pele de animal com travesseiros de fronha branca.

Uma vela estava acesa e Carlos usou aquela para acender algumas outras.

—Bem confortável. –Fechei a pesada porta de madeira. –É legal deitar nessa pele?

—Quê? –Ele parecia um pouco nervoso enquanto enchia os cálices. –Ah, sim. São bem macias.

—Está desconfortável? –Me aproximei do rapaz.

—Não. É que... –Ele estendeu um cálice cheio para mim. –Eu não esperava.

Bebi um gole cheio de vinho.

—Acho que estou começando a ficar bêbada. –Virei todo o conteúdo do cálice na boca. –O vinho é muito bom. Quase um vício.

—Foi um dos melhores que já provei. –O rapaz sentou na cama e olhou para mim. –Eu já ouvi muito sobre você e sua irmã.

—Jura? –Sentei ao lado do rapaz. –E o que foi que você ouviu? –Servi um pouco mais de vinho em cada um dos cálices.

—Não gostam de seguir ordens e se divertem como se a juventude fosse acabar em um dia. –Ele levou seu cálice à boca. –E claro, gostam de apreciar um bom vinho.

—E o que você pensou de nós depois de ouvir isso.

—Acho que vocês são garotas especiais. –Ele sorriu. –E não digo isso só para parecer legal.

Gargalhei. O álcool já estava fazendo efeito.

—Eu posso te pedir um favor? –Perguntei. –Você pode me ajudar a tirar essa roupa?

Carlos Dominic franziu o cenho e sorria ao mesmo tempo. O rapaz se levantou e removeu o vestido do meu corpo. Meu corpo ficava mais leve quanto mais ele tirava as peças.

Quando eu já estava totalmente despida, me joguei sobre a cama coberta com pele de animal e passei a despir o rapaz que estava do meu lado. Não demorou muito, já que ele não usava tantas coisas quanto eu

—Se eu me esquecer de dizer, eu tive uma noite maravilhosa. –Senti ele beijando meu pescoço. –Carlão.

E eu me entreguei.

Amelie

Após seguir a direção contrária de Jo, conversar com algumas pessoas e beber, me encontrei totalmente perdida em um corredor escuro e estranho. Era todo de pedras, e iluminado por alguns poucos candelabros velhos. Desprovida de bom-senso, resolvi andar mais afrente por pura curiosidade. Ia ficando cada vez mais gelado, conforme eu andava para frente, em direção ao seu suposto fim. Não conseguia enxergar o que se encontrava lá.

Imaginei algo como uma sala secreta de sacrifícios humanos, mas o que vi em seu fim era quase pior. Um homem, barbado e com cabelos ralos perto da testa bebia vinho em seu cálice, e parecia se deliciar com ele, com os olhos fechados. O volume em sua calça demonstrava que ele pensava em alguém com... Carinho.

Sem querer ser vista, tentei andar lentamente para trás sem que ele me visse, mas abriu os olhos no exato momento em que meus sapatos de salto tocaram o chão. Ele olhou diretamente para mim, não surpreso. Eu, por outro lado, sentia meu coração batendo forte, com uma sensação horrível.

— Me desculpe. — Tentei dizer, sem congelar ou correr. — Juro que não era minha intenção lhe interromper, senhor. Irei me retirar.

Ele sorriu, se divertindo. Se desencostou da parede e andou devagar até mim, enquanto recuava. Percebi que tinha rugas.

— Não se desculpe, Srta. Montgomery. Você é meu único motivo de estar aqui... Assim. — Ele ergueu a sobrancelha grisalha, assim como a barba e o cabelo.

— Quem é você? — Perguntei, ainda me afastando.

— Perdoe meus maus-modos. Sou o Príncipe Allois II. — Ele se curvou, pegou minha mão enluvada e beijou-a devagar, olhando em meus olhos. — Você é Amelie Montgomery, a mais nova. Agora que pulamos as apresentações, podemos ir ao que interessa.

Eu estava preparada para correr. Um príncipe enrugado e estranho estava basicamente dizendo que eu o excitava.

— E me permite perguntar o que lhe interessa? — Perguntei.

— Vai lhe interessar também, senhorita. — Ele me olhou de cima a baixo, me deixando constrangida. Ergueu a mão e ia e tocou meu decote do vestido. Estava a ponto de chorar.

— Eu tenho que... Ir ao toalete. — Disse, com sinceridade. Após isso, estava quase urinando de medo.

— Quer que eu te acompanhe? — Ele perguntou, sorrindo. Seu sorriso me enojava. Era cínico.

— Não, eu sou capaz. Prazer em conhece-lo, Alteza. — Me virei rapidamente, e comecei a andar rápido, e logo, a correr, voltando ao salão do baile. Pretendia esquecer aquilo.

Esbarrei em alguém, enquanto corria, desesperada. Soltei, involuntariamente um grito de pavor, e dois braços fortes me seguraram, enquanto eu fechava os olhos com força.

— Está bem? — Uma voz masculina grave perguntou. Ergui o olhar, e vi um homem muito alto, com cabelos ondulados castanhos na altura do ombro, e olhos cinzentos. Ele tinha uma face árdua e delicada ao mesmo tempo. Estava boquiaberta com seu olhar carinhoso e preocupado.

— E-estou. — Gaguejei, mostrando meu nervosismo. — Desculpe-me, estou um pouco assustada. Espero não ter te... Machucado. — Disse, apesar de ter a sensação de que aquele homem era um deus imortal.

— Eu quem deveria dizê-lo. — Ele sorriu.

— Estou bem. — Assegurei.

— Tenho certeza que não. Está assustada. — Ele disse.

Não soube como agir. Se abrisse a boca, ia gaguejar. Preferi ficar calada.

— Sou Marshal Speham. — Ele fez uma reverência — E você, deve ser Amelie Montgomery. Ou estou errado?

— Está certo. — Eu corei. — Mas como?

— Bem, todos aqui ouviram muitas coisas sobre os Montgomery, principalmente sobre as filhas. Muitas, muitas coisas. E devo dizer que estou curioso sobre algumas. — Ele pegou seu cálice cheio de vinho, de uma mesa atrás de si e deu um gole.

E de repente, todo medo e nojo que sentia, havia se transformado em um fogo dentro de mim.

Sem hesitar mais, peguei o cálice de sua mão e dei um gole grande o bastante para me dar coragem.

— Te contarei tudinho, se me permitir. — Eu disse, devolvendo o cálice.

— Pode apostar que eu permito. — Ele chegou em meu ouvido para dizer a última frase.

Sorri, involuntariamente.

— Mas, mais tarde. Te encontrarei, senhor.

Saí sem deixá-lo responder, e fui procurar pela minha irmã ou Amyr. Sabia que não devia estar atrapalhando, mas precisava me distrair com algo.

Fui para uma das varandas do castelo, que davam uma bela vista escura dos jardins. Me debrucei na cerca de pedra fria. Me assustei ao ver um corpo masculino caído de joelhos, com a cabeça ruiva abaixada, e ambas as mãos segurando a face. Algo grudento e vermelho estava no chão.

— Amyr? — Perguntei para mim mesma, e apertei os olhos para ver melhor.

O homem ergueu a cabeça. Era Amyr.

— Você está bem? — Gritei. Ele desviou o olhar, virando o rosto para trás. — Amyr! — Insisti.

Ele se levantou, e um tufo grande e ruivo caiu de sua cabeça. Ele correu em direção ao jardim.

Eu, definitivamente, ia atrás dele.

Entrei por outro corredor, onde haviam mais quartos, e seguia em direção ao hall de entrada, quando dois braços me prenderam contra a parede.

Era Alois.

— É literalmente, um prazer te reencontrar, Amelie. — Alois disse, olhando para sua intimidade.

Ele estava perto demais.

— O que quer? — Eu perguntei, rispidamente, quase cuspindo em sua face.

— Eu lhe mostrarei quando chegarmos em meus aposentos.

— Se conseguir me colocar lá. — Desafiei. Péssimo erro.

— Então veremos. — Ele sorriu, lambeu minha bochecha, e abaixou sua calça. Me impedir de olhar, tentando procurar ajuda.

Ele estava erguendo meu vestido, enquanto me debatia e gritava com todas as forças, inutilmente. Estávamos longe, os gritos sendo tampados pelos instrumentos de corda e sopro, e conversas animadas prendiam todos ali. Tentei me soltar por mim mesma, chutando tudo que encontrava, e gritando mais e mais alto. Tudo era em vão. A saia de meu vestido já estava completamente erguida, a crinolina destruída, e seu membro estava prestes a entrar em mim. Estava chorando, e gritando.

— Amelie? — Ouvi uma voz quase familiar me chamar, e me virei repentinamente.

Era Marshal.

Alois, assustado com a aparição de Marshal, me soltou com raiva, colocando de volta a calça, e chegando bem perto de mim. Enfiou sua língua em meu ouvido, e desceu até o pescoço. Eu poderia vomitar todo vinho e cordeiro que havia comido. Estava quase desmaiando.

— Não pense que acabou. Pense como uma pausa. — Alois disse. — Me aguarde. — E saiu.

Abaixei a saia imediatamente, minhas costas deslizaram pela parede, e eu fiquei no chão, sentada, até Marshal vir até mim.

— Você está bem? — Ele perguntou, e me abraçou.

Eu não consegui responder. Enterrei meu rosto em seu ombro, e soltei alguns grunhidos em meio ao choro.

— Por isso estava assustada? — Ele voltou na linha de questionamento.

Assenti.

— Poderia ter me dito.

— Eu nem te conheço. — Disse, levantando meu rosto para olha-lo. Ele pareceu ter levado um tapa. — Me desculpe, eu...

— Não se desculpe mais. — Ele pediu, limpando uma lágrima da minha bochecha. — Poderia ter me dito quando perguntei se estava bem mais cedo. Eu teria ficado com você.

— Deve ter coisa melhor para fazer do que aturar uma garota de má reputação.

— Não. — Ele disse, se levantando e oferecendo sua mão. — Você precisa de um banho. Vamos para meu quarto.

Aceitei sua mão, e até o caminho para seu quarto, ele não a soltou.

Era um quarto, basicamente igual ao meu, mas um biombo de papel e madeira separava a cama com uma banheira enorme, cercada de velas acesas. Era interessante.

Marshal soltou minha mão.

— Estarei sentado. O biombo me impedirá de te ver.

Assenti.

— Pode, ao menos, me ajudar a tirar o espartilho? É só desamarrar. — Pedi.

Me virei de costas para ele, e delicadamente, ele desabotoou o vestido, e então, desamarrou o laço forte.

Ele seguiu em direção a sua cama, e eu em direção a banheira. Coloquei jarros com água quente ali dentro, terminei de me despir, e entrei.

— Obrigada, Marshal. — Disse, enquanto prendia meus cabelos em um coque.

— Por o quê? — Consegui ver sua sombra se deitando na cama.

— Por me salvar, desamarrar meu espartilho e me acolher em seu quarto.

— Creio que não foi mais que o dever de um cavalheiro.

— Então você é o único cavalheiro que conheci.

— Mesmo? E com quantos homens você se envolveu?

— Se meus pais perguntarem, nenhum. Mas de verdade, foram uns quatro.

Ele não pareceu surpreso.

— Você parece inocente.

— Você disse que diziam muita coisa a respeito dos Montgomery. Pensei que os homens faziam parte dos boatos.

— Quase ninguém se atreve a dizer realmente mal de você, ou sua irmã. Na grande maioria, apenas mulheres dizem, e mais uma vez, quase ninguém acredita. O que ouvi a seu respeito não me desagrada, muito pelo contrário.

— Bom, então o que dizem?

— Que vocês são boas em agarrar homens. Como as viúvas negras. Utilizam, e depois jogam fora.

— E onde isso é bom? — Perguntei, surpresa.

— Talvez eu possa mudar isso. — Eu senti ele sorrindo. Sua sombra se sentou na cama.

— Talvez você possa começar a tentar agora. — Desafiei. — Aposto que precisa de um banho.

Ele se levantou, se despiu por trás do biombo, e entrou na banheira também, de frente para mim.

Ele sorria, e me fazia sorrir também.

— Você não gostaria de uma esposa certinha e submissa? — Provoquei.

— Eu queria, antes de ouvir sobre você.

Eu sorri mais uma vez, e me aproximei dele.

— Talvez nós combinemos. — Falei, sinceramente, e o beijei antes que hesitasse. O beijo terminou apenas quando ficamos sem ar. Me afastei um pouco.

— Eu acho que sim. — Ele me puxou de volta.

E aquele seria o começo de uma longa, longa noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.